TIL – JOSÉ DE ALENCAR
I
CAPANGA
Eram
dois, ele e ela, ambos na flor da beleza e da mocidade.
O
viço da saúde rebentava-lhes no encarnado das faces, mais aveludadas que a
açucena escarlate recém aberta ali com os orvalhos da noite. No fresco sorriso
dos lábios, como nos olhos límpidos e brilhantes, brotava-lhes a seiva d’alma.
Ela,
pequena, esbelta, ligeira, buliçosa, saltitava sobre a relva, gárrula e
cintilante do prazer de pular e correr; saciando-se na delícia inefável de se
difundir pela criação e sentir-se flor no regaço daquela natureza luxuriante.
Ele,
alto, ágil, de talhe robusto e bem conformado, calcando o chão sob o grosseiro
soco da bota com a bizarria de um príncipe que pisa as ricas alfombras, seguia
de perto a gentil companheira, que folgava pelo campo, a volutear e fazendo-lhe
mil negaças, como a borboleta que zomba dos esforços inúteis da criança para a
colher.
Caminhavam
por uma rechã, bordada de ilhas de mato, que emergiam aqui e ali do verde
gramado. Pela ramagem frondente das árvores e renovos que abrolhavam,
percebia-se a proximidade de uma grande manancial, e entre as crepitações da
brisa nas folhas, como um tom opaco desse arpejo da solidão, ouvia-se o múrmure
soturno do Piracicaba, que leva ao Tietê o tributo caudal de suas águas.
Sete
horas da manhã haviam de ser. A luz de um sol esplêndido fluía no éter, que a
trovoada da véspera tinha acendrado. O céu arreava-se do azul diáfano onde a
fantasia se embebe com a voluptuosidade casta da criança a aconchegar-se
dentro, tão dentro do grêmio materno.
Bem
longe do céu, porém, e bem presos à terra andavam os olhos dos nossos dois
amiguinhos, que nem haviam reparado sequer na limpidez da atmosfera. Ainda
estavam na sazão feliz, em que respira o céu, como o ar da vida, e o aroma do
campo, quase sem sentir.
As
flores, que a noite desabrochara; aos frutos silvestres que enfeitavam a copa
das árvores; aos passarinhos que trinavam embalando-se nas franças dos
coqueiros; ao que era da terra e bem da terra, iam os impulsos desses jovens
corações, quando não se volviam um para o outro, a reverem-se entre si.
O
céu, essa imensa tela azul, que foi cúpula de um berço, o da luz, e será mais
tarde véu de um leito, o da vida; a alma só o procura, só o contempla, quando a
dor a prostra. Mas para aquela que sorri e folga, o firmamento é uma terra por
descobrir e debuxa-se vagamente na imaginação, como a montanha azul
desse vale de lágrimas.
Alguma
vez deixava o rapaz de seguir com o passo a menina, para acompanhá-la com a
vista. De braços cruzados sobre a coronha da clavina de caça, fitava os grandes
olhos pardos com tal possança d’alma, que mais parecia absorver e entranhar em
si o gracioso vulto, do que enlevar-se em sua contemplação.
Acaso,
em uma dessas ocasiões, voltou-se de chofre a menina para ver onde ficara o
companheiro e deu com ele a fitá-la daquele modo estranho.
-
Que me está olhando aí? Nunca em viu? exclamou com surpresa, mas travada sempre
da petulância que animava-lhe todos os movimentos.
-
Não era para você! respondeu rápido o moço, baixando a cabeça de modo a ocultar
o rubor que lhe afogueava o rosto.
Para
confirmar o disfarce, armou a clavina e fez pontaria a um cardeal que se
embalava no topo de uma palmeira.
-
Miguel!...
Esta
súbita exclamação rompeu dos lábios da menina, trêmula de susto, a cobrir com
as mãos pequeninas as conchinhas das orelhas para não ouvir o ribombo do tiro.
Riu-se
o rapaz e abaixou a arma:
-
Dengosa!
-
Deixe! Replicou ela com um amuo.
E
deitou de novo a correr, já esquecida do susto, espanejando-se com a mesma
alegria, que não se estancava nunca, e alguma vez represa, borbulhava depois
com força maior.
De
repente parou; imóvel, quase estática, uma lividez mortal jaspeou-lhe as
feições, enquanto os olhos se pasmavam em um ponto além.
À
orla do mato assomara o vulto de um homem de grande estatura e vigorosa
compleição, vestido com uma camisola de baeta preta, que lhe caía sobre as
calças de algodão riscado. Apertava-lhe a cintura rija e larga faixa do couro
mosqueado do cascavel, onde via-se atravessada a longa faca de ponta com bainha
de sola e cabo de osso grosseiramente lavrado.
Em
uma das bandoleiras trazia o polvarinho e munição; na outra suspendia um
bacamarte, cuja boca negra e sinistra aparecia-lhe na altura do joelho
esquerdo, como a face de um dragão que lhe servisse de rafeiro.
As
mangas da camisa, tinha-as enroladas até o cotovelo, bem como a parte inferior
das calças que arregaçava cerca de um palmo. Usava de alpargatas de couro cru e
chapéu mineiro afunilado, cuja aba larga e abatida ocultava-lhe grande parte da
fisionomia.
Vinha
ele em direção oblíqua ao caminho dos dois jovens, e mal avistou a menina, logo
desviou-se do rumo que levava no intuito de evitá-la; mas achando-se por isso
fronteiro com Miguel, escapou-lhe o gesto de contrariedade e tomou o partido de
parar à espera que os outros se fossem, deixando-lhe passagem livre.
De
seu lado estremecera o rapaz ao dar com os olhos no homem da camisola, e tal
foi a comoção produzida pelo encontro, que derramou-lhe no semblante a
expressão de um asco misto de horror, arrancando-lhe involuntariamente dos
lábios esta exclamação:
-
Jão Fera!...
Não
se abalou o mal encarado sujeito; e Miguel, corrido do primeiro assomo de
terror, que lhe embotava os brios de valente e galhardo, reagia com uma
travessura de rapaz.
Levou
ao rosto a espingarda fingindo armá-la, e apontou para o outro.
-
Atire! disse aquele com a voz arrastada e indolente.
E
promovendo um passo, apresentou com desgarro o peito à mira da espingarda de
Miguel, que já arrependido do gracejo, abaixava a arma.
-
Pois olhe! tornou o homem da camisola com a mesma voz de arrasto: fazia um bem
a mim... e a outros!
-
Por que, Jão?
Fora
da menina esta pergunta. Colocada além de Miguel não vira a menção do tiro,
feita de brinquedo por este, e só voltou-se e compreendeu o que passara, ao
ouvir as últimas palavras.
-
Esta vida me cansa! respondeu Jão com arquejo.
-
Estás com saudade da forca? retorquiu Miguel com chasco de desprezo.
Ouviu-se
um fungar, como o das narinas da onça quando bufa, e arrepia ao mais bravo
caçador, que sente lhe estar ela tomando faro ao sangue tépido. De um pulo
achou-se o facínora a rosto com o rapaz, que armara intrepidamente a
espingarda, preparado a morrer com denodo.
II
NA
TRONQUEIRA
Atalhou
a menina o ímpeto a Jão, arrojando-se em frente, e cobrindo com o talhe delgado
o corpo de Miguel. Seu olhar cintilante trespassou o olhar fero do capanga como
a lâmina de um estilete cravando uma couraça.
-
Vai embora! disse ela com império; e a voz parecia ranger-lhe nos lábios
pálidos.
Foi
a pupila inflamada e sanguinária do assassino a que abateu-se.
Recolhendo
o passo, quedou-se um instante perplexo, absorto por uma luta que se renhia
dentro, procela a subverter o pélago insondável dessa consciência.
Rompeu-lhe
do seio uma sublevação contra o poder misterioso e incompreensível, que lhe
agrilhoava com um fio de cabelo as pujanças terríveis do coração, até aí
indomável e sedento como a sanha do tigre.
Levantou
os olhos carregados de cólera.
-
Já! impôs-lhe a menina, que pressentira a reação, e como da primeira vez, a
retalhava com o gume do seu olhar.
Ainda
hesitou o facínora; mas afinal, vencido por ignoto poder, curvou a cabeça, e de
um arranco visível afastou-se vagarosamente com um passo tão pesado que lhe
custava a arrancar do chão a palma do pé. Duas ou três vezes, antes de
encobrir-se na alta capoeira, voltou a cabeça; mas encontrava os olhos
cintilantes da menina; e, apesar do grande esforço, vergava ante a inflexível
repulsa.
-
Foi-se! disse Miguel.
O
rapaz assistira imóvel à rápida cena, partido entre o pensamento da defesa e a
admiração pela coragem da linda companheira, que afrontava-se com o terrível
facínora.
Vendo
este sumir-se no mato, escapara-lhe dos lábios aquela exclamação de surpresa, e
acompanhou-a logo de um gesto que não era de vã ameaça, mas de firme resolução.
-
Algum dia nos havemos de encontrar!
-
Que lhe fez ele? perguntou a menina a rir.
Em
seu lindo semblante já não restavam traços da comoção que nela produzira a cena
anterior. Como a onda cristalina, que turva um instante a asa negra da borrasca
e logo após reflete a bonança do céu, era seu olhar sereno e meigo.
Ninguém
diria que nesse corpo mimoso dormia a alma que se revelara poucos momentos
antes e parecia espedaçar o frágil e delicado invólucro; ninfa celeste a romper
a argila de sua formosa crisálida.
-
Que me fez, Inhá? repetiu Miguel surpreso da pergunta.
-
Foi você quem buliu com ele, que ia seu caminho descansado.
-
Para a tocaia!
-
De quem? interrogou a menina assustada.
-
Sei lá! Quando o bugre sai da furna, é mau sinal: vem ao faro do sangue como a
onça. Não foi debalde que lhe deram o nome que tem. E faz gabo disso!
-
Então você cuida que ele anda atrás de alguém?
-
Sou capaz de apostar. É uma coisa que toda a gente sabe. Onde se encontra Jão
Fera, ou houve morte ou não tarda.
Estremeceu
Inhá com um ligeiro arrepio, e volvendo em torno a vista inquieta, aproximou-se
do companheiro para falar-lhe em voz submissa.
-
Mas eu tenho-o encontrado tantas vezes, aqui perto, quando vou à casa de Zana,
e não apareceu nenhuma desgraça.
-
É que anda farejando, ou senão deram-lhe no rasto e estão-lhe na cola.
-
Coitado! Se o prendem!
-
Ora qual. Dançará um bocadinho na corda!
-
Você não tem pena?
-
De um malvado, Inhá!
-
Pois eu tenho!
-
Mas por que é que este demônio que não faz caso de ninguém, e até mata as
crianças, sofre tudo de Inhá, como ainda há pouco? Por que é?
-
Não sei, Miguel! disse a menina com ingenuidade.
-
Estou vendo que você tem algum patuá, como dizem as pretas da fazenda.
-
E tenho mesmo! Olhe! aqui está! exclamou a menina a rir-se, mostrando um
bentinho que tirou do seio, onde o trazia com uma cruz, preso a um cordão de
ouro.
-
Então é encanto; não há dúvida, replicou Miguel sorrindo.
-
E eu digo que não.
-
Ora, todos sabem!
-
Ninguém sabe, nem eu mesma, só Deus; mas eu cuido uma coisa.
-
O que?
-
É porque não tenho medo dele.
-
Qual!...
-
Nenhum; nenhum!
-
Mas você ficou mais branca do que uma cera, que eu bem vi.
-
De raiva só! respondeu a menina com expressão.
Tinham
os dois companheiros chegado ao lugar, onde a vereda que seguiam atravessava um
carreador. Perto dali ficava a tronqueira de bater, a qual dava entrada às
terras de uma fazenda, cercadas pelo fosso largo e profundo, que serve para
resguardar a cultura contra o gado daninho.
Inhá,
que de uma corrida alcançara a tronqueira, subiu de salto pelas travessas, como
faria se fossem os degraus de uma escada, e sentou-se na última bem concha de
si. Levantando então a aldraba de ferro e empurrando com o pé a cancela,
começou a balançar-se com um prazer infantil.
Parado
em meio do caminho ficara Miguel contemplando-a com uma expressão de
contrariedade. Parecia afligir-se de ver sua graciosa companheira fazer-se
criança, e trocar pelas afoitezas de um traquinas as cintilantes vivacidades da
mocinha faceira.
Sentia
ele dentro em si uma ânsia incompreensível, qual tem-na o artista olhando o
toro de mármore de que seu cinzel vai criar uma estátua. Mas essa, que lhe vive
e palpita n’alma, ainda o mármore não a recebeu, e quem sabe se poderá ele
nunca moldá-la como a desenhou a imaginação.
Tal
era Miguel ante aquele esboço da mulher que sonhava e, já alguma vez, entrevira
em realidade, mas como uma luz efêmera, quase instantânea, bruxuleando entre as
cismas de seus passeios solitários pelos campos. Os mesmo ímpetos do artista,
cortados pelo desânimo, tinha-os ele nos momentos em que via, como agora,
transformar-se de repente a fada gentil de seus sonhos em uma capetinha de mil
pecados.
Sua
alma refrangia-se, ferida pela decepção; e por isso, desviando a vista da
menina, atravessou o carreador e trilhou a vereda que embrenhava-se pela mata
fechada, a pequena distância daí.
-
Psiu!... Onde vai? perguntou Inhá surpresa.
Miguel
parou.
-
Já se esqueceu do caminho? continuou ela a rir. É por aqui!
-
O meu não! respondeu o rapaz.
E
partiu.
Nesse
momento soou a distância um agudo assobio, e Inhá viu resvalar entre a
folhagem, à orla da mata, um vulto que lhe pareceu Jão Fera.
III
ELA
A
embalançar-se na tronqueira, Inhá seguia com os olhos o rapaz que afastava-se.
Miguel
tinha razão. Tão ardilosa era a expressão do rostinho da menina e tão brejeiro
seu olhar, que a transfiguravam completamente. Quem assim a visse, julgaria ter
diante de si, a chasqueá-lo, o trejeito garoto de um caipirinha.
Para
essa ilusão muito concorriam o tipo e o traje da moça.
Era
ela de pequena estatura e tão delgada e flexível no talhe, que dobrava-se como
o junco da várzea. As formas da graciosa pubescência, que um corpinho justo
debuxaria em doce e palpitante relevo, as dissimulava o frouxo corte de uma
jaqueta de flanela escarlate com mangas compridas, e desabotoada sobre um
camisote liso, cujos largos colarinhos se rebatiam sobre os ombros, à feição
dos que usavam então os meninos de escola.
Servia-lhe
de toucado um chapéu de palha de coco trançada, sob o qual escondia os lindos
cabelos negros cacheados, que às vezes, com os saltos, escapavam da prisão e
vinham folgar sobre as espáduas. Calçava grossos coturnos de couro de veado,
mas tão altos que mais pareciam botas; e comparando com as de Miguel, se diriam
irmãs na forma, a não ser o tamanho, onde aliás afogava-se o pezinho buliçoso.
Ainda
assim não estava Inhá contente, pois metiam-lhe inveja o pala e as calças de
brim do companheiro; mas sobretudo a clavina de caça que ele trazia ao ombro.
Para
tê-la, e carregá-la assim, daria ela naquele momento sem hesitar as soberbas
tranças de seus longos cabelos, que lhe estavam metendo figas e zombando das
duas pretensões a rapaz.
Se
a estreita saia de chita dava a esse vestuário um traço feminino, acusando um
contorno harmonioso, por isso mesmo ela em seus momentos de luta com a natureza
parecia caprichar em destruir aquele vestígio de seu sexo. Os pulos que
soltava, a firmeza de seu passo gentil que ela de propósito fazia rijo,
imprimiam com efeito certa aspereza e nervura a seus movimentos sempre
encantadores, apesar de tudo.
Os
grandes olhos, negros, claros e serenos, como um lago cristalino imerso na
sombra, não podiam negar que fossem de mulher: tinham a diáfana profundidade do
céu, cheia de enlevos e mistérios.
A
boca mimosa e breve, conhecia-se que fora vazada no molde do beijo e do
sorriso. Mas quando o brinco iluminava essa fisionomia, e o capricho
quebrava-lhe a harmonia das linhas do suave perfil, era cobrir-se com a máscara
do rapazinho estouvado, que ela teria sido sem dúvida, se a natureza não lhe
trocasse o destino.
Nesse
prisma da lindeza de Inhá reflete-se a sua índole. Aquela alma tem facetas como
o diamante; iria-se e acende uma cor ou outra, conforme o raio de luz que a
fere.
Contradição
viva, seu gênio é o ser e o não ser. Busquem nela a graça da moça e encontrarão
o estouvamento do menino; porém mal se apercebam da ilusão, que já a imagem da
mulher despontará em toda sua esplêndida fascinação. A antítese banal do
anjo-demônio torna-se realidade nela, em quem se cambiam no sorriso ou no olhar
a serenidade celeste com os fulvos lampejos da paixão, à semelhança do
firmamento onde ao radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da
procela.
Cheia
de carícias e gentilezas no princípio do passeio, fechara de repente a flor de
sua graça e envolvera-se naqueles ares zombeteiros, que pungiam como espinhos o
coração de Miguel. Poucos momentos antes, estremecera de susto vendo armar-se
uma espingarda para atirar a um passarinho; e logo após arrostara sem hesitar a
sanha de um assassino feroz, cujo senho incutia pavor aos mais intrépidos.
E
assim é tudo nela; de contraste em contraste, mudando a cada instante, sua
existência tem a constância da volubilidade. Na vaga flutuação dessa alma, como
no seio da onda, se desenha o mundo que a cerca; a sombra apaga a luz; uma
forma devanece a outra; ela é a imagem de tudo, menos de si própria.
Teria
o rapaz dado vinte passos quando a menina o chamou, mas com ar de remoque:
-
Escute!... Nhô Miguel, ora escute!
Como
não a atendesse o companheiro, que se fingia ou estava deveras zangado, Inhá
saltou da tronqueira, e alcançando o rebelde de uma corrida, tomou-lhe o
caminho.
-
Onde vai?
-
Caçar.
-
Depois; agora vamos à fazenda.
-
Eu não! disse Miguel prontamente.
-
Que pirraça é esta?
-
Não tenho que fazer lá.
-
Mas tenho eu.
-
Todos os dias? perguntou Miguel fitando nela um olhar perscrutador.
-
Se eu gosto!
Essa
ingênua confissão, fê-la a menina com um gesto encantador, rasgando os grandes
olhos puros e brandos, como se abrisse os seios d’alma ao pensamento suspeitoso
do companheiro. Foi o olhar deste que abaixou-se encadeado e cego com a
reverberação; e o rubor queimou-lhe as faces, enquanto a menina banhava-se em
um sorriso de canduras.
-
Pois vá só! replicou o rapaz virando.
-
Para Linda agastar-se comigo?
-
Não tenha susto.
-
Você é um ingrato, nhô Miguel: não paga o bem que lhe querem.
-
Deixe-se desses brinquedos, Inhá. É por isso mesmo que eu não vou mais à
fazenda e também para... não ver certas coisas.
-
O que?... Mecê, diga; por favor! acudiu a menina para bulir com o rapaz.
-
Cuida que eu não reparo como Afonso brinca tanto com mecê?
-
Mecê, hein?...
-
Que me importa! Hei de dizer mecê.
-
Está disfarçando! Não quer que se fale dos segredinhos com o Afonso?
-
E faz mal isso? perguntou a menina com sincera surpresa.
Aumentou-se
o vexame de Miguel, que mordia os beiços com o desejo de soltar uma palavra, e
se continha pelo receio do desagrado da menina.
-
Mas não vê que Afonso gosta de você.
-
Estimo bem! disse Inhá dando uma pirueta.
-
Então?...
-
Acabe!
-
Então Inhá também gosta dele?
-
Também!
-
Ah!
-
Tanto como de você, nhô Miguel!
-
Muito obrigado! retorquiu Miguel com um modo seco.
-
Por isso agora ficou aí todo amuado?
-
Até logo; já me vou.
-
Não vai, que eu não quero! Exclamou a menina com despeito, e impedindo-lhe o
passo.
-
Então voltemos para a casa.
Inhá
aproximou-se do companheiro e o envolveu de um olhar carinhoso.
-
Olhe! se você não vier, Linda fica triste, coitadinha, tão bonita, com aqueles
olhos tão ternos, que ela tem, de pomba-rola; e aquele rostinho de redoma, que
é mesmo uma santa quando se ri no céu. Venha, eu lhe peço, meu bom Miguel.
Fascinado
estava o Miguel, mas não pela imagem que lhe descrevia Inhá, senão pelo
original que tinha diante de si, e o embebia na meiguice de seu olhar e na
ternura de seu carinho.
-
Mas eu não gosto dela, balbuciou o moço.
Pois
não fale mais comigo, disse a menina arrufada.
-
Escute, Inhá!
-
Vem?
O
rapaz hesitava.
-
Você promete?...
-
Não prometo nada.
-
Se Afonso quiser brincar com você...
-
Eu hei de brincar com ele, muito, muito, muito!
Cada
um destes advérbios, a menina o acentuou batendo com o tacão no chão.
-
Então não vou!
-
Não venha! Quem lhe pede?
Caminhou
ela direito à tronqueira; e entrou na fazenda.
IV
MONJOLO
Cerca
de uma légua abaixo da confluência do Atibaia com o Piracicaba, e à margem
deste último rio, estava situada a fazenda das Palmas.
Ficava
no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa, das
que então contava a província de São Paulo, e foram convertidas a ferro e fogo
em campos de cultura. Daquela que borda as margens do Piracicaba, e vai morrer
nos campos de Itu, ainda restam grandes matas, cortadas de roças e cafezais.
Mas dificilmente se encontram já aqueles gigantes da selva brasileira, cujos
troncos enormes deram as grandes canoas, que serviram à exploração de Mato
Grosso. Daí partiam pelo caminho d’água as expedições que os arrojados
paulistas levavam às regiões desconhecidas do Cuiabá, descortinando o deserto,
e rasgando as entranhas da terra virgem, para arrancar-lhe as fezes, que o
mundo chama ouro e comunga como a verdadeira hóstia.
No
ano de 1846 era de recente fundação a fazenda das Palmas, que Luís Galvão, seu
proprietário, recebera de herança paterna, ainda nas condições de simples
situação, com um velho casebre de caipira, dois cafezais e alguma pouca roça.
Tinha
Luís Galvão o gênio empreendedor e gosto para a lavoura; casando com a filha de
um capitalista de Campinas, que lhe trouxe de dote algumas dezenas de contos de
réis, além do crédito, pode ele, dando alas à sua atividade, fundar uma
importante fazenda, que a muitos respeitos servia de norma e escola ao
agricultor brasileiro.
Ao
passo que ia se adiantando a lavra das terras, erguia-se na chapada fronteira
ao rio uma bela casa de morada em dois lances abarracados, com um pequeno
mirante no centro, sobreposto à larga portada; esta abria para o patamar,
ladrilhado, de uma pequena escada de seis degraus, que descia ao terreiro.
Formava
o edifício uma face da vasta quadra, onde se fora levantado sucessivamente
casas para o administrador e feitores, senzalas para os escravos, o engenho de
cana, a fábrica do café, tulhas de feijão e milho, além de outros acessórios do
grande estabelecimento rural, que veio a tornar-se depois a fazenda das Palmas.
Do
terreiro da casa partia o caminho principal da fazenda, que se estendia pelo
espigão da colina, e bifurcava-se de espaço a espaço para serventia das várias
jeiras de lavoura. O ramo principal, fugindo os alagados e descrevendo uma
grande curva, ia entroncar-se, a meia légua de Santa Bárbara, na estrada geral
da Constituição a Campinas.
No
ponto em que esse carreador transpunha o valado principal da fazenda, aí
fechando também por uma tronqueira, um cavaleiro embuçado, oculto no carrasco,
levou ambas as mão à boca e imitou o canto do curiau, soltando um apito longo e
cheio; o mesmo que ouvira Inhá.
Imediatamente
o próximo canavial ondulou, e surdiu na ourela um negro moço, com o corpo nu
até a cintura e a camisa atada aos quadris à guisa de tanga. Os lanhos das
faces indicavam a casta monjola do africano, em cujo rosto se desenhava a
astúcia do gambá e alguma coisa do focinho deste animal.
-
Quem és tu? perguntou o cavaleiro vendo o negro dirigir-se a ele.
-
Monjolo, meu branco. Faustino mandou dizer a senhor que tudo se arranjou como
ele prometeu.
-
Mas por que não veio ele mesmo?
-
Pois o branco não vê que ele está lá em casa ocupado!
-
Pedaço dum tratante!
-
Gente desconfia; então essa cambada de pajens e crioulos, que é mesmo da pele
do cão.
-
O patife quer trapacear!
-
Branco está de orelha em pé; pois olha, Monjolo é negro de bem; quando ele dá
sua palavra e aperta dedo mindinho, está acabado, é como rabo de macaco:
quebra, mas não solta galho, por nada desta vida, nem que arrebente.
-
Anda lá, bruto, desembucha duma vez o recado, que não estou para aturar-te.
-
Ixe!... disse o preto fazendo um momo de pouco caso.
-
Falas ou não!
-
Que é que o senhor quer saber?
-
O diabo sempre vai hoje à vila?
-
Vai, meu branco; o diabo vai, mas não é capaz de cair no inferno, não!
-
Alguém o há de empurrar. A que horas sai ele da fazenda? É mesmo de manhã?
-
Não tarda. Cavalo já está selado; capanga só vai um, mofino como o quê! Os
outros, Faustino arranjou, como branco sabe.
-
Então só leva duas pessoas?
-
Duas só, sim senhor. Paje e capanga.
-
Está bom; toma lá, para o pito, disse o cavaleiro atirando-lhe um pataco de
prata. Agora vê se vais dar com a língua nos dentes.
-
Eh!... Monjolo mesmo!... Branco não conhece este negrinho da carepa, não!
Já
não o ouviu o embuçado que, dando rédeas ao animal, afastou-se na direção da
estrada geral.
Era
acidentado o terreno, que atravessava esse caminho, cortado no maciço de uma
mata virgem, tão exuberante, que todos os anos fechava com os renovos da
vegetação a picada aberta no inverno. O solo aí, como em toda a cercania,
cobre-se de uma crosta da argila roxa, afamada na província por sua espantosa
fertilidade. Em verdade, quando se deixa Campinas, e a pata dos animais começa
a triturar essa terra ferruginosa, tão fácil de converter-se em pó sutilíssimo
como em profundo tremedal, a natureza muda de aspecto; arrea-se de galas, e aos
campos tão monótonos, embora célebres, de Piratininga, sucedem os bosques
frondosos de Piracicaba.
Não
obstante ser o caminho em toda a sua extensão, desde a extrema da fazenda,
coberto e sombrio, havia contudo um lugar, cujo torvo aspecto correspondia ao
terror supersticioso que inspirava e à sinistra reputação que adquirira.
Pouco
além da interseção de outra picada, coleava o caminho algum tempo entre
marachões cobertos de arvoredo, e por fim metendo-se pela garganta de um
rochedo escabroso, descia em ziguezagues para remontar a oposta rampa de
profunda grota. Como se não bastasse essa conformação cavernosa do terreno, a
vegetação nutrida pelo humo vigoroso que as enxurradas depositavam nesses
barrocais, exuberava sua maior pujança, e frondeava as árvores seculares,
embastindo as sebes de verdura que vestiam os grossos troncos e lastravam pelos
penhascos.
Da
gente da vizinhança era conhecido aquele lugar por Ave-Maria, talvez de
não passar alguém ali, sem romper-lhe dos lábios trêmulos aquela imprecação de
susto. Nem sempre fora com eficácia invocada a divina padroeira, pois a
tradição conservava o nome das vítimas, que aí haviam sucumbido.
Nenhum
sítio em verdade se encontrara tão azado para uma emboscada. Ali oculto, um
sicário conseguiria a salvo dar conta de uma comitiva, sem que os companheiros
se pudessem mutuamente defender, nem mesmo aperceber-se da sorte que os aguardava,
tal era a estreiteza do sinuoso desfiladeiro.
Dizia
a gente do lugar que ouvia-se na azinhaga funesta um incessante gemido de
agonia; e não faltava quem o atribuísse às almas penadas dos infelizes que aí
se finavam insepultos e devorados pelos urubus.
V
A
TOCAIA
Ao
sumir-se na espessura, Jão Fera voltou o rosto e por entre a basta ramagem
esteve a contemplar o vulto esbelto da menina.
Ao
passo que se engolfava nessa fascinação, ia-se operando a transfiguração
completa de sua fisionomia.
O
perfil adunco e chanfrado, que revestia a beleza feroz e sinistra do abutre,
embotou a rispidez, saturando-se de uma bruteza alvar. Intumesceram-se as
faces, pouco antes crispadas pela cerração habitual das maxilas, e tomou a tez
um tom fouveiro, indício da ebulição do sangue a ferver-lhe em bolhas no
coração.
As
fulvas papilas que se encovavam pelas têmporas, como tigres nas furnas,
saltaram das órbitas, dilatadas por um fluido espesso que tinha a
fosforescência felina. De ordinário avincava-lhe a fronte uma ruga saliente,
que depois de fender-lhe o sobrolho, partia-se em duas plicas profundas como
gilvazes, a lhe cortarem o rosto. A temulência da paixão injetando os músculos
e insuflando as narinas, apagou todos aqueles sulcos rasgados pela sanha; e até
os lábios sempre cosidos à feição de uma cicatriz, agora túrgidos arregaçavam,
mostrando pela estreita comissura os dentes agudos.
Assim
o aspecto do homem ralado por uma sede intensa ou calcinado pela chama violenta
que ardia interiormente, afinal tomara a fisionomia da sensualidade brutal,
onde como na brama do tigre, ressumbrava a ferocidade do amor.
Oculto
no mato, foi o capanga, qual ao arrasto de uma cadeia, seguindo maquinalmente
Inhá, através do campo. Muitas vezes, na absorção que ia, mostrou-se a
descoberto, não o tendo percebido os dois companheiros, por estarem com a
atenção presa na conversa.
Quando,
porém, a menina sentou-se na tronqueira, voltada para o lado donde viera,
aconteceu de vê-lo na ocasião de atravessar a nesga de campina, que separava os
dois bosques. Turbado com aquele acidente, irritado por se ter mostrado naquele
instante, Jão Fera rompeu o encanto da fascinação que o atava e embrenhou-se na
floresta.
Era
justamente a ponto, que ao longe estrugira o assobio do curiau, repercutindo
pelos recessos da mata e algares das barrancas.
Estugando
o passo, chegou o capanga à Ave-Maria. Ali encostado ao tronco de uma
árvore, com os braços cruzados e a cabeça fincada ao peito, submergiu-se nas
profundezas daquela alma, que devia ter cavernas tremendas e insondáveis
abismos.
-
Amanhã quando souber, pensará que fui eu!...
Murmurando
estas palavras, uma expressão de angústia derramou-se pelo semblante do
facínora, que se confrangeu, como se uma tenaz lhe estivesse a triturar o
coração. Que medonha era a dor nessa natureza sanguinária, que se apascentava
de cruezas e homicídios!... O eu humano é como sua besta: manso, quando frugal;
rábido, se o fazem carnívoro; por isso em casa sentimento há o trasunto da
história de nossa alma.
Naquele
momento Jão Fera sofria a suma de todos os sofrimentos que derramara em seu
caminho; de todas as ânsias, que sua mão levantara. Tudo nesse homem, a dor
como a alegria, a raiva como o amor, a gula como a embriaguez, revestia a
natureza da fera; tinha fauce para devorar, e garras que lhe dilaceravam o chão
da alma, como a pata da suçuarana escarva a terra no arremessar do pulo.
Durou
rápido trato essa agonia moral; e não podia prolongar-se que o rijo coração,
vaso frágil para contê-la, embora acrisolado ao fogo das paixões tempestuosas,
ia estalar.
Abalou-se
o corpo vigoroso com um forte calafrio, que sacudiu-lhe a terrível obsessão; e
o facínora surgiu outra vez audaz e ameaçador. Rebatendo o chapéu com um revés
de mão, descobriu a fronte rija e alta, que se escalvava entre uma floresta de
cabelos negros. Outra vez se descarnou a sua fisionomia com a expressão dura,
ríspida e incisiva, que lhe dava a aparência de um perfil talhado em gume de
aço.
-
É sina! proferiu no tom implacável do fanatismo.
Com
pouco reboou das barrocas da azinhaga o tropel de um cavalo. Jão Fera
acostumado a distinguir nos rumores da mata as várias notas que formavam a
surdina da floresta, inclinou o ouvido à escuta. Não se enganara; o animal
vinha naquela direção e aproximava-se rapidamente.
Galgando
então pelos socalcos do imbê, que descia dos galhos de um prócero jequitibá,
alcançou o tope no rochedo, donde se descortinava entre o rendado das folhas
uma volta do caminho.
Não
tardou que apontasse ali, para sumir-se logo na curva da estrada, um cavaleiro.
Era
o mesmo embuçado que falava pouco antes com Monjolo. Orçava pelos cinqüenta
anos; barroso da cara que lhe cobria uma barba ruiva e áspera como as cerdas da
capivara; de mediana estatura e excessivamente magro; vinha trajado ao uso da
terra: chapéu mineiro de feltro pardo, sob o qual via-se o lenço de Alcobaça
que lhe servia de rebuço; poncho de pano azul forrado de baetilha, com a gola
de belbute levantada; botas de bezerro armadas de chilenas de prata.
Os
lábios do capanga, onde flutuava um sorriso de desprezo, contraíram-se logo, e
arrojou-se o corpo à frente para não desprender a vista assanhada do cavaleiro,
que sumira-se na curva do caminho. Desceu rápido ao rés da azinhaga, por onde
breve meteu-se o desconhecido.
Mal
que assomou este no alto da rampa, a pupila injetada do capanga cravou-se-lhe
no semblante e o atraía como a garra do abutre; a par, os dedos da mão direita
afagavam com certa volúpia feroce o longo cabo da faca, passada à cinta, e já a
meio fora da bainha.
Não
parecia o embuçado muito senhor de si e tranqüilo de ânimo; pois lançava a um e
outro lado olhos inquietos e investigadores, à feição de quem temia e
perscrutava algum perigo oculto naquelas brenhas que o cercavam. Alguma vez
hesitou, como incerto da resolução que devia tomar; olhou para trás, ou
enfrestou pela vereda que serpejava diante dele vistas impacientes. Dir-se-ia
que vacilava, entre continuar e retroceder; ou quiçá julgava-se transviado, e
procurava afirmar-se no caminho para ele desconhecido.
De
chofre empinou-se o cavalo, arremessando o homem sobre a escarpa da barranca,
donde rolou ao trilho, como um corpo inerte.
VI
O
EMPENHO
O
capanga abatera um olhar de nojo para o cavaleiro que lhe veio rolar aos pés.
A
faca brandida com força vibrava ainda no tronco do jequitibá, onde cravara a
cabeça de um urutu, que estorcia-se de fúria e dor.
Fora
a negra serpente que espantara o animal, quando enristou-se como uma lança,
fincando a cauda e chofrando o bote. Advertido pelo faro, antes de ver
altear-se o negro colo, o cavalo rodara sobre os pés; e a cobra ameaçada pelos
cascos elou-se ao tronco, onde a alcançara a mão certeira de Jão Fera, que já
tinha apunhado a faca.
Recobrando-se
do atordoamento da queda, ergueu-se o desconhecido, a apalpar o corpo um tanto
pisado e a sacudir a roupa.
-
Apre! resmungou ele. Escapei de boa.
O
capanga lançou-lhe um sorriso esguardo:
-
Desta vez escapou, disse ele com surda entonação.
Dirigiu-se
ao tronco e arrancou a faca, depois de esmagar a cabeça da urutu.
-
Que diabo é isso? perguntou o embuçado.
-
Não vê? retorquiu Jão limpando nas ramas a folha da faca.
-
Agora penetro porque o diabo do ruço pinchou-me!
Cuidando
então do cavalo que podia fugir-lhe, o desconhecido pôs-lhe cerco, e com algum
trabalho conseguiu colher as rédeas; feito o que tornou ao lugar, onde havia
deixado o capanga.
Este
o esperava impassível, mas um tanto absorto.
-
Como se chama o senhor? perguntou bruscamente ao cavaleiro.
-
Oh, homem, lembrou-se disso agora! tornou o outro um tanto ressabiado.
-
Quando o senhor me procurou há tempos para seu negócio, não me disse como se
chamava.
-
Porque não era preciso.
-
Nem ontem quando me avisou para estar aqui; prosseguiu o capanga sem
interromper-se. Mas agora há de dizer: quero saber com quem trato.
-
Para que? Desde que a gente paga... Ou desconfia o senhor de mim?
-
Ninguém me logra, disse Jão com um sorriso mostrando a faca. Tenho este fiador.
O ponto é outro; só avanço com quem conheço.
-
Pois não seja essa a dúvida. Com os diabos; chamo-me Barroso!
-
Nunca morou aqui em
Santa Bárbara?
Com
essa interrogação ferrou o capanga olhar perscrutador no semblante do
cavalheiro.
-
Eu?... Que esperança!... De Sorocaba todo inteiro! É a primeira vez que
botei-me cá para estas bandas.
Isto,
disse-o Barroso com segurança e desplante.
-
E por que tem gana ao homem?
-
Ora essa! Fez-me uma; e jurei que havia de pagar com usura.
-
História de mulher? perguntou o capanga vibrando-lhe um olhar ardente.
-
Quem se embaça agora com saias? Não sou nenhum balão! Quer saber o que me fez o
diabo? Teve o atrevimento de dizer em certa parte que, se lhe passasse a
tronqueira da fazenda, mandava-me amarrar ao mourão por seus negros e surrar-me
com um calabrote!
-
Ah! Ele disse isto?
-
Com certeza; mas daqui há pouco vamos saldar as contas. Ele vem aí; não tarda.
-
Mas que escândalo teve o homem do senhor, para dizer isso!
-
Essa maldita política! Se eu guerreei a chapa dele; eu cá sou do governo!...
Mas escute. Arranjou-me tudo; o patife só traz um capanga e o pajem; por
conseguinte desta vez não tem desculpa.
O
capanga levantou os ombros com ar de indiferença.
-
Já sei; vá andando.
-
Posso ficar aqui mesmo.
-
Fique, mas já lhe aviso. Quando eu vejo vermelho, não conheço quem está perto
de mim.
-
Safa!... Neste caso vou por aí afora, até a venda do Chico Tinguá. Lá o espero,
homem; e com o resto da chelpa. Duas onças, das suçuaranas, bem amarelinhas, ou
três canários, à vontade do amigo, contanto que desta feita acabe-se o negócio.
Já o diabo podia Ter comido muita terra, se cá o camarada fosse mais decidido.
Às
últimas palavras de Barroso o capanga abaixou o olhar, e um repentino enleio
atou aquela organização robusta e audaz, que difundia em torno de si a
plenitude da sua pujança. Alguma fibra vital fora dolorosamente pungida, que o
confrangia, amortecendo o natural orgulho e arrojo do caráter.
-
Só tenho uma palavra, sr. Barroso! disse afinal com a voz firme e grave.
-
Mas está custando a cumpri-la; confesse-se!...
Franziu
ainda mais o sobrolho a Jão Fera, que mordeu os beiços a tirar sangue. Acabava
de estrangular a jura, que a destra já se preparava para cravar no corpo de
quem ousava duvidar de sua palavra.
-
Se da primeira vez em que o senhor me falou na venda do Chico, tivesse logo
dito quem era o homem; eu certo que não aceitava o ajuste, nem recebia os seus
vinte patacões para tomar o empenho que tomei.
-
Por que então?
-
Basta que eu saiba. Só depois é que me disse, quando eu já tinha gasto seu
dinheiro. Esperava ganhar para lhe restituir; e por isso ia deixando a coisa
para mais tarde, pois o senhor há de lembrar-se, que minha promessa foi dar
conta do homem até São João que vem cair lá para a outra semana. Sou senhor de
minha vontade, fazer hoje ou amanhã, quando me parecer, desde que naquele dia
minha palavra estiver cumprida. Aí está a razão...
-
Quem duvida que o camarada é um homem honrado? Então eu não sei com quem lido?
-
Deixe-me acabar. Aí está a razão de não ter eu dado conta ainda da sua obra.
Queria ver se me vinha alguma prata para livrar-me deste empenho. O senhor não
vê diferença em mim?
-
Alguma, para falar a verdade.
-
Pareço um tocador de tropa. Vendi o que tinha, e pouco era; mas não ajuntei
senão estes magros cobres, que trago aqui na burjaca, veja. Quer recebê-los, e
soltar a minha palavra, empenhando eu a minha vida para pagamento do resto?
-
Isso nunca! O trato está em pé!
-
Fechou-se o capanga, assumindo outra vez a calma e possança de si mesmo:
-
Estou ciente. O senhor cobra a sua dívida; eu pago-lhe na moeda que tenho,
nesta, disse batendo na bainha da faca. Vá descansado; hoje ficamos quites.
-
Esse falar agora me agrada mais; e até, olhe lá, por cima do prometido, sempre
a gente há de escorregar uma molhadura, se a obra for bem feita.
-
Dispenso, retorquiu-lhe com uma desdenhosa concisão.
-
Ande lá. Então na venda do Chico? perguntou Barroso com o pé no estribo.
-
Já disse.
-
E logo que despachar o diabo?
-
Sim!
-
Boa mão, camarada.
Ganhando
a sela, seguiu Barroso o trilho escarvado da azinhaga, e alcançada a planície,
afastou-se a galope do sítio mal-assombrado.
Entretanto,
o capanga ouvindo o tropel do animal a perder-se na distância, murmurava
consigo:
-
Aquela cisma que eu tive há pouco!... Se não fosse o urutu!... No cabo não era
ele, sem falar que estou lhe devendo...
E
acrescentou:
-
É preciso acabar com isto! Há de ser o que Deus quiser.
Suspendendo
o corpo do urutu à ponta de um galho, ia tirar-lhe a pele, para gastar o tempo
da espera, quando alguma coisa suspeita fê-lo erguer de pronto a cabeça e
aplicar as ouças.
Ressoava
ainda muito longe o oco estrupido de animais passando uma ponte de madeira.
VII
O
MARMANJO
No
terreiro da fazenda das Palmas, junto à escada da casa de morada, os animais de
montaria mordiam os freios de prata, raspando o chão com a ponta do casco.
Tinha-os
pelas rédeas um mulato de libré cor de pinhão, avivada de preto e escarlate,
com botas envernizadas de canhão amarelo, e chapéu de oleado a meia copa.
Recostado ao socalco do patamar com ares de capadócio, o pajem fazia sinais
para uma janela, onde aparecia amiúde a trunfa riçada de uma crioula.
Vinha
chegando-se com a proverbial pachorra paulistana um camarada, que mastigava o
último bocado do almoço, e preparava o cigarro de palha. Aceso o pito e tomada
a primeira fumaça, passou revista primeiro nos arreios do baio e da rosilha,
depois nos cascos; e não achando coisa de maior, foi contudo, para mostrar a
sua valia, aqui apertando um loro, ali afrouxando uma cilha e repuxando uma
correia da cabeça.
-
Esta corja de pajens, dizia a rir para o mulato em forma de cumprimento, só
serve de emporcalhar a casa. Ficam velhos e não aprendem.
-
Corja é súcia, sô Mandu. Olhe lá! rebateu o pajem.
Nisto
apontou a mucama à janela.
-
Falta muito ainda, Rosa? perguntou o mulato.
-
Já está acabando. Não tem tempo de ir mais à roça, ver Florência, não, rapaz.
-
Ai, que dor de canela!
-
Ixe! Quem conta com pajem!
-
Assim, menina! exclamou o camarada. Tem aqui uma barra para seu pimpão.
-
Sai daí! chasqueou o mulato. Jabuticabinha de sinhá é lá para o beiço de
caipira? Vá comer sua broa de milho, homem, e deixe de partes.
A
mucama soltou uma risada e desapareceu de repente a um puxão que de dentro lhe
deu o pajem Faustino.
-
Assim é que serve a mesa?
-
Salta, moleque! Menos confiança comigo.
-
Hô xente! Moleque como nós. Tenho muita xibança nisso. Não é como esse mestiço
do inferno, cor de burro; mas você não tem vergonha mesmo de vir engraçar com
ele na janela.
-
Sinhá está ouvindo! disse a rapariga em tom de ameaça.
-
Melhor pra mim! Eu cá não me embaraço.
Este
curto diálogo travou-se na saleta da entrada, onde o Faustino veio pilhar a
mucama, que escapulira do serviço da mesa para se faceirar com o mulato.
Apanhada em flagrante, a Rosa, muito senhora de si tornou à sala de jantar,
onde ninguém dera pela sua falta.
Ali,
estava posta para o almoço a larga mesa de jacarandá, coberta com alva toalha
de linho adamascado; e rodeada naquele momento, como de ordinário, por cinco
pessoas.
A
cabeceira, contra os costumes da terra, ocupava-a a dona da casa, senhora de 38
anos, e não formosa; porém tão prendada de inata elegância, que seus traços e
toda sua pessoa tomava um particular realce. Se não tinha bonitos olhos,
ninguém sabia olhar como ela; a boca sem primores de forma, enflorava-se com o
sorriso inteligente e a palavra brilhante.
Filha
de um capitalista de Campinas, D. Ermelinda recebera em um colégio inglês da
corte educação esmerada, que desenvolveu a natural distinção de seu espírito.
Recolhida à sua província, teria sem dúvida perdido ao atrito dos costumes do
interior aquele tom fidalgo, se fosse ele um artifício do hábito, em vez de um
dom, que era da natureza, o qual o exemplo não fizera senão polir.
À
expansão dessa natureza delicada, ao perfume de bom gosto que derramava em
trono de si, deve-se atribuir a ausência de cor local que se notava senão em
toda casa, ao menos na família. Aquela esfera que recebia a influência imediata
da dona da casa, não era paulista, mas fluminense; e não fluminense pura, senão
retocada já pelo apuro escocês e pela graça francesa.
Aos
verdadeiros paulistas da têmpera antiga, de antes quebrar que torcer, aos
grandes turrões, nutridos de lombinho de porco e couve crua, não deixava de
escandalizar esse enxerto carioca no meio das suas matas, e por isso, já
desconfiados de natureza, mostravam-se espantadiços, quando entravam na casa
das Palmas.
À
direita de D. Ermelinda estava o dono da casa, Luís Galvão, cujo aspecto franco
e jovial granjeava a simpatia ao primeiro acesso. Era um bonito homem, de
fisionomia inteligente e regular estatura, que revelava em sua compostura digna
a consciência do próprio mérito.
Do
comedimento do modo prazenteiro, bem como do alinho do traje, transpirava o
influxo da suprema distinção do espírito de sua mulher. Naturezas há que têm a
força de imprimirem o seu cunho naqueles que o cercam; outras se apoderam da
índole alheia insinuando-se nela pelo afeto, impregnando-a de sua essência.
A
de D. Ermelinda era destas últimas. Fora por uma lenta filtração moral, que ela
conseguira transmitir ao marido um toque do seu garbo nativo, embotando as
asperezas de uma educação grosseira e extirpando hábitos da infância descurada.
À
esquerda da mãe ficava o filho, como à direita do pai a filha, ambos na flor da
juventude. Chamava-se o primeiro Afonso, como o avô. À Segunda tratavam todos
pelo apelido, senão diminutivo, de Linda, formado das últimas sílabas de seu
nome, que era o mesmo da mãe.
Finalmente,
no segundo lugar da esquerda defronte da moça via-se um menino de 15 anos de
idade, cuja figura destoava de todo o ponto, no quadro daquela família, que
respirava a graça e a inteligência.
Era
feio, e não só isso, porém mal amanhado e descomposto em seus gestos. Tinha um
ar pasmo que embotava-lhe a fisionomia; e da pupila baça coava-se um olhar
morno, a divagar pelo espaço com expressão indiferente e parva.
Curvado
como um arco sobre a mesa, com as vestes em desalinho e os cabelos revoltos,
abraçava uma xícara de almoço, que lhe ficava abaixo do queixo; e escancarando
a boca enorme para sorver de um bocado a grande broa de milho, ensopada no
café, mastigava a tenra massa a fortes dentadas e sofregamente como se
estivesse rilhando um couro.
Percebia-se
logo que a influência de D. Ermelinda não penetrara nesse membro enfezado da
família, refratária a todo o preceito de ordem e arranjo. Por isso a dona da
casa, quando presidia a mesa de seu lugar de honra, observando o serviço e
ocupando-se de todos, não transpunha aquele ângulo, onde sentava-se o pequeno.
Se acontecia a seu olhar, circulando a sala, passar por aí, cegava-se e fugia
com desgosto.
Naquele
momento acabava o menino de fazer uma das costumadas estrepolias, virando com o
queixo a xícara, que entornou-lhe todo o café no peito da camisa.
-
Hô, hô, hô!... fez ele com um riso gutural e apatetado.
Acudiu
a Rosa, para enxugar-lhe com o guardanapo a cara, pois ele não se mexia.
-
Que vergonha! murmurou a crioula em meia voz. Marmanjo deste tamanho não sabe
comer na mesa.
Um
raio maligno lampejou na pupila baça do pequeno.
-
Nhô Brás! gritou a rapariga tomada de dor.
O
menino por baixo da mesa fisgara-lhe o garfo na coxa.
VIII
PRESSENTIMENTO
Passou
despercebido para as pessoas da família o acidente do café entornado.
D.
Ermelinda parecia preocupada; sem tomar parte no almoço, acompanhava os
movimentos do marido com uma inquietação nervosa, que procurava reprimir, porém
ressumbrava-lhe da fisionomia assustadiça. Não se difundiu, portanto, em sua
expressão o tédio, que ordinariamente lhe inspiravam, quando assistia à mesa,
àqueles desasos de Brás.
O
marido estava a partir para Campinas, onde ia demorar-se três dias afim de
concluir alguns negócios, que talvez o levassem a São Paulo. Apesar do hábito
dessas e até de maiores ausências, a senhora não podia eximir-se à repugnância
que lhe causava semelhante viagem, e empregava todos os esforços para
desmanchá-la.
Mas
Luís Galvão não era paulista debalde; ele se deixara imbuir da influência da
mulher naquela parte da existência do homem que pertence exclusivamente à
esposa, e onde, portanto, aceitava como legítima supremacia feminina, tinha
contudo sua ponta de birra, e quando, em matéria de lavoura e negócio, ou coisa
que não entendia o regime doméstico, se decidia por um alvitre, não havia
demovê-lo.
Por
causa da viagem se tinha posto o almoço tão cedo, quando o costume era às 9
horas, para dar tempo aos longos passeios que D. Ermelinda recomendava aos
filhos, e de que ela muitas vezes dava exemplo com o marido. Ainda nisso havia
uma inovação aos usos da terra, onde moça rica, filha de fazendeiro, não anda a
pé, a não ser na vila.
Luís
Galvão comia com boa disposição e, de vez em quando, replicava ao olhar inquieto
da mulher com um sorriso e um gesto de carinhoso motejo, o que chamava aos
lábios da elegante senhora uma fugaz enfloração, logo apagada. Quanto a Linda e
Afonso, apesar da hora, só para fazer companhia ao pai debicavam com o apetite,
pronto sempre, da juventude.
Nenhum
destes fez reparo no desastre acontecido com Brás, naturalmente porque
semelhantes desaguisados eram tão freqüentes, que já se contava com eles. E
então buscavam todos modos de disfarçar, não só para não contrariar ainda mais
D. Ermelinda, como para evitar as represálias de que servia-se o pequeno contra
qualquer ralho ou motejo.
Dessa
vez ficou na garfada à perna da Rosa, que lá se foi coxeando para a camarinha,
examinar o arranhão. Entanto o Brás, rachando a meio um pão e metendo em cada bolso
uma banda, levantava-se da mesa para ganhar o quintal pela porta da cozinha.
Repetindo
Luís Galvão o seu amoroso remoque à inquietação da mulher, esta não se conteve,
que não lhe replicasse.
-
Tem razão de zombar, Luís! Devo parecer-lhe uma criança; e eu mesma não cesso
de acusar-me por esta tolice; mas nem por isso consigo livrar-me dos receios
que me assaltam.
-
Disposição em que você está, Ermelinda. Que perigo pode haver em um passeio que
estou a fazer constantemente, e até mais longe e com maior demora?
-
Tudo isto me tenho eu dito cem vezes desde ontem, e não sossego. Nunca fui
sujeita a cismas e caprichos, você bem o sabe; entretanto sinto hoje um
desassossego, um aperto de coração.
-
É nervoso.
-
Se não houvesse uma causa real para isso, podia ser; mas há. Essas esperas, que
andam deitando por aí, das quais ainda ontem falou o administrador...
-
E por que hão de ser elas para mim? Não tenho inimigos, e a ninguém faço mal
para que se dêem ao trabalho de livrarem-se de mim.
-
Papai é tão estimado! disse Linda; e a voz doce como um favo de mel arpejou a
nota moviosa da ternura filial.
-
Quem se atreveria?...
O
altivo desafio, esboçado nestas palavras, partiu dos lábios de Afonso que alçou
a fronte já naturalmente erguida, com um assomo bizarro.
-
São os bons, meus filhos, que estão mais sujeitos ao ódio dos maus, os quais se
conhecem e ajudam entre si.
-
Lembre-se, Ermelinda, que depois das esperas tenho andado por esses caminhos.
No dia em que o administrador veio contar-lhe a tal novidade e assustá-la à
toa, eu fui a Piracicaba, e duas vezes passei na Ave-Maria. Disse o Pereira
depois, que vira dois vultos no mato; entretanto nada me aconteceu. Se havia
espera, não era decerto para mim.
Pareceu
D. Ermelinda ceder à força desse argumento e ao tom persuasivo do marido; mas o
pressentimento a pungia, e o coração perscrutava objeções para resistir à
razão.
-
E esse homem, que foi ontem visto pelos pretos, atravessando a fazenda? Dizem
que a desgraça o acompanha, pois ele deixa, por onde passa, um rasto de sangue.
Por isso deram-lhe o nome de fera!
-
Outra prova de que são imaginários os seus receios, Ermelinda. Jão Bugre ou
Jão, como eu o chamava em menino, a exemplo de outros, foi criado em nossa
casa; era afilhado de meu pai e até chegou a servir-me de camarada. Depois
tornou-se um perverso; porém lembra-se dos benefícios que recebeu de nossa
família, e, embora se mostrasse altaneiro comigo, acredito que me respeita.
-
Essa gente não é capaz de gratidão, Luís; ao contrário, o benefício os humilha,
e eles revoltam-se contra o que chama uma injustiça do mundo.
O
Bugre é uma fera, na verdade; contam-se dele as maiores atrocidades; porém esse
homem de más entranhas tem um resto do consciência e probiedade. Não há exemplo
de haver atirado a alguém por trás do pau, ou de emboscada: ataca sempre de
frente, expondo-se ao perigo. O bacamarte só lhe serve para defender-se, quando
o perseguem. Também nunca ouvi falar de roubo ou furto que ele cometesse, e
isso apesar de viver ele pelos matos, constantemente acossado.
-
E ainda não foi preso um criminoso de tantas mortes?
-
Não é por falta de diligência. Andam-lhe à pista desde muito tempo; e até, se
não me engano, ouvi que tinham prometido um prêmio a quem desse cabo dele; mas
até agora não se animaram, tal é o temor que inspira.
-
Bem razão tenho eu, portanto, de assustar-me, quando um facinoroso desses
aparece dentro da fazenda: talvez ande ele rondando a nossa casa.
-
Não se lembra disso; mas, se tivesse a audácia, ele ou outro, acharia a casa
bem guardada. Demais, aqui lhe deixo um homem para defendê-la. Não é verdade,
Afonso?
-
Sem dúvida, meu pai. Na sua ausência nada acontecerá!
-
Não é por mim que receio, Luís; antes fosse; não estaria tão inquieta, disse a
senhora com um leve reproche.
-
Nesse caso eu não partiria! respondeu o marido galanteando.
-
Então fique!
-
Sim, papai, fique! Dê esse gosto a mamãe, disse Linda.
-
Também a senhora não quer que eu vá? Olhe, não se arrependa! replicou o pai com
um gesto de zombeteira ameaça. Levo uma certa encomenda de vestidos e enfeites,
que só eu sei escolher.
A
moça ficou enleada entre a esperança do presente e o desejo da mãe.
-
Papai compraria outra vez.
-
E a festa? Perguntou o pai sorrindo.
A
pêndula soou oito horas.
IX
AS
AMOSTRAS
Advertido
pela pêndula, Luís Galvão consultou seu relógio de algibeira e ergueu-se:
-
São horas!
Até
aquele momento nutrira D. Ermelinda uma vaga esperança, que ela mesma não podia
explicar. Lembrava-se que um pequeno acidente qualquer podia estorvar ou pelo
menos adiar a viagem. Vendo chegar a despedida, empalideceu:
-
Se você aflige-se dessa maneira, Ermelinda, não vou. Faz-me grande desarranjo,
como sabe; mas não tenho ânimo de deixá-la tão sobressaltada.
-
Confesso que esta emoção faz-me mal; já não me sinto boa.
-
Então fico: está decidido.
Uma
sombra de tristeza perpassou rapidamente pelo semblante de Linda; todavia não
escapou ao olhar da mãe, que adivinhou a causa dessa mágoa da moça.
-
Mas, Luís, esta viagem é necessária, e, no fim de contas, meus sustos não têm
razão de ser. Você precisa concluir esse negócio; e Linda ficará queixosa se
não tiver os presentes prometidos.
-
Eu, mamãe? exclamou a menina com terna exprobração. O que eu desejo é vê-la
sempre contente.
-
E não é um contentamento fazer-te feliz? Já fui moça como tu; nessa idade a
ventura é uma flor, uma fita. Só depois se compreende o que ela vale e o que
ela custa, minha filha. Não te envergonhes dessa faceirice. Quem há de tê-la
senão tu? Deus fez as estrelas para brilharem.
-
Então o que decidem? perguntou Luís Galvão.
-
Vá; eu lhe peço.
-
Por minha causa, não! contestou Linda.
-
Pela minha, disse D. Ermelinda.
Calçadas
as luvas e feitos os últimos aprestos, despediu-se o viajante da família e
montou a cavalo.
No
momento de abraçar o marido, D. Ermelinda com disfarce apalpou-lhe o peito, e
ficou mais tranqüila percebendo o revólver no bolso do casaco. Não obstante,
custou-lhe muito essa despedida; seus vagos terrores se alvoroçaram de novo, e
foi preciso grande esforço para dominar-se.
Entretanto
Luís Galvão, esporeando a rosilha, depois que disse o último adeus com a
palavra e o gesto, passou a cancela do terreiro. Acompanhava-o de perto, a
meio-corpo da cavalgadura, o camarada Mandu; adiante ia o pajem para abrir as
tronqueiras; e entre ele e o viajante trotava o baio, solto, mas de todo
arreado e pronto para o revezo.
-
Logo hoje é que seu pai leva um camarada só.
-
Por que, mamãe? perguntou Linda.
-
O Pereira adoeceu, o outro, ninguém sabe onde anda.
-
Se mamãe quer, eu acompanho meu pai, disse Afonso fazendo menção de dirigir-se
à cavalariça. Em um instante o alcançarei.
-
Não, não Afonso! acudiu vivamente a senhora, já se não viam os viajantes,
ocultos pelo arvoredo. D. Ermelinda, antes de entrar, voltou-se para os filhos:
-
Vão passear!
-
E mamãe fica só?
-
Preciso descansar um pouco até a hora do almoço.
-
Sente alguma coisa, minha mamãe?
-
Nada, fadiga apenas. Até logo.
-
Quer ir, Afonso?
-
Se você quiser, Linda!
-
Vão; a manhã está bonita, insistiu a mãe.
D.
Ermelinda por este meio tratava de afastar os filhos, cuja solicitude
dispensava nesse momento, pela razão de os não afligir comunicando-lhes a
tristeza e inquietação que a assaltava com dobrada força.
Apenas
eles a deixaram, subiu apressadamente ao mirante para acompanhar com os olhos
ao marido, até a volta que fazia o caminho no canto da tigüera e onde se perdia
de todo a vista da casa.
Os
viajantes, que já estavam a poucas braças dali, pararam de repente, e depois de
pequena demora retrocederam apressados. Surpresa com o incidente, D. Ermelinda
deu graças a Deus daquela volta inesperada, que lhe restituía o marido, a quem
por coisa alguma deixaria mais partir.
A
angústia que sofrera naqueles poucos instantes, os pensamentos cruéis que lhe
crivavam a alma nesse breve trato, não os sentira ela talvez em anos de sua vida.
Suplicaria a seu marido que desistisse da viagem; e ele havia de atendê-la, ou
então de arrastá-la abraçada a seus joelhos.
Aproximavam-se
os viajantes; repassaram a cancela e afinal pararam em frente à casa onde Luís
Galvão apeou rijo.
-
Que foi? Perguntou D. Ermelinda que descera do sótão a encontrá-lo.
-
Ora, respondeu o fazendeiro a rir, não sei onde pus as amostrar da Linda com a
lista das encomendas.
Outra
vez D. Ermelinda achou em si a força para reagir contra seus imaginários
terrores. Esse coração de mãe sacrificava às inocentes alegrias da filha o seu
sossego; é uma banalidade sublime, que se encontra por aí, a cada canto, e de
que já ninguém se ocupa.
Correu
Luís Galvão ao gabinete à busca dos objetos esquecidos; e enquanto a mulher
ajudava-o de seu lado na pesquisa, abriu ele a medo o segredo da secretária e
tirou um papel, que rápida e furtivamente escondeu no bolso.
Era
este o motivo real da sua volta; o outro não passava de pretexto. Apenas teve
Galvão seguro o papel em um bolso, que tirando à sorrelfa um pequeno embrulho
do outro, exclamou:
-
Aqui está!
-
Aonde achou?
-
Dentro desta caixa de charutos. Só eu era capaz de achá-lo. Foi quando enchi a
carteira.
Abraçando
a mulher e beijando-a na face, de novo pôs-se o fazendeiro a caminho; e desta
vez ia pensativo, quase triste. Murchara a flor da jovialidade, que se expandia
momentos antes tão fresca em seu nobre semblante, e a alma franca e generosa
sempre a espelhar-se em seu olhar, dir-se-ia que se acanhava.
O
pequeno incidente da volta viera a toldar aquele sentimento que mais ou menos é
infalível em todo o coração por magnânimo que seja, como da ânfora onde por
muito tempo se guardou o vinho puro e generoso, há sempre lia no fundo.
Luis
Galvão tinha um segredo em sua vida, talvez uma falta; e o ocultava de todos,
mas especialmente da mulher. Ver-se humilhado perante aqueles a quem se ama, e
cuja estima se alcançou, não pode haver maior suplício para o homem de brios.
O
esquecimento do papel, que sem dúvida continha revelação ou referência do
segredo, e a necessidade de recorrer a uma simulação para ocultar o verdadeiro
motivo de sua volta; esses pequenos embustes sem conseqüências, e que talvez a
outros nem mais lhe roçassem na memória, o estavam remordendo interiormente.
Chegaram
afinal os viajantes ao canto da tigüera. Havia junto a um copado guarantã, que
lhe dava sombra, uma ponte de madeira, lançada sobre as altas ribanceiras de um
córrego, que regava parte das terras lavradas.
Aí
estava a última tronqueira da fazenda.
Voltou-se
Luís Galvão para enviar um adeus à mulher, que lhe acenava com o lenço, e
desapareceu.
X
OS
GÊMEOS
Deixando
a mãe, separaram-se os dois irmãos para se encontrarem no pátio interior, donde
também havia passagem para as jeiras da fazenda.
Linda
fora tomar a capelina de fustão branco, e Afonso o boné e o bastão de passeio.
Assim preparados, puseram-se a caminho par a par, garrulando como um casal de
coleiros que deixam a asa materna para folgarem pela grama ensaiando os
primeiros vôos.
-
Que fingido é você, mano! dizia Linda. Quando eu lhe perguntei se vinha
passear, respondeu-me "se quiser" e estava morrendo!
-
Com pena de uma certa pessoa, que não fazia senão olhar lá para a figueira.
-
Que história! disse Linda corando.
-
Eu respondi "se quiser" mesmo de propósito; para ver sua tenção. Você
não disse ontem que sou eu quem vai todos os dias para aquele lado?
-
E é, sim.
-
Deveras! Sustente outra vez, e verá se não volto.
-
Não, meu maninho do coração, não se zangue. Eu prometi a Berta que hoje havia
de ir sem falta. Ela está nos esperando. Vamos; sim?
-
Primeiro há de por as mãos e dizer comigo: - "Meu Afonsinho..."
-
"Do meu coração..."
-
"Eu lhe peço e rogo... que me leve... onde está..."
-
Onde está Berta! disse rapidamente a menina que ia repetindo a palavra do irmão.
-
"Onde está" insistiu o rapaz uma e duas vezes.
Afinal
Linda cedeu:
-
Onde está...
-
"Meu benzinho!" concluiu o rapaz.
Banhou-se
a menina em ondas de púrpura.
-
Ah! Mano! disse Linda com um melodioso queixume.
-
Assim é que se ensina uma sonsinha! replicou o moço a rir.
-
Você me paga! tornou a irmã com um pequeno assomo de revolta. Tenho um certo
segredo a para contar a Berta...
-
Segredo de mulher! galhofou o irmão.
-
Vou dizer-lhe que não se importe com gente ingrata; e como só eu é que me
lembro dela, não tome o trabalho de vir cá para ver-me, porque eu não tenho
mais com quem passear.
-
Você é capaz?
-
Sou.
-
Uma aposta?
-
Não quero; você logra-me sempre.
-
Também tenho uma coisa para dizer.
-
A quem?
-
Não sabe? Faça-se desentendida. A Miguel.
-
O que é?
-
Que uma certa pessoinha, a qual eu não descobrirei... que essa pessoinha me
pediu para... para dar um... a ele já se sabe... um...
-
Mano! Não gosto destas graças!
-
Um beliscão, menina!
-
Você ia dizer outra coisa.
-
Ou é você que queria ouvir outra coisa?
-
Está bom; me deixe.
Desta
vez agastada, Linda afastou-se, voltando as costas ao irmão.
Acompanhou-lhe
Afonso o movimento com um ar galhofeiro; e aproximando-se devagarinho, nas
pontas dos pés, enlaçou de repente em um abraço o corpo gentil da moça.
-
Ai da pombinha! Como está tão jururu! Quem foi que arripiou sua pena, minha
rola? Prrru!... Coitadinha! Deixe ver o biquinho!
Estas
palavras eram o mote das carícias que fazia o Afonso à irmã, alisando-lhe os
cabelos castanhos que a brisa espalhara, amaciando-lhe a mimosa cútis da face,
e por fim puxando-lhe o botão de rosa dos lábios, que faziam um delicioso
biquinho vermelho, apinhados como estavam com o gracioso amuo.
Não
se podia, com efeito, achar mais justa imagem da formosa menina, do que essa
que espontaneamente acudira ao espírito poético do rapaz. Naquele momento com a
fronte reclinada, as espáduas ligeiramente curvas, pelo recato, as mão
recolhidas ao seio, parecia-se com a juruti quando arrufa a doce e macia
penugem.
À
medida porém que a envolvia a carícia do irmão, ia ela outra vez acetinando-se;
o talhe delicado esbeltava-se ao natural; as longas pálpebras franjadas
erguiam-se desvendando os grandes olhos pardos cheios de uma ternura ebriante;
e finalmente o botão de rosa da boca gentil enflorava-se com sorriso
encantador, que derramava sobre o formoso semblante da menina uma luz de leite.
Só
não sabe o que isto é, quem não admirou a espécie de cútis mais delicada, tez
suave de bonina bebendo os orvalhos da manhã.
Tinha
a beleza de Linda um doce alumbre de melancolia, que não era tristeza, pois
coavam-se através dos inefáveis contentamentos de sua alma; era sim matiz, que
lhe aveludava a graça e influía-lhe um mavioso enlevo. Irmã das flores que
vivem nos recessos da floresta, onde se coalham em sombra luminosa os raios
filtrados pelo crivo das folhas, respira essa beleza o perfume casto da violeta
e da baunilha.
Não
se admira a mulher que a possui, porque não exerce a fascinação esplêndida das
formosuras que cintilam; mas adora-se de joelhos, porque ela tem a santidade do
amor.
Afonso
era o retrato da irmã. Pareciam-se como gêmeos e gêmeos tinham nascido. Mas
nele a gentileza era um fogo de artifício; a índole jovial, que herdara do pai,
lhe estava constantemente a brincar no gesto prazenteiro e nas cascatas do riso
cordial e folgazão.
Era
tal a parecença dos dois irmãos, que um dia, havia tempos, Afonso lembrou-se de
fazer uma travessura. Vestiu-se com roupas da irmã, e tomando uns ares
hipócritas, saiu ao encontro de Berta que vinha visitar Linda, como de costume.
A moça, cuidando ver a amiga, correu abraçá-la, e cobriu-a de uma chuva de
beijos, que lhe foram pontualmente retribuídos.
Foi
depois de ter a seu gosto recebido as carícias da moça, e comido-lhe a beijos o
saboroso encarnado das faces, que o brejeiro tirando a capelina da irmã,
apresentou a sua cabeça de rapaz, desordenada da basta madeixa, que ondulava
pelas espáduas de Linda, quando ela a trazia solta no passeio da manhã.
Descobrindo
o engano, Berta não se agastou e riu-se gostosamente com o rapaz, da peça que
lhe pregara ele; mas desde aí, não beijou mais a Linda sem primeiro olhar-lhe
no rosto e os cabelos, para certificar-se que era ela mesma, e não o brejeiro
Afonso.
Depois
tornou-se impossível a confusão, porque não só o talhe do moço hasteou-se com a
têmpera viril, como o fino buço começou a assombrear-lhe o lábio superior e as
faces.
XI
NO
TANQUINHO
Depois
da pequena pausa que tinham feito, apressaram os dois irmãos o passo, a fim de
ressarcir a perda do tempo, que pouco tinham para o passeio até a hora habitual
do almoço.
Assim
atravessaram os canaviais, divididos em alqueires por largas alamedas e
carreadores mais estreitos.
Nessa
ocasião, não repararam como de costume no verde-gaio e risonho daquelas ondas
de folhas que flutuavam graciosamente ao sopro da brisa; nem ouviram os brandos
cicios, tão doces ao ouvido, como é ao paladar a polpa deliciosa dos gomos.
Entraram
em seguida na roça, onde o feijão estava em flor e o milho espigava, agitando
os seus louros pendões. Logo adiante ficavam os vastos cafezais, recentemente
carpados e já frondosos para mais tarde se cobrirem de bagas escarlates, como
fios de corais, entrelaçados pela folhagem de brilhante esmeralda.
Aí
à sombra dos renques de cafezeiros, descansavam os pretos recebendo a ração do
almoço, que as rancheiras de cada turma dividiam pelas gamelas e palanganas que
lhes apresentavam.
Passaram
os dois irmãos apressadamente e sem dar-lhes mostra de atenção, para não
perturbar-lhes o descanso e a refeição.
Além,
na assomada de uma colina frondava um vistoso ramalhete de palmeiras de
diversas espécies, entre as quais avultava o jeribá com seus lindos penachos.
Chamavam a este lugar o Palmar e dele proviera o nome à fazenda.
Pela
encosta da colina estendia-se o pasto; e na base estava uma capuava onde já se
começara o trabalho da derrubada, e se afolhavam as terras destinadas à lavoura
de mantimentos, dividindo-a em quartéis, como os partidos de canas.
Fronteiro
ao Palmar, ficava um grande feital que prolongava-se até a orla da mata. Essa
terra descansada desde muitos anos já estava convertida em capoeira, que
invadindo os carreadores deixava a descoberto apenas o trilho batido pela
constante passagem.
Por
essa vereda meteram-se os dois irmãos, Afonso adiante, malhando com o bastão os
tufos de capim e relva para espantar as cobras; Linda no encalço, rocegando a
fímbria da saia de musselina para guardá-la dos orvalhos. Foram sair em pequeno
gramado, de um pitoresco encantador.
Parecia
esmero de arte o sítio aprazível; não que possa o gênio do homem jamais atingir
os primores da criação; ordenara, porém, muitas vezes e resume em breve quadro
cenas que a natureza só desdobra em larga tela; e colige em uma só paisagem
cópia de belezas que andam esparsas por vários sítios.
Desenhava-se
o pequeno e mimoso prado em oval alcatifado e com a alfombra de relva e cingido
quase em volta pela floresta emaranhada, que a fechava como panos de muralha,
cobertos de verdes tapeçarias e vistosas colgaduras, apanhadas em sanefas e
bambolins de flores. À face oposta assomava a soberba colunata do Palmar que
estendia-se até ali, formando arcarias góticas, fustes elegantes em estilo
dórico e arabescos rendados de maravilhoso efeito.
À
margem do Tanquinho, bonito lago formado pela represa de um ribeirão, que saía
gorgolando do mais embrenhado da floresta e traçava meandros entre as palmeiras
para perder-se no pasto, uma figueira brava esfraldava os ramos, em esparavel,
ensombrando a pelúcia de relva.
Aí
próximo contornava-se um outeirinho coroado de uma grinalda de juncos floridos,
donde borbulhava também um fio d’água que alimentava o lago. De seu tope
descortinava-se a casa das Palmas e toda a várzea até a margem do Piracicaba.
Ao
entrar no descampado, ca[iram os olhos de Afonso direto sobre o tronco da
figueira e voltaram-se logo desconsolados para Linda. Os dois irmãos trocaram
um sorriso displicente.
-
Não vieram, disse Afonso.
-
Já foram.
-
Não há tal.
Levou
o moço as mãos à boca e apitou. Não teve resposta.
-
Então?
-
É que já estão longe!
-
Não tinham tempo.
-
A culpa é sua.
-
Quem primeiro buliu com o outro?
-
Eu hei de contar à Berta.
Depois
de uma pequena volta pelo prado, os dois irmãos cuidaram de voltar do insípido
passeio que tão malogrado fora.
Entretanto
não estavam longe aqueles que se supunham encontrar, conforme o costume, à
sombra da figueira; e eram, como já se adivinhou, Miguel e Inhá a quem Linda
tratava pelo nome.
Afastando-se
de Miguel para passar a tronqueira, dera a menina ao talhe uma inflexão
sedutora. Daquela travessa rapariga, com ares de diabrete, surgira de repente a
mulher em toda a brilhante fascinação, na plenitude da graça irresistível que
rapta a alma, e a arrasta após si cativa como um despojo, de rojo pelo chão e
feliz de rojar-se-lhe aos pés.
Miguel
levou as mãos aos olhos julgando-se ludíbrio de uma visão, e deslumbrado foi
seguindo a menina sem consciência do que fazia.
Não
voltou Inhá a cabeça, mas tinha ela a certeza de que o moço a acompanhava
enlevado pelo garbo de seu passo, como pelo flexuoso requebro de seu talhe
donoso.
Dirigiu-se
a menina a uma aberta, que havia entre o palmar e a mata e dava caminho para o
prado. Também ela ia pressurosa ao encontro da amiga e camarada de infância,
cuidando já encontrá-la no lugar emprazado, à sombra da figueira.
Ouvindo
o apito de Afonso, deitou a correr; e Miguel despeitado com a sofreguidão que
ela mostrara, deixou de responder ao camarada como costumava.
Chegou
Berta à precinta do prado, justamente quando os dois irmãos iam desaparecer na
vereda por onde tinham vindo.
-
Linda!
-
Ah! Berta! Eu não disse que ela vinha!
-
Chegou agora, acudiu Afonso. Que dorminhoca!
-
Hoje não quero graças com o senhor! replicou Berta comum sério petulante.
-
Deveras! Pois estamos mal.
-
Veio sozinha?
-
Miguel aí vem; está se fazendo de rogado. Olhe!
Com
efeito, Miguel apareceu da outra banda da esplanada.
-
Quer campar de sério; mas aquilo é um maganão! Sonso como ele só; parece com
certa pessoazinha que cá sei.
-
Está bom, mano, eu lhe peço! balbuciou Linda acesa em rubores.
-
Então Miguel, chegas ou não chegas? Queres um cavalo para a viagem. Aqui tens.
E
o faceto rapaz apanhando um ramo seco, fez dele um cavalo de pau, e lá se foi
galopando oferecer a montaria ao camarada.
-
Sai! Não estou para brincadeiras, disse Miguel.
-
Que têm você hoje? Chegam aqui ambos de nariz torcido... Acaso viram borboleta
preta no caminho?
-
Assim, Afonso, brigue com ele! exclamou Berta batendo com a mão direita fechada
na palma da mão esquerda. Eu cá já estou contente; vi um passarinho verde!
-
Mas vamos a saber, Miguel! Se é comigo que você está zangado, diga a razão. Que
lhe fiz eu?
Tão
franca era a fisionomia de Afonso ao proferir estas palavras, e tão cordial
afeto ressumbrava de sua voz, que Miguel correu-se de seu injusto ressentimento
contra o amigo, e de todo lhe desvaneceram no coração os ressaibos de ciúme,
que o pungiam.
-
Engano seu, Afonso. Não estou zangado com você. Vinha pensando em uma coisa
desagradável, mas já se foi, respondeu Miguel com um sorriso de efusão,
apertando comovido a mão do camarada.
-
Ai! Ai! Cuido que houve sua briga entre os dois! Não lhe parece, Linda?
-
Não sei; por que haviam de brigar?
-
Pois eu lhe digo o que foi, acudiu Inhá. Miguel quis deixar-me no caminho e ir
caçar!
-
Ah! exclamou Linda, com um trêmulo na voz maviosa. Não queria vir!
-
Mas era só para me fazer pirraça! tornou Inhá. E senão veja, Linda; como eu lhe
disse que não me importava com isso e vinha mesmo, logo ele não falou mais em
caça, e veio pescar seu peixãozinho!...
-
Berta!... murmurou Linda puxando a manga do corpinho da amiga.
-
Uma piabinha do rio, não é, Inhá? dissera Afonso de envolta com uma gargalhada
gostosa, que Inhá acompanhava com os trilos argentinos de seu riso fresco e
puro.
-
Não sei de que estão a rir com tanto gosto, observou Miguel enleado, sem ânimo
de erguer os olhos para Linda.
-
Acham graça em uma coisa à toa.
Súbito
no mato soou um grito bravio, e logo após a voz estranha, ao mesmo tempo
saturada de dor e impregnada de sarcasmo, lançou em uma gama estridente este
clamor incompreensível:
- Til!... Til!...
Til!... Oh! Til!...
XII
IDÍLIOS
Eram
freqüentes os encontros dos dois lindos pares de passeadores no Tanquinho.
Vinham
semanas em que se repetiam todas as manhãs, a menos que as chuvas não
permitissem, ou que Berta e Miguel fossem à casa das Palmas, o que sucedia
regularmente aos domingos e dias de festa.
O
amor, tão bonina dos prados, quanto rosa dos salões, quando o orvalham risos da
mocidade; o amor puro e suave, como a cecém daquele prado, tinha já florido os
corações que lhe respiravam pela manhã os agrestes perfumes.
Nem
isto é mais segredo; e, pois, não se comete uma indiscrição em contar o que só
não sabiam D. Ermelinda e seu marido.
Afonso,
este namorava Berta às escâncaras, com o recacho e brinco próprios de seu
gênio. Essa mesma sinceridade e desplante de seu afeto eram véu para ocultá-lo
a olhos suspicazes. Quem o via sempre a gracejar com a menina, acreditava que
isso não passava de travessura de moço folgazão sem tinta de malícia.
Linda,
quando os olhos de Miguel pousavam-lhe na face, corava e sentia o tímido
coração bater apressado. Não raro, o instinto de delicadeza que recebera de sua
mãe, advertia-lhe da distância que separava dela o moço pobre e de mesquinha
condição.
O
amor, porém, é contagioso, com especialidade na solidão, onde a alma tem
necessidade de uma companheira, e quando de todo não a encontra, divide-se ela
própria para ser duas: uma, esperança; outra, saudade.
As
confidências do irmão; as longas e constantes conversas a propósito do mesmo
tema, sempre novo; os episódios singelos do idílio, arrufos ou encantadores
segredos; essas asas fagueiras do amor roçavam a todo o instante o coração da
moça e deixavam-no impregnado de ternura afetuosa. Entretanto Miguel não se
apercebia disso. Acreditava sim, que Linda o tinha em estima por causa de
Berta, e dispensava com ele o trato ameno e gentil, inspirado pela bondade
d’alma e fina educação.
Assim,
voltava ele à menina um respeitoso afeto, ungido pela gratidão que nele acendia
as maneiras singelas e benévolas da moça; e também repassado da serena
admiração de artista que sentia ao contemplar-lhe a peregrina beleza. Mas não
lhe pulsava o coração com os ímpetos da paixão; nem a imagem graciosa de Linda
flutuava nas cismas de sua fantasia.
A
presença da moça produzia-lhe na alma certo refrangimento, embora de grata
deferência; era como a palma do jeribá que fecha com os relentos da noite, e
somente se engrinalda e brilha aos raios do sol.
Para
Miguel os momentos de expansão e doce contentamento não eram tanto esses
passados aí no Tanquinho, como os outros mais festivos e mais lembrados em que
sós, Inhá e ele, atravessavam a várzea na ida e na volta.
De
Berta, que direi? Com todos brincava; a todos queria bem, e sabia repartir-se
de modo que dava a cada um seu quinhão de agrado. Em roda ferviam os ciúmes de
muitos que a ansiavam só para si, e penavam-se de vê-la desejada e querida de
tantos. Mas como um sorriso ela trocava tais zelos em extremos de dedicação, e
o pleito já não era de quem mais recebesse carinho, e sim de quem mais daria em
sacrifício.
O
gracioso e ingênuo sorriso de seus lábios, era o mesmo, desfolhando beijocas na
face de Linda, como zombando de Afonso ou ralhando com Miguel. Não fora o
recato da educação, que ela seria muito capaz de fechar os olhos e à sorte
lançar o beijo, como um pombinho, para qual dos três mais ligeiros o apanhasse.
Se
D. Ermelinda soubesse das freqüentes entrevistas no Tanquinho e suspeitasse dos
tácitos emprazamentos que se davam os camaradas, por certo já teriam eles
cessado; pois não escaparia à inteligente senhora o perigo de expor o tenro
coração de sua filha a uma paixão, bem possível senão provável de gerar-se
dessa íntima convivência, que não perturbavam outras diversões próprias para
ocupar o espírito de uma menina.
Na
casa das Palmas, porém, ignorava-se o habitual encontro; não que o negassem
Linda ou Afonso, ambos incapazes de uma mentira. Calavam-se; eis todo seu
pecado. De volta do passeio, em família, falavam várias coisas que tinham feito
ou observado; mas não tocavam em Berta e Miguel, ou faziam-no de longe.
Em
Linda era pudor: quando o nome de Miguel lhe pruria o lábio, ainda não o tinha
pronunciado, que sentia arderem-lhe as faces; e por isso o murmurava baixinho
dentro do coração. Daí provinha que vendo Afonso o vexame da irmã, por sua
parte sofreava nesse particular o seu gênio zombeteiro, e não tugia sobre as
entrevistas no Tanquinho.
Quando
D. Ermelinda e Galvão tomavam parte no passeio dos filhos, estes por um natural
acanhamento não dirigiam a excursão para o sítio favorito; no que os ajudava o
fazendeiro, mais solícito em mostrar à mulher a medra viçosa de sua lavoura,
que lhe estava prometendo abundantes messes.
Caso
alguma vez tomassem para aquele lado, Berta e Miguel pressentindo que os donos
da fazenda haviam de reparar se os encontrassem ali, e avisados de longe pelas
vozes, que repercutiam com sonoridade que lhe davam as abóbadas de verdura e os
acidentes do terreno, retiravam-se antes que chegassem.
Eis
como ignorava D. Ermelinda os idílios, que estavam compondo seus filhos,
naquele sítio pitoresco, onde bebia-se o amor como um doce efúlvio da natureza.
Tudo ali penetrava o coração de emoções deliciosas. Pelo aveludado daquela
relva cintilante espreguiçava-se a imaginação, a sonhar o dossel de um divã. Os
sussurros da brisa nos palmares segredavam os ruge-ruges das sedas; e o
borborinho do arroio imitava o trilo de um riso fresco e argentino.
Quem
estivesse nesse lugar a sós cuidaria que aproximava-se uma virgem mimosa, de
fronte serena, olhar inspirado e fagueiro sorriso, perfumado de suave
fragrância. Quem ali fosse com uma gentil companheira, acreditaria por certo
que ela se transfundira nesse sítio nemoroso, como em um grêmio do amor; e nas
auras embalsamadas sentira-lhe o mago sorriso a bafejar-lhe as faces; no lago
dormente seus olhos límpidos a refletirem-lhe o céu de sua alma; nas hastes das
palmeiras, seu talhe mil vezes esboçado com a mesma inata elegância; nas
laçarias e festões de trepadeiras floridas, os folhos do amplo vestido; e na
pelúcia da grama cambiante às depressões do terreno, a voluptuosa flexão das
formas debuxadas pelo corpinho de verde cetim. Como era possível não amara
naquela mansão, onde tudo cantava, sorria, palpitava e respirava amor?
A
quem era dado abjurar nesse templo nupcial, onde celebrava-se o consórcio entre
o vigor e a graça, o perfume e a harmonia, o majestoso e o esplêndido?
Himeneu
eterno do vento com a floresta, do rio com a campina, do orvalho com a flor, do
sol com a sombra, do céu com a terra.
XIII
SUSTO
Na
primeira surpresa do grito inesperado, tiveram os companheiros de passeio um
ligeiro sobressalto; mas rápido se desvaneceu.
Tornaram,
pois, à conversa, indiferentes ao que passava daí distante; apenas Berta,
separando-se do grupo, subiu a correr a assomada da colina, curiosa que estava
de saber donde partira o clamor.
-
Gosta muito de caçar? perguntou Linda com certo enleio a Miguel como se não o
conhecesse de muito tempo a seus hábitos.
Mas
quem não sabe que ternos segredos e confidências recônditas se insinuam muitas
vezes em uma pergunta banal, feita por lábios amantes? Não estava porventura
transpirando das palavras da moça um queixume pela preferência dada a uma
distração que ela não partilhava?
-
É um meio de passar o tempo, respondeu Miguel.
-
Não lhe diverte mais ler? Mamãe deu-me um livro mui lindo, que eu acabei ontem.
É a Cabana Indiana. Eu lhe... Mano podia emprestar-lhe.
-
Já li; disse simplesmente Miguel.
-
Não é tão bonito?
-
Muito.
-
Eu queria ter uma cabana assim, continuou Linda.
Miguel
sorriu-se da inocente fantasia da moça, e ela, rasteando-se em seu espírito o
fio daquele pensamento, sem aperceber-se de que podiam perscrutar-lhe o resto,
voltou-se de novo para o moço.
-
O senhor não deseja formar-se?
-
Era o meu sonho! replicou Miguel vivamente; e logo retraindo-se ao habitual
sossego:
-
Mas para que pensar nisto?
-
Mano vai no fim deste ano. Podiam ir juntos; seriam dois camaradas para se
ajudarem.
-
Para viver lá em São Paulo
e lá estudar, é preciso ter dinheiro; e esse me falta, disse Miguel em tom de gracejo.
-
Papai lhe empresta.
-
Não duvido; mas o difícil é pedir-lhe eu.
-
Por que razão?
De
boa vontade, riu-se Miguel da insistência da menina:
-
Quem nada tem de seu, não pede emprestado; salvo quando não pretende pagar.
-
É verdade!
Miguel
recobrara o bom humor que perdera um instante com os motejos de Berta; e
divertia-se com os projetos que Linda formava a seu respeito. Não era ele
desses que lançavam à conta dos ricos e fartos a culpa de sua pobreza, e se
despeitam contra o mundo da ingratidão da fortuna. Aceitava sua condição como
um fato natural e com certa filosofia prática, rara em mancebos.
-
Pensando bem, é melhor assim, disse ele a Linda; se eu me formasse, teria
ambições que não são para mim, e viria talvez a sofrer grandes dissabores;
enquanto que ficando no meu canto, viverei tranqüilo junto daqueles a quem amo.
Para que há de a gente afligir-se por coisas que não valem senão dissabores,
como vejo tantos fazerem por aí?
Afonso
tinha-se apartado, e dando volta ao outeiro preparava-se para pregar em Berta
uma das peças costumadas. Já ele se esgueirava sorrateiramente entre a folhagem
para tomar de surpresa a menina, quando esta que estivera a olhar na esplanada
alguma coisa que lhe chamava a atenção, desceu a correr para a figueira e veio
interromper o colóquio.
-
Onde vai o sr. Galvão?
-
Papai foi a Campinas, onde pretende se demorar alguns dias, respondeu Linda.
-
Você não me disse nada.
-
Só ontem ele resolveu e contra a vontade de mamãe que ficou tão assustada.
-
Por que? perguntou Migue.
-
Tem-se falado de esperas que andam fazendo aqui perto, e ontem apareceu junto
da fazenda um homem muito mau.
-
O bugre!
-
Jão Fera? exclamou Miguel trocando um olhar com Inhá.
-
Isso mesmo.
Berta
cobriu-se de uma lividez mortal, e sua mão trêmula constringiu o seio como para
reter o coração que lhe fugia.
-
Eu também, prosseguiu Linda sem notar a perturbação da amiga, estou bem
assustada. Não quis mostrar para não agoniar mamãe ainda mais do que ela
estava; porém quando me lembro que papai tem de passar por esse lugar da Ave-Maria
fico fria e toda trêmula.
-
Ora menina, deixe-se de faniquitos, replicou Afonso a rir. Senão já chamo o tal
Jão Fera para tirar-lhe o susto. É como se faz com as crianças, para não terem
medo do calhambola.
-
Esteja sossegada, que nada há de acontecer; eu lhe prometo! disse Miguel.
-
Obrigada! Mas papai demorou-se muito. Para a hora que saiu já devia estar bem
longe.
Fazendo
este reparo dirigiu-se a Linda ai outeiro para observar o caminho. Miguel foi a
seguindo, esforçando por manter-se de ânimo sereno a fim de não redobrar o
susto da moça. Entretanto não deixava ele de estar inquieto e impressionado,
recordando-se do encontro que tivera há pouco tempo com o feroz capanga, e
sobre o qual julgara prudente calar-se.
-
Agora é que passou a ponte! acudiu Linda com a satisfação de ver o pai, e a
preocupação do motivo daquela demora.
Ela
não sabia do incidente da volta por causa das amostras; mas era ele tão natural
que ocorreu a Miguel.
-
Talvez tivesse esquecido alguma coisa.
-
Há de ser isso. Vamos, mano, que são horas.
-
Onde está Berta? perguntou Afonso que a procurava desde alguns instantes.
-
Escondeu-se conforme o costume para fazer tutu! respondeu Miguel.
-
Berta! chamou Linda.
-
Aqui não está. Já corri tudo.
-
Dê lembranças a ela, Miguel; não posso esperar; já é tarde.
-
Aí adiante a encontra de emboscada no caminho, Linda.
-
Se eu a pilho! disse o Afonso apertando a mão de Miguel.
Os
dois irmãos atravessaram a capoeira, espreitando por entre as folhas, mas não
viram sombra de Berta.
Nesse
momento soou de novo o mesmo estranho clamor que antes se ouvira; mas desta vez
gania a voz com tal ímpeto e frenesi que estrangulava-se.
-
Til! Til! Til...
Na
roça estavam os pretos no eito, estendidos em duas filas, e no manejo da enxada
batiam a cadência de um canto monótono, com que amenizavam o trabalho:
Do
pique daquele morro
Vem descendo um cavaleiro
Oh! Gentes, pois não verão
Este sapo num sendeiro?
Adubavam
o mote com uma descomposta risada e logo após soltavam um riso gutural:
-
Pxu! Pxu!
Tem
os pretos o costume de entressacharem nas toadas habituais, seus improvisos,
que muitas vezes encerram epigramas e alusões. Bem desconfiavam, pois, o feitor
de que a tal cantiga bulia com ele, e o sapo não era outro senão um certo
sujeito bojudo e roliço, de seu íntimo conhecimento; mas fingia-se despercebido
da coisa.
Quando
passaram os dois irmãos, a um sinal da cabeça de eito, os pretos fizeram um
floreio de enxadas, suspendendo-as ao ar com a mão esquerda, e com a direita
pediram a benção.
XIV
A
VESPA
Onde
sumira-se Berta, que não a descobria Miguel já cansado e aborrecido de a
procurar por quanta moita e sebe ali havia?
Ouvindo
Linda falar dos sustos de D. Ermelinda a propósito da viagem de Luís Galvão,
sofrera a menina um choque violento, que redobrou quando foi proferido o nome
de Jão Fera, o terrível capanga, a quem poucos momentos antes encontrara, e do
qual se contavam coisas inauditas.
No
olhar que relanceou-lhe Miguel, avivaram-se as palavras que recentemente haviam
escapado ao moço, quando falava das desgraças que sempre acompanhavam o
aparecimento daquele homem sinistro em qualquer lugar.
É
verdade que muitas vezes, como confessara a Miguel dissuadindo-o de tais
idéias, costumava ela encontrá-lo naquelas mesmas paragens, durante as longas excursões
que fazia pelos campos. Mas, recordando-se do aspecto e modo com que nessas
ocasiões lhe aparecia Jão, reconheceu que nessa manhã trazia o capanga no vulto
e no semblante o que quer que fosse de soturno e ameaçador.
-
Nos outros dias, parecia-me tão bom e humilde. Custava-me a crer todo o mal que
dizem dele; e até as vezes dava-me na vontade perguntar-lhe se era verdade. Mas
tinha pena dele. Havia de afligi-lo muito. São coisas ruins as que por aí
contam. Meu Deus! É possível que se mate gente assim com tamanha
barbaridade?... Aquela cara amarrada que ele tinha hoje; e os olhos fundos, e
os modos arrebatados... Bem se via que levava uma maldade no pensamento. E para
que nos veio seguindo por dentro do mato até junto da tronqueira, e depois
sumiu-se para a banda da Ave-Maria, de que Linda falou há pouco, e por onde o
sr. Galvão não tarda a passar?... Ah! o coração me diz: Ele está na tocaia, e é
para o sr. Galvão mesmo!
Estas
reflexões tumultuavam no espírito de Berta, que rompia o mato, fustigando o rosto
pelos ramos das árvores e magoadas as mãos em partir as enrediças.
Ao
recobrar-se do soçobro que tivera, escutando as palavras de Linda, ela
afastara-se a pretexto de subir de novo o outeiro, e certificar-se da altura em
que iam os viajantes. Descendo porém rapidamente a outra encosta, penetrou na
floresta e desapareceu, antes que pudesse o Afonso já à cata, seguir-lhe a
pista.
Valia
a Berta conhecer perfeitamente o sítio, que muitas vezes antes percorrera com
Miguel. A Ave-Maria ficava muito perto dali, para quem atalhava o caminho,
levando rumo direto por entre a brenha e ao longo do costão que alombava o
penhasco até a azinhaga. Uma vereda havia que serpejava pelo dorso do espigão e
saía no tope da garganta.
A
estrada principal da fazenda, por onde seguira Galvão, descrevia uma larga
curva contornando as terras a que servia de extrema, e vinha passar em pequena
distância à direita do Tanquinho, cerca de uma milha da casa das Palmas,
situada no recosto da esplanada.
Calculou
Berta portanto que tinha sobre o viajante um grande avanço e podia alcançar
antes dele a azinhaga, para certificar-se de que a passara incólume, ou para
salvá-lo de qualquer modo, que a menina não podia imaginar.
Para
isso, porém, era indispensável que o mato não lhe tolhesse o passo nem
embaraçasse a carreira; e pois buscava ela descobrir o trilho no alto do
espigão.
Não
pode achá-lo. A perturbação em que a deixara em choque, aumentada com a
convicção de estar Jão na tocaia, lhe roubara a calma necessária para
orientar-se no meio daquele dédalo inextricável, tecido pelas guitas dos cipós
e vergônteas das árvores.
De
súbito estremeceu ela, ouvindo estalar os ramos com violência despedaçados,
farfalhar a folhagem rudemente agitada e reboar nas abóbadas da floresta o
estrupido de um passo duro e pesado.
Gente
ou bruto, o que era, rompia pela mata abrindo passagem a rápida carreira, que
não encontrava obstáculo para detê-lo.
Dir-se-ia
a disparada de uma anta, se não fosse uma certa ondulação do rumor que indicava
não levar a corrido alvo certo, mas desviar-se para um e outro lado, fazendo
voltas, como se a dirigisse uma vontade, perplexa no rumo, embora impetuosa na
investida.
Parando
para concentrar um momento a atenção convenceu-se a menina que a seguiam; e sua
fronte decidida vibrou um gesto de soberba contrariedade. Chamando a si toda a
energia de seu caráter e todas as forças de sua fina têmpera, Berta de novo
arremessou-se, e rompeu o mato com o desespero de escapar à perseguição.
Infelizmente,
quando ela supunha ter ganho vantagem, caiu em uma sebe emaranhada; e aí ficou
enleada pelas meadas de enrediças que fazia entre os galhos das árvores um
tecido de folhagem. Debalde tentou a menina desvencilhar-se; cada vez mais se
prendia.
Entretanto
se aproximava dela rapidamente o som da outra corrida, e não tardaria muito que
chegasse ali.
Ocorreu
então a Berta uma idéia, encolhendo-se dentro do esconderijo, que lhe deparara
tão propício acaso, quedou-se à espera, sem rumor, cortando sutil com os dentes
as cordas dos cipós que a enleavam.
Chegou
enfim a corrida e passou como um turbilhão cerca de duas braças do lugar onde
ela estava sem que se pudesse distinguir mais do que um vulto pardo, que
bruxuleou entre o maciço da folhagem. Algum tempo aquele tropel serpejou cerca,
até que perdeu-se na distância.
Surdiu
Berta do esconderijo, onde aproveitara o tempo, não só a destrinçar a teia que
a envolvia, como a coligir as vagas lembranças daqueles sítios. Lá não muito
longe, vira ela sob as crastas de verdura descarnar-se o rochedo; a vereda
passava por cima.
Caindo
em fim no treito, precipitou a corrida, e de um fôlego chegou à brenha da
azinhaga. Aí hesitou um instante. Em que ponto do despenhadeiro estaria de
emboscada o capanga? Onde e como descobri-lo? Chegaria a tempo? Não seria
frustrada a louca esperança que a trouxera?
A
cada momento parecia-lhe que estourava o bacamarte, ali talvez bem perto dela;
e que todo seu impetuoso afã não lhe servira senão para ser testemunha de uma
atrocidade infame: o assistir aos últimos arrancos do fazendeiro, a quem viera
salvar.
Nisto
soou rumor do lado das Palmas. Já o estrupido reboava nas lôbregas socavas,
sinal de que os animais pisavam a chapada que servia de respaldo à entrada do
despenhadeiro. Era Luís Galvão, não podia ser outro.
Cega,
desvairada, a menina quis arrojar-se naquela direção para fazer parar o
viajante e impedir-lhe que passasse. Mas diante dela abria-se um barranco
profundo. Lançando olhos ansiados em torno, lobrigou entre a folhagem um vulto
negro; e ficou hirta. Reconhecera a camisa de baetão preto que trazia naquela
manhã Jão Fera; e a um movimento de cabeça vira o colo musculoso distender-se
como serpente.
Era,
com efeito, o capanga, que, advertido pelo tropel dos animais, espreitava, com
a faca apunhada, o momento de arrojar-se à frente.
Como
dissera Luís Galvão ao almoço, o bugre não feria de emboscada; lutava de rosto,
e corpo a corpo, barateando a vida. O bacamarte descansava encostado ao tronco;
e o chapéu caído ao chão, deixava em pleno ar a cabeça revolta, que fervia-lhe
com o jorro de sangue arremessado pela sanha a subverter-lhe o coração.
Aproximava-se
Luís Galvão; e Berta presa de um espasmo de horror, que lhe sufocara a voz e
crispara o corpo, não podia soltar um grito, nem dar um passo para preveni-lo.
Chegara
o fatal momento.
Colhendo
o lombo como o tigre para distender o salto, Jão Fera arrancou. A nuca, porém,
lhe vergara contra os ombros, ao impulso de mão invisível que lhe travara os
cabelos. Ao mesmo tempo soava-lhe ao ouvido uma palavra soturna, mas carregada
de cólera e desprezo:
-
Malvado!...
O
capanga voltou-se rápido e feroz como o tigre picado pela vespa. Estava em face
de Berta.
XV
O
RELICÁRIO
Era
medonha a catadura de Jão Fera quando voltou-se.
A
fauce hiante do tigre, sedento de sangue, ou a língua bífida da cascavel, a
silvar, não respirava a sanha e ferocidade que desprendia-se daquela fisionomia
intumescida pela fúria.
Berta,
ao primeiro relance, sentiu-se transida de horror; e o impulso foi
precipitar-se, fugir, escapar a essa visão que a espavoria. Reagiu, porém, a
altivez de sua alma e a fé que a inspirava.
Travando
as mãos ambas um galho que encontraram acaso atrás da cintura, e crispados os
braços como duas molas de aço brandidas, conseguiu manter-se com o talhe ereto
e a fronte sobranceira, arrostando em face aquela rábia formidável, que
terrificaria ao mais bravo.
Jão
Fera, reconhecendo a menina através da nuvem de sangue que lhe inflamava o
olhar, e vendo-a afrontar-lhe os ímpetos, não abateu logo de todo o fero senho,
mas foi-se aplacando a pouco e pouco. A ira que se arrojava do seu aspecto,
retraiu-se e de novo afundou pelas rugas do semblante, como a pantera que
recolhe à jaula, rangendo os dentes.
Sua
alma se impregnava do fluido luminoso dos olhos de Berta, e ele sentia-se
trespassado pelo desprezo que vertia no sorriso acerbo esse coração nobre e
puro, sublevado pela indignação. De repente começaram a tremer-lhe os músculos
da face, como os ramos do pinheiro percutidos pela borrasca; e as pálpebras
caíram-lhe, vendando-lhe a pupila ardente e rúbida.
-
Estavas aqui para matar alguém? perguntou a menina com um timbre de voz,
semelhante ao ringir do vidro.
Respondeu
o capanga com uma palavra, que em vez de sair-lhe dos lábios, aprofundou-se
pelo vasto peito a rugir como se penetrasse em um antro.
-
Estava.
-
Que mal te fez essa pessoa?
-
Nenhum.
-
E ias assassiná-la?
-
Pagaram-me.
-
Então, matas por dinheiro? perguntou Berta com a veêmencia do horror, que lhe
causava essa torpe exploração do crime.
-
É meu ofício! disse Jão Fera com uma voz calma, ainda que grave e triste.
-
E não te envergonhas?
Com
um assomo de soberba indignação foram proferidas estas palavras pela menina
cujo olhar vibrante flagelava as faces do sicário. Este erguera a fronte num
ímpeto de revolta, pungidos os brios pela humilhação:
-
Envergonhar-me de que? Não feri, nunca feri homem algum de emboscada, às
ocultas, a meu salvo. Ataco de frente, a peito descoberto. Se mato é porque sou
mais valente e mais forte; mas arrisco minha vida, e umas quantas vezes, bem
mais do que esses a quem despacho, pois sou um só contra muitos.
-
Que importa isso? A miséria está em venderes a vida de teu semelhante, se acaso
és tu homem e não fera como te chamam.
Um
riso de ironia feroz arregaçou o lábio do capanga.
-
E a vida é coisa que não se venda? Aí estão comprando-a todos os dias e até
roubando. A minha, não a queriam, quando me recrutaram? Foi preciso barganhar
por outra, senão lá ia acabar em alguma enxovia.
-
Assim não te causa a menor repugnância derramar o sangue de teus semelhantes em
troca de alguns vinténs?
-
Sangue de gente, ou sangue de onça, todo é um; tem a mesma cor, e a mesma
maldade. Já estou acostumado com ele. Sente-se a fumaça do churrasco. Eu gosto!
Disse o sicário dilatando as narinas, como se esquisito aroma lhe prurisse o
olfato.
-
Tu és um monstro! disse Berta afinal com uma explosão de horror. Quando te
pintavam como um assassino, autor dos maiores crimes e capaz de cometer toda a
espécie de atrocidade, eu não queria crer; porque duvidava que um homem pudesse
transformar-se em um tigre carniceiro; e também porque tantas vezes te vi tão
sossegado e cuidados comigo, e eu não podia imaginar que se pudesse ter esse
rosto bom e tranqüilo, tendo-se dentro do coração uma caninana.
A
estas últimas palavras, em que a voz da menina sombreara-se com uma entonação
afetuosa, o corpo robusto do capanga oscilou com íntima e rija vibração, como o
prócero ibiratã quando a seiva exuberante irrompe lascando-lhe o tronco. Na
expansão violenta de sua alma, arrojava-se ele aos pés de Berta e ia cair-lhe de
joelhos, quando um olhar embaciado e glacial o reteve ofegante e esmagado:
-
Agora creio em tudo no que me disseram, e no que se pode imaginar de mais
horrível. Que assassines por paga a quem não te fez mal, que por vingança
pratiques crueldades que espantam, eu concebo; és como a suçuarana, que às
vezes mata para estancar a sede, e outras por desfastio entra na mangueira e
estraçalha tudo. Mas que te vendas para assassinar o filho de teu benfeitor,
daquele em cuja casa foste criado, o homem de quem recebeste o sustento; eis o
que não se compreende; porque até as feras lembram-se do benefício que se lhes
fez, e tem um faro para conhecerem o amigo que as salvou.
-
Também eu tenho, pois aprendi com elas; respondeu o bugre; e sei me sacrificar
por aqueles que me querem. Não me torno, porém, escravo de um homem, que nasceu
rico, por causa das sobras que me atirava, como atiraria a qualquer outro, ou a
seu negro. Não foi por mim que ele fez isso; mas para mostrar ou por vergonha
de enxotar de sua casa a um pobre diabo. A terra nos dá de comer a todos e
ninguém se morre por ela.
-
Para ti, portanto, não há gratidão?
-
Não sei o que é; demais, Galvão já pôs-me quites dessa dívida da farinha que
lhe comi. Estamos de contas justas! Acrescentou Jão Fera com um suspiro
profundo. Assim não era por ele que eu o queria poupar; mas por outra pessoa.
O
capanga quis fitar na menina a pupila ardente; mas não teve forças de erguer o
olhar, que pesava-lhe como uma trave e abatia-se no chão:
-
Foi por mecê, disse a voz submissa.
-
Por mim? Por mim; e entretanto estavas aqui; e ias matá-lo?
-
Quando ajustei, não sabia e gastei o dinheiro. Agora não tenho para
restituir...
-
Pois eu não quero, ouves, não quero que lhe toques!
Jão
Fera estremeceu:
-
Empenhei minha palavra! disse o capanga inflexível como a fatalidade.
-
Desempenha!
-
Se pudesse! exclamou Jão com o acento do desespero, e concluiu sucumbido:
-
Não tenho quarenta mil réis!
Um
riso estridente de cólera escarninha agitou o lábio de Berta.
-
Dinheiro? Por que não o roubas? Tens vexame? Um assassino que farta-se de
sangue, com o escrúpulo de meter a mão na bolsa alheia. Ah! Ah! Ah!...
A
tortura que sofria Jão Fera não se descreve. Foi com a voz estrangulada por
dores cruentas que ele balbuciou:
-
Jão Bugre é um homem de honra!
-
Ah! és um homem de honra! Pois então vai, corre! Aquele que escapaste de
assassinar te dará de esmola o preço por que ajustaste sua morte, como te deu
outrora o pão com que matavas a fome!
Ante
este último e pungente sarcasmo o capanga sucumbiu, desfigurando-se
horrivelmente. Nas crispações do rosto, como nos espasmos das pupilas,
sentiam-se as vascas da convulsão que laborava aquela alma.
-
Jura que o respeitarás!
-
Não posso! murmurou o capanga com um arranco.
-
Jura!
-
Minha palavra!...
Era
tal a angústia dessa voz soluçante, arquejada por uma ânsia do coração, e
tamanha desolação cobria aquela organização possante e indômita, agora esmagada
sob a mão frágil de uma criança, que Berta comoveu-se profundamente.
-
Toma, vende e desempenha a tua palavra!
E
estendeu-lhe a mão com o cordão de outro que tirara do pescoço e ao qual estava
preso o amuleto e a cruz.
-
O que! disse Jão abaixando a cabeça para distinguir o objeto, tão cedo estava
da agonia daquele transe.
-
O relicário de minha mãe!
Estalou
com um grito horrível e bravio o peito de Jão Fera, que arremessando-se longe,
desapareceu nas brenhas.
Foi
o tempo em que pela rampa do barranco despenhava-se um corpo humano, que veio
cair estrebuchando aos pés da menina, com a gorja a estertorar e os dentes a
ranger.
Berta
o reconheceu.
Era
Brás, o idiota.
XVI
A
SURA
Na
entrada do vale, onde assenta a freguesia de Santa Bárbara, via-se outrora à
margem do Piracicaba, encontra o rio, um velho casebre.
Era
uma antiga construção de taipa; e mostrava com pouca diferença o aspecto comum
às habitações medianas que, naquela parte da província de São Paulo, se
encontram de espaço em espaço pela beira do caminho e à distância dos arraiais
e povoados.
A
porta de entrada ficava no meio entre duas janelas estreitas em vez de vidro.
Tanto as portadas, como as folhas, estavam cobertas de uma pintura cor de
ferrugem, que destacava na parede da frente, branquejada com tabatinga.
A
um lado da casa cresciam umas encarquilhadas laranjeiras da China e um
pessegueiro; no outro havia canteiros, onde espigavam no meio da ervagem couves
gigantes, já com pretensões a arbustos, de tão velhas que eram.
Mais
longe, no gramado se erguia um frondoso pau-ferro, a cuja sombra costumavam se
abrigar da calma, durante a sesta, um cavalo magro, uma vaca e alguns
bacorinhos, que levavam o resto do dia a roer o capim já tosado até a raiz.
Mediavam
três dias depois que Berta salvara a vida a Luís Galvão, retendo o ímpeto de
Jão Fera.
Amanhecera
de pouco. Estava um dia de inverno frio e brumoso. Forte cerração cobria o
vale, condensando-se ao longo do rio. A trechos, grossos borbotões de neblina
mais espessa desdobravam-se do viso dos montes ao sopro da viração, e rolavam
como vagas por esse mar de névoas.
Vistas
através do véu, as árvores tomavam um aspecto pavoroso e fantástico, e às vezes
figuravam os espectros, de que a abusão povoa os ermos, a fugirem espancados
com os primeiros albores do dia.
Abriu-se
a porta que dava para a varanda, corrida nos fundos da casa, e assomou o vulto
gentil e esbelto de uma moçoila que trazia ao braço um saco de chita. Apesar da
cerração, era fácil de conhecer Berta, pela garridice petulante dos gestos e
meneios.
Aos
saltinhos, ganhou a menina o quintal onde havia um pequeno jardim, se tal nome
cabe a moitas de roseiras, manjericão e malmequeres plantados de mistura e sem
arte dentro de um cercado de varas, entre as quais estavam suspensos alguns
cacos de barro com pés de craveiros.
Apenas
afastou Berta a faxina que servia de porta ao cercado, saiu debaixo de sua
palhoça uma galinha sura e muito arrepiada. Não tinha pés a pobre, que lhos
havia roído à noite os ratos; andavam aos trancos, sobre os cotos que mal a
ajudavam a saltar, e incapazes de sustê-la, a deixavam cair a cada passo,
cobrindo-a de terra, o que a fazia mais feia ainda.
Tanto
que a avistou, correu a menina a seu encontro e tomando-a ao colo, deu-lhe a
comer um punhado de milho que tirou do saco. Farta a galinha da sua pitança,
levou-a Berta à bica, para matar-lhe a sede e lavar-lhe as penas sujas de
poeira e cisco.
Depois
que assim desvelou-se em pensar a pobre ave, dando-lhe nutrição e asseio, a
menina deitou numa palhoça, que a seu rogo fizera Miguel num canto do cercado,
para abrigo de sua protegida.
Nos
gestos de Berta, durante esses cuidados, já não se notava a travessa alacridade
que cintilava de ordinário em seus movimentos; e era, pode-se bem dizer, a
radiação de seu gênio. Sua graça então era séria; havia em seu lindo semblante
uma serena efusão da ternura que fluía-lhe dos olhos meio vendados e dos lábios
descerrados por um riso gentil.
Bem
se conhecia, ao vê-la embebida naquela ocupação, que não havia aí para ela
unicamente o atrativo de uma afeição de criança, como todos na meninice
sentimos, uns pelas bonecas, outros pelos cães ou passarinhos. Impulso mais
forte era o que movia o coração de Berta para aquele mísero ente, como para
todo o infortúnio que encontrava em seu caminho.
Ninguém
na casa se importava com essa galinha, a não ser para fazer-lhe mal. Antes de
perder os pés, por ser feia e arisca perseguiam-na a pedradas, quando aparecia
no quintal. Depois que a roeu a ratazana, esteve ameaçada da panela, donde a
salvou Berta, que desde esse dia a tomou a seu cuidado.
Daí
em diante, não houve mais quem bolisse com a sura; porque sabiam que não o sofreria
sua linda protetora. E como todos queriam a Berta de coração, o ponto era
mostrar ela predileção por alguma pessoa, ou mesmo objeto, que porfiavam por
lhe adivinharem os pensamentos.
Tendo
acomodado a galinha na sua capoeira coberta de palhas e mudado a água do caco,
a menina que derramara pelo chão um punhado de milho e couve, entreteve-se
alguns instantes a ver suas flores, umas já de véspera abertas, outras botão
como ela, esperando o primeiro raio de sol para desabrocham.
Entre
eles, colheu um de rosa que entrelaçou nos cabelos; e deixando o quintal, sem
demorar-se com as outras galinhas que a cercavam cacarejando, e às quais atirou
de passagem o resto do milho, ganhou o campo.
Estendia-se
este com pequenas ondulações até a margem do rio, que ficava a umas cem braças
da casa. Entre as pitas e crautás, que formavam touças aqui e ali, em torno de
algum arvoredo, serpejavam trilhos, cruzando-se em várias direções.
Seguiu
Berta por aquele que estendia-se na direção do rio. Não tinha, porém, dado
vinte passos, que voltou-se rapidamente, ouvindo rumor da porta da varanda que
outra vez se abria.
Por
entre a folhagem e através da neblina viu ela o vulto de Miguel, que parara no
quintal, volvendo o rosto de um a outro lado, como indeciso no rumo que devia tomar.
Adivinhou logo a menina que o rapaz lhe percebera a saída e vinha disposto a
acompanhá-la.
Ocultou-se
então em uma das touceiras, que embastiam as cortinas de erva-de-passarinho,
pendentes das ramas de uma velha laranjeira do mato. Daí observou Miguel, o
qual depois de vagar um instante perplexo pelo campo, meteu-se pela vereda
paralela ao rio, e pouco depois desapareceu por detrás de uma ponta de
capoeira.
Continuou
então Berta o seu caminho; mas receosa de que o rapaz a estivesse espreitando
ou voltasse de repente, ora avançava trêmula de susto, hesitando a cada passo e
de chofre escondendo-se atrás das árvores, ora disparava a correr para
encobrir-se no mato que bordava o sopé da colina.
XVII
ZANA
Ao
passar pela garganta de dois outeiros pedregosos, que formavam abraçando-se uma
estreita e úmida charneca, Berta bateu com força as palmas das mãos breves e
delicadas.
Ouvia-se
de perto um ornejo soturno, que mais parecia gemido; e logo depois surdiu
dentre o maciço da folhagem a enorme orelha de um burro, que a muito custo
movia o passo trôpego. De magreza extrema, ressaltavam os ossos a modo que
pareciam prestes a furar-lhe o couro. Era propriamente uma carcaça, coberta com
espessa crosta de lama, onde o animal estivera deitado e lhe secara no pelo.
A
outra orelha, que aparecia, a perdera ele na mesma ocasião em que de uma
foiçada lhe vazaram o olho esquerdo, levando-lhe boa parte da cabeça. Parece
que o arteiro do burro conseguira furar a cerca da roça de um caipira, e
regalava-se de milho verde e tenra fava. Mas saiu-lhe cara a gulodice.
No
mísero estado em que o pusera o caipira, pode, arrastando-se, chegar àquela
charneca, onde se deitou, quase moribundo, em um brejal. Com pouco os urubus
vieram pousar nas ramas da imbaúba.
Acaso
passou Berta pelo caminho e ouvindo gemidos, foi guiada pelos abutres, dar com
o animal agonizante no meio de uma touça de junça. Movida de compaixão, venceu
a natural repugnância que lhe devia causar o aspecto da ferida para lavá-la e
cobrir com folhas de fumo atadas por embira.
Do
fumo sempre ouvira falar como remédio para todos os achaques. Se não servisse
para ferimentos, em todo o caso guardava o talho contra as moscas e tavões.
Repetiram-se
estes cuidados, até que afinal começou a ferida a cicatrizar; mas deixara o
burro em tal lazeira, que ainda era duvidoso se escaparia. Não desanimou Berta,
em cuja alma se produziam na maior efervescência os transportes dessas
abnegações veementes, que são para certas naturezas uma necessidade
irresistível de expansão.
-
Coitado do cotó! Ainda está muito magricela?... disse a menina com um carinho
compassivo.
E
tirou do saco meia dúzia de espigas de milho, que o animal devorou com uma gana
de convalescência.
Debulhado
o último sabugo, farejou o burro o saco, donde se escapavam umas exalações que
lhe pruiam agradavelmente o olfato.
Rindo,
outra vez meteu Berta a mão no seu inesgotável saco e trouxe um punhado de
farinha que o burro lambeu-lhe das palmas. Dando então um ligeiro tapa na belfa
do animal, deitou a correr pelo campo fora seguindo a mesma vereda.
Atrás
de um fraguedo, cuja fralda atravessava o leito do rio, abrolhando-lhe a
corrente, existia naquele tempo uma casa em ruína. Já tinha desabado
metade da parede do sótão e o telhado abatia aos poucos, rompendo os caibros
podres.
Da
cozinha, que ainda se conservava em bom estado, com exceção da porta já tombada
ao chão pela ferrugem das dobradiças, saía um som roufenho e soturno, como o
grunhido de um porco. Acocorada a um canto, com o queixo sobre os cotovelos
fincados ao peito cerrando a cara, descobria-se uma criatura humana, dobrada
sobre si a modo de trouxa.
Era
uma preta velha, coberta apenas de uma tanga de andrajos, e que resmoneava,
batendo a cabeça com um movimento oscilatório semelhante ao do calangro. De
tempo em tempo desdobrava um dos braços descarnados, insinuava ligeiramente a
mão pela espádua, e fazia menção de matar uma pulga que imaginava ter presa
entre o polegar e o indicador.
Havia
algum tempo já que Berta parara à porta da cozinha, sem que a estranha criatura
desse o menor sinal de a ter percebido.
-
Zana! disse afinal a menina.
Estremeceu
a negra, e pôs-se a escuta daquela voz, como se viesse de longe, de bem longe,
e só mui de leve lhe ferisse as ouças. Não se repetindo o chamado, voltou à
primeira posição e continuou a resmonear, abanar a cabeça coberta de uma
carapinha grisalha da cor de lã churra do carneiro.
Entretanto
Berta aproximou-se de uma prateleira que havia na parede, junto ao fogão, para
esvaziar ali o resto do saco. No velho alguidar esborcinado, deitou a farinha
de milho; e sobre a tábua algum feijão e torresmos de carne de porco,
embrulhados em folhas de couves.
Recostando-se
então à aba da prateleira, a menina com os olhos fitos na preta começou em um
tom brando e suavíssimo a repetir este acalanto:
Cala
a boca, anda, nhazinha,
Ai-huê, lê-lê!
Senão olha, canhambola,
Ai-huê, lê-lê!
Vem cá mesmo, Pai Zumbi,
Toma, papanha Bebê!
À
proporção que a menina cantava, à preta desrugava-se o rosto contraído por um
espasmo, que lhe deixara impressa no semblante alguma profunda angústia. Uma
vaga expressão de sorriso chegou a iluminar aquela fisionomia bruta e
repulsiva. Os olhos pouco antes baços e quase extintos desferiram um lampejo, e
vagando um instante pelo aposento, se fixaram enfim no vulto de Berta.
-
Bebê!... regougaram os grossos beiços da negra com uma voz que não parecia
humana, embora repassada de extrema doçura.
Depois
arrancou do peito cavernoso a mesma toada do acalanto, cujas palavras truncava
por forma que somente se percebia delas a sonância confusa e estranha.
Dir-se-ia que ela cantava em algum dialeto africano, tão bárbara era a
pronúncia com que se exprimia.
Entretanto
fora dela mesma que Berta aprendera a cantilena por tê-la ouvido repetir muitas
vezes. Imagine-se que esforço de paciência e atenção não fora necessário à
menina para decifrar entre os sons ignotos e quase inarticulados, as palavras
da cantiga, que ela dantes nunca ouvira.
Mas
a pobre louca era uma das misérias sobre que se derramava como bálsamo a alma
de Berta. Desde criança se habituara a passar aí algumas horas, de quando em
vez; tornando-se moça vinha regularmente duas vezes por semana visitar a sua
protegida e trazer-lhe o sustento.
Esperou
Berta com a maior paciência que Zana acabasse de cantar; e então mostrando-lhe
as provisões conseguiu que ela comesse alguns bocados dados por sua mão. Para
que a doida abrisse a boca, porém, era necessário que a menina estivesse a
repetir de momento a momento duas palavras que pronunciadas por sua voz
carinhosa produziam sobre esse espírito enfermo um efeito mágico.
-
Zana, bebê!...
XVIII
A
VISÃO
Sentara-se
Berta na soleira da porta da cozinha, e com a vergôntea que partira do galho
seco de um marmeleiro, traçava letras no chão do quintal.
Eram
iniciais de nomes, que ela tinha no coração ou na memória; e naquele momento de
cisma lhe acudiam de envolta com as recordações de sua modesta existência, à
qual estavam entrelaçadas.
De
instante a instante, voltava o rosto para observar Zana, que já completamente
alheia e despercebida de sua presença, continuava a menear a cabeça com a mesma
incompreensível surdina; ou arrancava da taipa um torrão de barro, que
mastigava com avidez.
Nessas
ocasiões fitava Berta os olhos em uma réstia de sol, que, penetrando pela
fresta praticada no alto da parede exterior, cortava obliquamente o aposento
com uma faixa de luz. O raio esbatido na taipa do fundo se inclinava
gradualmente com a elevação do sol no horizonte, e descia vertical sobre o
canto onde se acocorava habitualmente a louca.
A
folhada crepitou com um estalido cadente, que indicava passo de homem ou animal
a caminhar por entre o matagal que cercava as ruínas e ameaçava afogá-las sob a
basta ramada.
Olhava
a menina assustada para o lado de onde viera o rumor, quando na balsa fronteira
lobrigou um vulto pardo que resvalava por detrás do tapigo, e cujo ofego
sussurrava entre as folhas.
Ligeira
escondeu-se Berta na cozinha, e por uma fenda que havia no aposento próximo,
outrora dispensa, espreitou o circuito. Mas um incidente a distraiu desse
propósito, chamando sua atenção para o interior.
A
réstia de sol, descendo, batera na cabeça de Zana, que se ergueu esfregando os
olhos, e aproximou-se do fogão. Agachada em frente ao bueiro, começou a soprar,
como se houvesse ali nas grelhas algum brasido coberto pelo borralho;
entretanto o tijolo gretado, que servia de lareira, já não conservava nem
restos de cinzas.
Depois
de algum tempo empregado na quimérica operação de acender um fogo ausente, a
louca foi à prateleira buscar uns cacos de telha, que se lhe afiguravam panelas
ou frigideiras; e fez menção de lavar o trem de cozinha, para preparar a
comida.
Em
meio dessa ocupação, de chofre voltou ela a cabeça, aplicando o ouvido, à guisa
de quem escuta um chamado, e para acudir arrancou do peito um grito áspero e
gutural:
-
Inhá!...
Imediatamente
deixou o fogão, depois de por os testos às panelas, e dirigiu-se pelo corredor
à sala da frente, donde passou à alcova próxima. Não havia aí ninguém; as
paredes esboroavam-se; o teto de fasquias de taquara caía aos pedaços, e as
tábuas do soalho rangiam sobre os barrotes carcomidos.
Zana
tinha parado junto à porta, em atitude de escutar outra pessoa, que por ventura
ali estivesse a falar-lhe. Os gestos rudes, mas expressivos; os esgares vivos e
rápidos, que lhe cambiavam a móbil fisionomia, indício eram das impressões
encontradas que abalavam esse espírito embotado.
Seguira
Berta com ansiosa atenção os passos da louca, decorando seus menores movimentos
e observando-lhe amiúde a expressão do rosto. Cosida a ela como a sombra ao corpo,
roçando-a muitas vezes a seu pesar, ou bafejando-lhe o rosto com o hálito,
quando acaso se inclinava para espiar-lhe o semblante, nem assim Zana dava fé
de sua presença.
Desde
algum tempo, em uma de suas visitas, reparou Berta na singular mímica da doida,
e de princípio não viu nisso mais do que um efeito natural da loucura. Mais
tarde, porém, notando a insistência com que a negra repetia os mesmos
movimentos, e ordem em que eles se sucediam, suspeitou a menina um mistério.
Não
seria essa pantomima a representação muda de uma cena que ali, naquela casa em
ruínas, passara outrora, e abalara a alma da negra a ponto de a subverter e
alucinar?
Assim
como dizem que a pupila conserva a imagem da última visão, não sucederá o mesmo
com o espírito, e não ficará nele gravado, como em estereótipo, o quadro que
iluminaram os últimos clarões da razão extinta?
Foi
este pensamento de Berta, que, atraída pelo encanto desse mistério, empenhou-se
em perscrutar esse ermo onde jazia no seio de uma casa e de uma consciência, ambas
em ruínas, o arcano impenetrável.
De
tantas vezes que assistira àquele esboço rude e taciturno de uma tragédia
ignota, já conhecia Berta de todos os seus episódios e incidentes, que mais
tarde ela reproduzia de memória com o afã de penetrar-lhes o sentido oculto.
Até
o momento em que Zana
entrava na alcova, era fácil de compreender o fato que a reminiscência da doida
retraçava tão ao vivo.
A
preta, que era naturalmente a cozinheira da casa, despertada pelo sol, do
costumado cochilo, acendera o fogo e preparava o almoço, quando ouviu
chamarem-na do interior. Deixou a ocupação, e acudiu alguém, que estava na
alcova.
Aí
ouviu assustada e com espanto o que lhe dizia essa pessoa, e, achegando-se à
janela na ponta dos pés, enfiou os olhos na direção que lhe fora indicada.
Assim permaneceu algum tempo, até que recuou espavorida, com a máscara do
terror no semblante e os ossos dos joelhos a estalarem, batendo um contra o
outro.
O
que vira ela?
Não
pudera a menina atinar ainda, nem com a explicação desse terror, nem com o
resto da história, que de mais se complicava.
No
meio do súbito pavor, cobrava Zana a vontade, estendia os braços crispados,
parecia tomar um objeto que apertava ao seio convulso, como se quisesse
esconder ou sufocar; e atirava-se fora do aposento com um ímpeto de horror que
a levava até um cubículo da cozinha, onde fazia sua dormida.
Dir-se-ia
que deitava o fardo no chão e corria ao fogão para tirar dali alguma coisa, que
depois de moída espalhava nas palmas das mãos para ir esfregar o objeto escondido
no cubículo.
Saía
então ao terreiro, e passeava de um a outro lado com os modos de uma ama,
ninando criancinha de colo. Era nessa ocasião que, balançando o corpo, com os
braços arredondados ao peito, ela entoava a monótona cantiga, que Berta conseguira
decifrar.
De
repente transmudava-se completamente a doida, passando daquela extrema
volubilidade a uma apatia balorda. Parecia fazer-se um vácuo em suas
reminiscências, que fugiam-lhe deixando a alma sepultada se intrumescia com a
expressão do idiotismo.
Nesse
estado de estupor, vagava a passos trôpegos pela casa, até que parava
automaticamente na porta da alcova e estendia o pescoço para dentro. Devia de
ser de ser horrível o espetáculo que ali surgira a seus olhos, porque depois de
tantos anos, a só imagem a fulminava.
Erguia-se-lhe
o corpo hirto; um grito de terror estalava no peito e vinha estrangular-se nas
fauces. Volvia sobre si; e tombava ao chão, como uma pedra.
XIX
O
DESCONHECIDO
Tal
era o esboço grosseiro do misterioso drama, que ali se representara e do qual
Berta debalde se empenhava em devassar o segredo.
Mais
estimulava a sua curiosidade o cuidado com que em criança a tinham arredado da
casa em ruínas, já inspirando-lhe um terror supersticioso da louca, já
recomendando-lhe que nunca se dirigisse para aquela banda.
Também
quando a menina queria saber a história de Zana e a razão por que a negra doida
ali vivia abandonada numa casa em ruínas, que devia ter pertencido a pessoa
abastada, ninguém lhe respondia; mas procuravam uma evasiva para não falar
sobre tal assunto.
Tudo
isto, longe de arredar a menina daquele sítio, bem ao contrário desenvolvia
nela uma dessas tentações de criança que não conhecem obstáculos. A pouco e
pouco, de susto em susto, animou-se ao cabo de muitas semanas a aproximar-se
das ruínas e observar Zana em distância, até que afinal se convenceu que era
uma criatura inofensiva a mísera doida.
Já
tinha então Berta seus quinze anos, e com a afoiteza da idade também ganhara
mais largueza e desenvoltura da ação para sair de casa e demorar-se fora sem
inspirar cuidados.
Berta
passava por enjeitada e ela o sabia, pois nunca lho ocultavam. Fora a mãe de
Miguel, nhá Tudinha, quem a recolhera e criara com o maior desvelo. Na casa,
porém, onde se achava emprestada e por comiseração, era ela a verdadeira
senhora, pois que os donos se faziam cativos seus e porfiavam em adivinhar-lhe
as vontades para satisfazê-las.
Sem
dúvida que nhá Tudinha queria mais bem ao filho de suas entranhas; mas não
tinha para ele os extremos, as debilidades e carinhos, que fazia por essa filha
de criação, a enjeitadinha. De seu lado, Miguel, embora se estremecesse pela
mãe, decerto que pensava mais em Berta, sua colaça.
Sentindo
a sedução que exercia em torno de si, não abusava todavia a menina,
transformando-se em uma pequena tirania doméstica, à imitação de certas
crianças dengosas. A não ser para conservar a liberdade, a que a habituara uma
educação campestre, no mais esquivava-se quanto podia ao império que lhe
deferiam os súditos de sua graça e gentileza.
Assim
explica-se como podia Berta passar horas e horas nas ruínas, observando Zana e
esforçando por desvendar o mistério dessa louca solitária, que ali vivia ao
desamparo, completamente esquecida e nutrindo-se de terra de raízes cruas,
antes que a menina se incumbisse da tarefa de prover a sua subsistência.
No
dia em que estamos não acabou Zana a pantomima de sua visão diária.
Quando
se aproximava pé ante pé da janela da alcova, em atitude de quem espreita, os
olhos da negra esbarraram com os de um homem. Era o Barroso que assomara de
dentro do mato, pouco antes, e dirigiu-se passo a passo para as ruínas.
Estremeceu
a doida, e tão violenta foi a propulsão, que a fez saltar sobre si. Com os
olhos esbugalhados, a boca escancarada e os beiços arregaçados, ficou banza um
instante; mas logo, espancada pelo terror, precipitou-se para fora tão
desastradamente que errou a porta e bateu em cheio na taipa.
De
novo arremeteu, e rechaçada pelo choque, andou aos embates contra a parede, até
que acertando com o vão da porta fugiu estremunhada de pavor.
Advertida
pelo primeiro sintoma de estupefação da louca, Berta seguindo-lhe a direção do
olhar, avistara também o Barroso, que nesse momento parado em face da janela, a
alguns passos apenas, a encarava com uma expressão de profundo rancor.
Teve
medo a menina, e recuou instintivamente. Estava acostumada a correr só os
campos vizinhos, onde freqüentemente encontrava caipiras e toda a casta de
gente malfazeja, de quem aliás nunca se receara. Esse homem, porém,
inspirava-lhe uma indefinível repugnância e terror.
Esteve
Barroso a considerá-la alguns instantes, com ar de quem se resolve. Por fim,
mascando um riso mau, que revia-lhe dos lábios, afastou-se murmurando:
-
Eu hei de saber! Ah! se fosse!...
Com
a partida do desconhecido, recuperou Berta a calma de espírito e volvia os
olhos pela sala procurando Zana, que vira fugir, quando lhe feriram o ouvido
gritos esganidos e sufocados, que vinham do terreiro.
Precipitando-se
da alcova, a preta viera até o terreiro da cozinha, onde, faltando-lhe as
forças, abateu-se como um fardo a que retiram o apoio.
Imediatamente
de dentro do balseiro saltou com o arremesso de um gato do mato uma estranha
criatura cuja roupa de grosso brim escorria para a ilusão. Acocorando-se em
cima do corpo inerte da louca, apertava-lhe ao pescoço as mãos crispadas,
procurando esganá-la, enquanto com os pés e os joelhos malhava-lhe o ventre.
Foi
esta cena cruel que Berta viu de relance ao chegar à porta da cozinha, chamada
pelos gritos. Arrojando-se do mesmo ímpeto ao terreiro, seus lábios lançaram
com um tom de severa exprobração o nome do perverso, que espancava tão
barbaramente uma criatura inofensiva.
-
Brás!
Não
se animou o rapaz a erguer a cabeça, tão acabrunhado ficara, e tão corrido de
sua barbaridade. Naquele instante não havia forças para obrigá-lo a fitar o
semblante de Berta, e afrontar a cólera de seu olhar.
Agachado,
como se quisera sumir-se pela terra a dentro, fugira ele antes que a menina
chegasse para tirar-lhe a preta das garras; e foi esconder-se por detrás de um
marachão da taipa, que esboroara da parede do outão.
Cuidou
Berta de levantar a cabeça da doida, na esperança de reanimá-la, o que só
conseguiu depois de muito tempo. Quando a preta se pode erguer, ajudou-a ela a
ganhar o cubículo, onde à noite se agasalhava a infeliz. Havia tempo que
trouxera a menina uma esteira, sobre a qual a acomodou, prometendo a si mesma
voltar logo mais com aguardente e pano para deitar sobre a contusão que tinham
deixado as mãos de Brás.
Este
continuava agachado por trás do medão de taipa; espiando à sorrelfa os
movimentos de Berta, quedava-se com a humildade do rafeiro quando espera que a
mão do senhor o fustigue pela falta cometida. Ao rumor dos passos da menina,
que vinha de seu lado, encolheu-se ainda mais; parecia concentrar-se todo para
o transe difícil.
Trazia
Berta no olhar uma profunda repulsão, e o lábio frisado por um assomo de
cólera. A perversidade do rapaz contra a mísera doida a revoltara dolorosamente
a ponto de esquecer que também esse ato cruel era de um espírito enfermo, e
quem sabe se mais digno de lástima.
Parou
ela em face do culpado, perplexa, hesitando por ventura no castigo que devia
infligir-lhe. Por fim deixou cair dos lábios um sorriso de desprezo e
afastou-se rapidamente.
Esperava
o rapaz uma severa repreensão. Este desprezo e repentino abandono, o
trespassaram de dor. Quis levantar-se para correr após a menina, e as pernas
lhe fugiram. Voltando-se ao rugido que ele soltara, o viu Berta de joelhos,
estorcendo as mãos súplices e esforçando arrancar das fauces uma palavra que o
sufocava.
-
Não! disse a menina.
Esta
palavra fulminou Brás, que estrebuchou no chão, estorcendo-se em uma convulsão
medonha, que dobrou-lhe o corpo hirto, como se fosse uma verga de chumbo.
Espumava-lhe a boca, e os dentes rangiam com horríveis contrações, que
deformavam-lhe o semblante.
Vencida
pela compaixão dessa agonia, Berta correu a ele; e sentada sobre a relva, o
tomou ao colo para amimá-lo como o faria a uma criança, acalentando-a com
meiguices e carinhos.
XX
A
POUSADA
Quem
transitava pela estrada de Campinas via, meia légua antes de Santa Bárbara,
dois casebres unidos por uma espécie de rancho ou telheiro.
Um
dos edifícios era bem velho, o outro novo, porém ambos de grosseira fábrica,
sem reboco nas paredes mal emboçadas, que mostravam entre os torrões de barro
as varas atadas com cipó aos frechais. O chão despido de ladrilho, ou qualquer
espécie de soalho, estava cheio de buracos e poças; de pintura não havia
traços, nem mesmo de uma simples caiação.
Na
extremidade da casa velha, as duas portas abriam para uma espécie de taberna, a
julgar pelo balcão de pau que dividia o aposento a meio, e por duas ou três
ordens de prateleiras, onde se viam alguns rolos de fumo em corda, rapaduras
envolvidas com palha de milho, e uma dúzia de garrafas arrumadas em fila.
Da
venda passava-se por uma porta lateral para o aposento próximo que, em sendo
preciso, servia de pousada.
Era
uma quadra de tamanho regular, Ao centro da parede interna encostava-se uma
tosca mesa, ladeada em todo o comprimento por um só banco estreito. Em cada
canto havia uma cama, cuja barra era feita de tiras de couro cru entretecidas a
modo de esteira.
Era
já sol fora.
Abrira-se
de pouco a taberna, que parecia deserta, como todo o resto da habitação. Ao
menos quem passava na estrada, acertando de enfiar os olhos pela porta, não via
no meio da silenciosa imobilidade do interior outro sinal de vida a não ser o
vôo das moscas pousando sobre o balcão para sugarem o mel de umas farpas de
rapadura, que ali tinham deixado os viajantes da véspera.
Não
era, porém, tão absoluta como parecia, nela a solidão.
Na
venda, por trás de uma quartola, arrumado em cima do balcão e de bruços neste,
cochilava um sujeito com a cabeça posta sobre os dois braços cruzados em cima
da tábua. Quando algum tropel soava na estrada, levantava ele a meio a testa, e
enfrestava pela aberta que havia entre a parede e o bojo da quartola uma vista
encadeada pela claridade. Passado que fosse o viajante, voltava à contínua
modorra.
Ainda
moço e robusto, derramava-se não obstante no físico desse homem certo ar de
indolência, que nesse momento mais se carregava com a sonolenta expressão do
rosto seco, pálido, baço, e levemente sombreado por alguns raros fios de barba.
O cunho especial dessas feições, e particularmente o viés dos olhos com os
cantos alçados para as têmporas, revelavam o cruzamento do sangue americano com
a casta boêmia.
Do
lado oposto da habitação, em um compartimento, que tinha jeito de varanda,
cozinha e pátio de criação, tudo ao mesmo tempo, fervia a panela posta em uma
trempe de pedra no meio do chão. O fogo, apenas alimentado por gravetos, mal
cozia o feijão e couves, destinados ao sustento daquele dia.
Fronteira
à janela, sentada ao chão, com os joelhos levantados e os braços caídos sobre eles,
estava uma rapariga de seus vinte e cinco anos, que parecia muito e muito
ocupada em observar a fervura da panela; pois não tirava dela os olhos, nem
fazia outra coisa. Perto dela jaziam, espalhados pelo chão, ou dentro de uma
gamela, vários pratos brancos de beira azul, uma tigela igual e algumas
colheres de estanho.
Diferentes
vezes já, a rapariga lançara um olhar de enfado para a louça ainda suja do
serviço da véspera, e alongava depois a vista pela porta afora até lá embaixo
no brejal, onde passava o rego da água, e media a distância a percorrer. Abria
então a boca em um interminável bocejo, espreguiçava o lombo estirando os
braços; e, quando parecia levantar-se para cuidar na lavagem dos pratos,
achatava-se ainda mais no chão, murmurando:
Tem
tempo!
Ouvindo
o estrumpido de animal na estrada, ergueu o sujeito a cabeça para olhar pela
fresta; e seu rosto debuxou, através da sorna habitual, um gesto de aborrimento
e agastadura, produzido pela vista do viajante que se aproximava.
Era
este homem de trinta anos, de tão alto e esguio talhe que se curvava ao peso de
uma cabeça enorme e guedelhuda, ou talvez pelo hábito de cavalgar derreado à
banda, como usam os caipiras. Sua fisionomia grosseira nada tinha de notável, a
não ser a malha que lhe marchetava de nódoas brancas a tez acobreada, bem como
as costas das mãos.
Vestia
um pala em bom uso, sobre fina camisa de morim e calça de brim de listra. O
chapéu era novo e de meio castor; as botas de couro de veado com chilenas de
prata. Trazia no arção da sela uma espingarda de dois canos, e na cinta uma
garrucha.
Parando
a mula à entra da venda, o cavaleiro bateu com o cabo de rebenque na porta,
gritando:
-
Oh! de casa!... Ainda se dorme por aqui, nhô Chico?... Querem ver que o diabo
do Tinguá está mesmo ferrado na soneira?... Foi volta de samba esta noite, e
samba grosso que deu de si até a madrugada. Não tem dúvida! Oh! lá de dentro!
basta de dormir! Já deve estar bem cozida a camueca!
Desenganado
de que não se ia o importuno, resolveu-se afinal o sujeito da venda a fingir
que despertava da sonata; e, estorcendo-se em um ruidoso bocejo, estirou a
cabeça por fora do bojo da quartola.
-
Quem é?... Ah! nhô Gonçalo!
-
Ora, bem aparecido!... Parece que por cá anoiteceu de madrugada!...
-
Não sei o que é; mas ando com uma canseira agora. Tenho cismado que seja
dureza. Levo só a dormir!...
No
rosto do Chico nem vestígios restavam mais da expressão aborrida que provocara
a presença do Gonçalo. Ao contrário, com o riso postiço e a oficiosidade
própria dos estalajadeiros, que sabem seu ofício, se erguera para falar ao
freguês; e, apenas o viu apear, preparou-se para acudir pressuroso a seu
serviço.
Neste
ponto fazia o dono da taberna uma exceção à habitual indiferença com que de
ordinário via chegarem à sua casa, e nela posarem, viajantes de posição muito
superior à do Gonçalo. Haveria por ventura a respeito deste alguma razão
particular.
-
Bebe-se café por aqui, ou não se usa?
-
Sempre há de se arranjar!
-
Pois então vamos a isto; enquanto descanso um tantinho. Aqui onde vê este
degas, já desanquei uma capangada! Quiseram se meter de gorra!...
-
Nhanica!... bradou o Chico para dentro. Coa um bocado de café!
Ergueu-se
então a rapariga e sem espreguiçar-se; tirou da trempe a panela de feijão para
deitar o boião d’água; e arranjando o saco, onde ainda estava o polme da
véspera, que servia para dois dias, correu a buscar água para lavar a louça.
Entretanto
o Gonçalo, derreado sobre o balcão, chalrava com o Chico sobre o que vinha a
pelo:
-
E o Bugre, como vai? perguntou de repente o Gonçalo.
-
Eu lá sei, homem! Anda pelos matos, enquanto não dão cabo dele, que não tarda
muito!...
-
Então acha que o filma mesmo? Acudiu o Gonçalo com um alvoroto de prazer, que
mal disfarçou.
-
É o mais certo! Dizem que estão lhe pondo o cerco.
-
Ora, isso há muito tempo!
-
Mas um dia chega a caipora.
-
Como? Se ninguém sabe onde ele vive?...
-
Lá isso é verdade! ninguém!
-
Pois eu cá não me escondo! Quem quiser que venha!
De
costas para o interior da venda, o Gonçalo, embora olhasse para fora, espreitava
de soslaio o Tinguá, que nesse momento, debruçado sobre o tampo do balcão, onde
fincava os cotovelos, parecia inteiramente absorvido em examinar as ferraduras
da mula.
-
Um dos cravos da mão está bambo! disse ele apontando para o casco do animal.
-
É mesmo! tornou Gonçalo, que levantara a pata da mula. Pincha-me cá o martelo.
Nesse
instante, no topo do caminho que descia à esquerda pela rampa de uma colina,
apareceu uma troça de caipiras. Vinham a pé, com as espingardas ao ombro; e
diante deles trotavam a cruzar o caminho e farejar as moitas, dois cães de
caça.
XXI
O
BACORINHO
No
inverno costumam passar por aquelas paragens ranchos de caçadores que demandam
o sertão para a montearia das antas e veados que ainda abundam nos campos de
Araraquara e Botucatu.
Parecia
uma dessas partidas de caça, o magote de caipiras que parou fronteiro à venda,
e para lá encaminhou-se depois de combinarem entre si os companheiros.
Um
deles, que parecia ter sobre os camaradas tal ou qual preeminência, adiantou-se
enquanto os outros atravessavam muito vagarosamente a testada da casa.
-
Viva, patrício! Queremos arranchar aqui para almoçar!
-
Pois sim! respondeu o Tinguá com a sua voz sorneira sem mexer-se do balcão onde
continuava debruçado.
Habituados
certamente a esse modo de acolhimento, os caipiras foram por si tomando conta
da casa e aboletando-se na pousada. Uns se estiravam nas camas, e outros já
sentados no banco junto à mesa esperavam o almoço com uma fome de caçador.
-
Sô Filipe, venha alguma coisa que se masque, para despregar a barriga do
espinhaço! exclamou um dos companheiros.
-
E também que se chupite, para untar os gorgomilhos, e consolar o peito! acudiu
outro.
-
Aí vem, camaradas, não se assustem! retorquiu Filipe.
Dirigindo-se
ao balcão, pesquisou ele com os olhos nas prateleiras e por todo o âmbito da
taberna, o que havia para matar a fome: e sempre arranjou-se com um velho
queijo de Minas, algumas rapaduras e farinha de milho.
-
Pode nos das café? perguntou ao Chico.
-
Há de se poder! tornou o vendeiro.
Rodearam
os caipiras a mesa e devoraram as provisões, depois de terem molhado a garganta
com um copázio de boa cachaça de Piracicaba, a fim de escorregar-lhes bem o
bocado, e não os engasgar.
Na
extremidade oposta, tomava o Gonçalo seu café, observando os caçadores com a
curiosidade natural à vida monótona do interior, mas também com um recacho de
arrogante fatuidade. Sem dúvida tinha-se ele por um grande personagem,
incógnito àqueles pobres diabos.
-
Isso há de ser tarde já! disse olhando céu.
Era
um pretexto para travar a conversa; mas os outros com a boca cheia não estavam
dispostos à palestra. Apenas o Filipe correspondeu com um meneio de cabeça.
Virou
o Gonçalo a palangana de café e acendeu o pito.
-
É servido? perguntou oferecendo fogo ao caipira.
-
Nada, obrigado.
-
Ainda que mal pergunte, o patrício vem de longe?
-
De Campinas!
-
E anda caçando? Por estas bandas há muito veado e paca: mas como os caititus
este ano, nunca se viu: é mesmo uma praga!
-
Nós cá andamos no rasto, mas é de outra caça! atalhou um dos caipiras a rir.
-
Viemos desencovar uma onça! acudiu outro.
-
E é suçuarana!
-
Qual! Tigre verdadeiro!
Fizeram
coro os caipiras na gargalhada que despertara o dito do companheiro. Não
compreendendo a pilhéria, o Gonçalo estava a olhá-los meio desconfiado e com um
riso insosso.
-
O patrício não lobriga?
-
Por vida, que não! tornou o Gonçalo. Ainda que Suçuarana é o sobrenome cá do
degas; por causa de ser malhado como a bicha. Não vê?...
E
mostrou as manchas da cara.
-
Sem falar da munheca!... Talvez o amigo não acredite; mas onde a vê, já pegou
queda de braço com uma; e mais era um bichão da altura daquela porta, sem
exageração! Agora quanto às risadas dos patrícios, a falar verdade não avento!
-
Já vê que é caça gorda.
-
É cá uma história!
-
Por força que há de conhecer um tal Jão Bugre?
-
Conheço bem!
-
Pois aí está a bicha fera que viemos desencovar. Parece que a furna dele fica
por aqui perto. Não podia nos dar notícia?
-
Mas então os camaradas andam-lhe na pista?
Entrava
o Chico Tinguá, com a pichorra de café e as palanganas que deitou sobre a mesa,
recostando-se depois ao portal da entrada, com a perna trançada e a mão no
quadril.
-
Não ouviu falar no Aguiar, do Limoeiro, não?... Um fazendeiro, que o tal Bugre
arrumou com duas facadas, há de andar por uns dois meses?
-
Tenho uma idéia, replicou o Gonçalo.
-
O negócio deu brado, porque o homem era rico e andava sempre com uma ruma de
capangas. Mas Bugre fez-lhe as contas.
-
É um temível!
-
Marcado como ele só!
-
Nem por isso! observou o Pinta. Mas então é por causa dessa morte que os
camaradas vêm prendê-lo?
-
O filho do Aguiar dá dois contos a quem filiar o meco.
-
Não digo que não!
-
Se quer entrar na festa?
Relanceando
um olhar ao Tinguá, que parecia cochilar encostado à ombreira da porta,
respondeu o Gonçalo com frouxidão:
-
Nada; tenho obra mais fina.
-
Quem sabe se o senhor conhece o Bugre?
-Pois
que dúvida!
-
Será mesmo o durão que dizem?
-
É conforme. Eu cá não conto com ele.
-
Hum!...
-
O senhor bem podia nos dar alguma inculca do bicho?
-
Cá o amigo Chico é quem há de saber por onde anda o cujo. Oh! psiu!...
-
Nhô Pinta... Ah! Nhô Gonçalo! Acudiu o Tinguá querendo engolir as primeiras
palavras escapadas.
-
Não sabe que rumo levou o Jão?
-
Tanto como mecê.
-
Ora, ande lá.
-
Ele aparece aqui, e arrancha tal e qual como os outros; não conta onde pousa;
nem a gente indaga da vida alheia.
-
Pois tocava uma boa maquia a quem nos pusesse no rasto da onça. Cem bicos!
Nesse
momento um bacorinho de pelo ruivo, embestegava com um trote miúdo, mas
ligeiro, pela cozinha, e atravessou toda a casa até a pousada, onde conversava
a capangada. Aí começou a fossar nas pernas do Chico Tinguá, que, arrancando-se
à balorda posição, desfechou no importuno animal um pontapé.
-
Arre, patife.
Deu-se
por advertido o bacorinho, que imediatamente enfiou outra vez pela venda e foi
sair no quintal, onde pôs-se a grunhir com o focinho ao vento e os olhos na
porta da cozinha.
-
Pelos modos lá o homem de Campinas está com gana mesmo no Bugre? observou o
Gonçalo que não tirava os olhos do Chico.
Pudera
não! Da maneira por que arranjou-lhe o pai!
-
Xô!... Eh! Baia!... xô!... Diabo de mula canhambola!
Partiam
vozes do vendilhão, que fazia um grande escarcéu com braços e pernas, a fim de
espantar uma besta muar que sua imaginação figurava estar furando a cerca do
pasto, ao lado direito da casa. Entretanto o inocente animal assim caluniado
pelo dono restolhava pacatamente a grama tosada, em companhia de uma porca e um
bacorinho preto, de tamanho igual ao do outro.
Afinal
atirou-se o Chico para a cerca, sempre a enxotar o burro, e quebrando o canto
desapareceu.
O
Gonçalo, a quem não escapara esse manejo, ergueu-se pronto da mesa, e, correndo
ao ângulo da casa, observou o campo oculto pela quina da parede.
O
bacorinho trotava pela vereda que ia dar ao mato, e seguindo-lhe as pegadas, o
Chico Tinguá estugava o passo.
Riu-se
o Gonçalo, e do terreiro disse ao Filipe:
O
patrício faz favor?
XXII
O
TRATO
O
tal Gonçalo era um valentão; e tinha-se na conta do mais façanhudo espoleta de
toda aquela redondeza.
Não
acreditava, porém, a gente do lugar nas proezas de arromba que blasonava o
pábulo, nem tomava ao sério as roncas e bravatas com que andava sempre a
azoinar aos mais.
Para
dar à sua peça um tom ameaçador e ao mesmo tempo disfarçar o senão do rosto, engendrara
o Gonçalo sagazmente o apelido de Suçuarana, que a todo instante atirava à
barba dos outros, mostrando as pampas da cara.
Mas
à exceção dele, ou de algum súcio que lhe filava a pinga, ninguém o chamava
pelo tal apelido senão pela alcunha de Pinta, que lhe tinham posto para o
distinguir de outro Gonçalo carafuz, também morador no lugar.
Não
aturava, porém, o valentão esse desaforo; e disparatava com quem o tratasse
pela alcunha. Para não se meter em rixas, evitava a gente de o chamar daquele
modo na presença, ainda que muitas vezes pelo costume lá escapava a palavra;
mas o Gonçalo fingia não ouvir. Também, segundo contavam, já por vezes lhe
tinham chimpado com o Pinta de propósito e mesmo na bochecha, sem que ele
respingasse.
Todavia
o que mais amofinava o Gonçalo era a fama de Jão Fera, de quem invejava não só
a força e valentia, como o apelido, que lhe granjeara sua malvadeza, o terror
que inspirava aquele nome, e até as mortes de que acusavam o outro, eram para
ele façanhas de estrondo.
Chegava
o zelo do valentão a ponto de consumir-se quando ouvia mencionar o Bugre como o
maior criminoso de toda a província de São Paulo. Muitas vezes em seu despeito
encavacou seriamente; e andava pelas vendas e ranchos com a canseira de provar
que ele, Gonçalo Suçuarana, merecia cem vezes mais a forca do que Jão; pois as
perversidades cometidas por este eram travessuras de criança comparadas com os
seus espalhafatos.
O
subdelegado sabia disso e fazia como o juiz de paz, a quem a lei o substituíra.
Deixava bem descansado de seu o Gonçalo Pinta, que assim podia a salvo gabar-se
de ser um fama sem segundo na arte de matar gente.
Todavia
enquanto vivesse Jão Fera, sabia o valentão que o nome deste havia sempre de
ser o mais falado e temido de toda aquela redondeza, e por isso o tinha em
grande ojeriza, apesar do serviço, que lhe prestara o Bugre, havia anos,
livrando-o de um recruta que o levava preso.
Já
ele teria dado cabo do rival, se pudesse, mas como não se atrevesse a atacá-lo
de frente, espreitava ocasião de atirar-lhe o bote certeiro, e desde muito
rondava disfarçadamente pela venda do Chico Tinguá, que suspeitavam de ser o
inculca e espia do capanga foragido.
Tais
eram as disposições do Gonçalo quando chamou o Filipe para dizer-lhe em
particular:
-
O patrício quer mesmo pilhar o Jão Fera? perguntou ele.
-
Mas decerto, homem!
-
E não sabe onde ele se encafua?
-
Que esperança! Pois ainda estava aqui?
-
E se eu lhe ensinasse a toca do bicho?
-
Abra o preço, amigo.
-
Duzentos bicos?
-
Topado.
-
Mas há de ser com um ajuste...
-
Diga lá.
-
Isto fica entre nós dois só. Negócio de muitos não serve.
-
É assim mesmo.
-
Pois então moita. Toca pra dentro, antes que os camaradas aventem. Olhe que o
Tinguá é ressabiado, hein! Vá andando por aí afora. Passando este morro, atrás
do outro, há um rancho. Eu já me boto pra lá. É só enquanto avio aqui outro
negocinho.
Este
curto diálogo travara-se no canto da casa, junto da cerca, onde havia um grosso
toco de árvore, denegrido pelo fogo da coivara que ali passara outrora. Ainda
quando menos os preocupasse o assunto, dificilmente distinguiria qualquer dos
interlocutores, ali a dois passos dele, o vulto decrépito de um negro, arrimado
a uma brecha da cepa carcomida com a qual se confundia, como o escorço de uma
sapopema.
Seguiu
Filipe o aviso de Gonçalo, e, pagando a despesa à Nhanica, mulher do Tinguá,
que fazia no balcão as vezes do marido na ausência dele, pôs-se a caminho com
os companheiros.
Partiam
eles por um lado, que do oposto avistava-se um cavaleiro a galope. Era o
Barroso que descambando o outeiro, na rápida guinilha do castanho, veio parar à
porta da venda.
-
Já está por cá? perguntou o Gonçalo que o esperava no terreiro.
-
Ora! O milho que a mula comeu quando cheguei, já teve tempo de grelar! tornou o
Gonçalo rindo-se da sua pilhéria.
-
Pois bom proveito lhe faça a roça!
Retorquindo
assim ao Pinta, dirigiu-se o Barroso à vendeira:
-
Quedê este homem?
-
Ele não está, nhor, não!
-
Onde foi?
-
Na vila, nhor, sim.
-
Quando volta?
-
Volta logo.
-
O diabo o leve e mais quem o ature.
Saiu
o Barroso da venda fumando e a respingar contra o Chico Tinguá que lhe havia
pregado um famoso logro; qual fosse, não o dizia ele; mas despicava-se em
ferrar o dente no pobre do vendeiro.
-
Que lhe fez cá o homem? inquiriu Gonçalo.
-
É um refinado tratante, ele e mais o tranca do Jão Bugre.
-
O patrão também tem negócio com esse danado? disse Gonçalo.
-
Pois o negócio era com ele; mas o patife não ata nem desata; e já a coisa me
cheira a caçoada.
-
Que quer? O senhor foi se meter com ele: não tinha que ver!
-
Então não é o que dizem?
-
Qual! Gabolice tudo! Não deixava de ser valente. Lá isso é verdade. Mas onde
vê, já o encostei, e só com este braço. Não é debalde que me chamam de
suçuarana!
-
Com tanto que me avie o diabo depressa.
-
Não custa. É só falar; o mais fica por minha conta. Eu cá não sou lerdo como o
Bugre. Ainda bem o ajuste não está feito, que eu já ando com a obra em meio.
-
Pois vamos acabar com isto de uma vez.
Cavalgaram
os dois de novo e seguiram pela estrada na mesma direção que havia tomado pouco
antes o Filipe e sua troça.
Neste
momento o casco da cabeça do negro, lisa como um quengo, surdia por cima da
velha cepa queimada, e dois olhos que pareciam carbúnculos, se alongaram pelo
caminho além.
-
Eh! Branco mesmo!... resmungou uma voz trôpega.
XXIII
NHÁ
TUDINHA
Era
pela volta das oito horas.
Nhá
Tudinha entrava e saía, andando de um lado para outro, na labutação do costume.
Não por necessidade, que só por gênio vivia ela nessa contínua lida caseira
desde que amanhecia até o escurecer.
Tinha
essa mulherzinha baixa e rolha tal prurido da pele que não podia estar um
momento sossegada. Por força que se havia de ocupar alguma coisa; e para que
lhe rendesse a tarefa, muitas vezes desfazia o que já estava pronto, a fim de
Ter o gosto de arranjar de novo.
Nunca
sentia-se tão feliz e contente como nos dias em que a apoquentavam de trabalho.
Correr daqui para ali, revolver os cantos da casa, abrir e fechar portas,
acudir da varanda à cozinha, e dar vazão a tudo; nisso consistia o seu maior
prazer nesse mundo.
Quem
a visse naquela dobadoura da manhã à noite, ficaria admirado de seu ar lépido e
agudo; pois decerto não se podia esperar semelhante volubilidade naquele corpo
rechonchudo, com suas perninhas curtas e socadas.
Achava-se
então nhã Tudinha em uma de suas boas vezes. O São João estava à porta; e ela,
que tinha, e com muita razão, o seu garbo de doceira afamada, por costume
antigo se pusera na obrigação de mandar em dias de festa os mimos feitos por
suas mãos, no que estava o chiste, às pessoas de amizade, cujo rol começava
necessariamente pelo compadre Luís Galvão, padrinho de Miguel.
Por
isso já de véspera andava ela às voltas com o alguidar e o forno.
Sentada
na varanda sobre uma esteira e rodeada de todos os petrechos, estava mui
atarefada e, anaçar ovos e amassar fubá mimoso para fazer as broas saborosas e
os bolos de milho que ninguém preparava como ela.
Ajudava-a
neste mister a Fausta, preta de meia-idade. Eram, essa escrava e a casinha, os
restos da abastança de que outrora gozara em vida de seu finado marido, Eugênio
de Figueiredo, companheiro e amigo de Luís Galvão. Más colheitas e juros
enormes, tinham consumido os modestos haveres.
Quando
estava nhá Tudinha mais embebida em fazer um passarinho de biscoito, de repente
lho arrebataram sutilmente da mão, e uma voz brejeira que arremedava tanto
quanto podia abocanhar de um cãozinho, gritou:
Nhau!...
Voltou-se
a rechonchuda mulherzinha debulhando-se em uma risada gostosa, porque
adivinhava o autor da travessura, que não era outra senão a ardilosa da Berta,
em quem ela achava uma graça imensa, Não fazia a menina um trejeito, nem dizia
uma facécia, que a viúva não se desfizesse em gargalhadas. Era
a efusão de sua ternura pela pequena. O coração de nhá Tudinha só tinha para
exprimir o amor dois vocábulos, o riso, ou então o choro nos dias de tristeza e
luto.
-
Ai, menina!... Quiá!... quiá!... quiá!... Já se viu, que ladroninha?
-
Uh! pumbu!... dizia entretanto a Berta, beijando o biquinho da rola de
biscoito; e acrescentou voltando-se para a viúva. Quer ver como voa?
Começou
então a traquinas a fazer voar o biscoito, no meio das cachinadas de nhá
Tudinha, que de tanto se estorcer, afinal arrebentou o cós da saia.
Cansada
Berta, ou antes aborrecida daquele brinco infantil, e curado o frouxo riso da
viúva, levantou-se esta para o almoço, que já estava posto à mesa, e frio de
esperar.
-
Que mãezinha má! tornou Berta com faceirice. Fez tantos biscoitos e não me
guardou um só!
-
Pois então! Não me deixaram sozinha? Cuidei que não voltavam mais hoje. E o
almoço esfriando!
-
Bem bom! Não queima a gente!
-
E o outro?... perguntou a rir a viúva. Por onde anda?
-
Quem sabe se perdeu-se?... Coitadinho do Miguel!...
-
Ai, que já não posso! Quiá, quiá, quiá!... Mas você, aposto que foi ver a Zana!
-
Que tem?
-
Eu fico mesmo tão assustada quando Inhá vai para aquelas bandas! Não é graça,
não!
-
Por que?... Tem medo que o tutu me pape? Ele que se meta em bulir comigo e
verá! Olhe, mãezinha, eu agarro-o pelas orelhas, assim; e meto-lhe um
cipozinho, zás, zás, zás, que ele vai por aí gritando, ui, ui, ui!...
Nova
gargalhada de nhá Tudinha, que já sentada no banco junto à mesa foi obrigada a
erguer-se para apertar as ilhargas temendo estalassem com as embigadas que lhe
fazia dar o frouxo riso.
A
esse tempo chegara Berta à porta e chamou o Brás, que se deixara ficar no meio
do quintal, a alguns passos da casa, com os olhos fitos no lugar onde sumira a
menina a quem ele acompanhava.
Depois
que Berta com seu desvelo e afago dissipou os violentos paroxismos da convulsão
em que se estorcia o rapaz, e foi-se a crise acalmando, procurou ela
adormecê-lo, cerrando-lhe docemente as pálpebras.
Da
posição em que estava junto à tapera da Zana, descobria-se uma volta da senda
tortuosa que enredava-se pelas faldas ensombradas de um serrote. Desde algum
tempo seus olhos voltavam-se a espaços naquela direção, e agora, amiúde, com
certa impaciência.
Vendo
o rapaz quase adormecido, repousou-lhe a cabeça em uma leiva de grama, e
adiantou-se pelo trilho além, parando às vezes, para depois continuar.
Havia
andado já grande extensão, quando reparou que fazia-se tarde; e malograda sua
esperança retrocedeu ao lugar onde tinha deixado o Brás. Este porém já ali não
estava; apenas se afastara a menina, que ele abrira os olhos, e agachado, lhe
seguira sorrateiramente e de longe os passos.
Quando
viu o rumo que ela tomava, um movimento de ira escapou ao monstrengo, que
atirou ao vento os murros das punhadas convulsas, arquejando de raiva. Rastejou
então como um réptil, por meio da relvagem, e sumiu-se nas entranhas da terra.
Metera-se
ele em uma espécie de fojo que tinha recentemente praticado em um barranco
atufado de junças, e a cuja borda passava o trilho. Aí cavava o chão, com as
unhas aduncas, e como tomado de um frenesi; até que percebeu, por uma repercussão
da cova, o passo de Berta que voltava.
Vendo-o
com as mãos cheias de terra, e a roupa suja de arrastar-se pelo chão, a menina
o ralhou brandamente e conduziu-o à casa onde acabava de chegar.
-
Venha almoçar! disse Berta da porta.
-
Não quero!
Esta
resposta do menino, deu-a ele com sua fala particular, que era uma rouca
explosão da voz, despedida em ásperas e bruscas articulações, como o rugido de
um animal, ou a blateração de um surdo-mudo.
A
quem não estivesse muito habituado com essa pronúncia desabrida e selvagem,
seria impossível discernir de pronto os vocábulos, pela velocidade com que eram
arremessadas as sílabas incisas e truncadas.
Aproximara-se
nhá Tudinha com a curiosidade de ver a quem Berta falava, e como reconhecesse o
menino, escapou-lhe um gesto de visível repugnância. Mas um olhar da menina
bastou para apagar essa repulsa, e convertê-la em agasalho.
-
Ande, Brás! disse a viúva com afabilidade. Tome uma coisa que lhe guardei.
Desta
vez nem se deu o rapaz ao trabalho de responder com a voz. Fez uma careta má a
nhá Tudinha e voltou-lhe as costas.
-
Brás!...
Nesse
monossílabo proferido por Berta, com sua voz sempre doce e melodiosa,
percebia-se uma vibração íntima que destoava no meio daquela harmonia. Era como
o brandimento da corda que estalava, ou como o áspero triscar do diamante no
vidro.
Voltou-se
Brás e veio dócil e humilde, acompanhando a indicação do gesto de Berta,
colocar-se em frente dela, que, depois de lavar-lhe as mãos e cortar-lhe as
unhas, o sentou a seu lado no banco da mesa. Aí tomou um prato, que lhe serviu
ela, e comeu com uns modos comedidos, embora um tanto hirtos, que ia copiando
da moça. Ninguém diria que fosse este o mesmo lambaz, que na mesa de Galvão
metia o queixo na xícara, deixava na toalha uma roda de sobejos, e lambuzava a
cara de sopa e manteiga.
Foi
rápido o almoço.
Nhá
Tudinha não tirava o sentido do forno onde assava um bolo de mandioca puba;
além de que de prova em prova já petiscara seus biscoitos bons. Berta, essa
comia como um passarinho, aos beliscos. Antes de sair de casa pela alvorada,
tomara café, e de caminho trincara as roscas de goma que levava para Zana.
O
Brás também não tinha fome. O constrangimento, em que o punha a presença da
menina e a sua fascinação, deviam de embotar-lhe o apetite insaciável, com que
de ordinário devorava quanto lhe deixassem.
XXIV
A
LIÇÃO
Àquela
hora da manhã, projetava a casa larga sombra para o oitão voltado ao poente.
Nessa
fresca penumbra, que recatava da estrada uma cerca de estacas de cambuís já
enramadas, acomodou-se Berta para passar a sesta, que se aproximava. Daí
avistava-se por uma ogiva rendada que abria a folhagem em arabescos, o caudal
Piracicaba, adormecido no regaço da campina.
Sentara-se
a menina em um pedaço de alto pranchão, que aí tinham colocado para servir de
banco; e suas mãos sutis e ligeiras tomavam o ponto às meias, ou serziam e
remendavam a outra roupa lavada, que precisava de conserto e enchia o balaio
posto a seu lado na ponta do tabuão.
Adiantando
a sua tarefa diária, que pelo hábito já os dedos ágeis faziam às cegas e com
uma presteza admirável, escutava com atenção ao Brás, ajoelhado ao outro lado
do balaio, na esteira de tábua, que servia de tapete, ou antes de tabuleiro
para a roupa já consertada, a fim de não misturar-se com a outra da cesta.
Com
as mãos postas, e um modo sério, repetia o rapaz de cor a Salve-Rainha, sem
titubear. Dir-se-ia que estava lendo no formoso semblante de Berta por mágica
influição aquelas palavras ignotas, tal era a fixidez da pupila e a absorção de
sua alma no hausto desse olhar.
Era
sem dúvida a primeira vez que o Brás dizia certa a oração, pois no gesto da
menina, onde vislumbrara uma vaga inquietação, derramou-se grande contentamento
pelo triunfo obtido sobre a fatalidade que encadeava aquele espírito bronco.
-
Assim, Brás! disse a gentil mestra desfolhando-se, como uma bonina, em ledos
sorrisos.
-
Til contente? perguntou timidamente o rapaz, com certa brandura de voz, que
desvanecia o tom brusco e explosivo.
-
Muito!...
E
a menina cingiu com o braço esquerdo a cabeça do rapaz e a estreitou ao seio
com efusão. O sentimento de bem- aventurança que difundiu-se pela fisionomia do
idiota; o êxtase de felicidade, no qual se embeberam suas feições, sempre
transtornadas pela imbecilidade, e agora consertadas por um plácido
sopitamento; essa elação ao toque da meiga carícia, não há traços para esboçar.
A
transição súbita de um informe toro em estátua acabada, somente pode dar uma
idéia da transfiguração, que um supremo gozo havia operado nessa infeliz
criatura, cujo vulto descomposto e mal-amanhado negava muitas vezes a forma
humana.
Esteve
Berta a espiar-lhe por entre os revoltos cabelos essa expressão inefável de
rosto que ela conservava unido ao seio; e de seus olhos um tanto amortecidos e
brandos naquele instante, manava uma ternura santa e imensa, na qual
ressumbravam extremos da maternidade.
-
Agora a Ave-Maria! disse Berta afastando a cabeça do rapaz, e tornando à
anterior posição.
Arrancando
ao enlevo, como um galho decepado que rola ao chão, ou como a lasca do penedo
que se alteava no píncaro do alcantil e vai sumir-se no abismo, sentiu o idiota
romper-se-lhe o coração e estalar com dores cruas e dilacerantes. Era a alma
arremessada do céu ao báratro.
Foi
muda porém essa angústia, que afundou-se pelo íntimo, nos recessos insondáveis
dessa consciência vedada ao mundo; e não reçumou um ai dos lábios nem lentejou
uma lágrima as pálpebras. Os bolhões, que por ventura levantou lá nos mais
escusos refolhos, como a rocha tombando nos pegos e tremedais, só os denunciou
a crispação pungente das feições.
Reparando
naquele espasmo doloroso, quase arrependeu-se Berta de haver quebrado ao pobre
idiota o encanto em que o tinha. Mas o seu carinho, ameigado, não embotava
contudo as energias d’alma da mais fina têmpera, que semelhante a lâmina de
aço, dobrava-se com a flexibilidade de uma fita de seda, mas também, quando
brandida, cravaria o bronze, sendo preciso, como o buído fio de um estilete
adamascado.
Naquele
instante ela era sobretudo mestra; ou mais que mestra, pois não ensinava
somente, senão que tirava do caos dessa animalidade confusa e revolta o
balbuciar de uma razão sopita. Era quase uma criação a obra sublime, a que se
dedicava, de plasmar do mostrengo um ser humano.
-
Reze!... insistiu Berta com autoridade.
Engalfinhou
o rapaz outra vez as mãos e começou a recitar com a mesma concentração de
espírito a Ave-Maria, passando sucessivamente às orações do catecismo.
Terminava a reza uma tenção particular, como se usa em muitas casas, e na qual
se implora a proteção divina a favor das pessoas da família, dos entes mais
queridos.
Chegado
a este ponto estacou Brás.
-
Virgem Puríssima... proferiu a voz insinuante de Berta.
Vendo
pintar-se no semblante do idiota as vacilações da memória prestes a apagar-se,
articulava a menina mudamente as palavras que se desenhavam em seus lábios
mimosas e fagueiras, donde o Brás as recebia como imagens a se refletirem no
espelho da alma.
-
Virgem Puríssima, Rainha do Céu, Bem-aventurança nossa, Mãe de Jesus e dos
aflitos, intercedei...
Aqui
fez o menino uma reticência, e fechando um instante os olhos para não ver o
rosto gentil da moça que servia de página àquela súplica singela, terminou
abrupto por um modo teimoso e rebelde:
-
Intercedei por Til, só, só, só, só!... Til muito feliz! Til muito bonita, muito
tudo!...
Ressumbrou
aos lábios de Berta um meigo sorriso, que ela escondeu sob um gesto severo:
-
Diga direito!
-
Ele ruim... ela ruim!... Morde nele... nos outros... Bem eu?... tu só!
-
Há de querer bem a todos, Brás, que eu mando!
A
expressão de rancor, derramada na feição do rapaz, sublevou-se em assomos de
fúria selvagem. Parecia que desse bolônio informe e labrusco surgira por
estranha mutação uma vípera terrível, que um instante subjugada pela
fascinação, silvava de raiva e assanhava-se contra o encanto que a entorpecera.
Erguera,
porém, Berta a mão direita, e com o indicador fez ao rebelde um gesto de
ameaça, estendendo a unha rosada quase a cravá-la no meio do sobrolho espesso
do idiota.
-
Diga, senão...
O
confrangimento de uma vasca estampou-se na figura do infeliz; mas apesar, os
dentes rangiam-lhe de cólera.
-
Não sou mais Til! disse a menina lentamente.
Caiu-lhe
então aos pés, outra vez humilde e cativo, rojando como um verme, o mísero
idiota, de cujo corpo rompia em arquejos e contorções o pranto, que não sabia
exprimir como os homens em lágrimas e lamentos.
Acalentou-o
Berta, amimando-lhe as faces, e depois que o viu calmo, trouxe-o de novo à reza
e o fez recitar a prece interrompida.
"-
Virgem Puríssima, Rainha do Céu, Bem-aventurança nossa, Mãe de Jesus e dos
aflitos, intercedei por meu tio, minha tia e meus primos; por mim, por Berta e
aqueles a quem ela quer bem, e fazei-nos a todos felizes."
-
Vamos à lição! Disse Berta.
Repetiu
então o Brás de cor o abecedário e uma parte da carta de sílabas e nomes.
XXV
O
IDIOTA
Tirando
do balaio uma varinha de peroba em forma de flecha, que lhe servia para esticar
o pano, quando tomava o ponto às meias ou cerzia a mais roupa, Berta começou a
traçar no chão as letras do alfabeto.
À
proporção que Brás acertava com o nome de cada letra, a ia apagando a mestra
gentil com a ponta do pé buliçoso e faceiro, para escrever outra e outra até o
fim do abecedário, como se costuma nas escolas sobre a ardósia.
O
grande esforço, que faz o idiota para decifrar as letras e sílabas,
ressalta-lhe do rosto contraído. As feições de ordinário balordas e flácidas,
como abandonadas à sua materialidade pela ausência do espírito, as confrange
neste momento a tensão violenta do bestunto porfiando romper a rija crosta que
o empederniu.
Assim
pasmam-se, em uma fixidez espantosa, as pupilas vagas e amortecidas; a belfa
caída sempre como a mandíbula de um animal, a arreganhar a boca, dava-lhe uma
expressão lorpa; mas agora comprime fortemente o lábio superior, e a ponto que
rangem-lhe os dentes e nas ventas sibila o sopro da respiração ofegante.
Às
vezes parecia que, extenuado por esse afã, o bronco entendimento do rapaz ia
desfalecer e sucumbir; pois perpassava-lhe no semblante uma ânsia repentina e
seus olhos apagavam-se, como se a enorme cabeça vacilasse.
Nesses
momentos de obliteração, porém, o doce olhar de Berta sustinha aquele espírito
titubeante prestes a submergir-se nas trevas. Entrelaçando o rude labor da
lição com sorrisos e meiguices, que orvalhavam a alma enferma do mísero idiota,
a carinhosa mestra não só incutia-lhe o ânimo de perseverar no insano esforço,
como iluminava com um vislumbre de sua alma a densa caligem daquele cérebro
granítico.
-
Esta letra, Brás!... Não se lembra?... Olhe para mim, olhe bem! O que estou
fazendo?...
-
Rindo!
-
Então que letra é?
-
Erre?... dizia o rapaz depois de lenta cogitação.
-
Isso mesmo.
Outras
vezes, para dirigir o entendimento de Brás e despertar-lhe a embotada
reminiscência, contava Berta uma história, imitava o canto de um pássaro, ou
inventava um brinquedo que suscitasse a noção esquecida.
Embora
já tivesse Brás percorrido quase toda a carta de leitura, de súbito, e não
obstante esse adiantamento, faziam-se em seu entendimento profundos eclipses.
Dir-se-ia que apagava-se de todo o morno lampejo da inteligência bruta, e que
esse crânio vazado em molde humano descia abaixo de uma caveira suína.
Por
isso Berta o obrigava a repetir constantemente tudo quanto já havia aprendido,
no intuito de, à força de hábito, por uma espécie de atrito contínuo,
gravar-lhe profundamente no boçal engenho os rudimentos que tinha ensinado com
admirável paciência. Só de tal sorte conseguira ela inserir nessa bruta
animalidade algumas idéias, que ali permaneciam como inscrições lapidárias
abertas em lousa.
Era
Brás filho de uma irmã de Luís Galvão, a qual falecera três anos antes, ralada
pelos desgostos que lhe dera o marido, e pelo suplício incessante de ver
reduzido ao lastimoso estado de um sandeu o único fruto de suas entranhas.
Quando
morreu, já era de muito viúva a infeliz senhora; e, pois, com a sua perda,
ficou Brás sem outro arrimo, a não ser por Luís Galvão, seu tio e mais próximo
parente, que o trouxe imediatamente para casa e desvelou-se como pode, pela
sorte da mísera criança.
Compreende-se
quanto devia custar a D. Ermelinda, ciosa em extremo da morigeração de seus
filhos, o receber no íntimo seio da família um menino até certo ponto estranho,
e não só baldo de toda a educação, como incapaz de recebê-la. Mas
compenetrara-se a digna senhora que seu marido, recolhendo o sobrinho órfão e
servindo-lhe de pai, cumpria um rigoroso dever; e tanto bastou para que não
suscitasse a menor objeção. Resignada ao mal inevitável, socalcou sua
repugnância.
Somente
exigiu de Luís Galvão, e isso o fez com autoridade de mãe, que, recebido Brás e
tratado como filho da casa, se evitasse contudo seu íntimo contato com Afonso e
Linda, conservando-os, quanto possível, alheios à existência do primo, e
impedindo o menor trato e convivência com ele.
Consentia
D. Ermelinda em ser-lhe mãe e cercá-lo de toda a solicitude, apesar da natural
repulsão que deviam causar à sua índole tão delicada os modos brutais e parvos
do idiota. Não lhe sofria porém o coração que seus filhos vissem nesse menino
mal-amanhado e grosseiro um camarada e um parente, quanto mais um irmão.
Apesar
de convencido da inutilidade de seus esforços, não os poupava Luís Galvão para
reparar a desgraça do sobrinho ou pelo menos atenuá-la. Havia em Santa Bárbara uma
aula pública de primeiras letras, a qual ainda o vulgo pelo costume antigo
tratava de escola régia. Servia de mestre um latagão de verbo alto e punho
rijo, que fora outrora ferrador e a quem chamavam de Domingão.
Fiel
às tradições da antiga profissão, entendia ele lá de si para si que um bom
processo de ferrar bestas devia ser por força excelente método de ensinar a
leitura e a tabuada: e fossem tirá-lo dessa idéia! Assim encaixava o abecê na
cachola do menino com a mesma limpeza e prontidão com que metia um cravo na
ferradura. Era negócio de dois gritos, um safanão e três marteladas.
Tal
era o professor, a quem foi incumbida a tarefa de ensinar a ler ao Brás. Depois
dos três primeiros dias de indulgência, pôs o ferrador em prática o seu método
repentino, que desta vez, com pasmo seu, falhou completamente. "Nunca, em
sua vida, dizia ele, tinha encontrado um jumento de casco tão rijo".
Debalde
o Domingão brandiu a pesada palmatória de guarantã, e ferrou uma chuva de
formidáveis carolos na cabeça do Brás; não conseguiu dele em um mês que
repetisse o nome das três primeiras letras. Quando lhe puseram nas mãos a carta
pregada em uma tábua, o menino percorreu todos aqueles hieróglifos com olhos
pasmos e botos, e só deu sinal de atenção, em descobrindo o til.
Então
expandiu-se-lhe o estúpido semblante com um riso alvar, que estertorou na
gorja, e, tomado por súbita alacridade, ele, de ordinário soturno e pesado,
começou a fazer trejeitos e gatimonhas ao pequeno sinal ortográfico, procurando
imitá-lo a uma com os dedos, com a boca, e até com todo o corpo nos saltos
extravagantes que dava pela casa.
Toda
a escola disparou a rir; e o mestre no primeiro momento não se pode conter; mas
logo refazendo a carranca magistral, pôs cobro ao escândalo.
Sem
embargo, repetiu-se ele ao outro dia, e em todos que se lhe seguiram. Em
apresentando-se a carta ao marmanjo, era a mesma indiferença para tudo, e a
mesma festa grotesca ao til.
Com
as mãos doídas das palmatoadas e a cabeça empolada dos coques de régua, fugia o
pobre do Brás para o mato, onde ia descobri-lo o pajem, que diariamente o
acompanhava pela manhã da fazenda à escola e vinha buscá-lo por volta de uma
hora da tarde.
XXVI
O
ABECÊ
Em
uma das escapulas que fez o Brás da escola, sucedeu encontrá-lo Berta,
acocorado, a soprar as palmas inchadas e rosnando contra o Domingão, a quem
ameaçava de longe com murros ao vento.
Consolou-o
ela e o levou consigo até a casa para deitar-lhe panos de aguardente nas mãos e
distraí-lo da exasperação em que o via.
De
todas as pessoas que Brás encontrara nas Palmas, fora Berta a única de quem não
o afastara o seu natural bravio, nem a aversão instintiva que lhe inspirava
toda criatura humana com quem se achasse em contato. A gratidão,
que logo mostrara pelo modo compassivo e meigo da menina, redobrou com aquele
incidente.
Quis
Berta, para livrar o pobre rapaz dos bolos e repelões do mestre, ensinar-lhe
todas as manhãs a lição; e nesse desígnio preparou-lhe uma carta. Continuaram
as cenas da escola; e repetiram-se as visagens e gaifonas à vista do til; porém
desta vez em maior escala, pela liberdade em que estava o parvalhão do rapaz.
No seu afã de imitar o sinal, que tanto lhe dera no goto, virava cambalhotas e
corcoveava pela grama.
Trabalhava
a enjeitadinha com toda a meiguice para aplicar às letras o boto engenho
daquele órfão, ainda mais que ela desamparado da fortuna. Vão esforço, em que,
não obstante, porfiava com uma perseverança incrível naqueles tenros anos e em
tão humilde condição.
De
seu lado também não descoroçoava o Domingão de meter o abecê nos cascos do
Brás, ainda que para isso fosse necessário abri-los de meio a meio:
-
Burro! gritava ele com uma voz de trompa, esgrimindo a férula. Ou te racho o
quengo com este bodoque, ou pões em achas o guarantã!...
Afinal
teve Berta uma inspiração. Desenganada de obter que o menino pronunciasse ao
menos o a, deixou-o lançar-se aos costumados esgares e gambitos. Observando
então o pobre sandeu com um dó profundo, pensava ela que Deus, em sua infinita
misericórdia, concedia a essa alma tão atribulada e sempre confrangida por
terrível angústia, um breve instante de alegria.
Nisso
o Brás pulando como um boneco de engonço, passava a ponta do dedo mui de leve
pelas sobrancelhas negras de Berta, por seus lábios finos, pela conchinha
mimosa da orelha; e, apontando alternadamente para o til na carta do abecê,
repinicava as risadas e os corcovos.
Iluminou-se
de súbito o coração de Berta. A impressão estranhas que no idiota produzira
aquele insignificante objeto, e cuja causa escapava à sua compreensão, não era
a trepidação de um raio, tênue embora, de inteligência, que filtrava daquele
cérebro denso como o frouxo bruxuleio de uma estrela através do nevoeiro?
A
camada profunda que soterrava o espírito do Brás, tinha um interstício por onde
coava-se alguma chispa, que rareava as trevas carregadas dessa noite sem manhã.
E por singular coincidência o primeiro balbucio da inteligência bôta se dirigia
a ela, como o primeiro vagido da criancinha no berço chama pela mãe.
Ninguém
sabe o que passou então no íntimo de Berta, que tinha suas venetas, e de quem
se referiam casos que a gente velha do lugar, e especialmente as pretas da
fazenda, atribuíam a uma influência misteriosa e sobrenatural.
Associando-se
a lembrança original do idiota, disse-lhe a menina, ajudando a palavra com
mímica expressiva e apontando para a carta.
-
Eu sou til!
Esteve
Brás um instante pasmo e boquiaberto, sem compreender, apesar da ânsia com que
afinal bateu palmas de contente e deitou a pular, regougando a sua parva
risada.
-
Eh!... eh!... eh!... Berta, umh!... Berta, umh!...
Daí
em diante aquele sinal, que para o idiota era símbolo de graça, da gentileza e
do prazer, tornou-se a imagem de Berta, e não se cansava Brás de o repetir, não
por palavras, mas por acenos com os meneios mais extravagantes.
Dias
depois, chamando-a ele pelo nome, a menina respondeu-lhe:
-
Não me chamo mais Berta; meu nome agora é Til.
-
Hanh!... fez o idiota com essa interjeição ou bocejo, que na sua bruta
linguagem exprimia uma interrogação embasbacada.
-
Til!... tornou Berta com a pronúncia clara e vibrante.
Forcejou
o infeliz para articular o monossílabo; mas só a custo, e ajudado por Berta, o
conseguiu. Causou-lhe isso tão intenso prazer, que a todo o instante proferia o
nome, e amiudando-o trinava com ele, a modo dos pássaros quando em seu crebro
gorjeio repicam a mesma nota.
Assim
identificava com a carta pela estranha afinidade que inventara a estultice do
menino, Berta recobrou a esperança que já a ia abandonando.
Um
dia, Brás com violento esforço e após funda concentração, arrancou dos beiços
grossos e flácidos estas palavras truncadas:
-
Brás... bem Til... muito... muito!...
Sorriu-se
Berta, e agradeceu-lhe com um carinho.
-
E Til?... interrogou o idiota com ar ansiado.
-
Til quer bem...
Com
um repente, mostrou-lhe Berta a carta, pondo o dedo sobre o a .
-
A este!...
-
Pela primeira vez reparou o rapaz na forma da letra, que se lhe gravou na
memória.
-
Hanh?... tartamudeou ele ofegante.
-
Afonso!
Arreganhou-se
a estólida cara do idiota na terrível catadura de um sabujo de furor.
Arrebatando o abecedário da mão de Berta, despedaçou-o para arrancar o a, que
trincou nos dentes com sanha.
À
princípio atemorizou-se a menina; mas logo, revoltando semelhante fraqueza as
energias de sua alma, tranqüilamente e com ar de indiferença observou aquela
cólera brutal, que atingiu a maior exasperação.
Como
se esperasse justamente esse momento culminante do acesso, chamou Berta o
idiota para junto de si com um aceno; e bastou-lhe pousar a mãozinha afilada
sobre o ombro para aplacar-lhe a exacerbação.
-
Til gosta deste!
Estas
palavras, disse-as a menina mostrando com a unha rosada o b e repassando-as de
uma voz tão doce, que derramou na alma ulcerada do mísero um ignoto consolo.
Voltou ele para Berta os olhos baços, que iluminaram-se com um reflexo vítreo.
Compreendeu
Berta a muda interrogação, e a satisfez.
-
É Brás!
-
Til?... balbuciou a voz trôpega, enquanto o dedo convulso apontava a letra.
-
Sim! disse Berta.
Caiu
Brás em um novo acesso, porém este de alegria, que chegava ao delírio.
Atirando-se ao chão, estrebuchou de prazer, soltando gritos descompassados e
risos sibilantes, que mais pareciam guinchos de um animal bravio.
Assim
em torno dela, que era o til, Berta foi engenhosamente agrupando todas as
letras do alfabeto, com os nomes das pessoas e objetos que a cercavam. Pondo em
jogo as broncas paixões do idiota, e colhendo os rudes germes de idéia que se
formavam em seu bestunto, obteve ela afinal transformar a carta do abecê em uma
família, em um mundo, para a existência enfezada dessa mísera criatura.
Ao
cabo de um mês, conhecia Brás todo o abecedário. Que inauditos esforços de
paciência, que sublimes intuições não foram necessárias para vencer esse
impossível!
Só
Berta o poderia conseguir. A fascinação que exercia sobre o idiota era uma
sorte de encanto e magia. Sua vontade movia aquele corpo, como se fosse o
espírito que o animava. Brás sentia e pensava unicamente pela alma dela, que
lhe transmitia as impressões no olhar carinhoso, na voz suave, no sorriso
fagueiro.
Dir-se-ia
que se tinha operado a misteriosa transfusão d’alma do anjo na grosseira
bestialidade do mostrengo. Quando nos acessos epilépticos, estrebuchando o
infeliz em medonhas contorções, não bastavam as forças de três homens possantes
para sopear os ímpetos formidáveis, nem as mais enérgicas aplicações para superar
a crise violenta, o simples toque dos dedos de Berta ou sua fala maviosa,
subjugava aquele furor e aplacava logo a horrível convulsão.
XXVII
A
COTIA
Percebendo
que a fadiga abatia as forças de Brás, suspendeu Berta a lição.
Descanse
agora!
Ajoelhado
como estava, deixou-se Brás cair sentado sobre os calcanhares; de corpo bambo,
os braços pendurados, e o queixo caído, quedou-se o estafermo em pasmatório,
com os olhos dormidos no gentil semblante de Berta.
Ocupada
com sua tarefa, já não lhe dava atenção a menina, cujo pensamento andava agora
enleado em outras cismas.
Nisso
apareceu Miguel, que voltava afinal, e, procurando Inhá pela casa, veio a sair
na porta do oitão.
-
Sempre chegou?... disse Berta a rir.
-
Não faço falta, respondeu Miguel com um motejo tristonho.
-
Mecê está hoje tão macambúzio, nhô Miguel! replicou a menina galhofando com a
intenção de desanuviar o semblante do moço.
-
Nem sempre faz bom tempo! Às vezes amanhece a gente com uma cara, que mete medo
aos outros, e os obriga a se esconderem! Não é assim?
Com
a alusão de Miguel atalhou-se Inhá, enrubescendo de leve, pois logo acudiu-lhe
a sua graciosa petulância:
-
Ora que caçador!... exclamou a rir. Não deu com a pista!...
-
Não quis, e para não agoniá-la.
-
A mim?
-
Cuida então que eu não percebi desde muito tempo? Quando você vai ver a Zana,
não gosta que ninguém a acompanhe!
-
Ah! descobriu isso? Está muito adiantado! Berta com um modo agastado e
concentrando-se em sua tarefa.
-
Zangou-se?
-
Eu não ando espiando o que os outros fazem!
-
Não faça caso do que eu disse, Inhá! Desculpe!... tornou Miguel enleado e
aflito.
Berta,
de todo absorta no conserto da roupa, parecia ter esquecido a presença do
colaço, o qual a contemplava com um enlevo apaixonado, que rompia dentre a
expressão abatida de sua figura. Pesaroso por ter ofendido a menina e acanhado
com a presença dela, queria falar, e não achava a palavra para desvanecer o
enfado, que havia causado.
Brás,
que desde a chegada de Miguel se agachara sobre as patas como um cão de fila,
rosnava surdamente, saltando com o olhar do semblante de Berta ao vulto de
Miguel, como se esperasse um gesto da senhora para filar a presa e abocanhá-la.
Os
agastamentos de Berta eram cóleras do colibri, que tão depressa belisca e
arrufa-se, como cintila aos raios do sol, feito um rubi celeste.
A
cabeça inclinada sobre a costura ocultava-lhe o rosto que Miguel supunha
fechado ainda pela zanga, quando já dos cantinhos da boca lhe estava
borbulhando um sorriso zombeteiro que lhe salpicava as faces de petulante
malícia.
Relanceando
uma olhadelha de soslaio, percebeu o pesar de Miguel e arrependeu-se de se
haver agastado com ele; mas conteve-se para fazer-lhe pirraça e gozar por algum
tempo ainda do enleio do moço.
Desde
alguns instantes ouviam-se uns guinchozinhos, como de preá, mas abafados; e
apesar da curiosidade de saber donde partiam, a menina não levantava a cabeça.
-
Aqui está o que lhe trouxe, Inhá, animou-se a dizer Miguel tristemente.
Metendo
a mão por baixo do pala, tirou uma linda cotia, que tinha as patas amarradas
para não fugir.
Berta
apenas erguera um canto da pálpebra; mas foi o bastante. De relance pulou junto
de Miguel, arrebatou-lhe a cotia, e conchegando-a ao seio, começou a alisar-lhe
a pelúcia dourada, animando-a com os dengosos requebros e a garrulice carinhosa
em que se expande a inexaurível sensibilidade da mulher por tudo que é frágil,
mimoso e delicado como ela.
Passado
o primeiro afago, a travessa repartiu com Miguel as meiguices, não só por
gratidão do mimo que lhe dera, como para mostrar que já mão conservava a menor
queixa dele.
-
Coitadinha! exclamou ao ver que o animal estava com as patas ligadas por uma
fita de crautá.
-
Olhe que foge! disse Miguel impedindo a menina de desdar o laço.
-
Então você há de fazer uma casinha para ela! Tão bonitinha! Que pelo macio;
parece um veludo. E os olhos? Tão lindos! Eu conheço uns olhos ternos assim!
Não se lembra?
-
Se me lembro! atalhou Miguel com um tremor na voz. Pois não os estou vendo?
Com
sua volubilidade natural, já estava Berta longe da pergunta que fizera, e, toda
embebida de novo com a cotia, sentara-se para agasalhá-la ao colo.
-
Onde apanhou?
Teve
Miguel de referir então a longa história de como fora o animal apanhando, os
incidentes que tinham acompanhado a caçada, e muitas particularidades que Inhá
desejava saber; se a linda cotia ainda tinha mãe; se já era casada, e deixara
no mato algum filhinho; pois nesse caso queria soltá-la.
Tranqüilizou-a
Miguel, asseverando que a cotia era solteirinha e vivia só, por terem as
raposas acabado toda a família, não tardando que lhe fizessem o mesmo a ela,
pelo que era até um benefício retê-la cativa.
-
Ai, coitadinha! exclamou Berta condoída, e conchegando outra vez o animalzinho
ao seio. Veja lá, Miguel, você há de fazer a casinha para ela, com porta e
janela, e também um coche com seu bebedouro. E depressa que é para eu dar a
Linda!...
Ao
mesmo tempo voltava Miguel o rosto para esconder a expressão de pesar que o
tinha subitamente invadido, um grito de espanto partia dos lábios de Berta.
Rápida
como uma seta, a cotia fuzilou no ar e sumiu-se pelo mato. O Brás de quem os
dois se haviam esquecido, se aproximava rojando pelo chão como um réptil, e sem
que o percebessem, acocorado junto à parede, gorgotava um riso sarcástico e
manhoso.
Precipitou-se
Miguel para castigar o idiota, que ele adivinhava ser o autor da pirraça, mas
Berta, que lhe viu o ímpeto, se interpôs a tempo.
-
Deixe, Miguel! exclamou ela; e voltando-se para o alarve, atirou-lhe apenas
esta palavra:
-
Lesma!
Como
um novilho ferido pelo aguilhão, o idiota arremeteu pelo campo e desapareceu.
-
Se você não fizesse tão pouco caso do que eu lhe dei, aquele brutinho não se
havia de atrever.
-
Oh! Miguel, pois queria mais?
-
Dando aos outros em vez de guardar para si?
-
Mas era para Linda! atalhou Berta com ingenuidade. Ela havia de ficar tão
contente, sabendo que vinha de você!
Concentrou-se
Miguel em um violento esforço, que lhe desmaiou o brilho dos grandes olhos e a
cor das faces.
É
tempo de acabar com este gracejo, Inhá. Além de minha mãe, eu lhe juro, que só
a você quero bem; mas você não se importa comigo; portanto já sei o que devo
fazer. Não hei de aborrecê-la mais.
XXVIII
A
BOLSA
Naquela
manhã Jão Fera saíra das brenhas, onde se acoitava, à mesma hora em que Berta chegava à
tapera para ver Zana.
Vinha
o capanga sombrio e torvo mais que de ordinário, porém sobretudo absorto em
funda cogitação, e tão alheio de si, que não se apercebia do lugar por onde
passava, nem dos objetos que o cercavam.
Devia
ser poderosa a preocupação que assim o demovia da habitual desconfiança, bem
como das precauções, indispensáveis na sua condição de foragido e reclamadas
pela perseguição de que era alvo.
Assim
não ouviu ele um ruído subterrâneo que ressoou-lhe embaixo dos pés; ou, se
ouviu, não fez reparo, atribuindo a algum animal, que estivesse a abrir a toca.
Era
o Brás, o qual antes de aproximar-se da tapera, onde encontrara Berta, ali
andava cavando com a pá, achada no esqueleto de um burro, a terra que tirava
com as mãos e o chapéu.
Havia
nesse lugar uma pequena estiva, feita sobre um socavão pelos antigos moradores
do sítio, para serventia da roça. Com a ruína da casa, desapareceram as
plantações, e do caminho só restava aquele carreiro e o aterro que aí tinham
posto.
Aproveitando-se
da configuração do terreno, gizara Brás com instinto perverso aluir as
ribanceiras do grotão, para que faltando apoio às extremidades da estiva, um
dia abatesse ela com o peso de Jão Fera, que rolaria pelo barranco abaixo.
Entretanto
prosseguia lentamente Jão Fera seu caminho; senão que ao passar perto da
tapera, e como subitamente arrancado aos pensamentos que o tomavam, manifestou
seu gesto, à vista da casa em ruínas, uma espécie de terror e espanto, que o
fez acelerar o passo e afastar-se quase em fuga.
Sabia
o capanga que àquela hora costumava Berta aparecer na tapera onde tantas vezes
a tinha encontrado, e era dela que fugia, dela a quem não se animara a rever
desde a cena da azinhaga no dia da tocaia.
Quando
três dias antes partira espavorido daquele sítio ao ver o relicário de que Berta
lhe oferecera o cordão de ouro, correra por algum tempo sem inconsciência de
si, mas acossado por uma lembrança que o pungia, como o aguilhão da mutuca no
lombo do tapir.
Recobrada
a calma, achou-se à borda da estrada, que em sua carreira por dentro do mato
ele perlongara sem o sentir. Soava perto um tropel de animais, e Luís Galvão
apareceu na volta do caminho. Seguido pela batida na orla da estrada, o animal
ia passar rente com o capanga, oculto pela cepa de uma gameleira.
Foi
um momento de colisão para Jão Fera. Aí estava ao alcance do braço, à sua mercê
de um movimento seu o cumprimento de sua palavra, que ele não podia doutro modo
libertar. Mas o olhar cintilante de Berta e o gesto de seu desprezo se
debuxavam ainda ao pensamento do facínora como um anátema.
Luís
Galvão passou incólume; e Jão Fera encaminhou-se à venda do Tinguá.
Esperava-o
aí o Barroso, que mal avistou-o no terreiro do rancho, logo saiu-lhe ao
encontro, impaciente de receber a nova.
-
Arrependi-me! disse-lhe o capanga secamente e com um olhar de chumbo.
-
Hein!... exclamou o outro azoado com a palavra.
-
Não se faz nada.
-
Por que?
Podia
o capanga arranjar uma desculpa; mas repugnava-lhe a mentira.
-
Não quis! respondeu lacônico.
-
Está galante a embroma! rascou o Barroso com rinchavelho de cólera. E vem
dizer-me isto com toda a frescura! Mas a culpa tenho eu em fiar-me num tratante
da sua laia.
A
última palavra não a acabou de proferir, que dum revés da mão o capanga o
lançou chão, calcando-lhe a alpercata ao peito. Viu ele descer ameaçadora a
coronha do bacamarte e fechou os olhos. O bugre ia esmigalhar-lhe a cabeça,
como se faz com um réptil.
-
O que te vale é estar eu em dívida contigo. Mas São João não tarda; e até esse
dia duma ou doutra forma hei de desempenhar minha palavra. Então ajustaremos
minha palavra. Então ajustaremos esta conta.
Afastando
de si o corpo do miserável com a ponta do pé, entrou na venda para beber um
martelinho de cachaça. Debalde o Chico Tinguá quis tirar conversa; o taciturno
capanga, na introversão d’alma, nem se apercebia da presença do amigo.
Onde
e como obter a soma necessária para resgatar sua palavra, ele que só conhecia
um meio de ganhar dinheiro, e nunca tivera outra profissão a não ser a de
matador?
Sem
aquela quantia, como livrar-se do empenho que tomara, senão dando conta da
tarefa, e incorrendo portanto no desprezo e aversão de Berta, que jamais lhe
perdoaria?
Eis
a ânsia em que se debatia a alma de Jão Fera.
Após
longa obsessão, ergueu-se impelido por uma idéia, que de repente acudira, e sem
despedir-se partiu. Saído ao terreiro, no lugar onde há pouco se encontrara com
Barroso, seus olhos baixos deram com um objeto, que lhe causou reparo. Era uma
bolsa de couro, e parecia recheada de moedas.
-
Oh! Chico!
Acudindo
o vendeiro, Jão empurrou com a coronha do bacamarte a bolsa:
-
Guarda isto para entregar àquele safado!
Não
tinha andado cem braças o capanga, quando ouviu os psius do Tinguá a chamá-lo.
Era o caso que sentindo o Barroso falta da bolsa, voltara por ela, justamente
quando o vendeiro entrava para guardá-la; e, sabendo que a achara o capanga,
deixou-lhe uma moeda de alvíssaras, talvez com a esperança de aplacá-lo. Para
entregar essa gorjeta correra o Chico ao alcance de Jão.
-
Toma para ti. Eu não aceito dinheiro de semelhante peste.
E
sem mais foi-se.
Pouco
além, ganhando um atalho para desviar-se da estrada, lobrigou ao longe um vulto
entre a folhagem.
Era
um mascate, dos muitos que percorrem a pé os circuitos das cidades do interior,
onde se demoram semanas a vender pelas fazendas e arraiais.
Descansavam,
à sombra de uma árvore, da excursão que já tinha feito naquela manhã, e da qual
lhe surtira bom lucro, pois estava ele entretido em contar os miúdos, que
tirava da algibeira da borjaca. Colocando-os, uns sobre outros, formava os
maços de dez, aos quais ia acomodando em uma grande carteira de marroquim azul,
aberta diante dele sobre a grama e já bem fornida de notas.
Ao
lado, estava a maleta de jóias e miudezas, que ele costumava trazer às costas,
presa por uma correia, e um grosso bordão ferrado, que servia ao seu braço
musculoso não só de arrimo à fadiga, mas de arma formidável para a defesa.
Muito
embebido estava o italiano em seus cálculos, pois não percebera a aproximação
de Jão Fera, que em pé atrás do tronco, e a dois passos dele, o tinha em seu
poder.
XXIX
DESENCARGO
Na
posição em que se achava Jão Fera bastava-lhe carregar a mão sobre a nuca do
mascate para subjugá-lo, sem que este pudesse fazer ou sequer tentar a mínima
resistência.
Entretanto
pela mente do capanga, desse homem feroz que se fizera instrumento de ódios e
vinganças alheias, nem de longe perpassou a idéia de que tinha ali à mercê da
vontade e ao alcance do braço, uma quantia superior àquela de que necessitava
para desempenhar sua palavra, e pela qual dera de bom grado alguns dias de
vida.
Bem
diverso foi o pensamento que lhe sugeriu o inesperado encontro.
-
Este tem de sobra, bem que podia me emprestar! murmurou consigo.
Já
promovia o passo a fim de aparecer ao mascate, quando foi tolhido por um
receio, que o estacou. Sua presença imprevista, naqueles ermos e em semelhante
ocasião, devia necessariamente sobressaltar o italiano, que sem dúvida se
julgaria ameaçado, e o tomaria, a ele Jão Fera, por um ladrão de estrada.
Tanto
bastou para que o capanga sem mais demora se retirasse com todas as precauções
de modo a não pressenti-lo o mascate; e, chegado que foi a alguma distância,
afastou-se rapidamente daquele lugar.
Nos
três dias que decorreram desde então, debalde engendrou Jão Fera meios de obter
a soma precisa. Frustraram-se todas as esperanças, uma após a outra.
Jogou
e perdeu os magros cobres que tinha. Alguns ajustes entabulados falharam:
porque o genro que desejava aliviar-se do sogro, e o cafelista a quem azoinava
um vizinho resinguento, tinham resolvido esperar pela mudança da política, para
com mais segurança aviarem esse negócio.
Um
tigre que descera do sertão destruía o gado de uma fazenda próxima, cujo dono
prometera boa recompensa a quem o matasse. Botou-se para lá o capanga; mas já a
onça acossada por outros caçadores se havia retirado.
Afora
estes, não imaginava Jão Fera outros meios de ganhar dinheiro sem humilhação. O
trabalho, ele o tinha como vergonha, pois o poria ao nível de escravo. Prejuízo
este, que desde tempos remotos dominava a caipiragem de São Paulo, e se apurava
nesse homem, cujo espírito de sobranceira independência havia robustecido a
luta que travara contra a sociedade.
Era
a enxada para ele um instrumento vil; o machado e a foice ainda concebia que os
pudesse empunhar a mão do homem livre; mas em seu próprio serviço, para abater
o esteio da choça ou abrir caminho através da floresta.
Tornando
da malograda espera do tigre, alcançou o capanga um casal de velhinhos, que
seguiam diante dele o mesmo caminho e conversavam acerca de seus negócios
particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu Jão Fera que
destinavam eles uns cinqüenta mil réis, tudo quanto possuíam, à compra de
mantimentos, a fim de fazer um moquirão, com que pretendiam abrir uma boa roça.
- Mas chegará, homem? perguntou a velha.
- Há de se espichar bem, mulher!
Uma voz os interrompeu:
-
Por este preço dou eu conta da roça!
-
Ah! É nhô Jão!
Conheciam
os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de fazer o que
prometia. Aceitaram sem mais hesitação; e foram mostrar o lugar que estava
destinado para o roçado.
Acompanhou-os
Jão Fera; porém, mal seus olhos descobriram entre os utensílios a enxada, a
qual ele esquecera um momento no afã de ganhar a soma precisa, que sem mais deu
costas ao par de velhinhos e foi-se deixando-os embasbacados.
Na
manhã em que estamos, saíra o capanga de seu esconderijo resolvido a lançar mão
do meio que reservara para a última extremidade. Afastando-se das ruínas para
evitar um encontro com Berta, chegara a um sombrio raleiro do mato, onde retouçava
o bacorinho ruivo.
Enxotado
por Jão, o animalzinho desapareceu, e antes de meia hora estava de volta
precedendo o trote miúdo o Chico Tinguá.
Pensou
lá consigo o vendeiro, apesar do chamado, que o mais urgente era avisar o
capanga do que tramavam contra ele; e pois foi logo contando o quanto ouvira
pouco antes.
Riu-se
o Bugre.
-
Deixa-os!
-
Mas o arengueiro do Pinta meteu-se de súcia com eles, redargüiu Chico; e não é
de bom que o demônio me anda a cheirar cá pelo rancho a uns tempos. Agora mesmo
quando vim, lá me ficou espiando!
Jão
Fera encolheu os ombros com um ar desdenhoso.
-
Escuta, Chico, isto é negócio sério. Hás de ir agora mesmo à fazenda do tal
Aguiar. Diz-lhe que ele perde seu tempo em estar oferecendo contos de réis a
quem me agarrar. Se quiser, que te entregue cinqüenta mil réis, e sou capaz de
ir lá à fazenda uma tarde que ele marcar depois de São João. Dou minha palavra.
Olhou-o
Chico espantado e quis objetar.
-
Vai ou não? Atalhou Jão com o tom decisivo.
O
vendeiro abaixou a cabeça e partiu. Vendo-o desaparecer, dirigiu-se o capanga
para a casa de nhá Tudinha, e já a pedaço oculto entre a ramada, estava de
longe observando Berta, quando Miguel se retirou despeitado, deixando só a
colaça. Nessa ocasião animou-se ele a transpor a orla da mata; a menina o viu e
adivinhando que lhe queria falar, foi a seu encontro.
O
olhar de Berta era uma interrogação instante e cheia de inquietação. Não se
encontrara com o capanga, desde que este fugira de volta da Ave-Maria, sem
fazer-lhe a promessa que ela exigia.
-
Agora posso desempenhar minha palavra, e não me importarei mais com o Galvão;
disse o capanga cabisbaixo e humilde.
Estremeceu
Berta, pensando no perigo que até aquele instante correra o pai de Linda.
-
Obrigada, Jão! Disse Berta com efusão sincera.
Nem
lhe ocorreu, fosse o que ela agradecia, dádiva de um assassino, que lhe cedia
uma existência como um artigo de seu bárbaro tráfico.
-
Mecê está contente? Perguntou animando-se o capanga.
-
Muito, muito, Jão!
-
Então... me deixe...
A
voz do capanga balbuciou, e por fim gelou-se nos lábios trêmulos e lívidos.
-
O que é? insistiu Berta. Fale, não tenha susto. Quer que eu faça alguma coisa
por você?
-
Sim!
-
Pois diga.
Com
um violento esforço arrancou o capanga estas palavras trôpegas:
-
Beijar o bentinho.
Sorriu-se
Berta, e com um gesto gracioso tirou do seio o relicário pendente com a cruz do
cordão de ouro, e, erguendo-se na pontinha dos pés, o deu a beijar, preso como
estava ao pescoço.
Jão
Fera roçou os lábios pela relíquia, e, sem força para erguer a cabeça bamba,
com o corpo balordo e o passo trôpego, cambaleando como um ébrio, afastou-se da
menina, sem ânimo de por os olhos no semblante dela.
-
Está embriagado! pensou Berta com indignação que se pintou em sua fisionomia.
Mas
já a caridade vibrava as cordas mais suaves de sua alma, e o primeiro assomo de
severidade se afogava nos eflúvios de uma compaixão inexaurível.
-
Coitado! murmurou.
A
blateração do Brás a surpreendeu nesse instante. Voltava com a roupa em
frangalhos, a cara arranhada de espinhos, as mão escoriadas, os cabelos
emaranhados de gravetos, e todo ele coberto de pó ou lama. Trouxera presa uma
cotia, que fora caçar para Berta, em troca da outra.
Quando
a ia entregar à menina, vendo a repulsão que se desenhava no lindo semblante, e
adivinhando a causa, o idiota soltou a sua bestial interjeição, apontando para
o vulto de Jão Fera.
-
Hanh! hanh!...
Tinha
o idiota a atitude e o gesto do mastim que interroga o olhar do senhor, e com
um latido surdo pede-lhe que o estume contar o inimigo.
XXX
TRAMA
Era
véspera de São João.
Na
fazenda das Palmas, desde muito cedo que se faziam os aprestos para a festa
daquela noite de folguedos. Já o pátio estava enramado de coqueiros; e no
centro erguia-se uma pilha de lenha para a fogueira fatídica.
Nhá
Tudinha se instalara na cozinha. Cercada de uma multidão de caçarolas,
frigideiras, gamelas, alguidares e latas, a repolhuda comadre repimpava-se no
cepo do pilão, para distribuir suas ordens pelas raparigas; mas não se podia
ter que não saltasse logo do seu pedestal e acudisse aqui e ali, em toda a
parte, com uma azáfama crescente, o que fazia dizer a crioula Rosa, em aparte
ao Faustino:
-
Gentes! Esta mulherzinha tem bicho-carpinteiro.
D.
Ermelinda abdicara naquele dia em nhá Tudinha o governo da cozinha e despensa para
ocupar-se exclusivamente com a recepção dos hóspedes que eram esperados à
tarde.
Depois
do almoço, Linda e Berta com os braços entrelaçados pelas cinturas, desceram ao
terreiro por uma das escadas laterais e depois de percorrerem as ruas de
coqueiros e o pavilhão de folhagem que tinham arranjado ao redor da fogueira,
foram abrigar-se do sol na horta à sombra de uma latada, onde podiam conversar
à vontade.
Linda
parecia triste. A próxima festa, longe de enflorar, lhe desfolhava o brando e
mavioso sorriso. Como o dourado inseto que se esconde entre as pétalas da rosa,
havia um segredo a suspirar nesses lábios mimosos.
-
Esta noite as moças ficam sempre tão contentes! disse a menina em tom suave de
queixume.
-
E você? tornou Berta com um sorriso.
-
Eu não!
-
Por que, Linda?
-
Todas tem uma pessoa que pense nela.
-
Então você não tem? perguntou Berta com um doce remoque.
Linda
abanou a cabeça melancolicamente.
-
E Miguel?
-
Ele não gosta de mim! suspirou a menina com o lábio balbuciante e uma lágrima a
tremer na pálpebra.
Respondeu-lhe
Berta com uma fresca risada, que debulhou mesmo nas faces da amiga, como os
bagos nacarados e saborosos de uma romã.
-
Olhem que sonsinha!...
-
Nunca mais lhe direi nada, Berta! acudiu Linda, ressentida do modo por que
recebera a amiga sua confidência.
-
Pois, menina, você tem lembranças, que a gente não pode mesmo deixar de rir-se.
Então Miguel não gosta da senhora? Era preciso que ele não tivesse olhos para
ver essa carinha de feitiço.
-
Há outra que ele acha mais bonita!
-
Outra?... Qual?... perguntou Berta de todo confusa.
-
Esta, que ele vê a todo momento! replicou Linda, afagando o semblante da amiga
com um gesto de triste resignação.
De
novo disparou Berta a rir com a lembrança da amiga.
-
Ai, que ciumenta, Jesus!
Retiniu
perto o grito áspero do curiau. No meio do silêncio que reinava naquele sítio,
como era natural, excitou esse brusco rumor a atenção das duas amigas, e
arrancou-as à anterior preocupação. Berta sobressaltou-se com a lembrança de
que ouvira o mesmo apito no dia da tocaia.
Conteve-se
receando assustar Linda; mas, apesar da promessa que lhe fizera o Bugre,
estremecia com a idéia de que Luís Galvão devia chegar de Campinas naquela
manhã, e talvez ao passar na volta da Ave-Maria fosse vítima do assassinato que
ela uma vez impedira. Em falta de Jão Fera, a oculta vingança que ameaçava a
existência do fazendeiro, teria procurado outro instrumento.
-
Vamos ao mirante, Linda? O sr. Galvão não pode tardar.
-
Papai só chega ao meio dia; respondeu a moça erguendo-se para acompanhar a
amiga.
Na
ocasião em que as duas atravessavam a horta, um vulto se esgueirando por detrás
dos pessegueiros, passava a cerca e sumia-se no canavial. Berta que o viu nessa
ocasião, e apenas de relance, inquiriu de Linda para certificar-se.
-
Não é o Faustino aquele?
A
filha do Galvão, distraída, de nada se apercebera.
Não
se enganara Berta. Era de feito o pajem Faustino, que saíra de casa
sorrateiramente para acudir ao grito do curiau, sinal combinado com o Barroso.
Atravessando três ou quatro talões do canavial, foi ele surdir justamente no
lugar onde anteriormente, no dia da partida de Luís Galvão, estava de espreita
o Monjolo.
Era
um sítio escuso e sáfaro; ficava embaixo de uma barranca, escondido pelo maciço
do canavial e pelo matagal embastido que já invadira o valado.
Aí
estavam Barroso e Monjolo, ambos com o ouvido à escuta de qualquer rumor que
lhes anunciasse a chegada do pajem. O branco descansava encostado à barranca; o
negro estava acocorado como gambá, junto a uma casa de cupim.
-
Então o diabo chega, ou não chega? disse o Barroso ao Faustino, mal lhe pôs os
olhos.
Não
tarda; antes do meio dia está aí, sim senhor, respondeu o pajem.
-
Eh! Eh!... fez o Monjolo.
-
Vem mesmo?
-
Se vem!...
-
Pois então, esta noite é o batuque. Estão ouvindo?
-
Monjolo já está sacudindo, sim senhor! disse o africano fazendo jeito de
saracotear.
-
Tomara eu ver a dança! acudiu o pajem.
-
Olhem lá! Cuidado em trancar a negralhada no quadrado, senão está tudo perdido.
-
Isto é com Monjolo!
-
Monjolo arranja tudo, deixa estar.
-
Quando estiverem bem seguros é só dar o sinal, que o fogo rebenta cá no
canavial. O diabo corre para acudir; e aí você, rapaz, tranca também a gente da
casa, a mulher e os filhos, e espera, que eu não tardo, para arranjar a história.
Ouviram vem?...
-
Não tem dúvida! disse o Faustino.
-
Você que é mais ladino, explica bem àquele pai.
Riu-se
o Monjolo, com uma expressão bestial que parecia confirmar o dito.
-
Mas... replicou o Faustino. Eu cá é com a condição que o senhor sabe. Eu fôrro;
a Rosa, para mim; e o mulato surrado como canhambola.
-
Pois está entendido! disse o Barroso. Foi o ajuste.
Fuzilou
uma chispa na rúbida pupila do africano.
-
E tu, paizinho?
-
Monjolo não quer nada, senão gimbo muito para comprar fumo e cachaça.
-
Fica descansado.
Separaram-se
os cúmplices. O pajem voltou à casa, Monjolo à roça, e Barroso foi juntar-se a
pouca distância ao Gonçalo Pinta, que o esperava com dois animais à destra.
Apenas
se desvaneceu o rumor dos passos, que um galho murcho atirado a um canto da
barranca se agitara, descobrindo a boca de um covão, talvez de tatu canastra,
de onde saiu de rojo meio corpo do Brás.
Daquele
esconderijo, a que se acolhera para o não surpreenderem, ouvira o idiota a
maquinação do Barroso, e, fato incrível, a compreendera, ou antes a sentira,
porque não fora pela razão, mas por uma sorte de faro moral, que recebera essa
percepção.
Adivinhara
a intenção dos cúmplices, como o animal carniceiro conhece o desígnio do
caçador e o acompanha para aproveitar dos despojos das vítimas.
Um
riso, que ressumbrava brutal crueldade, arregaçou-lhe os beiços estúpidos.
XXXI
PAI
QUICÉ
Sentado
o Brás num torrão de argila, que esbroara da barranca, entregou-se a uma
singela ocupação.
Tirou
do seio um embrulho de folhas de inhame, onde prendera uma boa porção de
gafanhotos, que poucos momentos antes apanhara a devorarem um arbusto.
Espetando cada qual em um espinho de juçara, fincou-os no chão, diante de si,
até o número de seis.
Terminada
esta operação, começou o sandeu a ranger os dentes, espumando de raiva e
ameaçando os insetos com os punhos crispados. Enquanto se desarticulava nessa
furiosa gesticulação, escapavam-lhe dos lábios sons estranhos e guturais como o
grunhido de um porco, ou o ganir de um cão.
As
pupilas vítreas esbugalhavam-se com as contorções da fúria brutal que lhe
contraía os músculos faciais. Eram as fosforescências de um ódio violento, que
iluminavam de reflexos lívidos esse olhar, de ordinário morno e fusco.
Afinal
tomado de um acesso de ira, saltou o idiota sobre uma pedra, e com ela esmagou
freneticamente, um a um, todos os seis gafanhotos. Não contente com este
suplícios, ainda por cima trincou nos dentes a cabeça daqueles que tinham sido
poupados por seu açodamento.
Ofegante,
exausto pela violência das emoções, prostrou-se por terra e aí ficou por algum
tempo arquejando.
Era
o desgraçado menino um estranho aborto da natureza. De todo bronca e estúpida,
tinha contudo essa monstruosa organização bem vivo e patente o instinto do mal.
Parecia que o aleijão, privando-a da alma racional, não reduzira só o homem à
condição de bruto, mas o tinha logo demudado em fera.
Até
conhecer Berta, o único vestígio humano que havia nessa bestialidade, era o
ódio. Aborrecia a toda criatura racional, talvez por uma confusa percepção de
sua deformidade e estupidez.
Depois
que o desvelo da menina lhe inspirara a fúria amorosa, transformara-se em
profundo rancor a profunda repugnância que ele sentia por todos; e tal fora o
choque produzido por estas paixões, que acendeu uma centelha nas trevas daquele
espírito embrutecido.
Desde
então houve nessa animalidade um impulso que não era idiota; e foi o ódio.
Estúpido em tudo, parvo até nos ímpetos da cega dedicação que votava a Berta,
mostrava para o mal uma astúcia e perspicácia admirável. Incapaz de conceber
uma idéia, maquinava pacientemente uma vingança terrível. À sutileza do réptil
venenoso, reunia a sagacidade do guará.
Os
insetos figuravam as pessoas que mais odiava, e a quem ruminava exterminar,
espreitando a ocasião de levar a cabo a feroz maquinação. Enquanto não chegava
o momento, divertia-se com aquele sinistro folguedo.
Surpreendido
quando chegava ao sítio habitual, e obrigado a esconder-se, ouvira a trama do
Barroso, que o alegrou a princípio, porém agora o contrariava pelo receio de
perder a sua maldade.
Sacando
do socavão um pedaço de arco de barril que afiara a ponto de torna-lo um
punhal, ocultou-o no bolso do jaleco; depois do que desapareceu um instante ao
lado do brejal, e voltou com um sapo que atirou junto ao buraco da casa de
cupim, debruçando-se em cima dela, à espreita.
Imediatamente
ao grasnido do anfíbio, apareceu no buraco a enorme cabeça de uma cascavel, que
fitou no sapo a pupila cintilante.
Desde
muito tempo cercava aquela serpente, que entrava no seu plano. Com uma
forquilha, da posição em que estava, facilmente conseguiu prender a cabeça da
vípera e agarrando-a pelo colo sem importar-lhe a sanha com que ela silvava,
estorcendo a cauda e açoitando-lhe o rosto, deitou a correr por dentro do
canavial.
Chegando
que foi junto à casa, trepou a uma jabuticabeira para alcançar o peitoril da
janela, cuja vidraça estava erguida, mostrando entre as cortinas de cassa uma
linda cama de mogno coberta por colcha de damasco azul, um toucador,
guarda-vestidos e outros móveis da recâmara de uma senhora.
Era
a alcova de Linda. A mão perversa do idiota arremessou a cobra, que foi cair
justamente sobre a cama e depois de aplacada a fúria, encolheu-se entre as
rendas dos travesseiros, com a pupila em sangue e o bote armado.
Acabava
o idiota de preparar assim o primeiro ato da obra de extermínio, que ele
ruminava em sua feroz estultícia, quando o fez estremecer a voz de Berta que se
encaminhava para a alcova.
Luís
Galvão havia chegado. Ao avista-lo as meninas tinham descido do mirante a
correr para chamar D. Ermelinda e irem ao encontro do fazendeiro. Também
acudiram para tomar a benção ao senhor os escravos empregados no serviço
doméstico, e alguns dos que não trabalhavam na roça, mas andavam por perto nas
tulhas e fábricas.
Entre
estes distinguia-se um inválido curvado como um arco de pipa, com a cabeça lisa
como um quengo, e o queixo fino como uma faca desdentada; pelo que chamavam de
pai Quicé. Era ele um dos favoritos de Berta, que todos os domingos lhe dava um
vintém para fumo.
Depois
de salvar ao senhor, pai Quicé que ainda não tinha visto Berta naquele dia,
fez-lhe muitas festas como sempre, e começou a costumada e interminável
lengalenga com que a menina muito se divertia.
Berta
era curiosa, e pois gostava de saber de tudo quanto se fazia ou falava por
aqueles arredores. O negro velho que não tinha outra coisa para dar à sua
gentil protetora, trazia-lhe quanto mexerico e história ouvia pelas vendas,
onde graças à liberdade de traste inútil, passava a maior parte do tempo.
-
Nhá moça, sabe? Aquele homem muito mau, que mata gente, o Bugre que foi aqui da
fazenda?...
-
Que tem? perguntou Berta, cuja atenção foi excitada.
-
Vão prender ele.
-
Quem te disse?
Contou
o negro velho o que ouvira ao Gonçalo junto à venda do Chico Tinguá, e o mais
que dos ditos de outros e de sua própria astúcia colhera posteriormente. Era
naquela tarde que o Pinta ficara de guiar Filipe ao esconderijo do Bugre.
-
E você sabe onde ele está? perguntou a menina com vivacidade.
-
Sabe, sabe; Quicé sabe.
-
Onde é?
-
Quicé mostra o caminho.
-
Pois vai indo que eu já te apanho.
Este
rápido diálogo travou-se no meio do terreiro. Entrando em casa, viu Berta a
amiga na sala e perguntou-lhe:
-
Onde deitou meu chapéu, Linda?
Foram
estas palavras que estremeceram Brás, e ainda mais quando ouviu a resposta de
Linda.
-
Em cima de minha cama.
Apoderou-se
a vertigem do idiota, que tombou da árvore ao chão.
FIM
DO PRIMEIRO VOLUME