quarta-feira, 23 de maio de 2012

Til - Parte Dois


SEGUNDO VOLUME
I
O BUGREZINHO
Em 1826, a mais bonita moça que havia nas vizinhanças de Santa Bárbara, era Besita.
Quando ia à missa aos domingos e dias de guarda, todos se voltavam na rua para vê-la passar. Festa em que ela não aparecesse, perdia toda a graça, até os velhos achavam desenxabida a patuscada.
Filho de fazendeiro, que tinha a mostrar bonita mula arreada de prataria, lá passava duas e três vezes por dia defronte da casa da moça, que morava em companhia do pai, quase ao sair do povoado, bem perto de nhá Tudinha.
Entre os mais assíduos, nenhum levava as lampas a Luís Galvão, que era naquela época um chibante mocetão de vinte anos. Raro dia, não vinha ele ao povoado e não achava pretexto para apear-se em casa do velho Guedes, pai de Besita.
Apesar da roda que lhe faziam tantos rapazes e da balda que há em terra pequena de bisbilhotar tudo, não aparecera o menor mexerico a respeito da moça, e quando se falava dela era para gabar o seu modo sério e o recato que sabia guardar com todos, o que mais admirava por ter perdido a mãe ainda criança, e viver quase sobre si, pois o velho mal podia com seus achaques.
Nesse tempo servia de camarada a Luís Galvão um rapaz de pouco menos idade, que o acompanhava constantemente em passeios e viagens. Era Jão, a quem os outros se tinham habituado a chamar de Bugre, pela tez bronzeada, que distinguia aquela raça indígena.
Esse rapaz fora criado nos Pilões, antiga fazenda de Afonso Galvão, pai de Luís; e aí viera ter de um modo singular e misterioso.
Um dia, no mais ardente da calma, quando os enxadeiros descansam na roça à sombra das árvores esperando o jantar, e o resto da gente recolhe às habitações, acaso chegando o velho fazendeiro à janela viu parado no terreiro deserto um sendeiro sobre o qual se encarapitava uma figurinha que à primeira vista pareceu-lhe um macaco.
Logo, porém, reconheceu que era uma criança, de pouco mais de um ano. Apesar do natural pacato do rocim causava espanto que o pequerrucho se pudesse conservar em cima dele, escanchado na cernelha e agarrado às crinas.
- Que quer você, pirralho? perguntou o velho Galvão.
Volveu a criança para o fazendeiro uns olhos negros como carbúnculos, e ficou a mira-lo com o ingênuo pasmo da infância. Como se verificou depois, o menino não falava ainda, talvez por ser tarde nele o desenvolvimento dessa faculdade.
Nunca se pode saber donde saíra aquela criança; como chegara até o terreiro sem darem por ela; se viera só ou alguém a trouxera. Também foram inúteis as pesquisas que se fizeram para descobrir os pais, ou ao menos algum indício de quem poderiam ser.
Como de costume, apareceram várias conjeturas e invenções, cada qual mais engenhosa. Uma velha, muito versada no Novo Testamento, afirmou que esse menino era o Anticristo e o sendeiro a própria besta do Apocalipse, descrita por São João. Outra jurava ser o caçula do diabo cocho que se metera na pele do bugrezinho, e andava fazendo estrepolias pelo mundo.
À parte essas e outras caraminholas de que os visionários encheram a cabeça da gente ignorante, correu entre as pessoas sisudas uma versão, que ninguém soube donde proveio, e naturalmente formou-se de uma misteriosa agregação de circunstâncias, como sucede sempre às rapsódias populares.
Houvera grande cheia no rio. Uma família de gente pobre ia passar o vau, que faltou-lhes. A mulher sumiu-se, o marido correu a salva-la, desapareceram ambos arrebatados pela correnteza, ou tragados por algum perau. Então o sendeiro, que levava o menino, e cujo cabresto soltara o infeliz pai no impulso de salvar a companheira, recuou, e seguindo pela margem foi ter à fazenda. A tronqueira estava aberta naturalmente; e assim pode chegar ao terreiro, onde o descobriram.
Era essa a verdade ou mera suposição? Ninguém tinha presenciado o sinistro, nem sabia-se em toda a vizinhança, de gente que houvesse desaparecido. Mas todos afirmavam o fato, que era aceito como ponto de fé.
Foi o bugrezinho batizado com o nome de João, sendo o padrinho o Afonso Galvão. As velhas que sustentavam haver partes do diabo no pequeno, não se deram por vencidas; e asseguravam que, durante o sacramento, o manhoso do inimigo para livrar-se da estola e d’água benta, saltara mais que depressa e se escondera na pança do velho fazendeiro.
Tornou-se Jão o companheiro de brinquedos de Luís; e desde logo mostrou a têmpera do caráter que só mais tarde se havia de formar. Já em criança era robusto, valente, mas taciturno e sombrio; quando a molecada, que fazia roda ao senhor moço, o inquizilava, a ele Jão, ia-os sovando em regra, apesar de serem muitos e mais velhos.
Crescendo, veio a ser o camarada de Luís, a quem servia com dedicação que sob aparência ríspida e seca, era sincera e infalível. As vezes que salvara a vida ao jovem patrão, já não se contavam. Arriscar-se estouvadamente o moço fazendeiro, e salva-lo com fria intrepidez o rapaz, era fato comezinho e trivial na existência de ambos.
Assim nem Luís já agradecia aquilo, que passava entre eles por um serviço tão fácil como de arrear-lhe o animal; nem Jão se julgava com o menor título ao reconhecimento de seu patrão, por ter feito uma coisa, que lhe fava a si mesmo prazer e satisfação.
Luís Galvão era magano e fragueiro; gostava de bulir com as raparigas e pregar peças aos caipiras. Daí resultavam constantes desavenças, em que Jão, para defender o moço, tinha necessidade de desancar os assaltantes, pagando em muitas ocasiões com a pele as aventuras galantes do jovem patrão.
Uma vez travou-se tão renhida a luta, que o Bugre prostrou morto a seus pés um arrieiro com quem Luís Galvão puxara briga, oferecendo vinte patacões pela mula de estimação em que ele montava, a fim de fazer torresmos do couro. Irritou-se o tropeiro por tal forma com o sarcasmo, que teria com certeza morto ao filho do fazendeiro, se Jão não lhe arrostasse a fúria.
Com algum dinheiro tapou-se a boca aos parentes do morto e acomodou-se tudo; de modo que o Bugre continuou a acompanhar ao patrão em suas correrias.
Foi pouco depois desse incidente que Luís Galvão, passando uma tarde por Santa Bárbara, viu Besita à janela e ficou imediatamente caído por ela.
II
O CASAMENTO
Tinha Jão por Besita uma dessas paixões veementes que se afrontam com o impossível e arcam para subjugá-lo.
As pujanças de sua alma se revoltaram contra a adoração fervida e respeitosa que o trazia submisso; mas o caráter indomável estava enervado pela fascinação que exercia em natureza tão ardente a sedutora beleza da moça.
Quantas vezes não pensou que bastava-lhe um momento de resolução para arrebatar a mulher a quem amava, e leva-la ao deserto onde ele não se envergonharia de seu amor, e talvez sentisse orgulho de o inspirar tão possante e extremoso.
Mas ele que não temia o mundo e zombava dos perigos, assustava-se só com a idéia de um ressentimento de Besita; e não era preciso mais para espancar de seu espírito a tentação que em si produziam os encantos da menina.
Imagine-se, pois, o que pensou o Bugre quando percebeu que Luís Galvão gostava de Besita.
No dia em que teve certeza do fato, o provocador das rixas foi ele, que brigou sem descanso e com desespero. Pelo modo por que se expunha aos golpes dos adversários, parecia obstinado em procurar a morte, que entretanto fugia caprichosamente diante dele.
Quando não achou mais com quem tirar bulha, embriagou-se, ele que até então dera provas de sóbrio; e tal foi a moafa, que todo o dia seguinte não deu acordo de si, e esteve atirado na estrada onde escapou de ser esmagado por um carro de bois.
Essa crise fez remissão. Recobrando-se do primeiro e violento abalo que sofrera, achou o rapaz dentro de si, no coração revolto, certa calma e consolo.
Se alguém, que não ele, tinha de ser amado por Besita, fosse-o Luís Galvão de quem era amigo; outro qualquer morreria às suas mão; assim o jurara.
Adivinhou Besita as duas afeições de que era objeto, e com a intuição da mulher amada, conheceu o contraste profundo que havia entre ambas. A paixão do Bugre era submissa, a do moço imperiosa; na primeira ressumbrava a abnegação, a segunda ardia em desejos.
Sentiu ela também que ia amar, senão amava já a Luís Galvão; e por isso mesmo prevendo os perigos de sua ternura por um homem capaz de tudo ousar, tornou-se fria e constrangida em relação a ele, enquanto mostrava-se expansiva e afetuosa com o Bugre. Sabia que deste nada tinha a recear nem mesmo um olhar impertinente, pois todo o emprenho dele era ocultar sua ardente dedicação. Assim podia gozar desse inocente prazer de ver-se adorada mudamente como uma santa.
Em princípio contentou-se Luís Galvão com as visitas que sob qualquer pretexto fazia ao velho Guedes, e os encontros que tinha com Besita na missa ou em casa de nhá Tudinha. De dia em dia porém foi-se tornando mais exigente; e chegou a alcançar da moça algumas entrevistas no quintal ao escurecer.
Besita concentrava todas as duas forçar para resistir; considerando-se irremediavelmente perdida, buscava em torno de si um apoio que a amparasse e não achava. Seu pai era um pobre velho, que via no namoro de Luís uma boa fortuna. Não tinha em falta de sua mãe uma amiga, que a defendesse contra os próprios impulsos de seu coração.
Nestas circunstâncias, apareceu em Santa Bárbara um moço chamado Ribeiro, que vinha arrecadar alguns bens da herança de um tio. Vendo Besita, apaixonara-se por ela e a pedira em casamento ao velho Guedes.
- O Luís é melhor! disse o pai à filha, comunicando-lhe o pedido.
Besita tornou-se pálida e respondeu com a voz trêmula:
- Mas Luís não se casará comigo!
- Tu pensas?
- Tenho a certeza.
- Pois havemos de ver.
À tarde apareceu Luís Galvão. Contou-lhe o Guedes a pretensão do Ribeiro, e pediu-lhe conselho. O filho do fazendeiro demudou-se; mas recobrando-se sugeriu dúvidas sobre os haveres do pretendente, alegando ser pessoa desconhecida no lugar.
Esperou o Guedes quinze dias, decorridos eles, disse à filha:
- Tu adivinhaste, É um peralta!... Aceita a mão do Ribeiro, e serás feliz.
- O que meu pai ordenar, eu o farei de boa vontade! respondeu a menina com doce resignação.
Aceitava ela esse casamento como um sacrifício, para salvar sua virtude, embora à custa dos sonhos fagueiros de sua alma.
Espalhada a notícia do casamento, Jão sabendo-a teve um cruel sossôbro, como se fora ele próprio a quem a moça repudiasse para se dar a outro. Tão identificados estavam em sua alma os dois amantes, que ele já não os separava em seu afeto; e envolvia Luís na adoração que tinha por Besita, e esta na amizade que voltava àquele.
A primeira vez que depois disso o capanga viu a moça à janela, voltou o rosto para não lhe falar.
- Está mal comigo, Jão? disse Besita com o modo afetuoso que lhe era habitual.
Deitou-lhe o bugre um olhar duro, e pregando a aba do chapéu na testa com um murro, não tugiu.
- Que lhe fiz eu, para não me falar?
- Mecê não vai se casar com o Ribeiro?
- É por isso?
- E nhô Luís?
Besita fitou o rapaz nos seus grandes olhos, onde brilhavam aljôfares de lágrimas, e mostrou-lhe um cravo que tinha nos cabelos.
- Se você, Jão, atirasse na beira da estrada, como uma coisa à toa, esta flor, podia se queixar porque outro a apanhasse para si?
- Então ele não quer bem a Nhazinha?
- Quer, mas como tem querido a outras antes de mim: não mereço ser sua mulher!
Partiu-se Jão a galope e foi ter em casa com o patrão:
- Nhô Luís, ela lhe quer bem!... case com ela!
- Qual, Jão!... O velho não admite!
Não quis ouvir mais o Bugre; arrecadou em um lenço o que tinha de seu, tão pouco era, e despediu-se do patrão com estas palavras:
- Pode procurar outro camarada; eu não conto mais com o senhor.
Foram baldados os esforços que fez Luís Galvão para retê-lo. O Bugre ficou inabalável na resolução que tomara em um minuto, de deixar a casa onde fora acolhido e vivera desde a infância.
Pouco tempo depois efetuou-se o casamento de Besita com o Ribeiro; mas este ao sair da igreja recebeu uma carta, que o chamava a toda a pressa para Itu para salvar a maior parte da herança, que o tio confiara a um negociante daquela vila, hoje cidade.
Partiu o Ribeiro no dia seguinte para voltar logo. Sua mulher foi viver na casa da fazendola, que o trouxera a Santa Bárbara, na intenção de vende-la; e agora devia servir-lhe de morada ao menos nos primeiros tempos do casamento.
III
BEBÊ
Tinham decorrido dois meses depois do casamento de Besita.
Eram nove horas da noite. A moça beijando a mão do pai, se recolhera à alcova; e depois de rezar, cismava em sua vida, lembrando-se com saudade dos sonhos de ventura que fizera outrora e que tão depressa se tinham desvanecido.
Encostada à rótula da janela, com os olhos engolfados no azul, bebendo a cintilação das estrelas como um orvalho de luz, sentia-se arrastada para aquele passado recente, e deleitava-se com as reminiscências das carícias de Luís e dos seus ternos protestos, que ela sabia mentidos, mas que não obstante a embeveciam.
Já todos dormiam na casa, quando ela, deixando a janela, deitou-se. Nesse instante ouviu sobressaltada bater à porta. Quem seria, àquela hora?
Soaram os passos de Zana no corredor e logo depois a voz da preta a trocar perguntas e respostas com a pessoa que batia. Afinal rangeu a chave na fechadura.
- Nhazinha, é sinhô!
Ia Besita levantar-se precipitadamente para receber o marido, quando sentiu no escuro que dois braços a cingiam e uma carícia atalhava-lhe a palavra nos lábios.
Ao bruxulear da madrugada, Zana acudindo ao chamado da moça foi achá-la debulhada em pranto, na maior consternação.
- Tu me perdeste, Zana! Não era meu marido!
- Quem era então, Nhazinha? perguntou a preta espantada.
- Olha! disse a moça mostrando-lhe o vulto de Luís Galvão que se afastava.
- Meu Jesus do céu! exclamou Zana caindo de joelhos aos pés da senhora.
Felizmente o velho não ouvira bater; e nunca soube da desgraça da filha. Morreu meses depois crente de que a deixava no mundo feliz e amparada.
Uma pessoa, porém, suspeitou do que havia ocorrido. Foi Jão Bugre, que na sua indignação quis matar Luís Galvão; e o teria feito, se Besita não o proibisse.
Entretanto o Ribeiro não dava cópia de si; corriam os meses sem que em Santa Bárbara houvesse novas dele, e do rumo que levara. Somente sabia-se que não estava em Itu, ou qualquer outra vila próxima. Esse abandono, que o marido parecia ter feito dela, foi o que deu coragem a Besita para resistir à desgraça que a acabrunhara, sobretudo quando lhe conheceu todo o alcance.
Mais de um ano, depois que a abandonara o Ribeiro, teve Besita uma filha, cujo nascimento foi inteiramente ignorado em Santa Bárbara, pelo isolamento a que se condenara a moça desde a morte do pai. Só o soube, fora Zana, Jão Bugre, cuja dedicação apurava-se com o infortúnio daquela por quem sacrificaria a vida, se pudesse por este preço resgata-la aos dissabores.
Um dias às ocultas, levou o capanga nos braços a criancinha a Campinas, a fim de a batizar o vigário dessa vila, pondo-lhe o nome de Berta, que tinha sua mãe. Havia ajuntamento na igreja para assistir a um casamento: era o de Luís Galvão com D. Ermelinda.
Custou ao Bugre conter-se, que no seu exaspero não insultasse ali em face de toda gente aquele homem de quem fora amigo, e por quem tinha agora a maior aversão. Reprimiu-lhe o primeiro ímpeto a lembrança de Besita e da mágoa que lhe podia causar o escândalo.
Voltou sombrio e sinistro:
- É preciso que eu mate esse homem! disse ele à moça entregando-lhe o filho.
- Não quero que lhe faças o menor mal! respondeu Besita com império.
- Mecê sofreria se eu o matasse?
- Muito!...
- Basta, Nhazinha! atalhou Jão.
Algum tempo viveu Besita com sua filhinha no mesmo isolamento sem outra companhia além de Zana, que lhe dera de mamar, e o capanga, o qual a servia como um escravo humilde e fiel da casa. Convencida de que realmente seu marido a abandonara de vez, habituara-se com o correr do tempo à placidez e serenidade daquela existência recôndita, que embeleciam as efusões do amor materno. No seio dessa tranqüila solidão, cercada de afeições sinceras, sentia-se quase feliz.
Seu prazer, nos momentos que lhe deixava a criação, era enfeitar a filha, e fazer bonito o seu Bebê, arranjando-lhe ora toucas de rendas, ora roupas. Lembrou-se um dia de bordar-lhe um cinto com signo-saimão, zodíacos, figas e outras figurinhas de prata, como se usava então para livrar do quebranto.
Não havendo por perto ourives capaz de lavrar os emblemas, mandou Besita o Bugre a Itu, a fim de os encomendar. Com repugnância, e um inexplicável constrangimento, ausentou-se Jão por alguns dias dessa casa onde vivia quanto amava neste mundo e sobre a qual velava como um cão fiel e dedicado.
Foi isto em uma terça-feira. Na quinta seriam oito horas da manhã, e Besita fazia saltar sobre os joelhos o seu lindo Bebê, sentada na alcova, com uma rótula aberta a meio. Eis que derramando a vista pelo arvoredo, ficou transida, como se lhe surgisse em face um espectro.
Enxergara o rosto de Ribeiro, que se ocultou entre a folhagem. Seria apenas uma alucinação de seu espírito, ou a tremenda realidade, cuja idéia tantas vezes a enchera de terror, nas longas noites não dormidas?
A tremer chamou a preta, que estava na cozinha cuidando do almoço:
- Meu marido, Zana!...
Aterrou-se a ama, ouvindo da senhora os pormenores da aparição, que anunciava tamanhas desgraças; e esteve algum tempo a espiar por entre a rótula a ver se lobrigava ainda o vulto do Ribeiro, mas nada viu.
Acudiu-lhe então uma lembrança engenhosa, com a qual esperou e por entre a rótula quase cerrada, não podia o Ribeiro distinguir o semblante da criança. Tomou-a Zana dos braços desfalecidos da senhora, e levando-a a seu cubículo, tisnou-lhe o corpo de carvão.
Feito isto arranjou outra vez as fraldas e a touca; e saiu ao terreiro para acalentar a criança, andando de uma para outra banda, e entoando a costumada cantiga, mas então alterada por esta forma:
Cala a boca, anda, negrinha,
Ai-uê-lêlê!
Senão olha canhambola,
Ai-uê-lêlê!
Vem cá mesmo Pai Surrão
Toma, papa este tição.
Compreendeu Besita o ardil da preta, e no desamparo em que se achava, confiou nessa frágil esperança.
Passou o resto da manhã sem o menor acidente. Assim desvaneceu-se o primeiro sobressalto, e a moça inclinada a crer que apenas fora vítima de uma ilusão cruel, cobrou ânimo, embora não se pudesse esquivar à inquietação que lhe deixara o terrível susto.
Veio a tarde: o céu estava sereno, e coava-se no espaço uma aragem tão doce que Besita encostou-se ao peitoril da janela. Com a fronte descansada à ombreira, deixando cair para fora as longas tranças de seus lindos cabelos negros, que a brisa fazia ondular, embebia-se em contemplar a estrela vespertina, que cintilava no horizonte. Súbito, no esquecimento dessa cisma, uma estranha idéia despontou-lhe no espírito. Pareceu-lhe que, através da cintilação da luz, desenhava-se a imagem de sua mãe, a sorrir-lhe lá do céu e a chamá-la.
Então ouviu Zana um grito de terror, que se extinguiu em um gemido de angústia. Fora de si correu à alcova da senhora, onde a esperava um quadro horrível.
No meio do aposento, o Ribeiro, pálido e medonho como um espectro, agarrando a mulher pelo pescoço, estrangulava-a com as longas tranças de cabelos.
IV
ÓRFÃ
Um grito espantoso retumbou, que estremeceu o assassino e o lançou espavorido fora do aposento.
Antes de sumir-se, porém, viu assomar no quadro da janela o vulto pavoroso de Jão, que de um arremesso atirou-se a ele para despedaçá-lo.
Nesse instante trespassou a alma do Bugre uma voz exausta, que se desprendia a custo do arquejante soluço:
- Jão!...
Prostrou-se o rapaz aos pés da moça, que o Ribeiro deixara agonizante, com o corpo atirado sobre um baú, e a cabeça pendida como o lírio, cuja haste o vento partiu.
Julgando-a morta, Jão só tivera um pensamento, a vingança; não eram lágrimas, mas o sangue do assassino que ele queria derramar sobre aquele despojo do que unicamente amara neste mundo.
- Nhazinha!... soluçou ele de mãos postas.
- Minha filha, Jão, minha... Ele... matá-la!
Concentrara a pobre moça todas as forças naquela ânsia, truncada pelas vascas. Nesse já frio cadáver ainda palpitava o coração materno.
Precipitou-se o Bugre em busca da menina. Zana alucinada apertava convulsamente nos braços contraídos, e com o fito de esconde-la ao seio, quase a sufocava. Foi preciso luxar-lhe os ossos para arrancar a criança.
Quando Jão outra vez ajoelhou aos pés de Besita com a menina ao colo, a mísera mãe, soerguendo o busto num arranco supremo, lançou os braços já hirtos aos ombros do rapaz e cingiu no mesmo abraço Berta e o fiel amigo que a salvara. Arrojou-se então para dar à filha o beijo extremo; mas fugindo-lhe já a luz dos olhos, vacilava a fronte, e os lábios gelados a esmo roçaram pelo rosto da criança, como pelas faces de Jão.
Ao toque desse beijo, desmaiou o Bugre; mas embora lhe fugissem os espíritos, seu corpo não tombou; somente desabou sobre si mesmo, como um penhasco, minado pela base, que soterra-se em seu próprio âmbito.
Passada a vertigem, a vista ainda baça do rapaz lobrigou através de uma névoa escura o vultozinho de Berta, que brincava com a mão gelada de Besita, chilrando como um passarinho.
Aquele beijo fora o supremo adeus da mãe. Besita estava no céu.
Ofegou o peito de Jào com uma ânsia que parecia rompe-lo; e o pranto se arrojou para os olhos sombrios; mas todo esse arremesso de uma dor imensa veio estalar na gorja, e tombando de novo nas profundezas da alma socavada pela dor, deixou apenas escapar uma surda estertoração, semelhante ao estrépito da torrente que se precipita da garganta da serra no abismo dos algares.
Aí, entre o cadáver da mulher a quem adorara, e o corpo frágil da criancinha órfã, se quedou o rapaz um momento, procurando reatar em seu espírito o fio das recordações subitamente apagadas. De repente soltou um brado, e arrojou-se.
Valera-se o Ribeiro da demora que tivera Jão ouvindo a voz exausta de Besita, para fugir e pôr-se fora do alcance de seu perseguidor. O assassino, que tinha maquinado friamente a sua vingança, se preparara para a fuga, no caso de perigo.
Havia cerca de dois anos que esse homem partira de Santa Bárbara, deixando sua esposa no dia seguinte ao do casamento, para Itu, salvar avultados interesses comprometidos. Apesar da pronta determinação, o negociante, seu devedor, já se tinha ausentado; e suspeitava-se que se dirigia a Curitiba.
Foi-lhe no encalço o Ribeiro; e tão feliz que obteve cobrar boa parte da soma. Vendo-se rico de repente, não resistiu o moço à tentação de gozar dos prazeres com que o seduziam a cada instante as gabolices dos tropeiros e marchantes.
Afinal, ao cabo de dois anos, lembrou-se da mulher que deixara ainda noiva, no dia seguinte ao do casamento; e dirigiu-se a Santa Bárbara. Remordia-lhe a consciência; como era natural encheu-se de desconfianças.
Às ocultas aproximou-se da casa; e ficou à espreita. Viu Besita com a filha ao colo; e suspeitou de uma traição. Ao cair da tarde, quando a moça cismava com os olhos engolfados no céu, ergueu-se diante dela irado e ameaçador.
A infeliz prostrou-se de joelhos a seus pés e confessou-lhe tudo, o engano fatal de que fora vítima, e a desgraça irreparável que a separara para sempre dele e do mundo.
A resposta foi um escárneo.
- Ele já era teu amante!
Tomado por um acesso de fúria, deitou as mãos ao alvo colo da moça, e enleando-o com a madeixa, a estrangulara. Acabava essa cruel vingança e pensava em imolar também ao seu rancor a inocente criança, quando o bramido do Bugre o estremeceu de horror.
Sem hesitar ganhara o mato pelos fundos da casa, e embarcando na canoa que o esperava, desceu o Piracicaba com a rapidez que dava a enchente à correnteza das águas.
Pressentindo que o perseguia o ódio profundo e implacável de Jão, ou talvez acossado apenas por um remorso dilacerante, não descansou o Ribeiro enquanto não transpôs o oceano, colocando-o entre si e a terra onde exercera sua vingança.
O Bugre o procurou por toda a parte, mas debalde: o homem estava em Portugal.
Berta fora recolhida por nhá Tudinha, cujo marido ainda vivia. Voltando do povoado a boa mulher ouvira um forte choro de criança que vinha da casa de Besita; e levada por uma curiosidade compassiva, aproximou-se para espiar disfarçadamente pela janela.
Viu Jão que desajeitadamente ninava a criança, desesperada de fome por falta de mama. Tentava o rapaz inutilmente que a menina chupasse a ponta de um pano embebido em café; e vendo sem resultado seu desvelo, caíam-lhe as lágrimas dos olhos em bagas.
Surpreendida com esta cena e assustada com a imobilidade do vulto de Besita, que ela via deitada sobre a cama, nhá Tudinha animou-se a entrar e soube do Bugre o lúgubre acontecimento. Não hesitou desde esse momento em considerar Berta sua filha.
Apesar de ser Miguel muito mais velho do que Berta, ainda nhá Tudinha tinha leite; e ali mesmo acalentou a infeliz órfã dando-lhe de mamar.
O nascimento de Berta e a morte de sua mãe eram um mistério para a gente do lugar. Zana enlouquecera, e Jão, única testemunha daqueles acontecimentos, só por alto os referiu a nhá Tudinha, que nunca revelou o segredo.
A casa onde nascera Berta ficou abandonada, e estava reduzida a tapera, onde vivia a doida, que depois de tantos anos ainda via na sua alucinação desenhar-se a cena pavorosa da morte da senhora.
V
FERA
Não se pinta a exacerbação de Bugre quando sentiu que lhe escapara o assassino de Besita.
Estuava-lhe a alma. Entrava na venda para matar a sede que o abrasava; mas a cachaça parecia-lhe chilra e insípida como a água do brejo. Sangue era o cordial que podia mitigar-lhe esse fogo intenso a lavrar-lhe dentro.
Queria brigar; tinham medo e fugiam dele. Matar a frio, maquinalmente, como o carniceiro faz à rês, e o caçador à perdiz, isso não o poderia; repugnava-lhe; tinha nojo ao cruor.
Foi nestas condições que um ricaço, informado da valentia de Jão, o tomou para capanga; e bem precisava ele, que não lhe faltavam inimigos. O preceito do Evangelho é "não fazer aos outros o que não queremos nos façam". Daí tinha o mandão extraído uma regra para seu uso, a qual em sua opinião, era apenas o complemento da máxima cristã. "Façamos aos outros o que eles nos pretendem fazer", dizia ele; e sem o menor escrúpulo, com perfeita serenidade de consciência, ia aviando os seus inimigos, para não lhes morrer às mãos.
Eis o homem a cujo serviço esteve Jão durante algum tempo, não só pela necessidade de ganhar a subsistência, como pela ânsia de saciar a sanha terrível que o devorava. Fez-se instrumento da perversidade do mandão; mas essas vinganças não eram senão brigas e combates, em que ele barateava sua vida, ansiando pela morte, que se obstinava em poupa-lo.
Sujeito que fugisse e se amedrontasse, não lhe tocava Jão, qualquer que fosse a recompensa ou ameaça do amo. Mas também quando se enfurecia, nada aplacava essa alma calcinada pelo fogo surdo que lavrava desde a morte de Besita.
Referiam-se desse homem as maiores atrocidades; e a alcunha de Jão Fera que lhe tinham dado por esse tempo, bem revelava a profunda impressão produzida na gente do lugar pelos fatos que ele praticara. Alguns não se explicavam, a não ser pelo delírio sanguinário que se apodera de certos homens, e não é talvez senão a exaltação do hábito levado até a mania.
Chamado, pago e protegido por homens poderosos para escolta-los em aventuras e servir às suas paixões, o Bugre recebeu a iniciativa e a animação que iam acostumando seu braço a ferir e a repousar depois do crime, como se tivesse praticado uma honrosa façanha, uma valentia digna de louvor.
Esta é com pouca diferença a história de todos os assassinos incorrigíveis, que infestam o interior do país. Eles foram educados pelos poderosos como os dogues que se adestravam antigamente para a caça humana, dando-lhes a comer, desde pequenos, carne de índio.
Durante o tempo que serviu como capanga a diversos patrões, não esqueceu Jão os dois pensamentos únicos de sua vida, ou antes único pensamento que se dividira agora em dois cuidados.
Era Besita que lhe deixara em legado, vingar sua morte, e proteger sua filha.
Não se passava um dia sem tirar Jão inculcas do Ribeiro, esperando que fizesse o acaso o que não pudera toda a sua diligência. Também de tempos em tempos vinha às ocultas até Santa Bárbara para ver Berta; e então sempre lhe trazia algum enfeite e deixava na mão de nhá Tudinha dinheiro para comprar-lhe o necessário, de modo que andasse bem pronta e arranjada.
Berta a princípio não queria saber daquele homem triste e carrancudo. Quando nhá Tudinha a levava pela mão até o mato, onde ele as esperava para não ser visto, a menina tinha medo. Mas a pouco e pouco foi se habituando, e afinal sentada em seus joelhos brincava com a faca de ponta que lhe tirava da cinta e arrepiava-lhe a barba ruiva.
Tinha Berta as feições da mãe, e Jão via com enlevos, travados muitas vezes de um terror supersticioso, surgir pouco e pouco do vulto da menina a imagem rediviva da mulher, a quem adorara como uma santa, embora tivesse amado também com a fúria de um possesso.
Quando já tinha Berta seus doze anos, e no corpo infantil iam se esboçando os relevos graciosos e suaves contornos da estátua feminina, deixava-se o Bugre ficar longas horas em muda contemplação, com os olhos pasmos na menina, que brincava pelo campo sem dar-lhe atenção.
Havia então singulares alucinações na alma desse homem. A paixão que jazera recalcada por tantos anos no fundo de seu coração, irrompia-lhe de novo com ímpetos medonhos, semelhante a um tigre sedento que se arroja contra a jaula para despedaçá-la.
Berta lhe pertencia. Não pela mesquinha razão de a ter salvado, mas pela consagração das angústias que sofrera. Ela era filha de sua dor; quando o pai a desprezara, abandonando a infeliz mãe, ele as envolvera ambas em uma ardente e incessante dedicação. A alma se lhe estancara nessa paixão imensa; carecia pois de orvalhos para umedecer a terra sáfara e exausta, que era sua existência agora.
Afigurava-se à sua mente enlevada, que Besita revivera na filha para pagar a ele Jão os extremos do puro e humilde afeto. Enleava-se nas cismas de outros tempos e surgiam-lhe os sonhos que fizera outrora, os devaneios da vida feliz, no seio da floresta, longe do mundo que o perdera. Seu amor era infindo; chegava para encher o deserto.
Todavia o olhar da menina o turbava, e desde muito tempo já não se animava ele a sentá-la nos seus joelhos, como dantes. Se acaso Berta lhe fazia um afago, ao contado da mão mimosa o sangue espadanava-lhe do coração como lavas; mas logo refluía, gelado por um calafrio glacial.
Já não era Berta que ele via e sentia, mas o vulto de Besita, surgindo triste e lacrimosa para defender a filha.
Nos arrancos e embates dessa luta correu a infância de Berta.
Havia um ano deixara Jão o ofício de camarada; e vivia oculto nas vizinhanças de Santa Bárbara, onde facilmente via Berta e lhe falava. Cessando a proteção que os potentados costumam dispensar a seus asseclas, e a imunidade de que os revestem, começou logo o Bugre a ser perseguido como um flagelo.
Mas até então zombara de todos os esforços, apesar de prosseguir em suas façanhas. Raro era o mês no qual não se consumava pelos arredores alguma vingança; e o instrumento era quase sempre ele, Jão Fera, a quem buscavam de preferência para esta tarefa, pela fama terrível que tinha adquirido.
VI
A RESTITUIÇÃO
Ao cabo de quinze anos voltara o Ribeiro a São Paulo.
Não se animaria contudo, se os anos, e mais ainda uma irrupção no rosto, não lhe tivessem alterado completamente as feições. Em Portugal o chamavam de Barroso, apelido que substituiu ao seu para maior segurança.
Já estava há meses na província, quando resolveu ir a Santa Bárbara. Com a vista daqueles lugares acendeu-se o ódio sopitado; um pensamento de serôdia vingança despontou em seu espírito e medrou.
Ouvira falar do Chico Tinguá como inculca de um sujeito que se incumbia, mediante boa espórtula, de arranjar esses negócios. Tocou no ponto ao vendeiro; este expediu o bacorinho a Jão Fera, que não tardou no rancho, onde se fechara o ajuste, mediante o sinal de vinte patacões.
Nenhum dos dois reconhecera o outro. Jão poucas vezes antes da morte de Besita vira o Ribeiro, e este nunca reparara no capanga, que raro tinha encontrado e de passagem em casa da noiva. Acrescia a mudança operada pela idade e outras circunstâncias.
Todavia notou Jão que esse homem lhe inspirava profunda aversão; e cada vez que o avistava tinha ímpetos de puxar briga com ele e mata-lo. Na Ave-Maria especialmente, no dia da tocaia, a não ser o urutu que espantou o cavalo, o Ribeiro cairia com o coração traspassado.
Ao vê-lo passar, na volta do caminho, entre os claros da folhagem, teve o capanga uma espécie de visão; pareceu desenhar-se a seus olhos a mesma face fouveira de raiva e terror, que rápida perpassara diante dele na tarde do assassinato de Besita, mas ficara para sempre estampada em sua reminiscência.
De seu lado o Ribeiro, embora não tivesse a menor suspeita do homem com quem lidava, não podia eximir-se de um involuntário confrangimento, quando se aproximava de Jão Fera. E se este carregava sobre ele o duro olhar, corria-lhe pela medula um frio glacial.
Assim estava impaciente de ver concluído o negócio para livrar-se do capanga; mas correram-lhe as coisas às avessas, pois agora depois do que passara na venda do Tinguá, sabia que o tinha no encalço, e tratou de aprecatar-se.
Contudo não esquecera o Ribeiro a sua vingança, embora tomasse ela outra feição da que tinha em princípio. Depois da tocaia na Ave-Maria, passara pelas Palmas e vira a família de Luís Galvão, reunida no terreiro, gozando a frescura da tarde, ao expirar de um dia cálido.
Afonso lia para a mãe e a irmã. D. Ermelinda acompanhava com os olhos as mutações das alvas nuvens que o vento carmeava no azul do céu, Linda fazia trabalhos de lã.
A serenidade e enlevo desse quadro pungiram acremente a alma do Ribeiro. Invejou a felicidade de Luís Galvão. Invejou a felicidade de Luís Galvão, no seio daquela família encantadora e no meio dos gozos que dá a riqueza.
Suas idéias tomaram um rumo desconhecido. Ele que tinha consumido toda a mocidade em uma vida aventureira e vagabunda, e se isolara inteiramente no mundo, sem outra companhia, além dos parceiros de jogo e prazer, sentiu de repente penetra-lo um eflúvio da vida calma, sossegada, que desliza docemente no lar doméstico, entre as alegrias íntimas e as festas singelas da família.
Mas já estava adiantado em anos para tratar agora de criar uma família. Seria como o tardo lavrador que planta a árvore da qual não verá o fruto. O que lhe servia era uma família já formada, com seu macio conchego, seus hábitos encantadores, onde ele chegasse e tomasse o seu canto, como um conviva, que acha na mesa do banquete o talher preparado.
E não estava ali, perto dele, a família de que precisava? Onde encontraria mulher mais agradável? Podia nunca esperar que viesse a ter outros filhos mais lindos e prendados do que esse par gentil?
Por estranhos que pareçam estes pensamentos, de tal modo se imbuíram no espírito do Ribeiro, que ele acabou rindo-se de seu primeiro projeto. Matar apenas Luís Galvão numa emboscada, como pretendia, era uma vingança brutal e estéril que afagava o seu ódio e nada mais.
Fazer porém desaparecer o fazendeiro, e tomar o seu lugar, como fizera ele outrora; essa era uma desforra de mestre, que não só ajustava as contas do passado, como garantia o futuro. Aplicando ao sedutor a pena de talião, fazia ele, Ribeiro, ainda por cima um bom negócio.
Desde então empregou toda sua atividade em levar ao cabo a obra, cuja realização fora marcada para a noite de São João.
Ao recolher, se manifestará no canavial das Palmas um incêndio que se há de atribuir a algum foguete desgarrado. Luís Galvão naturalmente acudirá para acautelar maior estrago. Nem os escravos da roça, fechados nos quartéis por Monjolo, nem os pajens trancados por artes do Faustino, poderão acompanhar o senhor.
Gonçalo Pinta, emboscado no caminho, derrubará Luís Galvão com uma cacetada e o lançará nas chamas, para acreditar-se que foi vítima do incêndio, e não de uma trama pérfida e covarde.
Então Ribeiro ou Barroso, que figura passar casualmente pela estrada, acode e extinguindo com o auxílio dos camaradas o incêndio, já de antemão cortado por largo aceiro, conduzirá o corpo do Galvão à casa e oferecerá à viúva seus serviços.
Eis o plano, em virtude do qual esperava Barroso estar casado com D. Ermelinda e senhor das Palmas, antes de findo o ano do luto.
Depois de fazer ao Faustino e a Monjolo as últimas recomendações, voltava ele acompanhado pelo Pinta, quando inesperadamente saiu-lhe ao encontro, de dentro do mato, Jão Fera.
O Barroso vacilou na sela; e o Gonçalo Suçuarana ficou ainda mais rajado, com a palidez que lhe afulou o semblante. Todavia não fizera o Bugre o menor gesto de ameaça; apenas lhes tomara a frente, postando-se no meio do caminho.
- É hoje véspera de São João. Seu dinheiro aqui está; não lhe devo mais nada.
Estas palavras foram ditas pelo capanga na sua voz arrastada e mansa, estendendo ao Barroso um maço de notas, que ele recebeu maquinalmente com a mão bamba.
- Agora passe bem. Havemos de encontrar-nos! continuou o Bugre, cujo olhar despediu uma chispa.
E desapareceu.
VII
FASCINAÇÃO
Quando Berta abriu a porta da alcova em busca do chapéu, Linda veio ter com ela:
- Onde vai?
- Ali, já volto, respondeu Berta iludindo a pergunta, e sôfrega por evitar conversa naquele instante.
- Guarde seu segredo! tornou Linda ressentida do modo frio por que lhe respondera.
Conhecendo que se agastara a amiga, cingiu-lhe Berta a cintura com um braço, e impediu assim que ela se afastasse.
- Olhem a curiosa! Zangou-se porque não lhe disse onde vou? Ah! Quer saber? Pois eu lhe conto; depois não fique aí vermelhinha como uma pitanga. Escute!
Aproximando a boca ao ouvido de Linda segredou-lhe com malícia:
- Vou à casa, buscar Miguel para que ele venha decidir a nossa aposta, e dizer se eu menti afirmando que ele morre por certa pessoinha muito nossa conhecida.
À proporção que falava a travessa da Berta, abrasava-se a concha nacarada da orelhinha de Linda, enquanto os longos cílios velando os brandos olhos, ensombravam docemente a sua face enrubescida.
Quando pronunciava baixinho as últimas palavras, viu Berta uma formosa cabeça magana e brejeira, que se insinuava arteiramente entre seus lábios e o ouvido da companheira, soltando estas palavras com um tom de motejadora confidência:
- Eu também entro no segredo!
Era o Afonso.
- Ai! exclamou Berta, sentindo nos lábios o roçar do buço macio que pungia a face do mancebo.
- Que abelhudo você é, mano! acudiu Linda, um tanto contrariada por não ouvir o resto do que tanto lhe interessava.
- Não disfarce, menina, você mesma é que me disse que Inhá estava me chamando para dar-me um bei...
- Um beliscão! atalhou Berta cravando-lhe no braço a unha rosada, mas rija como a garra da araponga.
E abrindo rapidamente a porta, ganhou a alcova, com o sentido de fechar-se por dentro e evitar assim a desforra que o Afonso não deixaria de tomar e que ela bem suspeitava qual fosse.
Mas transtornou-lhe todo o plano o maganão, metendo de pronto o joelho à porta, antes que a chave desse volta. Começou então uma luta, que devia terminar pela derrota de Berta, apesar do petulante arrojo da menina, habituada aos folguedos de rapazes, e da galanteria com que Afonso moderava o seu impulso, a fim de não molestar a sua gentil competidora, e também para não lograr tão fácil a vitória.
Mas teve Berta um aliado, com o qual não contara o moço. Linda acudiu à amiga, como a formiguinha que mordeu o calcanhar do caçador para salvar a rola. Achegando-se ao irmão sorrateiramente, fez-lhe cócegas.
Afonso era árdego; estremeceu, rindo como um perdido, e apartando os cotovelos, para se desvencilhar da irmã, sem abandonar o posto.
- Assim, Linda! gritava Berta.
- Espera, sonsinha, que tu me pagas! dizia o Afonso no meio das risadas.
- Deixe a outra! acudia Linda.
Apertado entre dois fogos, voltou-se rapidamente Afonso, para fazer face à irmã, enquanto com as costas empurrava a aba da porta. Vivo e pronto como foi esse movimento não evitou que Berta com extrema agilidade, aproveitando-se da breve intermitência em que a fechadura aderiu ao batente, desse volta à chave.
Ficou de todo o ponto azoado o Afonso; e Linda, vendo-lhe a cara desconsolada, soltou uma risada gostosa.
Nisso repercutiu um grito; era de terror ou talvez de aflição; e vinha de dentro da alcova.
- O que foi, Berta? exclamou Afonso.
- Inhá, Inhá, é você! balbuciava Linda sufocada pelo susto e abalando a porta.
- Abra depressa! instava o moço cheio de inquietação.
Não tiveram resposta estas perguntas ansiadas e instantes. Reinava dentro grande silêncio, apenas cortado por um tinido vibrante, que arrepiava como o áspero trincar da lima no ferro.
- É graça; ela quer nos assustar! dizia Afonso disfarçando para consolar a irmã, porém angustiado por um terrível pressentimento.
Ao mesmo tempo, curvado, espiando pelo espelho da fechadura, investigava o interior quanto lhe permitia a estreita abertura por onde passava o olhar. A luz que entrava pelas janelas abertas esclarecia o aposento; assim via o rapaz distintamente o centro da parede fronteira, onde estava colocado o toucador da irmã. Com muito esforço, inclinando-se o mais possível à direita, percebia a orla do cortinado desfraldado pela cabeceira da cama.
- Viu-a? perguntou Linda que não cessava de chamar pela amiga.
- Não! respondeu agoniado o irmão.
- Basta, Inhá! disse a filha do fazendeiro, com o tom suplicante. Você nos aflige com esta brincadeira.
- Qual! Ela é pirracenta! replicava Afonso rindo-se para animar a irmã. Mas logo, quando eu a pilhar, há de arrepender-se. Eu cá me contento com uma dúzia; e você, Linda?
Assim galhofando, Afonso aplicava alternativamente os lábios e os olhos ao orifício da fechadura, para falar a Berta, e ver se ela dava sinal de o ouvir.
De repente pareceu-lhe que uma sombra se interpunha entre a porta e o toucador; e afirmando a vista reconheceu o vulto de Berta, que oscilava. Cuidou que a menina, para fazer-lhe negaça, estava de brejeira a bambolear o corpinho.
- Lá está ela se faceirando! exclamou Afonso cheio de contentamento.
- Aonde?
Lembrou-se, porém, o moço que Berta voltava-lhe as costas, em vez de virar-se para a porta, como era natural. Querendo verificar esse reparo, já não o pode, porque a sombra vacilara e desaparecera.
Sofregamente buscava ele de novo enxerga-la; e não o conseguia, quando casualmente seus olhos caíram sobre a face polida do espelho, que ornava o toucador de mogno.
Uma surda exclamação, que o moço não teve tempo de sufocar, lhe prorrompeu dos lábios.
- Ah!
- O que é? interrogou Linda transida de terror.
- Não sei o que ela tem... Sentou-se... Parece que caiu.
Estas palavras, proferiu-as o moço ofegante, recalcando as palpitações violentas, que lhe talhavam a fala, e sem tirar os olhos do espelho do toucador.
Fora ali que vira desenhar-se a imagem de Berta, sentada sobre o pavimento, com o talhe acabrunhado por súbito desmaio das forças; mas a cabeça promovida por um rígido impulso, e as negras pupilas dilatadas em um olhar fixo, estático, de vítreos lampejos.
Não se enganara Afonso; Berta se voltava com efeito para o interior, pois sua imagem refletia-se de frente no espelho. O que olhava, porém, ela com a vista assim pasma? Ansiava o moço por descobrir e não tardou muito.
Na borda inferior do espelho, sobre o friso da moldura de mogno, surgiu um ponto que foi a pouco e pouco avultando. Era a cabeça chata de um animal, coberto de três ordens de escamas transversais dispostas sobre um couro de pardo fulvo mosqueado de preto.
Um brado de horror escapou da gorja angustiada do mancebo, que recuando se arremessou com desespero, para espedaçar a porta.
Mas essa era da cabiúna; e desafiava as forças de muitos homens.
Linda caíra quase desfalecida sobre uma cadeira, ao ver a angústia e o espanto do irmão, o qual, reconhecendo a inutilidade de seus esforços contra a porta, se precipitara para o terreiro, com a idéia de saltar pela janela no interior do aposento.
Nesse momento, e como um eco de seu brado de terror, ouviu-se também do lado do canavial um grito, senão era uma gargalhada selvagem, semelhante ao grasnar do maracujá.
VIII
LETARGO
Uma cena espantosa acabava de passar na alcova.
Com o rumor que fizera Berta ao bater a porta, na ocasião de entrar, a cascavel alçou a cabeça, e descobrindo o vulto da menina, desdobrou-se para escorregar ao chão.
Apenas tocou o soalho, enroscou-se rapidamente sobre si, na sombra que embaixo do leito projetava o cortinado, e enristou o colo como um dardo inserido na seteira de uma torre e pronto para o arremesso. Ao mesmo tempo a cauda romba e curta, vibrada por uma crispação nervosa, batia no pavimento a primeira das três pancadas fatais que precedem o bote, chocalhando os cascavéis com a sinistra crepitação, que gela a medula ao mais destemido.
Assim com o bote armado, esperou o insidioso réptil se aproximasse o inimigo, para de um jacto cravar-lhe os dois croques terríveis que manam o sutil e mortífero veneno.
Quando Berta, aproveitando-se do descuido de Afonso, conseguira fechar a porta, imediatamente correu à cama a fim de tomar o chapéu que vira sobre as almofadas, e fugir pela janela, travessura que ela tinha em criança feito muitas vezes, e que se propunha a realizar agora antes de dar tempo ao moço para atalhar-lhe o caminho.
No meio do aposento, parou a menina de repente com um involuntário estremecimento. Ouvira o som áspero de um guizo estrídulo, tangido rapidamente; e sentiu logo um enjôo produzido por acre exalação que se derramara no ar.
Atraídos por um impulso misterioso, volveram-se os olhos de Berta, e caíram sobre a boicininga, cujas pupilas fulvas, fulguravam na sombra, jorrando em ondas uma luz fosforescente, como as chamas sulfúreas, que se levantam do seio da terra vulcânica e retalham o negrume da noite.
A fauce hiante, sangüínea, se eriçava com duas serrilhas de dentes aduncos e retorcidos como garras, e no meio dela agitava-se a língua negra, híspida, dardejante, cuja ponta bífida ressaltava como impulsa por oculta mola de dentro de si mesma; pois servia-lhe de estojo a parte inferior.
Foi nesse momento, ao avista a cobra que o grito de terror escapou-se da boca de Berta. Mas às perguntas de Linda e de Afonso, se ainda as ouviu confusamente, não teve ela mais voz para responder-lhes que seus lábios estavam gelados.
Encontrando-se o olhar da serpente e o seu, cravaram-se de modo, ou antes se imbuíram e penetraram tanto um no outro, que não pode mais a vontade separa-los e romper o vínculo poderoso. Parecia que entre a brilhante pupila negra da menina e a lívida retina da cascavel se estabelecera uma corrente de luz na qual fazia-se o fluxo e refluxo das centelhas elétricas.
A mesma cambraia que retraiu o dorso flexuoso da boicininga espasmou o talhe grácil de Berta, como se uma força única regera a vida nessas duas organizações. Aí estava produzida ao vivo a misteriosa identificação da mulher e da serpente, que deu tema ao poético mito da tentação.
Lentamente a cascavel afrouxava os anéis em que enroscara o toro, até que se espreguiçou ao longo pelo pavimento, pousando lânguida sobre a tábua a cabeça chanfrada. Recolheu-se a língua dentro da bainha, e esta desapareceu por baixo do focinho, que se abatera flacidamente sobre a mandíbula.
Toda a força vital da boicininga se concentrava no olhar, donde coava-se uma flama trepida, por entre as titilações da membrana sutil, que reveste a retina da serpente. Encadeada por esse fio luminoso ao olhar cintilante de Berta, o medonho réptil parecia como deslumbrado por súbito lampejo.
Também a menina sofria a repercussão dessa influência.
As pernas trêmulas vacilavam; invadida por súbito desfalecimento, vergou ao peso do próprio corpo, e convolveu-se como a campânula que frange as pétalas para cerrar o cálice e pender murcha sobre a haste.
Assim deixou-se Berta cair de joelhos e derreando sobre os calcanhares, foi preciso apoiar-se com a mão esquerda no soalho, a fim de suster o busto, que uma força misteriosa impelia avante, como para prostra-la de bruços e colear-lhe o talhe.
Ainda assim não resistia de todo àquela poderosa atração. Com o pescoço distendido, a cabeça lançada à frente, mostrava a ânsia de arrastar-se para vencer a distância que a separava da cascavel.
O desmaio da moça fora a princípio cheio de indizível angústia; apoderou-se dela um incompreensível pavor; queria fugir, e sentia-se elada a si mesma como a um poste de dor. Dir-se-ia que duas forças divergentes, duas naturezas em reação, lutavam dentro de sua alma e a dilaceravam, disputando-lhe o ser, como aves de rapina que brigam pelo cibo.
Uma dessas naturezas abatia-lhe a fronte, que a outra porfiava em manter excelsa; e estorcia-lhe o corpo feito para a estatura nobre e senhoril. Umas vezes, presa da estranha vertigem, via-se em pé, diante de si mesma, imperiosa e cheia de desdém, a esmagar sua própria cabeça. Outras vezes transformada em vípera, eleva-se pelo colo da menina gentil, que ela era, e conchegava-se ao tépido calor de um seio virgem.
Afinal, com um movimento hirto estendeu Berta o braço direito para a cascavel, aberta a mão e crispados os dedos, no ímpeto de tocar o rosto do réptil, ao qual tornou-se mais viva a trepidação do olhar.
Confrangendo-se, a boicininga propulsou de leve a cabeça, como se arrastara um fio invisível, e foi lentamente rojando para Berta. Nesse instante havia Afonso enxergado o réptil; e se precipitara horrorizado para despedaçar a porta,
Entretanto Berta, à proporção que avançava para ela a boicininga, ia-se retraindo; erigia-se o busto, e ressurgia-lhe n’alma essa elação que a desfere ao céu e que imprime na criatura humana a majestade do porte. Assumia a menina outra vez a fina têmpera de seu caráter altivo e inflexível.
Quando a cabeça da cascavel roçou-lhe a ponta dos dedos, um choque íntimo percutiu-lhe o corpo, e estorceu o toro da serpente. Mas passou instantaneamente; o réptil elando-se pelo braço mimoso, veio cingir-lhe as espáduas, formando colar.
Com o toque desse brando serpear sentiu Berta a doçura de uma carícia; a boicininga titilava de volúpia ao tépido calor da cútis acetinada; e escondendo a monstruosa cabeça na conchinha da mão que a menina recolhera ao seio, caiu no letargo.
IX
TRANSE
Enquanto rápidos corriam os últimos acontecimentos, Brás erguendo-se no canavial, ainda atordoado da queda e da vertigem, saltou a cerca do pátio.
Por diversar vezes tentou sungar-se pela parede e trepar à janela; mas escorregava por falta de apoio ou saliência a que se agarrasse para alcançar o batente. Afinal de um salto enorme logrou o intento; e pode grimpar-se até o peitoril, onde agachou-se.
Ao ver Berta, sentada no chão, junto à cama, e enlaçada pela cascavel, deu tremendo pulo o idiota, que travou da cabeça do réptil como faria ao cabo de um chicote, e fugiu espavorido, soltando um berro de cólera, e zimbrando o próprio corpo com a serpente que lhe servia de látego.
Era o castigo que ele se infligia pelo susto causado a Berta e perigo de que a ameaçara com seu desazo.
Subitamente arrancada ao encanto que a prendia, a menina correu à porta e abriu-a, lívida e palpitante de emoção. Linda atirou-se a ela para abraça-la; e logo depois chegou Afonso, que voltara ouvindo abrir-se a porta.
Às impacientes interrogações, Berta respondeu mostrando Brás, que rompia o canavial em uma corrida furiosa, vibrando o seu látego vivo, a zunir pelos ares. Cheios de espanto, Linda e o irmão seguiram com os olhos o vulto do idiota até que sumiu-se; e voltaram-se para obter de Berta a explicação daquela terrível insânia que eles não haviam compreendido.
Berta porém tinha desaparecido.
Restabelecida da fascinação que sofrera, recordou-se a menina do motivo que a trouxera àquela alcova, e receando ter perdido muito tempo, esgueirou-se ligeira pelo interior da casa para ganhar as plantações e seguir o rumo que vira tomar pai Quicé.
No fim do canavial ouviu ela um sussurro particular que parecia o zumbir de um grande besouro, e voltando os olhos para o lado donde trazia a brisa aquele zunzum, avistou acocorado a uma pedra, como uma intanha, o negro velho, que rosnava a sua monótona lengalenga em gíria africana.
- Psiu! fez a menina.
- Nhá moça?
- Vamos depressa que já perdi muito tempo.
Deitou-se a andar o paizinho e mais depressa do que se devia esperar da sua figura de arco de pipa. Apesar da torção que lhe vergara o espinhaço como uma hástea de taquaruçu, conservava ele ainda certa agilidade nas gâmbias, que se moviam à semelhança das patas de uma guaiamu.
Sulcava a capoeira um trilho estreito, porém muito batido a julgar pela fita de argila socada e nua que serpejava, à guisa de um cipó, entre a grama. Por aí tomou Quicé, e a menina o seguiu com tamanha impaciência que sua mão sôfrega tocava amiúde o liso casco do negro como instigando-o a apressar o passo. Sua imaginação lhe representava Jão preso, algemado; quisera ter asas para voar.
Da capoeira desembocava-se em um vasto campo de cerca de meia légua, regaço da floresta virgem que lhe corria em volta, e cuja espessura já o machado havia desbravado do lado por onde vinham Berta e seu guia.
Quando se achavam os dois a meio da campina, ouviram longe o ribombo do trovão, o que era para admirar-se, pois o céu estava límpido, e no azul cristalino não se via capulho ou flocos de nuvens.
Entretanto o surdo trovão crescia e vinha rolando das profundezas da floresta, mas contínuo, incessante, sem as intermitências dos roncos da procela. A terra, como percutida por violento abalo, tremia, reboando os ecos do estranho fragor.
De momento a momento condensava-se o hórrido estampido, que já parecia fremir na orla da floresta. De repente surdiram do seio desse ribombo e começaram a sulcá-lo, outros rumores estridentes. Ouvia-se o estalo das ramas despedaçadas, como se o pampeiro fustigasse a floresta; um áspero grunhido e também um ranger de ossos, que trazia à mente espavorida os contos de cemitérios e duendes.
Involuntariamente o preto velho estacou, volvendo em torno de si um olhar aflito. Súbito pavor lhe transtornara as feições, repuxando as rugas da pele relha e borrando-lhe o negrume da cútis.
Surpresa com o estampido e assustada pela expressão de terror que viu no semblante de Quicé, perguntou Berta:
- O que é?
- Queixada, respondeu o preto com a voz sumida.
Com efeito, da orla da selva rompia um bando de porcos do mato. Mais de cem desses animais selvagens, com a pupila chamejante, ouriçando as ruivas cerdas e afiando os longos colmilhos nos queixais chocalhados pela sanha, trotavam em fila, e figuravam na relva da campina a verga combusta do imenso arco de algum tamoio gigante.
Assim avançavam os ferozes queixadas, rompendo selvas, estraçalhando quando encontram com os cutelos das presas, ou esmagando-o sob a úngula bissulca das cem patas cadentes que batem o chão. Se o inimigo resiste ao primeiro ímpeto do centro, ou se receiam lhes fuja, as pontas do arco se estorcem e a vara fatal cinge o mísero, que tomba em pedaços, como a isca à flor de tanque piscoso.
Era medonho o aspecto daquela serra navalhada a se estender pelo campo afora com extrema rapidez. Berta compreendeu o perigo que a ameaçava e horrorizou-se pensando no fim cruel que lhe fora reservado, e ali estava debuxado ante seus olhos com vivo e temeroso relevo.
Tinha-lhe ferido os olhos o sangue coalhado na belfa de uma parte dos queixadas. Pelo focinho, como pelas unhas dos mais ferozes, viam-se fragmentos de animais, que pareciam cães, e também resto de um despojo que bem podia ser de criatura humana.
A última esperança todavia ainda não desamparou o coração de Berta ante esse quadro hediondo. Corajosa como era, quis salvar-se alcançando um abrigo que a subtraísse à fúria dos caititus. Mas na campina rasa poucas árvores perdidas se elevavam a trecho; dessas a mais próxima, ficava-lhe a cem passos, e já vergava rapidamente sobre esse ponto a ala esquerda da formidável falange.
O impulso de Berta foi precipitar-se para aquele refúgio e lutar de velocidade com os queixadas. Tinha confiança em suas forças, e contava alcançar a árvore antes das feras. Mas ao desferir a corrida, acudiu-lhe à mente o preto, que havia esquecido nas angústias daquele momento.
Abandonar o velho decrépito à fúria dos animais, não lhe sofria o coração, e contudo uma voz impiedosa, a voz da conservação, lhe exprobrava o sacrifício inútil de sua existência. Há almas assim, que Deus apura no crisol da abnegação, e forma para se derramarem como a luz, o ar, o perfume.
Travando o punho de Quicé, tentou Berta arrasta-lo em sua veloz corrida; não tinha dado vinte passos, que reconheceu a impossibilidade do violento esforço. O arco já se convolvia em caracol, fechando-a e a seu companheiro em uma espira sinistra, que cerrava-se de instante a instante como a constrição da jibóia em torno à presa.
Estacou a menina; cada passo a aproximaria da morte, que a espreitava por todos os lados.
- Trepa na cacunda de Quicé! disse o preto velho.
Com o olhar agradeceu Berta ao mísero cativo, que na impossibilidade de a salvar oferecia ao menos esse meio de retardar-lhe o martírio, conservando-a suspenda nos ombros enquanto não o dilaceravam as feras.
Enfim já não é arco, nem mesmo cadeia, o que cerca os dois infelizes; mas um turbilhão fulvo, que marulha, fossa, remoinha, grunhe, amolando os colmilhos, e batendo o chão.
Estreitou-se Berta em suas roupas, como a virgem cristã no anfiteatro romano; e pondo os olhos no céu, esperou o martírio.
X
A GARRUCHA
Não era natural a arrancada de tão numeroso bando de caititus por aquelas paragens, fora da mata cerrada e próximo de habitações.
Houvera, porém, um motivo para essa alteração nos hábitos dos filhos bravios das selvas.
Fora aquele dia, véspera de São João, o que marcara Gonçalo Pinta para atacar o Bugre e agarrá-lo dentro da toca. Nesse intento e valendo-se da espionagem que fazia desde muito, combinara com Filipe um plano que não podia falhar.
O esconderijo do capanga ficava no mais intrincado da mata, entre as fraguras de uma penha que lhe servia de baluarte e prolongava-se através da floresta como a geba de algum monstro hirsuto.
Esse lado parecia a abrigo de qualquer ataque. Se da choça do capanga, embora dificilmente, se podia galgar o rochedo, era isso impossível da outra banda em que a penha se talhava a pique, em abrupto alcantil.
Gizou, pois, o Gonçalo que pela madrugada, Filipe com os companheiros ganhariam as cabeceiras da mata virgem. Ocultos pelas brenhas se aproximariam do penhasco e tratariam de tomar a saída do único desfiladeiro por onde podia fugir o capanga.
Ao meio-dia, quando Jão Fera costumava descansar na grota, o Gonçalo com uma troça de espoletas, pagos pelo Ribeiro, deitaria cerco pela frente, e o capanga, assim colhido, se entregaria vivo ou morto.
Partira o Filipe com sua malta à hora aprazada, e rodeou a floresta. Por segurança levava os cachorros que podiam servir-lhe para rastejar o inimigo no caso de escapula. A matilha, tomando faro ao fartum que trazia a brisa do fundo da floresta, colou e, embrenhada pela espessura, levantou um bando de queixadas.
Acuaram as feras, voltando-se ameaçadoras. Avisados pelos latidos, acudiram os caipiras que tentaram defender a matilha e desvencilha-la. Os queixadas, porém, estavam enfurecidos e arremeteram estripando os cães. Diante do perigo que corria, fugiu a gente; porém um dos companheiros, jarretado pelas terríveis navalhadas, tombou e num momento foi despedaçado.
Então o bando feroz, acossado pelos tiros que lhe desfecharam os caipiras, arremeteu através da floresta, grunhindo de sanha, e foi romper no campo onde se devia representar o último ato do drama sanguinolento.
Resignada ao martírio, Berta erguera os olhos ao céu, pedindo-lhe asilo para sua alma pura prestes a desamparar a terra. Os porcos, removendo os queixos, já tocavam com as cerdas do focinho o babado da saia, aflado pela brisa.
Retiniu, porém, um brado espantoso, que reboou pelas crastas e penetrais da floresta como o berro medonho do sucuri quando surge à flor do imenso lago. Pávidos estancaram os queixadas, erguendo a tromba ao ar para conhecer donde provinha aquela ameaça.
Devorando a distância na corrida veloz, saltando por cima dos magotes que encontrava em seu caminho, e às vezes fazendo do próprio lombo das feras chão onde pisar, Jão precipitou-se enfim no lugar onde Berta e o negro velho aguardavam a morte contritos.
Suspendendo a menina com o braço esquerdo, enquanto brandia o direito a longa faca apunhada, o vigoroso capanga, aproveitando-se do espanto das feras ante sua audácia, arrojou-se para a árvore mais próxima, onde poderia colocar a menina a salvo de perigo.
Já ele transpunha a distância, quando ouviu-se um grito dilacerante: o negro velho agitando convulsivamente os braços debateu-se no meio dos queixadas, como um náufrago no torvelinho das ondas, e estrebuchou.
- Jão! exclamou Berta angustiada, mostrando o corpo do africano que tombava.
- Não!
Perseguido pelas feras, bem via o capanga que não tinha tempo a perder; a menor demora podia ser fatal. Os queixadas eram sanhudos e em numeroso bando. Se o envolvessem, tolhido como estava de um braço, corria grande risco Berta, a quem a morte dele Jão, longe de salvar, roubaria a última esperança.
Por isso recusou-se ao pedido da menina.
- Pois eu não o abandono!
Retorquindo-lhe por esse modo, Berta soltou-se do braço do Bugre, para correr ao negro, como se ela, frágil menina, pudesse valer-lhe naquele transe.
Preveniu-lhe Jão o impulso, e estreitando-a ao peito com força, atirou-se em um arranco de desespero para o lugar, onde o mísero Quicé acabava de cair às focinhadas dos porcos. Abarcando-lhe o crânio com a mão robusta, o capanga arremessou-o longe, de um boléu, como faria com uma pedra.
- Foje, bruto! disse ele à ossada que varava pelos ares e que estalou entre os seus dedos.
E com a faca de ponta que um instante segurava nos dentes para dispor da destra, começou a degolar e estripar os queixadas que o atacavam mais de perto e com sanha terrível. Era muitos, porém; e toda sua pasmosa agilidade não bastava para resistir ao aluvião de feras que sobre ele crescia, assaltando-o por qualquer lado com redobrado furor.
Entretanto, pai Quicé, caindo a vinte passos, onde o pinchara Jão, embora meio desconjuntado com o tombo, tinha-se arrastado para a árvore, e pode a muito custo içar-se pela rama a um galho mais rateiro, onde contudo estava a abrigo dos temíveis queixadas, que lhe tinham retalhado o couro relho das canelas.
Aí refocilando na refocilando na egoística satisfação de se ver a salvo do perigo, que ameaçava a outros, o paizinho contemplava o combate de Jão Fera com os queixadas, como se fosse uma divertida caçada.
Quando, porém, mais recobrado do abalo reparou na multidão dos animais bravios que envolviam o capanga, e na raiva com que investiam, o negro velho prevendo uma desgraça teve pena, e lançou os olhos ao redor com ânsia, buscando a esperança de um socorro que ele, débil e alquebrado, não podia dar.
Com efeito, já o sangue de Jão corria dos golpes, que recebera nas pernas, e embora cada um tivesse custado a vida a muitos inimigos, outros sucediam-se, e outros, sem a menor intermitência. Era um ferir sem cessar.
Por vezes quis o capanga servir-se da mão esquerda, recomendando a Berta que se agarrasse aos ombros; mas curvado como estava para alcançar o rasteiro inimigo, e com a menina atravessada aos ombros para subtraí-la ao furor de algum queixada, não se animara: temia que em momento de susto, ela escorregasse ao chão.
- Nhazinha! disse Jão de chofre esfaqueando sempre. Tire na minha cintura a garrucha.
Com a sua habitual vivacidade e petulância dobrou-se Berta pela espádua do capanga, para arrancar-lhe da cinta a pistola, que forcejou armar, porém não conseguiu.
- Como é, Jão?
- Ponha na minha boca, Nhazinha!
Armou o capanga a pistola com os dentes; e arrebatando-a rapidamente da mão de Berta, desfechou sobre os queixadas um tiro à queima-roupa, que os fez recuar de terror.
Aproveitou-se Jão desse momento para romper o círculo de navalhas que o ameaçava e precipitar-se pelo campo fora, em busca da árvore.
Mas os queixadas, passado o primeiro estupor, arremeteram de novo na furiosa avançada.
XI
A FURNA
Em meio da penha, que atravessava a mata virgem, por entre o embastido da folhagem, fendia-se a estreita boca de uma caverna.
Era a furna de Jão Fera.
Não tinha essa caverna traços de primitiva formação, quando o fogo subterrâneo vazara o esqueleto granítico daquele fraguedo; nem mesmo provinha de algum aleijão vulcânico, desses que às vezes subvertem as entranhas da terra.
Antigamente o que havia ali era apenas uma grande laje, entalada na garganta do rochedo.
Uma semente de jetaí, trazida pelo vento, caiu aí numa greta da pedra e brotou. Cresceu a vergôntea, mas encontrou a escarpa saliente da rocha que lhe ficava sobranceira, e foi insinuando-se por uma brecha do alcantil.
Estorcendo-se como um cipó de umbê, para acompanhar as sinuosidades do estreito lisim, afinal surdiu fora no alto do penhasco. Apesar de comprimido entre a escacha da rocha, o cepo nutrido pelo humo exuberante que depositava sobre a laje o enxurro do monte, medrou, inseriu-se por todas as fisgas de pedra, e fez-se tronco.
Um dia estalou o penhasco; e subitamente escalado, um estilhaço do alcantil rolou sobre a laje. Amparada de um lado pela curva do tronco, e do outro retida por uma aresta da fronteira escarpa, a grande lasca ficou suspensa na altura de alguns pés, formando assim a abóbada da gruta, fechada em torno pelos rochedos abruptos.
Como uma poderosa alavanca trabalhara o tronco robusto do jetaí durante longos anos para escalar o penedo; mas este, por sua vez, caindo sobre o rijo madeiro, começou a verga-lo sob o peso enorme.
Resistiu a árvore por muito tempo; afinal a sua copa frondosa que ensombrava a caverna reclinou-se para o abismo, onde não tardaria a despenhar-se, arrastando-a, o estilhaço que ela escachara do rochedo e sustinha aos ombros.
Foi então que Jão Fera, à procura de um esconderijo, descobriu a caverna, e querendo conserva-la, atochou uma pedra roliça entre a laje e o jetaí, justamente por baixo do ponto onde assentava a abóbada.
Desse modo, enchendo o vácuo que havia sob a volta do tronco tortuoso, e pondo-lhe uma escora, mantivera o capanga suspensa a grande lasca de rochedo; mas o seixo que servia de esteio, podia a cada instante com o peso romper-se ou escorregar esbarrondando a gruta.
Longe de inquietar, esta circunstância agradou ao Bugre, que dela se aproveitara para a sua segurança, como ele a entendia.
Deitado na cama feita apenas de molhos de sapé estendidos sobre a champa, Jão Fera com a cabeça na escabrura musgosa do rochedo que lhe servia de almofada, via pela fresta da caverna quanto passava nas faldas como nos píncaros do penhasco.
Quando por fatalidade o ameaçasse em seu covil tal força armada que lhe tirasse os meios de salvação, no último transe, perdida toda a esperança, bastar-lhe-ia deitado como estava meter o pé com força no seixo, para que este rolasse e partindo-se o tronco, o estilhaço tombasse esmagando-o a ele e a seus inimigos.
Se antes, enquanto dormia tranqüilo, a pedra se deslocasse com a dilatação do tronco, ou se aluísse a base sobre que assentava, nenhum cuidado lhe dava isso. Para ele, Jão, a vida fora sempre um contínuo perigo; sua índole precisava desse estímulo.
Poucos momentos depois da luta que travara com os caititus, chegava o Bugre à falda do rochedo, em cujo flanco estava a sua furna. Com alguns tiros mais conseguira livrar-se do bando de queixadas; e como um possesso deitara a correr para ali, em vez de refugiar-se em alguma das árvores próximas.
Atordoada com a velocidade da carreira e tomada ainda pelo susto do perigo a que escapara, deixou-se levar Berta nos ombros do capanga, sem resistência, até que ele parou no sopé do rochedo.
Então desprendendo-se de seus braços e travando-lhe das mãos com veemência, exclamou:
- Querem-no prender, Jão! Fuja! Eles não tardam!
O capanga levantou os ombros desdenhosamente, e fazendo menção de afastar-se, todavia parou a alguma distância, como se mão invisível lhe sofreasse a vontade. Assim permaneceu com o corpo lançado, a fronte abatida, e a mão fechada a calcar o peito revesso.
- Você não tem medo? replicou a menina vendo-o parado.
- Medo!... murmurou o Bugre. Eu tenho mesmo! E muito!
Com efeito bambeavam os músculos dessa organização vigorosa e atlética; tremiam-lhe as curvas, e todo ele mostrava-se abalado por grande pavor, que derramava em suas feições e no seu gesto uma espécie de alucinação. Parecia que o assombrava temerosa visão ou que o esvairava algum horroroso pensamento.
- Jão, eu lhe peço, Jão, fuja!
- Sim... sim... balbuciou o capanga. Eu queria fugir... para bem longe... Mas não posso! Não!
- Meu Deus, que tem você?
Esta exclamação, a arrancara dos lábios da menina o espanto causado pelo aspecto medonho do Bugre que voltara-se arrebatadamente e cravara nela um olhar ardente e sombrio, como a cratera de um vulcão.
Mal pensava Berta que naquele momento a ameaçava outra fera mais horrenda, do que não era a terrível cascavel fascinada por ela, e os sanhudos queixadas a cujas presas escapara um momento antes.
Seria então meio-dia.
A terra abrasada pelo sol exalava o bafo incandescente de uma fornalha; e contudo sentia Jão Fera correr-lhe pela medula um calafrio. O contato do corpo gentil de Berta queimava-lhe ainda o peito amplo; mas era a lava que ferve no meio dos píncaros gelados dos Andes.
Tinha ímpetos de atirar-se a Berta e só por um esforço inaudito conseguira conter o veemente anelo. Sua pupila fulva devorava as formas encantadoras; mas ele abaixava a cabeça para não encontrar os olhos límpidos da menina, onde irradiava uma alma tão pura.
Finalmente arfou o Bugre, sacudindo as robustas espáduas como um homem que dum arranco extremo rompe as cadeias que o prendem.
Depois fechou os olhos e avançou.
XII
O ASSALTO
Ao dar o primeiro passo, voltou-se o Bugre rapidamente, para ver o que lhe fossava o calcanhar.
Era o bacorinho ruivo, que chegando naquele instante, esbaforido pela rápida corrida, focinhava os pés do capanga, estirando a tromba para o lado do campo, e soltando um grunhido particular, se não era antes um burburinho.
Não hesitou Jão, à vista destes sinais. Tomando Berta nos braços outra vez, galgou aos saltos por cima dos calhaus e barrocos, agrupados na falda do rochedo, como os degraus de uma escada em espira; e sumiu-se com a menina no bojo da caverna.
Apenas o vulto do capanga desapareceu na sombra da gruta, ouviu-se farfalhar de leve o mato, que bordava as abas da penedia; e dentre a folhagem surdiram os canos de espingardas, cuja coronha parecia colada aos troncos mais grossos das árvores.
Houve um instante de silêncio.
As armas, prontas a desfecharem, permaneceram imóveis, talvez à espera de um sinal. Nenhum rosto ou figura humana assomou na cortina da floresta; nem mesmo se lobrigava qualquer vulto por entre a espessura.
Os assaltantes se tinham aproximado sorrateiramente, emboscados atrás do pau, saltando de um toco a outro, com receio da bala certeira, que o bacamarte do capanga podia mandar-lhes por entre as frestas da gruta.
Chegados à borda do mato, ficaram à espreita, com os olhos fitos na solapa, que servia de entrada à caverna, e as espingardas apontadas para aquele alvo aguardando um resultado, que não ousavam provocar.
Tão preocupados estavam de sua própria segurança, que não repararam em um acidente importante. A boca da furna, pouco antes de uma escuridão profunda, desvanecera um tanto; indício de que, ou se abrira na caverna alguma fenda por onde penetrava a luz, ou se fechara a entrada com alguma lasca de pedra, na qual se refrangia a claridade exterior.
Passado longo trato nessa expectativa, soou enfim uma voz a gritar por detrás de grosso tronco de árvore:
- Entrega-te, bugre do inferno, senão morres!
Não teve resposta essa intimação; mas a voz depois de curta pausa continuou a bradar:
- Chegou o dia!... Vais sentir o gonzo deste braço, e saber para quanto presta o Suçuarana! Agora é que se quer ver a fama! Salta cá para fora, caborteiro, se és homem!...
Calou-se um instante o Gonçalo para escutar, e não ouvindo rumor na caverna, prosseguiu:
- Estás com medo, hein!... A valentia que arrotavas de papo cheio, fez víspora, não é? A coisa cheira a chamusco; e vais tratando de por-te de molho. Pois olha, desta vez escusa de estares aí embromando, que não escapas, nem por artes do diabo.
Cada vez mais animado com o silêncio e placidez que reinava na caverna como em seus arredores, o Pinta chegou a destacar-se do tronco da árvore, ao qual estava colado e lhe servia de guarita.
Agitando então os longos braços e batendo no chão com a coronha da clavina, berrou ele:
- Estás filado mesmo, Bugre dos trezentos; e quem t’o diz sou eu, Gonçalo Suçuarana, que jurou cortar-te as orelhas, e aqui está para cumprir o prometido.
Ainda não teve resposta a arrogante bravata do Pinta. Mas um seixo desprendeu-se do flanco do penhasco e rolou pela fraga abaixo com grande estrépito, aumentado pela natural repercussão do som nas grotas e barrancos do serrote.
De um salto, digno de onça, que ele tomara por seu xará ou tocaio, o Gonçalo alcançara o tronco protetor, e perfilou-se ao longo dele por tal modo, que não lhe aparecia fora a aba do chapéu sequer, ou a mínima dobra do poncho.
Tanto ele, como sua gente, cuidou que fosse aquele o começo das hostilidades por parte de Jão Fera; e com o dedo no gatilho, o olho da boca da furna, e o ouvido alerta para qualquer rumor, se prepararam para receber a investida do inimigo.
Bem viam que o Bugre não cometeria a imprudência ou tolice de apresentar-se em face deles, na boca da furna, a descoberto, oferecendo-se como alvo aos tiros. Por isso, embora confiados no número, não deixava de invadi-los um terror vago com a lembrança de algum assalto brusco do capanga, favorecido pelos barrocos e fojos daquele sítio escabroso, que ele devia conhecer como sua casa.
Todavia, depois que rolou a pedra do alcantil, se restabeleceu o silêncio que sepultava constantemente esse ermo, e só era interrompido então pelo zumbir das abelhas, ou pelo estalido das articulações dos insetos a saltar sobre a grama.
- Qual! rascou o Gonçalo com seu costumado entono. O cabra não se atreve! Ele conhece o degas; e sabe que eu não brinco.
- Mas desta maneira não se arrocha o cujo! acudiu um da troça.
- Isso não! atalhou o Pinta. Aposto em como ele já se pôs ao fresco, muito concho de si, porque pensa que pode escapulir. Mas sai-lhe a coisa às avessas, que lá está da outra banda o Filipe com os outros camaradas.
- Bem pode ser; mas eu duvido. Que necessidade tinha ele de sair da concha onde está muito a seu gosto?
- Lá isso é verdade! Assim não se faz nada; é preciso desencafuar o bicho!
- Então vá lá.
Deram os assaltantes uma descarga sobre a caverna, e no meio do estrondo dos tiros ouviu-se a voz aguda e estrepitosa do Gonçalo Pinta, que mandava o assalto em berros formidáveis.
- Avança, camaradas! Fogo! Matem-me este Bugre endiabrado! Depressa, antes que fuja o danado!
Apesar destas falas, o Gonçalo não se resolvia sair fora da precinta da floresta; e o seu arrojo de ataque não ia além de um passo distante do toco de árvore ao qual logo prudentemente se recolhia. Bem desejava ele que os outros executassem as vozes de mando independente de ato seu, mas não entendiam assim os camaradas que esperavam exemplo.
Cerca de uma hora decorrera nestas hesitações, quando ouviu-se da outra banda da penedia uma descarga de espingardas; e ao mesmo tempo um urro medonho.
Aquele brado retroou pelos antros e solapas do rochedo, arrepiou os assaltantes e encheu-os de horror e espanto, porque era em verdade um grito pavoroso de furor e sanha.
Assim foi com a fala trêmula e soturna que disse o Gonçalo aos companheiros:
- Está seguro o bicho!
XIII
LUTA
Penetrando na caverna, Jão Fera soltou dos braços a menina, e rolou um grande calhau para trancar a entrada.
À interrogação inquieta que lhe dirigira Berta, respondera ele com um modo brusco e um tom ríspido.
- São eles.
Arrimando então contra o alcantil o corpo, que sentia vergar ao próprio peso, submergiu-se o capanga em profunda cogitação. A consciência desse homem era um antro medonho e tenebroso, onde eles raras vezes penetrava; e nessas ocasiões confrangia-se de terror o coração, que nenhum perigo fizera nunca vacilar.
Berta, agitada por um receio que já se ia desvanecendo, mas viva e estouvada até mesmo nas suas comoções, estava espiando por uma fisga da rocha os movimentos dos assaltantes ocultos entre a folhagem.
Jão continuava absorto; e às vezes, seu olhar fincado no chão, e tão pesado como um vergão de ferro suspenso pela extremidade, se levantava para cravar-se no talhe gracioso da menina, que meneava-se com vivacidade no esforço de alcançar a fenda do rochedo e enfrestar ela a vista.
Sentia o capanga revolto dentro em si todo seu ser, que bramia como o oceano proceloso, arrebentando contra as sirtes. Queria ele conter nas arcas do peito aquelas vagas impetuosas; mas era vão o esforço, que não tardava ser arrebatado por elas.
O toque suave do corpinho mimoso de Berta produzira nele uma embriaguez maior, do que não tivera quando pela primeira vez tomara o gosto à cachaça, ou aspirara o fumo do sangue.
Ele tinha sede; sede imensa, ardente, abrasadora, mas era sede de fogo: só chamas poderiam aplaca-la.
Um turbilhão de pensamentos perpassava-lhe rapidamente pelo espírito sombrio, como nuvens de borrasca se acastelam em céu chumboso. A terra seca espera as primeiras gotas que a devem embeber; assim a alma de Jão buscava em cada um desses pensamentos bálsamo para a dor cruciante que o dilacerava.
A imagem de Besita, que invocara do fundo de seu coração, para amparar a filha, contra sua loucura, e subtraí-la à raiva que se apoderara dele, essa imagem querida, que adorara sempre, como uma santa, lhe aparecia agora, por um incompreensível delírio, excitante e provocadora.
Depois lembrando-se como Besita fora arrebatada a seu amor por um crime, sem que ele a pudesse nem defender, nem vingar, associava esse horroroso acontecimento ao perigo que tinha pouco antes corrido Berta e ao qual sucumbiria se por uma casualidade não chegasse a tempo de socorre-la.
Como sua mãe, Berta se partiria deste mundo e o deixaria só, com aquele amor insano. Era preciso que ela lhe pertencesse, que ela a unisse à sua existência para sempre, a fim de protege-la a todo o instante.
Ali estava a floresta; além o sertão imenso.
Ergueu-se o capanga; mas não teve força de promover um passo. Berta voltara-se de chofre, e caminhava para ele risonha, embora com ligeira palidez nas faces. Colou-se Jão à rocha com tal ímpeto que parecia embutido nela.
- Eles apontaram as espingardas para cá! disse a menina. Venha ver, Jão!
E ela segurou com sua mãozinha delicada o grosso pulso do capanga, a fim de trazê-lo à fenda por onde estivera espiando. Deu o Bugre um salto espantoso, arrancando o braço dos dedos mimosos, como se estes fossem rijas tenazes que lhe triturassem os músculos com dores atrozes.
Algum tempo errou o capanga pela caverna, roçando ou batendo pelos alcantis à semelhança da fera, que palpa os varões do cárcere em que a prenderam. Dera ele tudo para ver-se naquele instante, longe, bem longe dessa furna, onde rugia a paixão indômita; e contudo não se resolvia a fugir.
Sucedeu cair seu olhar sobre o seixo que servia de escora ao tronco do jetaí; e uma idéia horrível atravessou como um relâmpago pela noite do seu pensamento. Lembrou-se de fazer saltar a pedra.
Desabaria o estilhaço de rocha, que servia de abóbada à caverna, esmagando a Berta e a ele; mas era justamente essa catástrofe, que lhe sorria, como um céu azul, no meio da sua terrível alucinação.
A morte os uniria para sempre, livrava a Berta de uma desgraça e a ele de um atentado espantoso. A filha de Besita deixaria o mundo como sua mãe, pura e adorada por ele, mas sem amar a outro, sem condena-lo ao suplício atroz que sofrera por tanto tempo.
Com os olhos fitos no recanto da caverna, estas cismas se atropelavam no cérebro do capanga, que sofria nesse momento uma completa subversão do senso íntimo.
Através do delírio que o esvairava parecia-lhe que o seixo bruto animava-se, vivia, agitava-se; e ele, Jão, tornava-se uma coisa inerte, uma alma sem movimento.
Pouco antes o compelia um ímpeto poderoso de precipitar-se para a pedra, agarrá-la com ambas as mãos, para atirá-la ao despenhadeiro, derrocando dum jacto a caverna.
Agora, porém, era a pedra que arrojava-se para ele, travava de suas mãos, e com elas arrancava-se dali, de onde estava, para aluir a gruta e sepultá-lo vivo sob a pesada abóbada.
E ele que reagia contra o impulso que o arrastava, agora pasmo e sucumbido abandonava-se àquela obsessão. Involuntariamente, como um autômato, se aproximava do seixo, acreditando em sua insânia, que era o seixo e não ele, quem se movia.
Continuava Berta a olhar pela fresta, atenta às ameaças do Gonçalo; e Jão, pasmo, sombrio, abatido, avançava lentamente aos trancos. Já ele tocava o seixo, e curvava-se.
Nesse momento Berta soltou um pequeno grito, e correu a esconder-se junto do Bugre:
- Eles vão atirar, Jão! exclamou ela.
- Nhazinha tem medo de morrer? perguntou o capanga.
- Tenho, sim! respondeu a menina assustada.
A expressão de receio, que se desenhava em sua fisionomia, a salvou. Jão ergueu-se de um salto, arrastou o calhau que obstruía uma solapa do rochedo, por onde a caverna se comunicava com a próxima encosta, e fugiu horrorizado, levando consigo Berta.
Foi então que vendo-o passar de relance pelo desfiladeiro, a gente de Filipe desfechou as armas; e o capanga urrou de sanha e furor.
Por atalhos só dele conhecidos, Jão ganhou a floresta e conduziu a menina até as plantações da fazenda; aí despediu-se dela com estas palavras, proferidas em profunda entonação:
- Nunca mais, Nhazinha, ande só por estes matos.
XIV
O BEIJO
Brincando e cantando, atravessava Berta os cafezais, já esquecida dos lances que passara, e contente por ter deixado Jão escapo.
Sobressaltou-a, porém, o ramalhar das árvores, agitadas por forte impulso; cuidando que a ameaçava novo perigo, voltou o rosto para descobrir a causa do rumor.
Devia ser ameaçador o que viu; pois desfechou numa carreira cega por entre o arvoredo, sem embaraçar-se com as vergônteas a lhe baterem no rosto, e os gravetos que rasgavam a saia de seu vestido novo de cassa.
Amiúde olhava para trás e redobrava de ligeireza, sentindo-se perseguida por um inimigo que vinha sobre ela com extrema velocidade e não tardaria a alcança-la.
Com efeito já o estrépito dos passos no chão se confundiam; e soava a seus ouvidos o sussurro da respiração que resfolgava com o esforço da corrida.
Ouviu-se um grito de susto.
Colhida em sua carreira, a gentil menina estremecia entre os braços de Afonso, como a rola nas mãos do travesso menino; mas não podia estanvar o riso brejeiro que, represo nos lábios mimosos, lhe estava borbulhando na covinha das faces e no gesto petulante.
- E agora! exclamou o rapaz apinhando os lábios num beijo papudo.
- Ai!
Soltando este chilro, a menina arrepiou-se toda, como para esconder-se em si mesma, e fechou os olhos.
Decorrido algum tempo, e admirada de não sentir na face calor algum, nem ouvir o estalo que esperava, abriu o cantinho do olho, e viu o camarada confuso, tímido, com a vista baixa e o rosto vermelho como um chichá.
O brincão do rapaz, tão desembaraçado e atrevido, quando bolia com Berta em presença da irmã ou perto da gente, agora que se achava só com a menina, a grande distância de casa e num sítio ermo, tomara-se de um súbito enleio, e mostrava-se constrangido.
Foi a muito custo e para disfarçar o acanhamento que ele, desviando o rosto, disse à menina:
- Você não me quer bem!
- Quero, sim! acudiu a moça que recuperara sua travessa isenção.
- E a Miguel?
- Também!
- Mas Miguel é quase seu irmão.
- E você?
- Eu não! replicou vivamente Afonso.
O dito de Berta sem dúvida o molestara; pois tão prontamente e com tamanho calor o contestou ele. Ficou séria a menina, a qual lhe tornou já amuada:
- É sim!
- Mas... arriscou Afonso titubeando, os irmãos... não... se casam, Berta.
- Porque não é preciso! replicou a travessa com um arzinho arrebitado, que enfeitiçava.
- Como assim? interrogou o rapaz cujos dezoito anos se maravilhavam da importante descoberta feita pela menina.
- Pois então! Os irmãos não vivem juntos? Não brincam diante de todo mundo, como nós fazemos? Quem não sabe que a gente se quer bem? Mas ninguém fala mal por isso. Casar para que? Agora, aqueles que estão longe, que tem vergonha de se gostarem, é outra coisa; carecem perder o medo. Como Linda e Miguel! Estes, sim, precisam muito!
- É verdade!
- Não vê como ela anda sempre desconsolada e ele tão macambúzio?
- Então nós, Berta... não precisamos? insistiu Afonso.
- Não sei! Linda há de estar cansada de esperar-me! respondeu a menina com jeito de afastar-se.
Atalhou-lhe Afonso o passo.
- Não deixo!
- Solte-me, Afonso! disse Berta querendo desprender o braço da mão do rapaz.
- Dá o que prometeu?
- Que sabido! Não prometi nada!
- Então eu tomo!
- É capaz? disse Berta em tom de desafio.
- Eu tomo mesmo!
E o maganão enlaçou com o braço a flexível cintura da menina, que dobrou-se com a haste da gracíola, para esquivar o rosto aos lábios cobiçosos do saboroso encarnado.
- Eu grito! Disse ela.
- Que me importa.
- Por vida de D. Ermelinda, Afonso!
- Não quer que eu tome à força? Pois me dê por sua vontade!
- Eu dou.
- Então venha.
- Logo.
- Há de ser já.
- Daqui a bocadinho.
- Assim não vale o ajuste. Dá ou não?
- Um só!
- Um para começar.
- Aonde?
- Espere, que eu lhe mostro!
- Não quero mostras, fale.
- Aqui!
- Na boca? Logo não vê!
- Que tem?
- Se quiser, há de ser no... no... na... Feche os olhos!
- Para que?
- Então não dou!
- Você quer me lograr?
- Palavra!
De arrogante que estava poucos momentos antes, tornara-se o Afonso novamente submisso, e tímido suplicava a carícia de que ameaçara a menina, prestando-se humilde a todos os seus caprichos e negaças.
Fechou ele os olhos, e Berta cerrando-lhe por cautela as pálpebras com a palma da mão esquerda, acenou um beijo, que derramou-lhe nas faces tépida fragrância. Mas antes que os lábios tocassem a macia penugem, caiu-lhe sobre a orelha um piparote, que por ser de unha rosada e faceira não deixou de doer, tanto como dói um espinho de rosa.
Quando Afonso, arrebatado ao enlevo da carícia que já libava no hálito perfumado, deu acordo de si, tinha-lhe fugido a menina dentre os braços, e uma risada fresca e límpida trinava ali perto, entre as moitas.
Este logro abateu o gênio folgazão do moço. Em vez de correr após a menina e desforrar-se da peça que lhe acabava de pregar, deixou-se ficar tristonho e aborrecido. Era o amor que assim esfumava com laivos de melancolia os brincos e travessuras da adolescência.
Vendo o camarada ressentido, não se conteve Berta que o ficara espiando, partida entre o prazer da pirraça e o susto da desforra com que ela contava.
Aproximou-se compadecida; e com uma graciosa inflexão da fronte docemente enrubescida e uma gentil expressão de ternura e bondade, pousou os lábios na face do mancebo.
- Está; não fique zangado!
Estremeceu Afonso. A fronte reclinando com o enlevo da carícia repousou lânguida sobre a formosa cabeça da menina, cujos cabelos anelados amaciava com a mão trêmula. Assim o cedro alterneiro, se o cortam pela raiz, entrelaça as ramas da copa frondosa às grinaldas do cipó florido.
Quanto a Berta, conchegada ao seio do mancebo, ria-se maliciosamente para disfarçar o rubor; e lançava de esguelha um olhar brejeiro ao semblante do camarada.
De chofre repeliram-se um ao outro.
Miguel estava em face deles.
XV
CONFISSÃO
Miguel estava pálido, que assustava; os lábios trêmulos não podiam pronunciar uma palavra. Conhecia-se o esforço que ele empregava para conter o ímpeto de sua cólera.
Afonso ficara confuso; e com os olhos vagos e o gesto constrangido, cogitava um pretexto para retirar-se; mas nem um lhe acudia.
Foi Berta quem primeiro recobrou-se do soçobro.
- Que anda fazendo, Miguel?
- Vim procurá-la. Em casa estão todos com cuidado.
- Não tenha susto que eu não me perco! replicou a menina sorrindo.
- Você não vem, Berta? perguntou Afonso.
- O senhor não veio só? Pode voltar do mesmo modo.
Aproveitou Afonso a despedida para afastar-se desse lugar onde em verdade não estava a gosto. Ainda indeciso, parando de instante em instante, à espera dos outros, encaminhou-se para a casa.
Berta, ficando só com Miguel, contemplava o semblante abatido do mancebo, e condoía-se da mágoa que tinha involuntariamente causado.
- Que tem você, Miguel?
- Ainda pergunta, Inhá?
- É porque eu quero bem a Afonso?
- Não carece dizer; eu já sabia.
- Mas eu também lhe quero! disse Berta com encantadora singeleza.
- Como a ele? perguntou vivamente Miguel.
Corou Inhá, lembrando-se do beijo dado na face de Afonso, o que ela nunca se animaria a fazer com o filho de nhá Tudinha, apesar de ser este seu colaço.
Tornou Miguel com um modo sentido e grave:
- Não se pode querer bem assim, Inhá, senhão a uma pessoa: aquela que se escolheu para marido.
Berta soltou uma risada zombeteira:
- Como Linda quer a você, não é?
- Tantas vezes que lhe tenho pedido para não repetir esse gracejo! Mas como sabe que ele mortifica-me, por isso mesmo não o esquece.
- Você é um ingrato, Miguel! disse Berta com a voz queixosa e um suspiro que partia do íntimo d`alma. Não para o amor que lhe tem!
- E sou eu só o ingrato?
- Se soubesse o bem que Linda lhe quer. Ainda hoje estava tão tristezinha por sua causa, pensando que você não gosta dela!... Mas eu consolei aquele coraçãozinho, e prometi-lhe que você havia de confessar...
- Fez mal, Inhá, muito mal.
- Não tem pena daquela santinha?
- E de mim? Alguém tem pena?
- Tenho eu, que hei de fazer tudo para que você gosto só e só de Linda.
- Não era mais fácil gostar um bocadinho de mim, que lhe quero tanto, Inhá?
- Gosto muito; e por isso mesmo o quero dar à minha Lindazinha.
Fitou Miguel no semblante de Berta um olhar surpreso. As palavras da menina lhe pareciam remoques; e, todavia, era a voz repassada de tanto afeto e sinceridade!
Mais surpreso ficou vendo a efusão de meiguice e ternura que havia no rosto gentil, salpicado quase sempre de graciosa malícia.
- Obrigado, murmurou Miguel afastando-se com despeito.
- Escute, Miguel, disse Inhá pousando a mão carinhosa no ombro do moço para retê-lo. Você há de gostar de Linda!... Me promete, sim? Você já gosta dela... Há quem possa resistir àqueles olhos tão doces, que estão bebendo a alma da gente. E a boquinha?... É um torrãozinho de açúcar escondido em uma rosa! Quando ela ri-se, faz cócegas no coração! Do corpinho, nem se fala. Que cinturinha de abelha! E um ar tão engraçado, um andar tão faceiro, que encanta!
Este esboço, Inhá o fazia ao vivo, e não só com a palavra cintilante, mas com o gesto animado, e o requebro do talhe esbelto. Era ela a própria cera, da qual a sua mímica ia esculpindo a estátua famosa de Linda, com as doces inflexões das formas, o terno volver dos olhos e o desbroche do mimoso sorriso.
Miguel fascinado, rendido, já não resistia com efeito; e nesse momento, pelo menos, ele sentia que amava Linda; mas essa Linda que ali tinha diante dos olhos, e não a outra que vira ao natural, tímida, com as pálpebras cerradas, o lábio trêmulo, e o gesto constrangido.
A mulher que ele adorava nos sonhos de sua juventude, o tipo de sua ardente imaginação, realizava-se naquela moça que vazara a inefável ternura de Linda na graça e gentileza de Berta; e não era uma nem outra, mas a transfusão dessas duas almas em uma beleza sedutora.
Preso dos olhos ao lindo semblante da menina, e suspenso de seu lábio gazil e mimoso, foi Miguel seguindo-a, sem consciência do que fazia.
Próximo à casa ouviu Berta uns risos e cochichos por trás da folhagem; e disfarçando para não despertar as suspeitas de Miguel, aproximou-se da ramada, donde ela pressentira que a estavam espreitando.
E não se enganava. Linda, impaciente com a ausência de Berta, não vendo chegar Afonso que fora em busca da travessa, tinha saído de casa a pretexto de passeio, com o fito de descobrir alguma coisa.
Em caminho encontrou o irmão, que recobrado já do acanhamento, ardia por dar expansão ao gênio alegre, por um instante sufocado. Escondeu-se o folgazão do Afonso com Linda para espreitar o que diziam Berta e Miguel.
Tão embevecido estava este na magia do sorriso da companheira, que apesar de caçador, não percebeu o farfalhar das folhas agitadas pelo buliçoso rapaz e o sussurro dos segredinhos de Linda no ouvido do irmão.
Então, disse Berta para Miguel: confesse, você gosta de Linda?
- Gosto! respondeu o moço com um sorriso.
- Muito?
- Muito!
Voltou-se Berta rapidamente e afastada a ramagem exclamou alegre, descobrindo o vulto de Linda:
- Não lhe disse, Linda? Veja que não a enganei.
Linda corou; e Miguel nesse momento acreditou que a amava, pois a via ainda através do sorriso fascinador de Inhá.
Dirigiram-se todos à casa. Berta com o braço passado à cintura de Linda, achava meio de aproximar a amiga a cada instante de Miguel, entrelaçando as mãos de ambos.
O Afonso com suas estrepolias aumentava a doce confusão de que se aproveitava Berta para estabelecer o contato das duas almas, que ela queria unir.
Assim chegaram à casa, onde já se aprestava o suntuoso banquete.
XVI
SÃO JOSÉ
No terreiro das Palmas arde a grande fogueira.
É noite de São João.
Noite das sortes consoladoras, dos folguedos ao relento, dos brincados misteriosos.
Noite das ceias opíparas, dos roletes de cana, dos milhos assados e tantos outros regalos.
Noite, enfim, dos mastros enramados, dos fogos de artifício, dos logros e estrepolias.
Outrora, na infância deste século, já caquético, tu eras festa de amor e da gulodice, o enlevo dos namorados, dos comilões e dos meninos, que arremedavam uns e outros.
As alas da labareda voluteando pelos ares como um nastro de fitas vermelhas que farfalham ao vento na riçada cabeça de linda caipira, derramam pelo terreiro o prazer e o contentamento.
Não há para alegrar a gente, como o fogo. Nos estalidos da labareda, nas faíscas chispando pelos ares, nas vivas ondulações da chama a crepitar, há como um riso expansivo que se comunica à nossa alma e influi nela uma trepidação brilhante.
A luz é a vida; mas a chama é o júbilo, a cintilação do espírito.
Formosa perspectiva tem neste momento a fachada da casa das Palmas, assim iluminada pela fogueira.
Uma linha de jeribás corre-lhe em frente, moldurando com as verdes arcadas a volta das janelas, o que dá ao edifício graça e chiste especial; pois enfeita a simples arquitetura com os florões e recortes das palmeiras.
A meio terreiro, de um e outro lado da fogueira, se elevam dois mastros, pintados com listrar de escarlate e branco, traçadas em espiral.
No tope do outro mastro uma grande bola, sobre a qual ergue-se vistosa boneca de pano, naturalmente cheia de pólvora.
A festa da sala é cidadã. Damas e cavalheiros tiram sortes, cerimoniosamente sentados em volta de uma mesa; ou dançam quadrilhas e valsas figuradas; enquanto pelos cantos os velhos fazendeiros falam a respeito das carpas, da nova flor do café, e das geadas, seu constante pesadelo.
No terreiro folgam os rapazes que acham mais graça na função campestre, e em vez de consultar o livro do fado, confiam nos oráculos da fogueira, saltando-a de corrida, e passando nela o ovo, que há de ficar ao relento à hora fatídica da meia-noite.
Entre estes lá estão Afonso e Miguel, preparando-se com outros companheiros a mostrar quem tem mais certeira mão, para incendiar com um tiro a garrida boneca suspensa ao tope do mastro.
Muitas moças também fugiram da sala para acompanharem os folguedos dos rapazes, nos quais porventura acham mais encanto do que nas danças tão monótonas, quando não têm o sainete do amor.
A primeira foi Berta, e Linda a acompanhou pressurosa. Apesar da insistência com que D. Ermelinda procurava entretê-la na sua roda, a menina a pretexto de estar com a amiga, não saía do terreiro; e se alguma vez entrava na sala era para eclipsar-se logo.
- Quem há de ser o primeiro? perguntou Afonso armado com a sua clavina.
- Eu! responderam uníssonas as vozes dos companheiros.
Só uma não se ouvira; era a de Miguel; mas não fora esquecido seu nome. Linda o pronunciara timidamente entre um sorriso e um rubor; e Berta o repetira em voz alta:
- Miguel!
- Eu serei o último! disse o moço com modéstia, que porventura disfarçava um desejo de primar.
Como último podia algum dos companheiros priva-lo da vez, e impedi-lo de mostrar a sua destreza; mas também se nenhum lograsse tocar o alvo, maior triunfo alcançaria, conseguindo o que fora impossível aos outros.
Não era lanço tão fácil como parecia, embora para destros atiradores. Se a boneca apresentava boa margem à pontaria, só em um ponto, no peito cheio de pólvora, podia a bucha da espingarda incendiá-la; às roupas, molhadas pelo relento, dificilmente se comunicaria a chama.
Por isso diziam os rapazes a galhofar, enquanto preparavam as clavinas:
- No coração da moça!
E todos ardiam em desejos de acertar, como um bom presságio da chama que haviam de atear no coração das namoradas, durante aquela noite de risos e folgares.
Foi Afonso quem primeiro atirou.
- Não acertou! bradaram satisfeitos os competidores.
- Lá está! gritou o atirador com ar triunfante apontando para a boneca.
De feito na saia de cassa branca aparecia uma centelha inflamada, que lançava de si algumas chispas, como fogo que se ateia. Durante alguns momentos os olhos dos rapazes estiveram presos daquele ponto luminoso, enquanto batia-lhes o coração com receio de que, incendiada a pólvora, voasse a boneca pelos ares, ficando malograda sua esperança.
- Apagou-se! exclamou Berta.
- Quem lhe disse? retorquiu Afonso.
- Apagou-se, sim! acudiu Linda batendo as mãos de prazer.
Em verdade a fagulha, que ardia na roupa da boneca, depois de bruxulear um instante, se extinguira de todo. O tiro de Afonso batera no tope do mastro; e fora apenas um morrão da bucha que saltara na saia molhada pelo sereno.
Uma algazarra dos rapazes festejou a derrota de Afonso, que voltando-se para a irmã, disse-lhe à meia voz, fingindo-se agastado:
- Está muito contente, hein! Cuida que há de ser Miguel? Pois vá perdendo a esperança!
Linda respondeu-lhe com um momo gracioso, enviando um sorriso a Miguel, que estava a seu lado, entre ela e Berta.
- Assim é que me paga, eu ter torcido por você!
- Pois não; foi você mesmo que me encaiporou!
Continuou o folguedo; todos os rapazes atiraram sucessivamente e com vária sorte. Uns acertaram na boneca, mas não conseguiram incendiá-la; outros apenas se lhe aproximaram; e muitos andavam tão por longe que pareciam atirar à catacega. Estes eram apupados com estrepitosas gargalhadas e toda a sorte de motejos e gritaria.
Chegou por fim a vez de Miguel.
O caçador recebeu a clavina das mãos de um companheiro; carregou-a com a maior presteza, e levando-a ao ombro, desfechou o tiro sem hesitação.
Um jorro de chamas esguichou do tope do mastro. A boneca incendiada voava pelos ares, esfuriando aljôfares azuis, verdes e escarlates, que listraram a treva da noite e correram pelo espaço trêmulas e cintilantes como lágrimas de estrelas.
- Bravo! gritaram em coro os rapazes.
- Viva o Miguel! bradava Afonso abraçando o amigo.
As moças batiam palmas, chilrando de folia e contentamento; sobretudo Berta, que parecia uma criança, a dar piruetas no terreiro, estalando castanholas nos dedos e dançando o fado com Afonso.
Linda ficou séria; mas sua alma coada em um olhar inefável embebeu-se no semblante de Miguel.
XVII
CRAVO BRANCO
Ainda não se tinham desvanecido as emoções do primeiro páreo, que outra sorte mais engraçada punha em alvoroto a rapaziada.
A bola que servia de tope ao mastro, e sobre a qual estava pregada a boneca, era oca, e formava uma espécie de cabaz cheio de flores, frutos, confeitos e outras galanterias para quem fosse capaz de alcança-las trepando pela haste do pinheiro.
Não era pequena façanha essa; pois além da altura, o pau fino e roliço não dava jeito a que os rapazes se escorassem bem sobre os joelhos para com o impulso dos braços se irem içando à guisa dos marujos.
Este folguedo, reminiscência de antigos jogos de nossos avós, e ainda em voga em outros países com o nome de mastro de cocanha, divertia muito os rapazes, pelo seu chiste e novidade.
Se sucedia algum, apesar de seus esforços, escorregar de repente pelo pau abaixo quando estava já bem próximo de atingir a meta; ou se outro mais lorpa não conseguia suspender-se do chão, e ficava a patinar ao pé do mastro, tentando debalde sungar-se; eram chascos e risadas estrepitosas, que festejavam o malogro da porfia.
Mas nem por isso desanimavam os rapazes; e repousadas as forças tornavam à empresa, estimulados pelo desejo de esquecer a anterior derrota, e conquistarem uma flor, ou qualquer outra prenda que ofertassem à namorada.
Aproximando-se do mastro e rodeando-o, tinham os moços deixado sós, no canto do terreiro que antes ocupavam, Linda e Miguel.
Os dois estavam próximos e quase se tocavam; por um impulso comum, ambos fugindo à grande claridade, haviam procurado o tronco de uma palmeira, cuja sombra derramava sobre eles doce crepúsculo, enquanto a haste servia-lhes de abrigo contra os olhares curiosos.
Miguel ainda bebia o sorriso de Linda; e ela inebriada pelo triunfo que o moço alcançara, deixava-se libar pelos ternos olhos, como a flor acariciada pelo vento, que se dilui em perfumes.
Logo, porém, que o afastamento dos companheiros deixou-os sós, insensivelmente se retraíram. O braço de Miguel, que sentia ao roçar dos folhos da manga de Linda uma sensação deliciosa, estremeceu; de seu lado vexou-se a menina com esse frolo sutil das pregas de seu vestido, que antes ela recebia como uma doce carícia.
Quando a presença de tantas pessoas os separava, suas almas se estreitavam no olhar, se conchegavam no sorriso; e queriam influir-se uma na outra. Agora que nada se interpunha a elas, o isolamento as assustava; tinham medo de si mesmas.
- Não vai também ganhar sua flor? disse Linda indicando o mastro com um aceno de fronte.
- Quer uma? perguntou Miguel com gesto de reunir-se aos companheiros.
Ressentiu-se a menina daquele pretexto do moço para retirar-se, arrependida de o ter oferecido. Mas pensava que ele não aceitaria tão pronto.
- Para quê? Eu tenho esta que é tão bonita! acudiu ela mostrando um cravo branco, que lhe enfeitava o trespasse do lindo corpinho de cassa. Não é?
- Muito! balbuciou Miguel que vira não a flor, mas a polpa rosada do colo mimoso, debuxando-se entre as preguinhas do decote.
- Sabe o que significa?
- Não.
Frisaram-se os lábios vermelhos da menina para soltar a palavra; mas como as pétalas de uma flor que se desfolha, emudeceram deixando apenas escapar o perfume. Reclinou ela a fronte vergonhosa e repetiu dentro d’alma o que se não animara a dizer.
Como se operou tão rápida a transformação de Miguel que até a véspera esquivo e reservado com Linda, agora preso de seu encanto, se engolfava na ventura de sentir-se querido, e esquecia Berta, que ainda pela manhã lhe cativara o coração?
O mesmo é perguntar a flor como nasce. A semente que o vento lança na terra, sabe-se acaso, porque enfeza ou brota? Às vezes lá fica na eiva do rochedo, tempo esquecido, até que o céu lhe manda uma réstia de sol e uma gota de orvalho.
Assim aconteceu com Miguel. O germe desse amor, há muito o guardava no coração, desde que admirara pela primeira vez a beleza de Linda. Mas o afastamento natural em sua posição inferior; as suscetibilidades próprias de um caráter nobre; e, mais ainda, a sedução irresistível que exerciam em sua jovem imaginação a graça e lindeza de Inhá, tinham sopitado esse amor à nascença.
Quisesse Berta que Miguel não amaria senão a ela, e esqueceria de todo a imagem de Linda. Mas a menina, em vez de aceitar para si o afeto, só o queria para a amiga, cujo segredo ela pressentira havia meses.
Desde então se desvelara Inhá com extremosa solicitude em grajear para Linda a ternura de Miguel, e fazer a ventura de ambos. Nesse emprenho encontrava um obstáculo, que era sua própria gentileza, na qual se enlevava o mancebo; mas dela mesma o seu tato delicado soube tirar partido.
A beleza de Linda era para a imaginação ardente e poética de Miguel uma linda imagem sem calor e sem luz; estátua de jaspe imersa na sombra. Berta o compreendeu; e fez de sua alma a centelha que devia animar o mármore.
Inspirado artista, ela tirou de sua graça, como de uma rica palheta, as cores mais mimosas para retocar a figura vaga e suave de Linda. Vazou nos lânguidos olhos da amiga as rutilações de sua pupila brilhante; e enflorou com o seu feiticeiro sorriso os lábios onde se aninhara o suspiro.
De cada vez, um traço do ideal se estampava na fantasia de Miguel, que muitas vezes surpreendia sua alma na contemplação dessa virgem desconhecida, em que a formosura de Linda se perfumava com a faceirice de Inhá.
Naquela manhã, tinha Berta tentado mais uma vez a transfusão de seu espírito gentil na serena beleza da amiga, e então a favoreceu o acaso, fazendo que Linda se aproximasse, e que Miguel ainda fascinado pelo retrato que ela esboçara, visse graciosa e encantadora a virgem dos seus amores.
A confissão arrancada a Miguel transfigurou Linda como por encanto. Sua expressão melancólica embebeu-se de um júbilo sereno como o alvor da manhã; desprendeu-se o gesto da timidez que dantes a atava, e tomou inflexões ternas e apaixonadas. De toda sua pessoa manavam santos eflúvios do amor feliz, que lhe teciam de luz e perfume uma auréola celeste.
Miguel embebeu-se na adoração dessa beleza, que se revelava pela primeira vez à sua alma; e o enlevo durava ainda no momento em que se trocava com Linda frases truncadas.
A moça havia tirado do seio o cravo branco e respirava-lhe o aroma, roçando-o pelos lábios.
- Não disse o que significa? insistiu Miguel.
- O senhor sabe.
- Eu não! respondeu o moço com um sorriso.
- Sabe sim!
Houve uma pequena pausa, durante a qual a palavra adejou nos lábios de Miguel, enquanto na alma de Linda já ressoava a sua doce melodia.
- Casamento? balbuciou uma voz submissa.
Linda velou-se em uma nuvem de rubor. Com a confusão, naturalmente escapou-lhe a flor, que Miguel apanhou, e quis restituir; mas a mão trêmula da moça não recebeu senão a doce pressão.
- Quebrou-se o talo! disse ela rapidamente.
Era um motivo para rejeitar a flor, que não podia mais prender no decote, e o pretexto para dá-la ao moço em penhor de sua ternura. Fechando na palma o cravo, Miguel levou-o aos lábios e o beijou com efusão.
Berta, que a distância contemplava toda a cena com uma doce tinta de melancolia, sentiu arfar-lhe o seio, estremecido como a rola em seu ninho. Mas a mão comprimindo-o rápida, sufocou o turture queixume que se desprendia em um suspiro.
XVIII
REVELAÇÃO
Berta erguera-se, relanceando em torno um olhar sôfrego.
O que procurava ela?
Um brinco, um prazer, uma alegria, onde se refugiasse da tristeza que ia apoderar-se de sua alma. Mas, no meio daquela festa que a envolvia, ela sempre tão jovial, ela em cujo lábio o sorriso borbulhava como onda perene, não encontrou um folguedo que a atraísse.
Descobrira, porém, acocorado contra o ressalto do alicerce, Brás, que roÍa um sabugo de milho assado, cujo grão já tinha devorado. Nessa ocupação, esgrimindo os queixos e coaxando a língua, não desprendia ele os olhos do rosto de Berta, cuja melancolia se refletia na obscuridade de sua alma, como se reflete na face da terra a sombra da nuvem que intercepta os raios do sol.
Chegou-se a menina pressurosa para junto do idiota; o conforto, que não encontrara nas folias que a cercavam, ali estava na afeição generosa e compassiva que lhe inspirava aquela mísera criatura. O desânimo a invadira, acreditando estar só no mundo; mas já não o sentia, pois sua alma tinha ainda uma dedicação para a ocupar, e sacrifícios em que derramasse os mananciais inexauríveis de sua bondade e ternura.
Afagou o idiota com as palavras meigas, de que seu lábio tinha o condão; e ficou ao seu lado para o consolar do isolamento em que o deixavam. Já que não podia caber àquele ente infeliz outro quinhão nessa noite de tamanho regozijo para todos, ao menos lhe reservava ela seu carinho.
Não se teve, porém, a menina que não volvesse outra vez os olhos para o lindo grupo formado pelos dois namorados. Linda, com os estremecimentos íntimos da planta que a manhã orvalha, e a fronte de leve pendida, embebia-se na palavra apaixonada de Miguel, que reclinava-se por detrás da haste da palmeira para falar-lhe ao ouvido.
De novo aflou o seio de Berta com um suspiro, que ela, como ao primeiro, recalcou; mas já não pode desprender o pensamento das cismas em que se enleara, a ponto que não viu o Brás esgueirar-se pela sombra e sumir-se.
Que passava na alma da menina?
Não fora ela quem aproximara Miguel de Linda, e com admirável paciência durante meses urdira a teia delicada que envolvia os dois namorados?
Não era obra sua esse amor, que ela própria embalara como um filho querido, nutrindo-o de suas carícias, enfeitando-o com seus encantos, vivendo e sorrindo-se nele?
Como agora, obtido o êxito de seus desvelos incessantes, em vez da satisfação de ver realizado um voto querido, confrangia-se-lhe o coração com o quadro suave do mútuo afeto, que ainda naquela manhã luzia-lhe na imaginação qual doce esperança?
Parecerá excêntrica e até incompreensível esta situação da alma de Berta naquele instante: entretanto nada mais lógico e natural.
Tinha a menina por Miguel uma dessas afeições de infância, puras, calmas e serenas, primeiros botões, dos quais ninguém sabe que flor vai sair, se uma doce amizade, se uma paixão ardente.
Adivinhando um dia que Linda gostava do moço, em vez de zelos sentiu contentamento de ver querido seu irmão de leite e companheiro de infância. Talvez que ela com sua ingênua admiração bafejasse, no coração da amiga, aquele afeto nascente, retocando com os lumes de sua graça o nobre perfil do mancebo.
A natural esquivança de Miguel trouxe as desconsolações de Linda, que se julgava desdenhada, e vertia no seio da amiga a confidência dessas mágoas. Agoniava-se Berta com essas névoas de melancolia, que ensombravam a fronte da moça; e, para desvanece-las, ia pedir um olhar, uma palavra ao mancebo.
Apesar de ter recebido uma instrução regular, que sua inteligência brilhante desenvolvia com o estudo possível ao lugar onde habitava e às suas condições de fortuna, conservava Miguel certos hábitos que, durante a infância, se incrustam na individualidade, da qual dificilmente os arranca mais tarde a própria vontade.
Esses cacoetes de caipira molestavam o tato delicado de Linda, a quem a educação esmerada, que recebera de sua mãe, dera a fina flor das maneiras e imprimira o tom da mais pura elegância.
Quando Miguel a tratava de mecê, ou enrolava diante dela a palha de um cigarro, o coração da menina apertava-se com agastura indescritível, e ela sofria desgosto igual ao que lhe causaria uma nódoa caindo no mais bonito e faceiro de seus vestidos.
A repetição dessas pequenas decepções acabaria sem dúvida por delir completamente n’alma de Linda a imagem de Miguel. Berta o percebeu, e desde então empenhou-se em desbastar as asperezas que magoavam o melindre da filha de D. Ermelinda.
Não lhe era difícil transmitir os toques da elegância que, ao contato de Linda, prontamente se comunicara à sua alma, de tão pura gema como a dela, embora não a polisse o amor de mãe prendada e rica.
A dificuldade estava em sofrer o gênio esquivo de Miguel esse desbaste de costumes e maneiras, que se tinham impregnado em sua natureza, que faziam parte de sua pessoa, e o tinham formado à semelhança de seus patrícios e camaradas. Mudar esses modos era quase renegar o exemplo de seu pai, as tradições de sua terra, e envergonhar-se de ser paulista, o que bem ao contrário lhe inspirava um justo orgulho.
Não resistiram, porém, estas suscetibilidades ao encanto de Berta. Soube ela provar a Miguel que, antes de ser paulista da gema, era homem e devia render preito à beleza e ao capricho da mulher. Com que raciocínios chegou a essa conclusão, bem se adivinha; o cérebro feminino é uma roda movida pela manivela do coração.
Nessa metamorfose de Miguel, cuidou Berta que apenas a movia o desejo de contentar Linda; mas, sem o sentir, era também levada pelo prazer recôndito de ver seu irmão de leite subir na estima geral e primar entre os outros moços.
Queria-lhe muito bem, a ele, como era então; porém, mais lhe havia de querer, quando fosse o que ela desejava.
Tudo isso fizera Berta para que Miguel e Linda se amassem; fora ela quem, diligente abelha, fabricara, sugando as flores de sua alma, aquele mel perfumado, de que os dois amantes libavam a fina essência.
Mas iludira-se!
Enquanto aquele amor fluía e refluía nela, como uma onda que banhava seu coração; enquanto Linda e Miguel se queriam dentro de sua alma, através de seu olhar ou de seu sorriso, identificara-se por tal forma com essa afeição, que a sentia duplamente, por si e pela amiga.
Era ela quem amava Miguel; mas por Linda. Era Linda a quem Miguel amava; mas na pessoa dela, Berta.
Agora que na delícia das primeiras efusões, nesse egoísmo sublime do amante que se convolve em si para dar-se todo ao objeto amado; quando Miguel e Linda a esqueciam, e, absorvidos no mútuo afeto, a deixavam só, erma de seu pensamento, órfã de seu mútuo afeto, ela suspirava.
E esse suspiro era a tímida confidência que lhe fazia o coração, de um amor que ela sentia pela vez primeira, no momento de o perder para sempre!
- Agora vou eu! gritou Afonso perto do mastro.
Ao mesmo tempo soava o alarido dos rapazes, e Berta corria arrebatadamente para Linda.
Alguma coisa de extraordinário sucedera.
XIX
A LÁGRIMA
No vão de uma janela conversava Luís Galvão com alguns de seus convidados, entre os quais havia mais de um antigo camarada, rapaz de seu tempo.
Voltados para o terreiro, observavam de longe as folias, de que tinham saudades; e muitos porventura invejavam ainda aos moços o prazer das estrepolias, que já lhes permitiam a gravidade dos anos e a rijeza dos músculos.
- O Afonso é endiabrado!
- Tem a quem sair.
- Oh! Se tem! Cá o Luís foi de truz!
- Um maganão chapado!
- Como se enganam! retorquiu Luís a rir. Sempre fui da pacata!
- Da sonsa, talvez!
- O que sei é que no nosso tempo ninguém punha pé em ramo verde!
- Mas não pescava senão peixões.
- Que história estão vocês aí a inventar? tornou o fazendeiro com disfarce.
- E a filha do Guedes, lembra-se?
- A que o marido abandonou?
- A Besita, sim!
- Essa não! exclamou involuntariamente Galvão contrariado.
- Ora negue! Antes e depois.
- Do parto?
- Do casamento!
- Que tal o cujo? exclamaram diversos.
Uma risada geral acolheu a pilhéria, que perturbou o fazendeiro.
- Mudemos de conversa! disse ele com algum vexame.
D. Ermelinda que se tinha aproximado da janela vizinha, à procura da filha, apanhara aquele trecho de conversa; e teve um aperto de coração.
Esquecendo-se do que a trouxe à janela, submergiu-se em uma triste cogitação, com a face apoiada na palma da mão; nem viu mais o que se passava no terreiro, ali quase em face dela.
Miguel continuava a falar a Linda, sobre coisas indiferentes. Mas não escutava a menina essas palavras sem sentido naquele momento: toda ela repassava-se da voz palpitante que penetrava-lhe a alma como a suave melodia de um hino de amor.
Avistara Berta a figura de D. Ermelinda; e receando estranhasse ela a intimidade que tão rapidamente se estabelecera entre a filha e Miguel, correra para disfarçadamente avisar à amiga da presença da mãe, e evitar assim aos dois namorados uma contrariedade.
Outra vez se esquecia de si para lembrar-se de Linda? Ou sua alma generosa desforrava-se por aquele modo, com mais um impulso de abnegação, do esquecimento dos dois amantes?
Foi nessa mesma ocasião que soara o clamor dos rapazes junto ao mastro, o qual oscilava com fortes vibrações e ameaçava partir-se ou arrancar-se do chão, ao peso excessivo que de repente lhe carregara a ponta.
No momento em que Afonso chegava-se para tentar a subida, o pinheiro estremecera violentamente abalado; e os rapazes surpresos descobriram o Brás encarapitado no cimo a que se agarrava com unhas e dentes.
O isolamento e a melancolia de Berta haviam impressionado o idiota, que ruminou em seu bestunto sobre a causa dessa mudança. O rude engrolo de idéias que amassou no cérebro grosseiro, não obteria ele jamais exprimir; nem é possível descreve-lo,
A maior alegria era junto do mastro onde galhofavam os rapazes, e as moças palpitavam à espera da prenda que seu apaixonado alcançaria para ofertar-lhe. Til se afastara e parecia triste; ela, sempre travessa e contente. Devia de ser porque também cobiçava as galanterias que estavam no cabaz preso à ponta do mastro.
Desde então a animalidade do estafermo se resumiu em um só desejo, que tornou-se em ânsia ou desespero de subir ao tope do mastro. Mas como, se ele não se animava a aproximar-se da roda dos rapazes, com receio da vaia que sofreria? Além de que, bem sabia que suas pernas trôpegas não eram para aquele árduo esforço.
Surdiu-lhe uma lembrança. As janelas do mirante ficavam sobranceiras ao tope do mastro, e a última delas justamente defronte, embora em distância que um homem ágil não poderia transpor de um salto.
Que lhe importava! Ele era um louco; e, para levar ao cabo temeridades desse jaez, tinha a grande vantagem de sua brutalidade. Aproveitando-se da distração de Berta, escapou-se de seu lado; sorrateiro ganhou o interior da casa e subiu ao mirante.
Contava com as alças das canastras de Galvão, chegado à tarde de Campinas. Atou uma das cordas à dobradiça da janela, e seguro às pontas, saltou fora, empurrando-se da parede com os pés e embalando-se nos ares.
Em um dos vaivéns, soltando a corda, pode abarcar o tope do mastro, e coroa-lo com o improvisado cocuruto que encheu de pasmo aos rapazes; mas arrancou-lhes depois boas gargalhadas.
Com a força do arremesso, o mastro percutido até a base cambou, e sem dúvida iria ao chão, esmagando o Brás na queda, se Miguel advertido pelo alarido, não visse o perigo e corresse ainda a tempo de evitá-lo.
Em risco de ser também esmagado, o moço escorou com os braços o pesado madeiro, que tombava, e deu tempo a que os outros rapazes, rompendo o enleio do espanto, e animados pelo exemplo, sustivessem o seu esforço.
Já, porém, o Brás, que havia escorregado até o meio do mastro, se deixara cair no terreiro, e corria para Berta com as mãos cheias de flores e mimos, que havia conquistado com a sua temeridade.
Estava Berta junto de Linda, a quem arrancara de seu doce enlevo; mas não a tempo de evitar que a mãe percebesse a sua intimidade com Miguel. D. Ermelinda descobrira os dois namorados, justamente quando Miguel beijava outra vez com fervor o cravo branco, e a mão mimosa de Linda, querendo tomar a flor, deixava-se colher entre as mãos trêmulas do moço.
Despertada como a dos outros pela algazarra, a atenção de Berta se voltara para o mastro, onde passava o incidente, que ela acompanhou com ansiedade. Quando em face dela parou o Brás, que mal se podia suster de comoção, e lhe estendia desgarradamente as mãos cheias de prendas, sem força de balbuciar uma palavra, o coração da menina exultou.
O aborto humano; a figura estrambótica e ridícula; o monstrengo, caíra como o disfarce do arlequim, e descobrira a feição mais nobre da criatura. O que Berta viu foi um coração, e maior ainda e mais sublime, no seio da brutalidade que o constringia.
Abraçou a menina com veemência ao pobre sandeu, e sentindo úmida a face, enxugou nos pelos ásperos da ruiva melena uma gota que empanara o brilho de seus olhos cintilantes. Outras havia chorado, mas foram bolhas d’água: lágrima, era aquela a primeira.
Depois começou ela a enfeitar-se com as flores que lhe trouxera o idiota, prendendo-as pelo talho do vestido e entrelaçando-as nos cabelos. Não trocaria nesse momento os arroubos que, havia pouco, invejara a Linda, pelo júbilo dessa tosca demonstração de um amor, que não tinha para exprimi-lo senão os esgares de um parvo, e cujo sorriso era um repulsivo engrimanço.
Adivinhava-lhe o instinto que não havia afeto mais puro, extreme e sincero do que o desse coração trancado a todas as ilusões do mundo, o desse afeto de uma alma que abortara?
Linda, que observava sorrindo a faceirice de Berta e a ajudava a prender as flores nos cabelos, voltou-se à voz de sua mãe:
- Faça o favor de não sair mais da sala, minha filha, disse D. Ermelinda.
Velava o olhar e a voz da senhora um ressumbro de triste severidade, que anuviou o coração de Linda.
Nesse instante um foguete que rasou a terra, listrando na escuridão da noite uma faixa de luz, destacou ao longe na fímbria da mata um vulto de homem.
Berta reconheceu Jão Fera.
XX
O SAMBA
À direita do terreiro, adumbra-se na escuridão um maciço de construções, ao qual às vezes recortam no azul do céu os trêmulos vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento.
Do centro dessa mole negra surge um longo penacho de fumaça, cujo cabo se tinge de escarlate com as línguas da chama quando ala-se. Escapa-se também um borborinho formado não só pelos ressolhos da labareda e crepitações da lenha, como por vozeio e vivas d’envolta com os retumbos soturnos do jongo.
É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas.
Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu de brasido e cinzas, danças os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar-se.
Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das mães, ou se enrolam nas saias das raparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhaço do pai, negro fornido, que não sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e começou de rabanar como um peixe em seco.
No furor causado pelo remexido infernal, alguns negros arremetiam contra a fogueira e sapateiam em cima do borralho ardente, a escorrer do braseiro.
Entre estes o primeiro e o mais endiabrado, foi Monjolo; tomando por sua parceira de batuque a própria fogueira, atirou-lhe tais embigadas, que a pilha de lenha derreou e foi esboroando-se. Entretanto o negrinho, a requebrar-se, abria o queixo e atroava os ares com esta cantiga:
Candonga, deixa de partes
É melhor desenganar,
Que este negro da carepa
Não há fogo pra queimar.
Salvo os rr finais que ele engolia e os ll afogados em um hiato fanhoso, tudo o mais era produção do estro africano e da sua veia de improviso.
Uma grossa anca resvalara da fogueira com as embigadas e viera cair junto aos pés cambaios do negro, que saltando-lhe em cima com ímpetos de possesso, começou de moer as brasas com os calcanhares, berrando:
Monjolinho soca milho
Bem socado, pa-ta-pá!
O mamãe, que dê a gamela
Pra juntar este fubá!
Tuque, tuque, tuque, tuque,
Tuque, tuque, zuque, zuque.
De vez em quando o garrafão de cachaça corria a roda. Cada um depois de mil trejeitos e negaças dava-lhe o seu chupão, e fazendo estalar a língua repinicava o saracoteio.
À parte, junto a um dos portões e sob o alpendre das tulhas que ficam a um canto do quadrado, estão em grupo os feitores e camaradas; uns de pé, arrimados aos esteios, outros sentados no pranchão que serve de soleira.
O Mandu arranha na viola uma chula, e o Pereira acompanha o toque com repentes que lhe acodem, enquanto os outros contam façanhas de caipira e vão-se impingindo limpamente um par de formidáveis carapetões.
Bem desejavam os sujeitos entrar na súcia e fazer uma perna no batuque; mas, impedidos pela disciplina da fazenda, contentam-se em olhar de fora e engraçar com as crioulas, que às vezes saem da roda para vir trocar lérias e receber, em paga dos milhos assados e batatas, algum descante neste gosto:
Não como inhame cozido;
Não gosto de milho assado;
Quem me quiser derretido
Me dê mendubi torrado.
Uma preta, porém, ali estava, que decerto não fora trazida por aquele motivo, pois recostada ao frontal do portão, com os olhos voltados amiúde para o lado da casa de morada do senhor, ouvia distraída as chalaças dos capangas.
Essa preta é a Florência: uma estátua de Juno, toscamente lavrada em mármore negro, e coberta com um cabeção de renda que lhe mostra o colo, e uma saia de riscado caída até o meio da perna musculosa.
O Mandu logo que ela chegara, atirou-lhe este mote.
Casca preta, bago branco,
Mas arde que não se agüenta:
Huê, que visaje é esta,
A fruita virou pimenta?
- Qual, disse o Pereira. A moça está com sentido no pajem.
- Ora menina, deixe-se disso. O patife do Amâncio não vem cá!
- Está lá ao cheiro da cozinha! acudiu outro.
A crioula mordeu os beiços de cólera; e começou de rufar os dedos nas grades do portão. Quase ao mesmo tempo destacou na sombra um vulto, no qual logo se reconheceu o mulato.
- Não vem! exclamou a Florência voltando-se com ar exultante para os caipiras e mostrando-lhes o pajem.
- Como vai o pagode, por cá? disse o Amâncio.
Disfarçadamente a crioula arredou-se do grupo dos capangas, e encaminhou-se para a roda do batuque, lançando um olhar ao pajem. Não estava ainda de todo satisfeito o seu gostinho, que era fazer o Amâncio cair no samba rasgado.
Que triunfo para ela, negra da roça, se humilhasse a mucama Rosa, sua altiva rival.
Hesitou o mulato algum tempo, receoso de derrogar de sua nobreza de pajem misturando-se com a ralé da enxada, até que rendido pelos lascivos requebros da crioula, que já se espreguiçava ao som do urucungo, saltou no batuque.
No mais forte sapateado, porém, sentiu o pajem que lhe travavam da gola da jaqueta; e puxado para fora da roda com força, achou-se em face da mucama Rosa, que viera arranca-lo da dança, furente de ciúmes.
As duas rivais se afrontaram com o olhar, por diante da cara desfaçada do mulato. Os alvos dentes de Rosa brilharam engastados em um riso de escárneo, que lhe arregaçava os lábios carnudos, e dentre as fendas dos incisores partiu um rápido esguicho, que bateu em cheio na cara da outra.
Foi pronta a réplica de Florência. Vibrando no ar o braço habituado a manejar a enxada espalmou a mão na bochecha da mucama, que titubeou e decerto iria ao chão a não ampara-la o mulato.
Amâncio à vista do bofetão decidiu-se pela Rosa, e atirou à Florência uma cabeçada. Mas a preta agarrou-o pelos cabelos; e ele apertou-lhe as goelas a fim de livrar-se das garras daquela fúria. Entretanto a Rosa ferrava os dentes no ombro da rival, que defendia-se aos pontapés.
Os pretos da roça acudiram à sua parceira, insultada pela cambada de pajens e mucamas. Os capangas tomaram o partido de Amâncio por uma espécie de coleguismo; e assim tornou-se geral o banzé.
Agachado no meio do terreiro, bebendo seu pito, Monjolo que se retirara do batuque, observava com viva agitação aquela cena. Seus olhos saltados das órbitas, como dois lagartos negros quando pulam da toca, devoravam com uma volúpia feroz a figura de Rosa.
Felizmente acudiu o Faustino que ajudado de outros pajens, arrancou a mucama do sarilho; e levou-a à força para a casa.
À porta do administrador batia a sineta o toque de recolher.
XXI
O INCÊNDIO
Terminara a festa.
A escuridão profunda de uma noite brumosa envolve a casa das Palmas e os edifícios adjacentes.
Do borralho acamado sobre as extintas fogueiras apenas escapam raras fagulhas, que esfoliam-se no ar e se apagam.
Soa ao longe tropel de animais, intercalado às vezes por trechos de alegre descante. São ranchos de convidados que tornam às casas.
Da várzea, entre o zumbir dos insetos noturnos, perpassavam nos sopros da brisa as rascas da viola, que à porta da palhoça ainda arranhava por despedida algum caipira saudoso.
Pouco mais era de meia-noite. A função que prometia prolongar-se até lá pela madrugada, esfriara de repente, com bastante pesar dos velhos comilões, os quais não puderam atolar-se na lauta ceia, pois o tempo mal lhes chegou para fartarem-se uma só vez de cada prato.
Ferida nas duas cordas mais delicadas de seu coração, no amor de esposa e mãe, D. Ermelinda, apesar de grande esforço e do habitual disfarce que o trato da boa sociedade prescreve como regra de cortesia, não pode abafar a tristeza que lhe transbordava dos seios d’alma.
O amortecimento das maneiras afáveis e da graciosa amabilidade da dona da casa derramou nos convidados um súbito constrangimento; a festa perdeu desde logo a sua expansiva alegria; os mais desconfiados, ou os mais paulistas, cuidaram em retirar-se, que não acharam a costumada e carinhosa resistência.
Então começou a debandada. Ainda tentou Luís Galvão reanimar a folia; mas um olhar de sua mulher e o abatimento que se pintava em seu gesto, o demoveu logo do propósito de reter os amigos e prolongar os folguedos.
Já todos se haviam acomodado para dormir; só D. Ermelinda, com o mesmo traje da festa, que não despira ainda, velava imóvel no seu toucador.
Atirada ao fundo de um sofá, na sombra que projetava um vaso de porcelana colocado diante da vela para quebrar a luz, tinha os olhos fixos na imagem de N. S. das Dores, que se via sobre a cômoda em um nicho de jacarandá.
Talvez pedisse à Mãe de Deus, à divina consoladora dos aflitos, um conforto para sua alma, atribulada naquele instante por pensamentos que a enchiam de horror e angústia.
Nunca passara pela mente de D. Ermelinda pedir a seu marido contas de um passado que não lhe pertencia, e até por melindre natural evitara sempre folhear aquela página da mocidade de Luís Galvão. Advertia-lhe o coração das desilusões que ali a aguardavam; e por isso preservara a sua ignorância como um véu protetor contra as suscetibilidades e zelos de sua alma.
Subitamente, porém, quando menos esperava, surge-lhe aquele passado, dentre as alegrias de uma festa, e lança em seu espírito uma certeza fatal, a que por muitos anos e tão cuidadosamente se esquivara.
E sobre esse golpe, outro ainda mais cruel talvez para almas como a sua, apuradas por uma suprema delicadeza e uma esquisita sensibilidade. A forma rude e baixa por que se tinha revelado o passado de Galvão, sobretudo a magoou profundamente.
Se lhe contassem da mocidade de seu marido alguma afeição pura e generosa, no meio do seu desencanto, teria ao menos o doce consolo de haver delido d’alma de Luís aquela imagem querida, gravando sobre ela a sua.
Mas a notícia de uma aventura galante, própria de um libertino, além de arranca-la à querida ilusão de ter sido o primeiro amor, lhe derramara n’alma uma agrura, como nunca sentira.
O caráter que até ali respeitara, descia de repente em seu conceito; e ela enchia-se de pavor quando sua imaginação, exaltada pelo sofrimento, lhe abria as profundezas insondáveis onde podia se precipitar o homem a quem ligara sua sorte.
Depois, por uma natural associação, recordando-se da intimidade de Linda com Miguel, no coração da mãe caíam as gotas acerbas que vazavam do coração da esposa. Pensava D. Ermelinda, que a filha criada por ela com tanto esmero, sucumbia à fatalidade e ia arrastada por um pendor irresistível, que o pai lhe transmitira de herança.
Assim como Luís uma vez deslizara da honra que pautara sempre os atos de sua vida, e a nobreza de seu caráter se eclipsara ante a sedução de uma moça, Linda cuja alma ela se comprazera em colocar numa esfera elevada, se inclinava a um rapaz de posição muito inferior.
E aqui a sua fantasia, convolvendo as torturas da esposa com ânsias de mãe, esvairava por modo que ela, espavorida de sua própria mente e não podendo sofreá-la, asilava-se contra esse delírio numa oração fervente a Nossa Senhora.
Luís Galvão, inquieto com a demora da mulher, a chamara; e, não recebendo resposta, veio acha-la na mesma posição.
- Que tem você, Ermelinda?
Estremeceu a senhora; e toda ela pulsou, como se a dor que tinha calcado dentro da alma se agitasse para refluir aos lábios. Mas a boca descerrando-se deixou escapar apenas um ofego, e ficou muda.
A palavra é estreita para dar passagem às mágoas amassadas no coração, quando se arremessam no primeiro ímpeto e de um só jato.
- Nada! respondeu D. Ermelinda.
- Por que não se deita?
Nesse instante repercutiu no aposento o som de três pancadas fortes, secas e breves, dadas rapidamente uma sobre outra.
Abriu Galvão a janela do canto, que ficava na ala direita do edifício, para observar o terreiro, donde viera o estrépito. Mas este cessara bruscamente com a última pancada; e o silêncio de todo se restabelecera.
Debruçando-se à janela, o fazendeiro lobrigou uma sombra que parecia resvalar ao longo da parede.
- Quem está aí?
Não houve resposta. Julgando ter-se enganado em tomar por vulto humano o vôo de um morcego ou qualquer outro pássaro noturno, ainda mais o convenceu disso um guincho de curiau, que estrugiu para o lado da senzala.
Não se enganara, porém, o fazendeiro. Foi de fato um homem, que se coseu à parede e se encaixou no vão de uma porta, onde permanecia imóvel e esticado para dissimular a saliência do corpo.
Tendo fechado por fora os pajens e capangas no repartimento que eles ocupavam, cuidou Faustino de impedir-lhes a saída por uma das janelas que não tinha grades. Para esse fim munido dos instrumentos necessários, encostou-se a ela para prega-la.
A esse tempo arrumava-se ao muro uma trouxa negra que avançara pelo terreiro aos pinchos como um sapo. Era o Monjolo que já havia furtado as chaves da senzala e vinha ter com o pajem.
O africano ruminava a idéia de suprimir desde logo o Faustino, a fim de lograr ele só os proventos do trama. Naquele curto instante correu o pajem sério perigo de que o salvou o rumor da janela ao abrir-se.
Afastando-se ligeiro para a senzala, soltou o Monjolo o guincho que tranqüilizou o fazendeiro, e entretanto era o sinal do trama sinistro.
Acabava Luís Galvão de correr o trinco da janela quando no canavial a primeira labareda se arremessou nos ares, enroscando-se como uma serpente de fogo.
XXII
A TRAIÇÃO
Rolos de chamas envoltas em denso bulcão de fumo subiam aos ares.
A casa das Palmas e suas dependências, vistas de longe, pareciam submersas em um turbilhão de fogo, que surgia das entranhas da terra e convolvia-se pelo negrume do espaço.
Açoitada pelo vento, a labareda estorcendo-se e rabiando, rugia de sanha; ou sufocada um instante pelas abóbadas de fumaça e pelas camadas de palhiço, troava como um canhão, arrojando-se às nuvens.
De instante a instante ouvia-se uma descarga de fuzilaria, correndo ao longo daquela faixa incendiada que figurava a ala de um exército em renhida batalha. Eram os gomos das canas, que estalavam ao intenso calor do fogo.
Com os sibilos da labareda enroscada no ar, confundiam-se os silvos das cascavéis e jararacas, que surpreendidas pelo incêndio, arremessavam-se furiosas contra o fogo e rompiam estortegando pelo campo abrasado.
As aves noturnas deslumbradas com o súbito clarão, fugiam soltando guinchos de terror, enquanto as feras, insufladas pelo instinto da desolação, uivavam no fundo da floresta e trotavam ligeiras para arrebatarem a presa ao incêndio e se abeberarem de sangue.
Medonho espetáculo!
O incêndio crescia com tal velocidade, que parecia uma catarata de fogo, a inundar o espaço, ameaçando comunicar-se à floresta, e submergir a terra em um pélago de chamas.
Do seio daquele surdo rumor produzido pelo ressolho da labareda, se desprendeu e reboou ao longe um grito soturno; mugir da turba espavorida antes as tremendas convulsões da natureza.
- Fogo!... fogo!... fogo!...
Correndo à janela e abrindo-a outra vez, Luís Galvão recuou espantado com a viva claridade, que o incêndio projetava sobre o terreiro e que lhe ferira os olhos.
Foi rápido, porém, o deslumbramento. Debruçando-se no peitoril e descobrindo o foco do incêndio que vomitava labaredas como a cratera de um vulcão, o fazendeiro compenetrou-se imediatamente da realidade.
- O que é? perguntou D. Ermelinda, que parara aterrada no meio do aposento.
- Fogo no canavial.
Atirada esta resposta à mulher, Luís Galvão saltou no terreiro e deitou a correr para as plantações, lançando aos brados aquelas mesmas palavras, como aviso aos feitores e gente da fazenda.
À exceção de alguns escravos fechados na senzala, a quem o clarão despertara, estavam os mais ferrados no sono profundo, que sucedera mui naturalmente ao cansaço dos folguedos de São João e às libações copiosas.
Assim, já Luís Galvão passara a tronqueira da roça que o administrador, ainda tonto de sono, babatava à busca das chaves da senzala para soltar a gente; e os feitores, acordados de sobressalto, se olhavam estupefatos, sem consciência do que estava passando.
O fazendeiro lançou-se na direção do incêndio, pensando que toda a gente da fazenda não tardaria a segui-lo, e ansioso por avaliar da intensidade do fogo como de sua marcha. Lembrara-se que o tanque ficava sobranceiro ao canavial, a arrombando-o podia arrojar sobre o foco do incêndio uma formidável manga d’água que o extinguisse.
Enganara-se, porém, Galvão. Apenas lhe iam no encalço, mas agachados e esgueirando-se por entre a folhagem os dois vultos de Faustino e Monjolo, impaciente de assistirem à catástrofe, e verem consumado o crime de que dependia a satisfação de seus desejos.
Ainda desta vez Monjolo tinha amiúde ímpetos de atirar-se ao pajem, e cravar-lhe o quicé no coração; sobretudo quando lembrava-se que Barroso prometera àquele a liberdade e posse de Rosa.
Mas continha-se; e não por escrúpulo, mas por um requinte de crueldade.
Só, na alcova onde a tinha deixado o marido, D. Ermelinda transida de susto com o anúncio do incêndio, arrastou-se afinal para a escada do mirante; ao tempo em que já a filha despertada pelo rumor a procurava, e Afonso arrancado ao sono ganhava terreiro para acudir ao que fosse preciso.
- Onde está meu pai? perguntou ele.
- Lá, no canavial, Afonso! Corre, meu filho!...
Estimulando o mancebo com esta prece ansiada, acompanhava a senhora com olhar ardente o vulto do marido, que chegava ao canto do carreador e destacava-se na zona abrasada que o incêndio projetava em torno.
Tinha-se já arremessado avante o mancebo, quando estacou de súbito, ouvindo um grito de angústia que partia do mirante. Voltou-se e não viu mais D. Ermelinda.
- Minha mãe! O que é?
- Acuda, mano! clamava Linda com voz dilacerante.
Um reflexo da labareda mostrou rapidamente ao moço, no muro do mirante, a figura transtornada da irmã, que apontava para o canavial, arcando contra o parapeito como se quisesse precipitar-se. Mas antes que o vislumbre da chama passasse, abateu-se aquela sombra.
Chorava a filha sobre o corpo inanimado da mãe.
Desmaiara D. Ermelinda ao ver, no canavial, surgir da sobra um homem, que, brandindo um cacete sobre a cabeça de Luís Galvão, o prostrou ao chão como um corpo morto.
Era o Gonçalo Suçuarana.
XXIII
VAMPIRO
Quando Gonçalo se curvava para soerguer o corpo do fazendeiro e arremessa-lo no meio das chamas, um vulto emergiu da sombra.
Jão Fera estava em face dele.
Recuou o Suçuarana de um salto, e sacou da cinta a pistola que desfechou sobre o inimigo à queima-roupa. Não acertando o primeiro e segundo tiro, puxou da catana; e começou a esgrimi-la cortando o ar.
O capanga avançava lento, mudo, sombrio, sem arma em punho, nem sequer um gesto de ameaça; e, todavia, era ele Gonçalo, apesar de armado, quem recuava diante daquele vulto impassível.
Afinal, o pulso do Suçuarana, fatigado de cutilar o vento, afrouxou. Não teve ele tempo de pressentir o perigo; colhido pelas espáduas girou no ar e foi abater-se no canavial abrasado onde o arrojara o braço pujante de Jão Fera, que antes de arremessar o corpo, o havia estrangulado.
Nesse momento conseguira erguer-se Luís Galvão. Recobrando gradualmente os sentidos, observara o fazendeiro o fim da luta, e compreendera que devia a existência a Jão Fera.
Este fitava a labareda que envolvera o corpo do Suçuarana. Espessa e carregada de grosso fumo, a chama se arrastava como a jibóia que lambe a presa para traga-la; mas outra vez ligeira e farfalhante desprendeu-se no ar como a língua da serpente; e fendendo-se mostrou no meio do brasido o corpo já calcinado do fanfarrão.
Um sorriso de feroz volúpia franziu os lábios do capanga, que ficou um instante absorto naquele intenso prazer. Recobrado afinal, voltou-se com a idéia de correr além, e deu com Luís Galvão, que estendia-lhe a mão:
- Você me salvou, Jão! Obrigado!
- Salvei; mas não sabe por que? respondeu o capanga com a fala soturna, cravando um duro olhar no semblante do fazendeiro.
Este ia responder; Jão atalhou-o.
- Livrei-o de morrer, porque sou eu quem o há de matar, quando chegar sua hora!
Lançando-lhe estas palavras com desprezo, voltou as costas o capanga para afastar-se dali.
- Tanto mal quer-me você, Jão?
O Bugre estacou sofreado por uma força íntima a que ele tentava resistir; depois de curta hesitação, arrojou-se em frente do fazendeiro para dizer-lhe com a voz dilacerada pela cólera:
- Mais de cem vezes já eu teria cravado em teu coração esta faca, se não fosse aquela que está no céu, e a filha que deixou na terra. Vê que raiva sinto eu quando me lembro que tu ainda vives!
Rangiam os dentes do capanga; e, todo ele convulso de furor, ameaçava o fazendeiro com a sanha de um tigre.
Ainda desta vez, porém, conseguiu dominar-se. Arrebatando-se ao ímpeto que já o arrojava sobre Luís Galvão, deitou a correr por um carreador que invadira o incêndio; e desapareceu por baixo das abóbadas formadas pelas chamas.
Com antecedência fora Jão Fera sabedor da trama urdida pelo Barroso. Desde que o Chico Tinguá o advertira do perigo, o Bugre, sempre alerta, redobrara de vigilância e não perdeu mais de vista a seus inimigos.
Assim havia surpreendido o segredo da maquinação de Barroso; e naquela manhã assistira, oculto no mato, à última combinação entre os cúmplices.
Já tinha o capanga na cinta o dinheiro preciso para desempenhar sua palavra, e esperava o momento de ajustar contas com o Barroso. O plano horrível excitou a ferocidade dessa alma, desde algum tempo sopitada pela influência de Berta.
Que esplêndida vingança não lhe preparava o inimigo com o terrível incêndio, que ia servir-lhe, a ele Bugre, de fogueira de São João para divertir-se também naquela noite de tanto folguedo?
A desolação e a ruína o deleitavam; ao calor das chamas, ouvindo resfolgar a labareda e agonizar os infelizes por ele arremessados ao fogo, ele sentia a inebriação da morte, e sua alma esvoaçava como a do vampiro, sobre os destroços do incêndio.
Desde o começo, acompanhava ele a realização da trama; vira o Gonçalo postar os companheiros, atear o fogo no canavial, e emboscar-se à espera do fazendeiro. A princípio nem lhe passara pela mente livrar Luís Galvão da morte que o ameaçava; mas a idéia de que Berta, ignorando a verdade, podia atribuir a ele esse assassinato, o estremeceu e impôs-lhe a dura necessidade de salvar o homem a quem mais odiava.
Escapara de chegar tarde, porque se demorara um instante em agarrar Monjolo. O africano, vendo Faustino atado de chofre como um feixe de sapé e pinchado ao fogo, escafedeu-se; mas, a pequena distância, caiu arpoado pela faca do Bugre.
Empurrando esse trambolho ao fogo, correra então o Bugre ao lugar em que havia deixado o Gonçalo de espreita, e onde acabava de passar a última cena.
Agora lá ia à busca do Barroso, que devia estar do outro lado do canavial, pronto a aparecer no momento preciso, e ao sinal convencionado, para representar a farsa, que havia de rematar o drama sanguinolento.
Quando Jão passou pela orla do canavial e que a chama bateu-lhe em cheio no semblante, Barroso o reconheceu e fugiu espavorido. Mas o capanga ia-lhe no encalço, e infalivelmente o alcançaria.
Esbaforido, prostrado de cansaço e de terror, o miserável se deixara cair em um fojo coberto de juncos e moitas; e, resignado, esperou a morte, que ele sentia aproximar-se no passo rápido do Bugre.
Nesse momento chegava Miguel, que a meio caminho de casa e surpreendido com o clarão do incêndio, voltara a correr na direção das Palmas.
Por um impulso generoso parou para defender o perseguido; e Jão Fera esbarrou de rosto com ele.
Três vezes o Bugre arremeteu e três vezes o brioso mancebo tomou-lhe o passo, resolvido a sacrificar-se antes do que deixar consumar-se o crime.
- Deixe-me passar, moço! bramiu o capanga rangendo os dentes.
- O que eu sinto, monstro, é não ter uma arma para castigar-te.
Rugiu o Bugre, e saltou sobre o mancebo, que o esperou calmo e resignado a tudo, mas sem recuar o passo.
Salvou-o um grito de Berta. A menina tinha acompanhado de perto a Miguel, deixando atrás nhá Tudinha, que não a pudera seguir.
Ouvindo a voz da menina, o capanga como se o espancasse a cólera celeste, disparou pelo campo fora e desapareceu.
XXIV
NA TAPERA
Uma brisa cortante esgarçava a cerração, cujos retalhos flutuavam pelo tope das árvores.
Três dias tinham decorrido depois da festa de São João.
Berta seguia pela vereda que ia dar à tapera. Caminhava a passo lento e frouxo com a cabeça descaída, revolvendo na mente reminiscências que lhe pungiam o coração.
A pequena distância atravessou Miguel por diante dela:
- Sabe, Inhá? Jão Fera foi preso!
- Aonde? perguntou a menina surpresa.
- Perto de Campinas.
- E agora?
- Com certeza o enforcam!
Esta resposta o mancebo a deu já afastado e de caminho para o lado das Palmas.
Berta suspirou, pensando que Miguel ia ver Linda; mas logo seu pensamento desprendeu-se dessa idéia, para refletir sobre a desgraça do capanga.
Apesar do horror que lhe inspirava ele desde a véspera de São João, já pelo atrevimento de atacar Miguel, já pelas crueldades que praticara naquela noite, ela sentiu profunda compaixão pelo infeliz que ia morrer execrado e maldito por todos; e sua alma confrangeu-se de dor.
Tão absorta nessa pena chegou às ruínas que não reparou na singular atitude da negra em pé, no meio do terreiro, com o pescoço curvo, os olhos esbugalhados, à espreita de um objeto que, por ventura, lobrigava entre a folhagem.
Passara Berta e dirigia-se à porta da casa, quando a negra estendeu os braços hirtos para diante como se quisesse arremessar de si uma visão medonha, e caiu à estrebuchar em contorções dolorosas, arrancando guinchos aflitivos do peito ofegante.
Na orla do mato, à esquerda da tapera, assomara de repente a figura do Ribeiro, que aos olhos de Zana surgira como um espectro e a fulminara de terror.
Aos gritos da preta, Berta, arrancada ao seu recolho, correu assustada, sem atinar com a causa de semelhante acesso. Vendo-a, Zana que não se apercebera de sua chegada, atirou-se à ela, e cerrando-a ao peito com os braços mirrados, precipitou-se para casa em um ímpeto de desespero.
Assim arrebatada de chofre, não descobriu a menina o vulto do Ribeiro, nem ouviu o riso de escárneo que rincharam os lábios do assassino por ver o terror da negra e seu afã em levar a menina do terreiro e esconde-la na casa.
Tinha ele segura a presa, e por isso não açodava-se, querendo gozar por mais tempo a delícia dessa vingança, que julgava já extinta, e renascia de novo, como o broto de uma raiz morta.
Açulado por um ódio implacável, lembrara-se dias antes de rever as ruínas da casa onde imolara a vítima de seu rancor, e cevar-se nas recordações de sua covarde atrocidade.
Nessa ocasião, viu Berta, pela primeira vez, e logo entrou-o a suspeita de ser ela a filha de Besita, livre da morte pela súbita ameaça de um homem que ele não conhecera, mas supunha capanga de Luís Galvão.
Desde aí começou de tirar indagações e obteve a certeza que desejava. Seria pois esse o remate da vingança que há vinte anos principiara em Besita e devia acabar na filha, depois de haver exterminado o pai.
Furioso com o malogro do incêndio, porém aterrado com a sanha de Jão Fera, a quem só escapara pela corajosa intervenção de Miguel, o miserável tratou de fugir.
Ao passar por Campinas, soube que o Bugre fora preso na véspera por gente do Aguiar, e então animou-se a voltar a Santa Bárbara.
Seu primeiro pensamento foi Berta. Lembrando-se que ia matar a pobre menina, sentia um prazer bárbaro. Parecia-lhe que Besita revivia na pessoa da filha, e que assim podia ele assassina-la outra vez, saciando o seu imenso rancor.
Ele, que a princípio nem se apercebera da semelhança de Berta com a mãe, tão apagada estava em sua memória a imagem da mulher a quem amara alguns dias para odiá-la tantos anos com um rancor de além-túmulo, agora que o ódio lhe avivara a reminiscência, via surgir a sombra viva de Besita.
Zana, deixando Berta no meio do aposento, voltou ao terreiro para espreitar o inimigo. Tremia o corpo da preta com movimentos tetânicos, e os dentes lhe chocalhavam; mas em sua pupila esvairada lampejava um fulgor sinistro. Era horrível de ver-se aquela múmia viva, com os beiços repuxados, e as unhas a crisparem-se como as garras de um abutre.
O Ribeiro recuou e escondeu-se no mato, esperando que passasse aquele ímpeto de furor.
- Zana! Zana! Que tem você? dizia entretanto Berta, da porta da casa.
Serenou a agitação da preta com o afastamento do Ribeiro; e Berta, sentando-se na soleira, com as costas voltadas para o mato, submergiu-se outra vez nas cismas, em que se enleava agora sua alma, dantes tão isenta e descuidosa.
Seu espírito girava em torno de uma idéia que sobretudo a preocupava. Era a oposição que D. Ermelinda fazia ao amor da filha por Miguel. Já no fim da festa na noite de São João notara ela, Berta, o constrangimento de Linda, a quem a mãe não deixara mais arredar-se de junto de si.
No dia seguinte, ainda mais sensível tornou-se o rigor. Linda não se animou a falar com Miguel, nem a brincar pelo pomar. Todo o dia esteve na sala com a mãe ou umas velhas parentas; e Berta percebeu que os meigos olhos azuis da amiga tinham o rescaldo que deixam as lágrimas.
Recordando todas estas circunstâncias, às vezes tinha Berta seus assomos de júbilo, pensando que ela podia Miguel amar livremente, sem desgosto nem obstáculo. Mas logo reprimia aquele impulso do egoísmo; e perscrutava em sua imaginação um meio para remover o obstáculo que ameaçava a felicidade de Linda.
Depois acudia-lhe de novo à lembrança a notícia que lhe dera Miguel da prisão do Bugre; e sua alma esquecia as próprias tribulações para afligir-se da mísera sorte daquele perverso, que tamanha dedicação tinha por ela.
Entretanto o Ribeiro, oculto no mato, observava os movimentos da menina e sorrateiramente aproximava-se por detrás, contando surpreende-la. Mas Zana alerta lhe percebera a intenção e também de esguelha avançava para defender Berta e esganar o assassino se não lhe mentissem os pulsos descarnados.
A cada passo que dava o Ribeiro de um lado, arrastava-se a mísera louca; e Berta, que era o alvo da convergência desses dois impulsos, continuava inteiramente alheia ao que se passava.
De repente, Zana ficou estática e imóvel; depois começou de tartamudear sons roucos e afinal soltou uma gargalhada estridente que ressoou pela mata, violentamente agitada neste momento.
Berta, sobressaltada, ergueu a cabeça.
XXV
A ENTREGA
Sabe-se por que preço obtivera Jão Fera o dinheiro necessário para desempenhar a palavra dada ao Barroso.
O Chico Tinguá, incumbido de negociar a entrega do capanga mediante cinqüenta mil réis, dirigiu-se à fazenda de Aguiar, e fez sua proposta ao fazendeiro.
Desconfiou este do caso, como era natural; mas estando ali um camarada, conhecido do Tinguá, que assegurou ser Jão Fera um homem capaz daquela façanha, decidiu-se Aguiar a dar a soma, curioso de ver o resultado.
- Aí tem o dinheiro. Mas, olhe lá, que, se o patife não vier, quem paga é você.
- Não tenha medo que ele falte.
Marcou-se o dia. O fazendeiro mandou chamar o Filipe com sua gente, e aumentou a capangada para receber a visita do Bugre.
Antes de partir quis Jão Fera despedir-se de Berta e com esse pensamento dirigiu-se para a casa de nhá Tudinha. Levava a alma a transbordar e carecia nesse instante supremo da eterna separação vaza-la no coração da menina.
Berta cosia, sentada em seu canto habitual, à sombra do oitão da casa. O Bugre avistou de longe e parou oculto pelas árvores para contempla-la com religiosa adoração.
Passando o primeiro enlevo, quando lembrou-se do pensamento que o trouxera, não se animou a dar um passo e aparecer à menina.
Pressentia o horror que deviam ter causado em Berta as mortes por ele perpetradas na noite de São João, e a abominação que desde aí lhe votava aquele coração puro e santo.
Se a menina soubesse da trama urdida pelo Barroso contra Luís Galvão, talvez lhe perdoasse tamanha atrocidade, cometida na ocasião de salvar uma existência tão querida para ela.
Mas a menina ignorava, e não seria ele decerto quem lhe havia de revelar o terrível segredo, confessando a sua vergonha de salvar o mais vil dos homens.
Não foi este, contudo, o mais poderoso dos motivos que lhe tolheram o impulso. Berta naturalmente lhe perguntaria a causa da sua estranha resolução de entregar-se à prisão; e seria necessário tudo revelar.
A idéia de que a menina se pudesse afligir por ter causado, embora involuntariamente, a sua perda, o assustava. Ignorasse ela sempre quanto custara o juramento que lhe dera, de poupar a vida de Luís Galvão; e não sondasse nunca os antros profundos dessa consciência onde rugia o desespero.
Fechou os olhos o Bugre para subtrair-se ao encanto da gentil menina, e, arrancando-se com esforço àquele sítio, sumiu-se no rumo de Campinas.
Eram quatro horas da tarde, quando um homem à pé e coberto de pó chegava à tronqueira da fazenda do Aguiar.
Da janela do sobrado, onde por um excesso de prudência se fora postar, avistou o Aguiar ao caminheiro, em quem os capangas, agrupados no pátio, já tinham reconhecido Jão Fera.
Ligeiro calafrio correu pela medula desses homens valentes e avezados ao perigo.
Abriu o Bugre descansadamente a tronqueira, e avançou com a costumada pachorra para o terreiro, como quem entrasse por sua casa. Aí chegando, saudou o fazendeiro e outras pessoas com um toque no chapéu.
- Tenham todos boa-tarde.
Tão surpresos ficaram os outros daquele sossego, que nem se lembraram de responder à saudação.
- Aqui estou eu, meus senhores, na forma do prometido, tornou o Bugre com um triste sorriso.
O Filipe trocou um olhar com o patrão e acenando à sua gente, avançou para o Bugre.
- Pois renda-se, homem, que é o melhor.
- Alto lá, camaradas! disse Jão Fera vendo os capangas se aproximarem com intenção de agarra-lo. Não se cheguem muito.
- Deixe-se de partes!
- Os senhores sabem se eu tenho palavra. Estou aqui por minha vontade; e do mesmo modo irei para onde quiserem. O ajuste foi entregar-me; e me entrego mesmo. Mas se algum me puser a mão, está tudo perdido.
Retraiu o Bugre o pé esquerdo; e os ombros agitaram-se com uma ligeira contração, enquanto nos olhos torvos fuzilava um relâmpago.
Os capangas hesitaram; e a um aceno do fazendeiro, que do sobrado assistia à cena, Filipe acomodou a coisa.
- Está bom, camaradas, não zanguemos o homem.
- Para onde me levam? É para Campinas? Pois vamos lá! disse Jão Fera.
- Não há pressa. O senhor pousa aqui e amanhã com a fresca da madrugada nos botamos para lá.
O Bugre fez um gesto que exprimira indiferença; e sentando-se no ressalto da calçada, que havia no terreiro, preparou um cigarro e começou a pitar.
Mas nenhum dos capangas se animou a aproximar-se. Através do ar negligente e absorto da fisionomia do Bugre pressentia-se a viva atenção, que exercia em torno uma vigilância incessante.
À noite o Filipe convidou Jão Fera para cear com os outros camaradas. Ele, porém, recusou, contentando-se com um trago de aguardente.
Seriam nove horas e estavam todos acomodados no rancho, que ficava à direita do sobrado, quando Filipe sorrateiramente ergueu-se e passou fala aos camaradas.
- Enquanto não amarrarmos o danado, não sossego!
Convieram os outros e às agachas se foram acercando de Jão Fera, para cair sobre ele e segura-lo.
O capanga que não dormia, como eles pensavam, recebeu-os de frente:
- Ah! Vocês querem brincar? Pois vá lá!
Com o arrojo e destreza que ele possuía no mais alto grau, e o multiplicava, lançou mão de uma estava do rancho e espancou a troça do Filipe.
Depois de os ter sovado em regra, quando ia já em retirada, ouvindo a voz do Aguiar a perguntar pelo que havia, gritou-lhe de longe:
- A sua gente rompeu o ajuste; minha palavra está livre. Passe bem; mas fique descansado que eu lhe darei o pago deste desaforo. Há de ver se é bom ser amarrado como um negro fugido!
Deixando a fazenda encaminhou-se Jão Fera para Santa Bárbara, donde saíra aquela manhã, cuidando que nunca mais voltaria àqueles lugares.
O desfecho da traição do Aguiar o entristecia, e dentro de sua alma lamentava não estar àquela hora preso na cadeia de Campinas, ou enterrado no rancho da fazenda, onde algum dos capangas podia tê-lo facilmente prostrado com um tiro de melhor pontaria.
Incutia-lhe esse pesar o profundo pavor que dele se apoderava, pensando no seu encontro com Berta, e na indignação que sua presença devia causar à menina.
Por vezes parou, hesitando se devia retroceder.
XXVI
O CIPÓ
O fim da noite foi para Jão Fera um pesadelo horrível.
A todo instante fulgurava em sua alma, ao clarão de uma chama satânica, a cena atroz do assassinato de Besita.
Mais de cem vezes, no resto da noite, reviveu esse momento de acerba angústia, no qual toda sua existência submergia-se, como rio caudal pela estreita gorja de um precipício.
Revia com a mesma ânsia o vulto do Ribeiro, e sentia que após vinte anos ainda não cicatrizara em sua alma o golpe que a tinha dilacerado, quando foi ele, Jão, obrigado a rasga-la, ficando junto de Besita, e não perseguindo o assassino.
A voz da mísera mãe ressoava-lhe constantemente no íntimo, com aquele pungente grito de desespero: - "Minha filha, Jão!... Ele... matá-la...".
Revolvia-se o capanga na dura laje que lhe servia de leito; e tentava subtrair-se à obsessão, lembrando que não passava aquela visão de um desvario de seu espírito.
Mas surgia-lhe a imagem de Besita, que descia do céu para implorar-lhe a salvação da filha; e o capanga, impelido por força misteriosa, erguia-se de um ímpeto; e vagava à toa pelo ermo, à busca do ignoto perigo que ameaçava Berta.
Uma vez chegou a cerca da casa de nhá Tudinha para certificar-se de que nada ocorrera de extraordinário naquela habitação. Vendo-a tranqüila como de costume, tornou à furna e esperou que amanhecesse.
Às seis horas encaminhara-se para a tapera, onde esperava encontrar Berta. Batia-lhe o coração pensando na cólera da menina.
Chegado ao ponto da vereda, onde ficava o fojo minado pelo Brás, o capanga que desde o princípio descobrira a cilada e a desprezara, sorriu, percebendo as escarchas da terra gretada pela escavação interior.
Batendo com o pé de champa, abateu a estiva, que, desmoronando-se com a camada de barro superposta, rolou pelo barranco abaixo.
Ouviu-se um berro, e o idiota, que desde o romper do dia, acocorado no fundo do desfiladeiro, esperava o corpo do capanga para cair-lhe em cima, fugiu amedrontado, mas sobretudo furioso por lhe ter falhado o ardil armado com tamanha paciência.
Jão tinha gana ao idiota, e prometeu a si castiga-lo. Entretanto, saltou a fenda do despenhadeiro, como por segurança se habituara a fazer desde que descobrira a cilada, e aproximou-se da tapera.
Aí chegou o momento em que Zana via a descoberto o vulto do Ribeiro, assomando na orla do mato.
O grito que soltou a negra, repercutiu na alma do Bugre, como o eco de um som remoto, mas que estrugia ainda a seus ouvidos. O semblante fulvo da louca surgiu diante dele como a figura que tinha gravada dentro da alma, no sombrio painel da morte de Besita.
Seu olhar acompanhou a vista esvairada de Zana e encontrou-se com o espectro, que tantas vezes lhe aparecera durante a noite. A expressão viperina daquele rosto, ele a conhecia; era a máscara que tinha servido, vinte anos antes, na horrível tragédia.
Apoderou-se do capanga uma súbita convulsão. Tremiam-lhe os músculos, como as estipes da palmeira, açoitadas pelo temporal. Batiam os dentes; e a língua trêmula nem força tinha para balbuciar.
A possante organização parece romper-se aos embates de uma paixão imensa, que se quer precipitar do íntimo, e não acha válvula bastante por onde escape.
A semelhança do monte percutido pelo fogo subterrâneo, que lhe dilacerava as entranhas, o corpo robusto e atlético de Jão Fera brande, e vacila até que abra-se enfim uma cratera a esse ímpeto vulcânico.
Durou a crise espantosa todo o tempo que levou Ribeiro a aproximar-se de Berta. A cada passo do facínora, crispava-se o capanga, no afã de colher as forças; mas abatia sobre si, como ao próprio peso se acalca a massa bruta.
Quando, porém, o Ribeiro já estendia o braço para tocar a menina, tal repercussão ele sentiu, que pulou arremessado como uma pela, e chofrou o inimigo com o arremesso da águia quando arrebatada a presa.
Sufocando na boca do miserável o grito que lhe escapava, arrastou-o para o mais espesso da mata.
Foi este rumor que Berta ouvira de envolta com a gargalhada estridente de Zana, a qual por uma súbita lucidez reconhecera o capanga, e adivinhara nele o vingador de Besita e o salvador da filha.
Entretanto, Jão Fera, embrenhado na espessura, atirava ao chão o corpo do Ribeiro, quase desfalecido pelo terror e pela constrição formidável dos braços que o arrochavam.
O capanga sacara a faca da cinta, e com o golpe suspenso procurou sofregamente um lugar para ferir, mas de modo que reanimasse com a mais intensa dor, aquele corpo desmaiado sem contudo lhe tirar a vida, que ele queria conservar como um avaro, para sua vingança.
Ao cabo de um instante de hesitação arremessou de si a arma; arquejante aos arrancos daquela sanha. Agachando-se então como um tigre que prepara o salto, com os dentes rangidos e os lábios espumantes, se arremessou em cima do Ribeiro e tripudiou sobre o corpo em um frenesi de selvagem ferocidade.
Quem o visse dilacerando a vítima com as mãos transformadas em garras, pensaria que a fera de vulto humano ia devorar a presa e já palpitava com o prazer de trincar as carnes vivas do inimigo.
Soou perto um brando de horror.
Transido e estúpido, Jão Fera viu Berta fugindo espavorida daquele sítio, ao qual a guiara o Brás, por uma estulta malignidade. O idiota espreitar a cena anterior, e forjara no seu bestunto aquela vingança.
O furor de Jão Fera transportou-se do cadáver, que já não o podia cevar, ao monstrengo; na sua raiva o teria despedaçado, se este não corresse a abrigar-se sob a proteção de Berta.
A menina, alucinada pelo medonho espetáculo a que assistira, se tinha encostado ao tronco de uma árvore; e a grande custo conseguiu suster o corpinho trêmulo e vacilante.
Foram os gritos de Brás, colhido pela mão do Bugre, que a despertaram. Vendo o perigo iminente do mísero idiota, recobrou um assomo de sua energia e arrebatou a vítima às garras da fera.
Mais prostrada ainda por aquele novo e tão violento esforço, voltou a arrimar-se ao tronco, e ofegante, a desfalecer, abraçou-se com ele para não cair.
Ficara Jão Fera como chumbado ao chão, sem força para fugir, sem coragem para aproximar-se. Afinal, passo a passo, senão de arrasto, avançou:
- Nhazinha! balbuciou com a voz cava e submissa.
Voltou-se a menina em um soberbo assomo de ira:
- Vai embora! Não te quero mais ver! Tu és pior do que fera: és um demônio. Não há sangue que te farte!...
De cabeça baixa, o Bugre, rechaçado por aquele ímpeto de indignação, afastara-se dois passos; mas apenas desviou-se o olhar cintilante da menina, retrocedeu:
- Perdoe, Nhazinha!
- Vai embora! gritou Berta.
Brás, que se agachara aos pés da menina, soltou um grunhir de escárneo. Teve Jão Fera um ímpeto de revolta. Queria suplicar seu perdão.
- Não vou! disse rispidamente.
O talhe de Berta vibrou como uma seta brandida nos ares. Sua mãozinha delicada partiu rápida a haste de um cipó, e com essa vergasta fustigou o rosto de Jão Fera.
Duas lágrimas sulcaram as faces do facínora, e lavaram uma gota de sangue que aí borbulhava.
XXVII
DESPEDIDA
Abriu-se a janela da alcova de Linda.
Assustada e inquieta a menina aproximava-se do parapeito, mas não se anima a debruçar. Com a face unida à ombreira, e o corpinho oculto pelo relevo do portal para que não a vejam dos lados do edifício, alonga o olhar ansioso pelas plantações.
Não tarda a hora do almoço.
É esse o momento em que D. Ermelinda costuma determinar o serviço doméstico. A menina aproveita-o para escapar à vigilância materna, que desde véspera de São João a acompanhava incessante como a própria sombra.
Grande alteração havia sofrido a família depois da festa. O interior da casa, que dantes respirava tão serena alegria, tornou-se triste e sombrio. Em vez da cordialidade que dantes ali reinava, nota-se o afastamento, que isola uns dos outros corações habituados à mútua efusão.
D. Ermelinda ainda recalcava no íntimo o segredo que a torturava. Por vezes tentara exprobrar a Galvão aquela mácula do passado; e no momento fugia-lhe o ânimo de que se revestira anteriormente. Uma explicação naquelas circunstâncias podia romper o vínculo que a prendia ao esposo. Temia, pois, rasgar o véu já tão ralo de uma ilusão em que ela ainda se embebia, para refugiar-se contra o desespero.
A inclinação de Linda por Miguel também a fortalecia no obstinado silêncio que persistia em guardar, apesar das insistências de Luís Galvão. Carecia do conselho do marido e da autoridade do pai, naquele árduo empenho de arrancar a filha a uma paixão funesta.
De seu lado, Luís Galvão não vivia menos contrariado e aborrecido. A causa da tristeza de D. Ermelinda não era para ele um mistério; embora a senhora se recusasse a declara-la, tinha ele perscrutado o segredo da súbita mudança.
Combinando certos pormenores, como os remoques dos camaradas junto à janela, na noite de São João; e lembrando-se que vira D. Ermelinda aproximar-se naquele instante, suspeitou do que havia acontecido; e as alusões que às vezes escapavam à senhora não deixavam a menor dúvida.
Imagine-se quanto não sofreu Luís Galvão, humilhado assim na estima da mulher, ele que sentia-se rebaixado ante a própria consciência, quando recordava aquela vergonha de sua mocidade!
Outrora, se lhe passara pela mente que sua mulher viria a conhecer aquele segredo, havia em sua alma um acerbo confrangimento. Por vezes, quis arredar para longe a Berta, cuja intimidade na casa pelas relações com nhá Tudinha, lhe avivava a cada instante a lembrança de Besita.
Mas Luís Galvão era desses homens que vivem muito à superfície d’alma, onde o contentamento do mundo, os prazeres efêmeros e as impressões do momento formam uma camada que sopita alguma reminiscência mais profunda.
Ao cabo de algum tempo, a presença de Berta já não lhe despertava nenhuma triste recordação; ao contrário, produzia nele uma doce emoção. O aspecto dessa gentil menina, retrato vivo de sua mãe, refloria para ele as rosas da sua mocidade.
Toda a tristeza de seu amor por Besita ficava no fundo d’alma como um sentimento, e só flutuava a suave fragrância daquele afeto da juventude.
Às vezes, contudo, pensando no futuro daquela menina, um remorso o pungia; bradava-lhe a consciência que um meio ainda lhe restava, um único, de expiar seu crime: era resgatar o abandono da mãe pelo amor da filha.
Em véspera de partir para Campinas, impressionado um momento com os pressentimentos de D. Ermelinda a propósito de tocaias, escreveu ele seu testamento reconhecendo Berta. Fora esse o papel esquecido, à cata do qual voltou a pretexto de amostrar, levando-o consigo para faze-lo aprovar por um tabelião.
Essa resolução serenara de todo seu ânimo; e o remordimento que às vezes o confrangia de todo aplacar-se quando sobreveio a ocorrência da noite de São João perturbar, não somente o sossego de seu espírito, como a calma felicidade de sua mulher.
Nestas circunstâncias reconhecia Luís Galvão que só havia um meio de resolver a crise: era confessar o fato à sua mulher, franca e lealmente; mostrar-se a ela qual fora, e reconquistar a sua estima pela sinceridade dessa confissão, que exprimia o seu arrependimento.
Mas também ele hesitava no momento de provocar a declaração; e retraía-se vivamente, receoso de que essa revelação cavasse entre a mulher e ele o abismo da separação eterna.
Assim ansiavam por uma explicação, que os aterrava a ambos; e por isso evitavam-se, temendo que uma palavra escapa os arrastasse ao precipício onde podia se despenhar a paz e a ventura de sua mútua existência.
A estes motivos de mágoa e desgostos acrescia a lúgubre impressão, que tinham deixado o incêndio do canavial e as atrocidades de Jão Fera.
Todos o acusavam, exceto Luís Galvão, que lhe devia a existência; mas calava-se a respeito dos sucessos da noite fatal.
Nestas circunstâncias lembrara-se Luís Galvão de propor à mulher uma viagem à corte; e ela aceitara com fervor a idéia. Deixar as Palmas era um meio de escapar à tirania das pungentes recordações, e de afastar Linda de Miguel.
Ouvindo na véspera à noite o anúncio da viagem, a moça, cujo coração pressentia a oposição da mãe à sua escolha, compreendeu toda a extensão de seu infortúnio.
Ansiosa, pois, esperava Miguel, que havia uma semana, depois de São João, furtivamente vinha todas as manhãs até à cerca da horta para vê-la por entre as árvores.
Nessa manhã, avistando-o de longe, Linda correu ao quintal, e trêmula aproximou-se da cerca, além da qual se ocultava o moço. Ali, defronte, um do outro, os dois amantes não se animavam a quebrar o silêncio, nem mesmo a se olhar.
- Linda!... murmurou o moço afinal.
- O senhor não sabe? interrompeu a voz trêmula da menina. Vamos para o Rio de Janeiro.
- A senhora?... exclamou o rapaz sucumbido.
Linda soltou uma exclamação de susto. D. Ermelinda, vendo a filha passar, a acompanhara e surpreendera os dois amantes.
Não se irritou a senhora, que viu a aflição pintada no rosto da filha.
Ao contrário, abraçando-a com ternura, chamou a Miguel, o qual procurava esconder-se à sua vista. Aproximou-se o moço, pálido e confuso, para ouvir estas palavras pronunciadas com um tom de meiga severidade:
- Diga adeus a Linda, Miguel; mas para sempre! Ela não pode pertencer-lhe!...
O moço abraçou Linda e partiu soluçando. A menina escondeu o pranto no seio da mãe, que a furto enxugava os olhos.
XXVIII
O CONGO
A cidade da Constituição, outrora vila da Piracicaba, assenta nas rampas de uma colina que se enleva à margem do rio.
No centro, e sobre a esplanada, fica a praça da matriz, cercada por bons edifícios, entre os quais a veneração do povo aponta, como relíquia histórica, a vasta casa que foi de Costa Carvalho, o ilustre marquês de Monte-Alegre.
Fronteira à matriz, modesta igreja de uma torre, está a casa da câmara, construída ao uso antigo, com seu campanário no meio e as enxovias ao rés do chão, inteiramente isolada dos outros edifícios.
Era domingo; e havia na vila reboliço de festa.
Pelas ruas, de ordinário soturnas e ermas, passavam ranchos de gente a pé e grupos de cavaleiros que acudiam à função. Às vezes era algum carro de bois, coberto com esteiras e atopetado de moças, crias e mucamas, que atroava os ares com o chio estridente.
Pouco mais de nove horas havia de ser. Uma canoa acabava de abicar à ribeira junto à ponte, e dela saltavam nhá Tudinha, Berta e Miguel, que também vinham atraídos pela festa.
O rancho subiu ladeira que vai ter ao largo da matriz. Miguel, triste e abatido, investigava com um olhar de desânimo as janelas das casas. Berta a furto observava-o com uma expressão de terno ressentimento.
No trato dos dois moços entre si havia agora um certo constrangimento. Miguel acusado severamente pela própria consciência de ter mentido a seu primeiro amor e talvez que ligado ainda por esse elo que de todo não se rompera, fugia de conversar com Berta.
Na melancolia da menina e nos quebros de seus olhos negros, parecia-lhe sentir um ressumbro de meiga exprobração, que infiltrava-se dentro d’alma e somente exalava nalgum momento de cisma ou descuido.
Por isso, Berta evitava também a companhia do moço, receosa de trair a mágoa de seu coração. Bem desejava ela consolar Miguel, a quem D. Ermelinda cortara em flor a esperança de sua vida; mas temia que lhe escapasse nessa efusão o segredo de sua melancolia.
Nhá Tudinha, sempre contente e prazenteira, não desmentia a sua habitual agilidade. Caminhava adiante, garrulando sem cessar e voltando-se a cada instante para chamar a atenção dos dois moços a propósito de suas observações.
Atravessando o largo da matriz, os olhos de Berta, volvendo a esmo, caíram sobre a fisionomia de Jão Fera. Sobressaltou-se a menina, e seu primeiro movimento foi acenar ligeiramente com a mão, chamando o capanga.
Depois do castigo que em um ímpeto de indignação lhe infligira, nunca mais Berta vira o Bugre, que desaparecera de Santa Bárbara. Passados alguns dias e desvanecida a impressão da cena medonha a que assistira, sua alma embebeu-se dos eflúvios da piedade; e ela tinha dó quando lembrava-se da humildade com que Jão Fera sofrera uma punição tão cruel para seus brios.
Vendo ao capanga depois de tantos dias, cedeu, no primeiro assomo, a um impulso de bondade chamou-o. Porém logo apercebeu-se de seu equívoco. O rosto de Jão Fera lhe aparecera, mas por entre os varões de ferro da enxovia, em que a princípio não reparou.
Acabrunhado pelo desprezo da menina, sentindo que se tornara para ela objeto de asco e horror, o facínora veio a Piracicaba e entregou-se à prisão. Desde o dia da morte do Ribeiro, estava ele encarcerado na cadeia da vila.
Compenetrando-se da realidade e reconhecendo a impossibilidade em que estava Jão Fera de acudir a seu chamado, e o perigo que o ameaçava, curvou a menina a fronte com um gesto de mágoa e resignação.
Foi rápido este incidente e ocorreu durante o trajeto da família pela face lateral da cadeia até a próxima rua cuja esquina dobrou.
Nas horas mais quentes do dia amainou o rumor da festa para recrudescer ao cair da tarde, quando todas as janelas se atufaram de moças e a massa do povo se apinhou pelos cantos das ruas.
Ao repique de sinos e estrondo dos rojões, desfilava pelo largo da matriz a luzida cavalgada do Congo, precedida por um terno de rabecas e flautas, que compunham a banda de música.
Adiante vinham o rei e a rainha do Congo, montando soberbos cavalos ricamente ajaezados e trajando custosas roupas de veludos e sedas. Seguiam-se os cavaleiros e damas da corte, que não ficavam somenos aos soberanos do imaginário reino africano.
Fazia de rainha Florência, que nesse dia triunfava sobre a rival, a mucama Rosa. O rei era o pajem de um ricaço da vizinhança; e todos os outros personagens, cativos das fazendas próximas.
O luxo que ostentavam fora pago, parte com as suas economias, e parte com dádivas dos senhores, cuja vaidade se personificava nos próprios escravos. Cada um desses ricos fazendeiros se desvanecia da admiração que sentia o povo pelas roupas vistosas que traziam galhardamente seus pajens, e pelos soberbos cavalos fogosos que eles meneavam com certo donaire.
No meio das figuras, vestidas à antiga e de fantasia, saltavam outras, cobertas ou antes eriçadas da cabeça aos pés com os molhos de um capim duro e híspido. Agitado pelo contínuo movimento, produzia essa croça verde um vivo sussurro, ao qual respondiam os chocalhos de latas e as cabaças, que tangiam os pretos assim mascarados.
Esse resquício dos folgares e danças dos índios caiapós dava à festa africana uns ressaibos americanos, que faziam inteiro contraste com as galas e louçanias emprestadas pela moda européia, ou pelos usos do Oriente.
De ordinário costumam as pretas fazer a sua folgança do Congo nas proximidades do Natal; mas nesse ano não a tinha podido aprontar para aquele tempo.
Quando passava a cavalgada pela casa onde estava a família de Luís Galvão, Rosa mordeu-se de inveja ao avistar Florência, repimpada no melhor cavalo de D. Ermelinda, com a trunfa riçada, um diadema na testa, e o régio manto escarlate roçagante pela anca do lindo ginete.
Nesse instante lamentou ser mucama, condição que a sujeitava a certo recato, e a privava, portanto, de tomar parte no folguedo. Como preta da roça teria outra liberdade; e ninguém lhe disputaria por seguro o título de rainha.
Linda, que via distraidamente passar a cavalgada, de repente estremeceu. Descobrira defronte, na calçada, Miguel ao lado de Berta; e o ciúme lhe mordeu o coração. A amiga, apesar do afastamento a que a obrigava a severidade de D. Ermelinda, lhe fizera um gesto de adeus; mas ela voltou o rosto para não corresponder àquela mostra de amizade.
Compreendeu Berta o que sentia Linda; e insensivelmente arredou-se do moço.
XXIX
CONFISSÃO
Afonso, apenas avistou Berta, afastou-se da janela onde estava com a família, esgueirou-se por entre a multidão.
- Berta!... psiu!... disse ele chegando-se à menina.
- Olha D. Ermelinda!
- Ela não me enxerga, retorquiu o rapaz escondendo-se atrás de uma pinha de gente.
- Não tem medo?... E se ela ralhar com você? acudiu Berta atirando-lhe um remoque.
- Então sou alguma criança! disse o rapaz ferido nos brios, e realçando a estatura para afirmar sua hombridade.
- Mas não é capaz de fazer uma coisa contra a vontade de sua mãe! redargüiu Berta com o mesmo chasco, para excitar o amor próprio do camarada.
- Pois eu lhe mostro! respondeu Afonso com ar decidido, e adiantou-se para afrontar as vistas de D. Ermelinda.
Sorriu Inhá, que voltando-se para o moço, ocupou-se em travessear com ele, como outrora costumava.
Não tinha outro modo senão este de apagar no espírito de Linda o ciúme que a traspassara.
- Como está Linda? perguntou a menina depois de algum tempo consumindo em gracejos. Ainda se lembra de Miguel?
- Não sei!... respondeu Afonso constrangido.
- Teve ordem!... acudiu Inhá assistindo no remoque anterior.
- Não vê como anda triste!
- Então ela sempre quer bem a Miguel?
- Sempre!
- Preciso falar com ela! Como há de ser?
Nesse instante um caiapó de alto porte e compleição robusta, separado do bando que já ia longe de envolta com a cavalgata, atravessando a rua, parou defronte dos dois moços e afincou-se a observa-los.
De repente saltou em frente de Afonso e ouviram-se estas palavras, que rompiam da croça espessa, como da brenha escapa o rugido da fera:
- Teu pai matou a mãe dela; tu queres matar a filha; é duas vezes!
Desde alguns momentos o olhar de Luís Galvão descobrira da janela fronteira o filho a falar com Berta, e não se arredara mais do grupo. Aquele quadro brilhante da juventude, borrifado com os sorrisos de alegria e perfumado com as fagueiras primícias do coração, despertavam nele reminiscências tão suaves, dormidas no fundo da lama!
Lembrava-se das festas de outrora, quando era moço como o filho, e ali, na mesma vila de Piracicaba, tantas vezes escapulia da família para seguir o rancho de moças onde ia Besita, e à surrelfa apertar-lhe a mão, ou trocar uma palavra balbuciada a medo.
Para mais avivar as cores a essa tela da mocidade, que os anos tinham desbotado, ressurgiam aí diante de seus olhos as próprias figuras do gracioso painel; ele retratado na pessoa de Afonso; ela, revivendo na gentileza de Berta.
A D. Ermelinda não escapara essa distração; acompanhando a direção do olhar e reparando na expressão de ternura e enlevo que se derramava na fisionomia do marido, sobressaltou-a nova e mais cruel suspeita. À infidelidade do passado acrescentaria Luís Galvão a perfídia no presente?
Não teve tempo a desolada senhora de sondar esse novo abismo de dor que se rasgava em sua alma, já tão atribulada.
Mal lançara a Afonso o dito misterioso que lhe prorrompeu dos lábios, o caiapó travando com irresistível impulso do braço do moço, arrancou-o do lugar onde estava e trouxe-o até junto da janela de D. Ermelinda.
Aí, afrontando-se com Luís Galvão, apontou para o filho, e proferiu estas palavras, obscuras como as outras:
- Teu sangue mau quer matar teu sangue bom! Toma cautela!...
Com pasmosa rapidez passara essa cena estranha. Ainda não se desvanecera o espanto por ela causado nos assistentes, que já o caiapó havia desaparecido entre a multidão, sem que fosse possível indicar por onde se fora.
Ao mesmo tempo soava grande rumor na praça da matriz; e magotes de povo a correr pelas ruas deixavam entre o vozeio soturno da turba estas vozes repassadas de pânico terror, que retalhavam o borborinho como correntes vivas a sulcarem um brejo:
- Arrombada a cadeia!...
- Assalto na vila!
No meio do susto produzido por este boato, o povo se dispersou, pondo termo à festa.
Entretanto, o subdelegado em companhia de alguns cidadãos mais animosos dirigia-se à cadeia para verificar o fato, divulgado pela voz pública.
Havia exageração na notícia: dera-se apenas a fuga de um preso, que arrancara por um esforço desesperado um varão da enxovia; e aproveitando-se da distração da sentinela no momento de passar a cavalgata, saltara na rua, arrebatara a um caiapó a croça de capim, e perdera-se na turbamulta.
Meia hora depois, Luís Galvão com a família voltava a Santa Bárbara.
D. Ermelinda que insistira em ver a festa, na vaga esperança de quebrar o enleio no qual viviam ela e o marido desde a noite de São João, se obstinara em voltar para as Palmas naquela mesma tarde.
A cena da janela e o dito misterioso do caiapó tinham produzido nela tão profundo abalo, que já não podia conter as sublevações da sua dignidade de esposa, indignamente ultrajada por quem mais a devia zelar.
Era urgente e indeclinável a explicação, que retardara por melindre de sua alma e pela natural esquivança que sente-se em dissipar por todo o sempre a doce ilusão da felicidade.
Apressando o cavalo, D. Ermelinda transpunha a distância que ainda a separava da casa. Afonso galopava ao lado de sua mãe, enquanto Luís Galvão e Linda vinham após largo intervalo, ao passo moderado dos animais.
Terminava o crepúsculo; mas a lua assomando no horizonte coava o seu lívido clarão através da morte-côr, que o dia expirante ia deixando pelos ermos.
Emudecera o hino da tarde, repassado de ternas melodias, e a natureza, a máxima e sublime orquestra, preludiava a elegia da noite. O primeiro grilo soltava o estrídulo; e o seio da floresta agitada pela viração da noite, arfava ao ofego de um gemido plangente.
À beira da estrada via-se um vulto negro, que de longe afigurava-se urna de algum bugre, esquecida à flor da terra. Ao tropel dos animais o vulto ergueu a cabeça. Era Zana. Soltando um grito de espanto, arrojou-se à frente do cavalo de Afonso, e estendeu as mãos súplices:
- Pelo amor de Deus, nhô Luís!... Não faça mal a Nhazinha!... Da outra vez ela chorou tanto! E depois veio o marido e matou Nhazinha!... Por vida de seu pai, nhô Luís!... Eu lhe peço de joelhos!
A mísera negra, na sua alucinação, remontava o curso da existência, e revivia o tempo já passado, quando Luís fora mancebo que representava agora seu filho Afonso.
Ao aproximar-se da cena, ainda ouviu o fazendeiro as últimas palavras de Zana, e estremeceu; mas revoltando-se afinal contra essa fatal obsessão que depois de quinze dias o arrastava de humilhação em humilhação, decidiu romper de uma vez o segredo que o acabrunhava.
Ao olhar cheio de ânsia da mulher, respondeu indicando os filhos com um olhar expressivo.
- Vão seguindo! disse para Afonso e Linda.
Fez um gesto à mulher, e tomou para a tapera que ficava a algumas braças da estrada. D. Ermelinda o seguiu transida de emoção até a frente da casa em ruínas.
- Foi aqui!... balbuciou a voz trêmula de Luís.
XXX
A ENJEITADA
Dois dias decorreram depois da festa do Congo.
Jão Fera derreado a um tronco de árvore, no mato que cerca a tapera, espreita a chegada de Berta. A menina o tinha chamado, quando o avistara na enxovia; e ele que se fora entregar para fugir ao seu desprezo acudiu prontamente. Desde a véspera a esperava naquele sítio.
Não deixava, porém, o capanga de nutrir receios a respeito do modo por que Berta o acolheria. Talvez aquele gesto lhe escapasse sem ela o sentir; e agora tornando a vê-lo crescesse o horror que lhe inspirava depois das mortes por ele perpetradas. Nesse caso voltaria para a prisão.
Acabava de fazer ainda uma vez esta reflexão quando ouviu crepitarem as folhas sob o passo ligeiro de Berta, que atravessou o terreiro com alvoroto, e correu para Zana acocorada junto à parede.
A louca recebeu a menina com viva efusão de contentamento, que se manifestava em gritos inarticulados e gaifonas de toda a sorte. Sôfrega, não esperou Berta que passasse aquela expansão; travando das mãos da preta e cravando nela os olhos como se pudesse perscrutar-lhe a consciência, exclamou com ansiedade:
- Minha mãe, Zana!... Você não se lembra dela?... De minha mãe!...
Tartamudeou a louca sons incompreensíveis, e sua fisionomia embotou-se, tomando a expressão pasma e fixa, que lhe imprimia uma imobilidade quase marmórea.
Acaso já conhecia Berta o segredo de seu nascimento? Ou aquilo era apenas uma suspeita, inspirada pelas palavras misteriosas do caiapó?
Eis o que havia ocorrido:
Aí em frente da tapera, ao morno clarão da lua, começara Luís Galvão na noite da festa a fazer a sua mulher a confissão plena da aventura de que fora teatro aquele sítio, e ele o triste herói.
Não ocultou a mínima circunstância; referiu tudo: a sua repugnância de casar com Besita por ela ser pobre; a intenção pérfida com que a requestara; a cilada de que serviu-se para surpreender a fidelidade de esposa; e ultimamente o abandono e esquecimento em que a deixou.
Que esforço não foi preciso para sobrepujar o vexame dessa revelação? Queimava-lhe as faces o rubor; a voz estrangulava-se; mas consumou esse grande ato de contrição que devia remir sua alma.
Quando chegaram à casa, D. Ermelinda sabia tudo. As lágrimas e soluços que tragou em silêncio; as ânsias e desesperos que recalcou no peito, ninguém os viu. Mas a manga de seu roupão que ela mordia para não deixar escapar o grito, ficou despedaçada.
Apeando-se, correu a seu quarto e trancou-se. Luís Galvão compreendeu que ela devia sofrer, e respeitou aquela dor santa, não a importunando com banais consolações. Acendeu um cigarro; e velou o resto da noite fumando.
Na manhã seguinte cada um dos dois consortes, pálido, como espectro que abandona o túmulo, viu refletir-se no outro a desolação que em si produzira aquela noite fatal.
D. Ermelinda chegou-se com um triste, porém meigo sorriso, e apertando a mão do marido, murmurou-lhe ao ouvido:
- Meu amigo, é preciso reconhecer a sua... a nossa filha!...
Arrasaram-se de lágrimas os olhos de Luís, que apertou estremecidamente a mulher ao coração, erguendo os olhos ao céu.
- Que santa me deste tu, meu Deus, a mim que não mereço!
Logo depois do almoço, D. Ermelinda foi à casa de nhá Tudinha e pediu-lhe que preparasse Berta para a revelação que o pai ia fazer-lhe de seu nascimento. Com o tato de mulher e mãe quis a boa senhora poupar à enjeitada a dor que havia de curtir se viesse a conhecer a desgraça de Besita.
Imaginou pois um meio delicado de revelar a lúgubre história. Besita casara com Luís às ocultas, por causa da oposição do velho Galvão. Morrendo a moça, e casando Luís pela segunda vez, acanhou-se de confessar a D. Ermelinda que era viúvo e tinha uma filha. Por esse motivo fora Berta criada como uma estranha em casa alheia.
Eis o que ideara D. Ermelinda, e o que nhá Tudinha, contente pela ventura da menina, mas desconsolada de perder aquela filha, repetiu nessa mesma tarde. As perguntas e instâncias que sucederam à surpresa de Berta, apenas arrancaram da viúva a declaração de que Besita morava outrora na tapera com Zana, sua escrava.
Uma voz íntima dizia a Berta que muita coisa lhe ocultavam da história de sua mãe; e era este segredo que ela buscava escrutar no cérebro enfermo da negra, onde sabia, que estava sepultado.
Desde muito tempo tinha ela o pressentimento, de que o terrível drama representado pela estranha mímica da louca, se prendia à existência dela, Berta, por um fio misterioso. Agora tinha a certeza.
Cheia de ânsia, em face da negra esfinge que emudecia, lançou a menina em trono um olhar de desespero, e avistou Jão Fera a alguns passos.
Teve um assomo de alegria e correu para o capanga; mas recuou horrorizada, e balbuciou apontando para as mãos suplicantes que lhe estendia o Bugre:
- Não me toques. Tuas mãos têm sangue!...
Caiu de joelhos o facínora, e assim, arrastando-se até os pés de Berta, murmurava:
- Por piedade, Nhazinha!... Nunca mais!...
Ergueu a menina a fronte resplandecente, como se a cingisse a auréola da caridade.
- Tu juras?... Tu juras nunca mais fazer mal a ninguém?
- Juro.
Tirou Berta do seio a cruz presa com o bentinho ao cordão de ouro; e o Bugre a beijou repetindo o juramento. Depois sacou as armas da cinta, e arremessou-as longe de si.
Nesse instante Zana que descobrira Jão atirou-se para beijar-lhe as mãos com fervor; e apanhando a faca, procurou prende-la entre os dedos do Bugre.
- Não careço mais, Zana!... Ela está vingada. Posso morrer!
Esta cena despertou no espírito de Berta uma recordação. Acudiram-lhe as palavras do caiapó na festa da vila:
- Jão, tu conheceste minha mãe!
- Quem lhe disse, Nhazinha?
- Conta-me como ela morreu!
- Não...
- Conta! Eu quero!
Referiu o Bugre com a voz trêmula e o seio opresso a história de Besita desde que a conhecera até o momento em que a tinha perdido para sempre. Não disse ele se tinha amado a moça; mas na palavra balbuciante Berta lhe sentia palpitar o coração aos ímpetos da paixão imensa.
Quando terminou essa dolorosa narração, Berta que a ouvira com um respeitoso silêncio, apenas cortado pelo contínuo soluço que fazia arfar-lhe o seio, alçou ao céu os olhos cheios de lágrimas.
- E ele é meu pai!...
Depois erguendo-se de um ímpeto, e apertando as mãos grosseiras do Bugre:
- Não! Não!... exclamou ela. Meu pai és tu, que me recebeste dos braços de minha pobre mãe, com seu último suspiro. És tu, que a adoravas, como a uma santa; e quando ela deixou este mundo, não tiveste no coração outro sentimento mais, senão ódio a todos, menos a mim, que te lembrava ela. Oh! Eu compreendo agora, Jão, o que te fez mau!... Mas fiquei eu neste mundo, em lugar dela, para fazer-te bom!...
Falando assim, com sublime exaltação Berta abraçou o Bugre, que sentiu-se tomado de uma vertigem, e tropeçando agarrou-se à parede para não cair.
XXXI
ALAM SÓROR
Descamba o sol.
Berta sentada à sombra do oitão da casa de nhá Tudinha, deitou sobre os joelhos a camisa que estava cosendo para Jão, e embebeu no azul diáfano do horizonte um olhar profundo, coalhado de lágrimas.
A seus pés, Zana agachada na esteira, contempla extática o rosto da menina; e de vez em quando o prazer íntimo que ela sente, derrama-se em sua fisionomia, e banha-lhe o rosto de um riso baço.
Ao lado, o Brás contempla Til com surda inquietação, que se trai a espaço pela contração dos músculos faciais e pela extrema mobilidade da pupila espantada.
Algumas braças distante, Jão curvado sobre a enxada, carpa a terra preparando as leiras para a plantação do feijoal. De vez em quando pára um instante, enxuga com a manga da camisa o suor abundante que lhe escorria da testa, e sopra os calos de que o trabalho já lhe encruou as mãos. Nessa ocasião crava com desassossego um olhar em Berta.
Miguel assomou à porta da casa, e desprendendo-se do estreito abraço em que o cingia a mãe lacrimosa, dirige-se para o lugar onde estava a menina.
Importantes acontecimentos tinham passado na última semana decorrida depois da confissão que Luís Galvão fizera à sua mulher.
Berta recusou obstinadamente reconhecer Luís Galvão como seu pai. A todos os rogos e instâncias respondia com um meigo sorriso:
- Não acredito, estão me enganando; meu pai é Jão. Foi ele quem teve dó de minha mãe, e quem me criou!... Não tenho outro senão ele!
Assim em compensação de tantas míseras crianças abandonadas por aqueles que lhes deram o ser, houve então um pai enjeitado.
Muitas vezes Luís Galvão insistia em reconhecer a filha e leva-la para a sua casa, onde acharia em D. Ermelinda uma terna e boa mãe:
- Mãe, dizia Berta, não quero outra senão aquela que me está esperando no céu. Mas há uma coisa que me faria muito feliz. Esse lugar que não pode ser meu, eu dou a Miguel. Ele quer tanto bem à Linda!...
Não teve Luís Galvão coragem para resistir ao pedido de Berta. Parecia-lhe que assim cumpria um voto de Besita. D. Ermelinda condescendeu prontamente com o desejo do marido, ansiosa por vê-lo restituído à sua tranqüilidade e arrependida da confissão que provocara.
Combinou-se que Miguel iria estudar a São Paulo; e dois anos depois se efetuaria o casamento naquela cidade para onde a família devia partir logo.
E quem sabe se voltaria mais às Palmas?
Chegara a véspera da partida. Miguel fora despedir-se da mãe para seguir lá pela madrugada com a família caminho da capital. Luís Galvão lhe pedira ainda uma vez empregasse todos os esforços para resolver Berta a acompanha-los.
O moço ao chegar anunciara sua intenção de levar Berta, e daí o desassossego que transparecia no semblante do Bugre, e no olhar do idiota, confiado à guarda de nhá Tudinha durante ausência do tio.
Dirigiu-se Miguel a Berta e apertou-lhe ambas as mãos.
- Então, Inhá?...
E seu olhar exprimia uma súplice interrogação. A menina moveu lentamente a gentil cabeça.
- Fica?
- É preciso, Miguel. Quem há de consolar sua mãe?
- Coitada! murmurou o moço.
E afastou-se da casa para não ouvir os soluços de nhá Tudinha. Berta o seguiu.
Por algum tempo caminharam os dois em silêncio, par a par escutando as emoções que falavam dentro d’alma opressa. Uma lágrima tremia-lhe nas pálpebras prestes a estalar.
- Se você tivesse querido, Inhá, disse timidamente Miguel, poderíamos ser tão felizes!...
- E você não é, Miguel? perguntou Berta fitando nele um olhar melancólico.
- Sou! respondeu o moço com um suspiro.
Houve um novo e longo silêncio. Foi Miguel quem outra vez rompeu:
- Meu sonho era viver aqui nesta casa onde nasci, com minha mãe e você, Inhá. Por muito tempo sorriu-me esta doce esperança; mas você não quis!
- Não diga isto, Miguel! exclamou Berta com a voz afogada em lágrimas.
- Quem me separa destes lugares e talvez para sempre?
Curvou Berta a cabeça e balbuciou:
- Lembre-se de Linda!
- Lembro-me daquela que foi companheira de minha infância, com quem folguei os primeiros anos da vida, e cuidei que havia de repartir minha pobreza e humildade. Quantas vezes supliquei a Deus que nos conservasse unidos sempre, e esquecidos aqui neste canto do mundo. Mas ela tomou para si unicamente a existência tranqüila e feliz que eu pedia para ambas, e aparta-me de si para longe!
- Miguel!...
Olhares ansiosos seguiam Berta, que afastava-se lentamente de Miguel na direção das Palmas.
Jão, vergado sobre o cabo da enxada e agitado por veemente comoção, parecia despedir-se de si, para se precipitar aos pés da menina. Brás, cavado o semblante por violentas contorções, arrancava os cabelos da grenha ruiva, e mordia o beiço para não gritar. Zana estendia os braços hirtos, e no afã de alcançar Berta e aperta-la ao seio, rojava-se pela grama.
Miguel falava com fervor, e a fronte gentil da menina pendia com lânguida e meiga inflexão, como nenúfar que se debruça à beira do regato e não tarda a ser levada pela corrente que o enamora.
Afinal o moço enlaçou com o braço a cintura da menina, e a atraiu sem que ela lhe opusesse a mínima resistência. Pousando a cabeça trêmula no ombro de seu companheiro de infância, deixou-se Berta levar, embalada por um sonho fagueiro.
Cortou os ares um grito de angústia. Brás caíra ao chão como fulminado, e estrebuchava em uma violenta convulsão, soltando uivos estridentes.
Berta desprendeu-se dos braços do moço:
- Não, Miguel. Lá todos são felizes! Meu lugar é aqui, onde todos sofrem.
E rompendo o doce enlevo que a prendia um momento antes, soluçou:
- Adeus!...
Correu então para o mísero idiota e sentando-se na grama para deita-lo ao colo, ocupou-se em afaga-lo.
Quando moderou o acesso e que ele pode ouvi-la, falou-lhe com profunda comoção:
- Eu sou Til!... Til só!...
Compreendeu Brás a significação destas palavras, e adivinhou quanta sublime abnegação exprimiam elas?
Nesse instante Miguel voltou-se além, na extrema do caminho onde ia sumir-se, e a brisa trouxe um eco de sua voz:
- Adeus, Inhá!...
Os lábios de Berta murmuraram frouxamente:
- Para sempre!
Jão de pé em face dela esmagava com os punhos as bagas que lhe saltavam dos olhos; enquanto o peito lhe estertorava com o pranto que tentava sufocar.
Berta pousou nele o seu brando olhar e disse-lhe com um sorriso:
- Vai trabalhar, Jão!...
Entrou em casa para consolar nhá Tudinha; e instantes depois se restabeleceu a cena plácida e melancólica do começo da tarde.
Quando o sol escondeu-se além, na cúpula da floresta, Berta ergueu-se ao doce lume do crepúsculo, e com os olhos engolfados na primeira estrela, rezou a ave-maria, que repetiam, ajoelhados a seus pés, o idiota, a louca e o facínora remido.
Como as flores que nascem nos despenhadeiros e algares, onde não penetram os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos da miséria, que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraça. Era a flor da caridade, alma sóror.

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