quarta-feira, 23 de maio de 2012

Til - Parte Um


TIL – JOSÉ DE ALENCAR
I
CAPANGA
Eram dois, ele e ela, ambos na flor da beleza e da mocidade.
O viço da saúde rebentava-lhes no encarnado das faces, mais aveludadas que a açucena escarlate recém aberta ali com os orvalhos da noite. No fresco sorriso dos lábios, como nos olhos límpidos e brilhantes, brotava-lhes a seiva d’alma.
Ela, pequena, esbelta, ligeira, buliçosa, saltitava sobre a relva, gárrula e cintilante do prazer de pular e correr; saciando-se na delícia inefável de se difundir pela criação e sentir-se flor no regaço daquela natureza luxuriante.
Ele, alto, ágil, de talhe robusto e bem conformado, calcando o chão sob o grosseiro soco da bota com a bizarria de um príncipe que pisa as ricas alfombras, seguia de perto a gentil companheira, que folgava pelo campo, a volutear e fazendo-lhe mil negaças, como a borboleta que zomba dos esforços inúteis da criança para a colher.
Caminhavam por uma rechã, bordada de ilhas de mato, que emergiam aqui e ali do verde gramado. Pela ramagem frondente das árvores e renovos que abrolhavam, percebia-se a proximidade de uma grande manancial, e entre as crepitações da brisa nas folhas, como um tom opaco desse arpejo da solidão, ouvia-se o múrmure soturno do Piracicaba, que leva ao Tietê o tributo caudal de suas águas.
Sete horas da manhã haviam de ser. A luz de um sol esplêndido fluía no éter, que a trovoada da véspera tinha acendrado. O céu arreava-se do azul diáfano onde a fantasia se embebe com a voluptuosidade casta da criança a aconchegar-se dentro, tão dentro do grêmio materno.
Bem longe do céu, porém, e bem presos à terra andavam os olhos dos nossos dois amiguinhos, que nem haviam reparado sequer na limpidez da atmosfera. Ainda estavam na sazão feliz, em que respira o céu, como o ar da vida, e o aroma do campo, quase sem sentir.
As flores, que a noite desabrochara; aos frutos silvestres que enfeitavam a copa das árvores; aos passarinhos que trinavam embalando-se nas franças dos coqueiros; ao que era da terra e bem da terra, iam os impulsos desses jovens corações, quando não se volviam um para o outro, a reverem-se entre si.
O céu, essa imensa tela azul, que foi cúpula de um berço, o da luz, e será mais tarde véu de um leito, o da vida; a alma só o procura, só o contempla, quando a dor a prostra. Mas para aquela que sorri e folga, o firmamento é uma terra por descobrir e debuxa-se vagamente na imaginação, como a montanha azul desse vale de lágrimas.
Alguma vez deixava o rapaz de seguir com o passo a menina, para acompanhá-la com a vista. De braços cruzados sobre a coronha da clavina de caça, fitava os grandes olhos pardos com tal possança d’alma, que mais parecia absorver e entranhar em si o gracioso vulto, do que enlevar-se em sua contemplação.
Acaso, em uma dessas ocasiões, voltou-se de chofre a menina para ver onde ficara o companheiro e deu com ele a fitá-la daquele modo estranho.
- Que me está olhando aí? Nunca em viu? exclamou com surpresa, mas travada sempre da petulância que animava-lhe todos os movimentos.
- Não era para você! respondeu rápido o moço, baixando a cabeça de modo a ocultar o rubor que lhe afogueava o rosto.
Para confirmar o disfarce, armou a clavina e fez pontaria a um cardeal que se embalava no topo de uma palmeira.
- Miguel!...
Esta súbita exclamação rompeu dos lábios da menina, trêmula de susto, a cobrir com as mãos pequeninas as conchinhas das orelhas para não ouvir o ribombo do tiro.
Riu-se o rapaz e abaixou a arma:
- Dengosa!
- Deixe! Replicou ela com um amuo.
E deitou de novo a correr, já esquecida do susto, espanejando-se com a mesma alegria, que não se estancava nunca, e alguma vez represa, borbulhava depois com força maior.
De repente parou; imóvel, quase estática, uma lividez mortal jaspeou-lhe as feições, enquanto os olhos se pasmavam em um ponto além.
À orla do mato assomara o vulto de um homem de grande estatura e vigorosa compleição, vestido com uma camisola de baeta preta, que lhe caía sobre as calças de algodão riscado. Apertava-lhe a cintura rija e larga faixa do couro mosqueado do cascavel, onde via-se atravessada a longa faca de ponta com bainha de sola e cabo de osso grosseiramente lavrado.
Em uma das bandoleiras trazia o polvarinho e munição; na outra suspendia um bacamarte, cuja boca negra e sinistra aparecia-lhe na altura do joelho esquerdo, como a face de um dragão que lhe servisse de rafeiro.
As mangas da camisa, tinha-as enroladas até o cotovelo, bem como a parte inferior das calças que arregaçava cerca de um palmo. Usava de alpargatas de couro cru e chapéu mineiro afunilado, cuja aba larga e abatida ocultava-lhe grande parte da fisionomia.
Vinha ele em direção oblíqua ao caminho dos dois jovens, e mal avistou a menina, logo desviou-se do rumo que levava no intuito de evitá-la; mas achando-se por isso fronteiro com Miguel, escapou-lhe o gesto de contrariedade e tomou o partido de parar à espera que os outros se fossem, deixando-lhe passagem livre.
De seu lado estremecera o rapaz ao dar com os olhos no homem da camisola, e tal foi a comoção produzida pelo encontro, que derramou-lhe no semblante a expressão de um asco misto de horror, arrancando-lhe involuntariamente dos lábios esta exclamação:
- Jão Fera!...
Não se abalou o mal encarado sujeito; e Miguel, corrido do primeiro assomo de terror, que lhe embotava os brios de valente e galhardo, reagia com uma travessura de rapaz.
Levou ao rosto a espingarda fingindo armá-la, e apontou para o outro.
- Atire! disse aquele com a voz arrastada e indolente.
E promovendo um passo, apresentou com desgarro o peito à mira da espingarda de Miguel, que já arrependido do gracejo, abaixava a arma.
- Pois olhe! tornou o homem da camisola com a mesma voz de arrasto: fazia um bem a mim... e a outros!
- Por que, Jão?
Fora da menina esta pergunta. Colocada além de Miguel não vira a menção do tiro, feita de brinquedo por este, e só voltou-se e compreendeu o que passara, ao ouvir as últimas palavras.
- Esta vida me cansa! respondeu Jão com arquejo.
- Estás com saudade da forca? retorquiu Miguel com chasco de desprezo.
Ouviu-se um fungar, como o das narinas da onça quando bufa, e arrepia ao mais bravo caçador, que sente lhe estar ela tomando faro ao sangue tépido. De um pulo achou-se o facínora a rosto com o rapaz, que armara intrepidamente a espingarda, preparado a morrer com denodo.
II
NA TRONQUEIRA
Atalhou a menina o ímpeto a Jão, arrojando-se em frente, e cobrindo com o talhe delgado o corpo de Miguel. Seu olhar cintilante trespassou o olhar fero do capanga como a lâmina de um estilete cravando uma couraça.
- Vai embora! disse ela com império; e a voz parecia ranger-lhe nos lábios pálidos.
Foi a pupila inflamada e sanguinária do assassino a que abateu-se.
Recolhendo o passo, quedou-se um instante perplexo, absorto por uma luta que se renhia dentro, procela a subverter o pélago insondável dessa consciência.
Rompeu-lhe do seio uma sublevação contra o poder misterioso e incompreensível, que lhe agrilhoava com um fio de cabelo as pujanças terríveis do coração, até aí indomável e sedento como a sanha do tigre.
Levantou os olhos carregados de cólera.
- Já! impôs-lhe a menina, que pressentira a reação, e como da primeira vez, a retalhava com o gume do seu olhar.
Ainda hesitou o facínora; mas afinal, vencido por ignoto poder, curvou a cabeça, e de um arranco visível afastou-se vagarosamente com um passo tão pesado que lhe custava a arrancar do chão a palma do pé. Duas ou três vezes, antes de encobrir-se na alta capoeira, voltou a cabeça; mas encontrava os olhos cintilantes da menina; e, apesar do grande esforço, vergava ante a inflexível repulsa.
- Foi-se! disse Miguel.
O rapaz assistira imóvel à rápida cena, partido entre o pensamento da defesa e a admiração pela coragem da linda companheira, que afrontava-se com o terrível facínora.
Vendo este sumir-se no mato, escapara-lhe dos lábios aquela exclamação de surpresa, e acompanhou-a logo de um gesto que não era de vã ameaça, mas de firme resolução.
- Algum dia nos havemos de encontrar!
- Que lhe fez ele? perguntou a menina a rir.
Em seu lindo semblante já não restavam traços da comoção que nela produzira a cena anterior. Como a onda cristalina, que turva um instante a asa negra da borrasca e logo após reflete a bonança do céu, era seu olhar sereno e meigo.
Ninguém diria que nesse corpo mimoso dormia a alma que se revelara poucos momentos antes e parecia espedaçar o frágil e delicado invólucro; ninfa celeste a romper a argila de sua formosa crisálida.
- Que me fez, Inhá? repetiu Miguel surpreso da pergunta.
- Foi você quem buliu com ele, que ia seu caminho descansado.
- Para a tocaia!
- De quem? interrogou a menina assustada.
- Sei lá! Quando o bugre sai da furna, é mau sinal: vem ao faro do sangue como a onça. Não foi debalde que lhe deram o nome que tem. E faz gabo disso!
- Então você cuida que ele anda atrás de alguém?
- Sou capaz de apostar. É uma coisa que toda a gente sabe. Onde se encontra Jão Fera, ou houve morte ou não tarda.
Estremeceu Inhá com um ligeiro arrepio, e volvendo em torno a vista inquieta, aproximou-se do companheiro para falar-lhe em voz submissa.
- Mas eu tenho-o encontrado tantas vezes, aqui perto, quando vou à casa de Zana, e não apareceu nenhuma desgraça.
- É que anda farejando, ou senão deram-lhe no rasto e estão-lhe na cola.
- Coitado! Se o prendem!
- Ora qual. Dançará um bocadinho na corda!
- Você não tem pena?
- De um malvado, Inhá!
- Pois eu tenho!
- Mas por que é que este demônio que não faz caso de ninguém, e até mata as crianças, sofre tudo de Inhá, como ainda há pouco? Por que é?
- Não sei, Miguel! disse a menina com ingenuidade.
- Estou vendo que você tem algum patuá, como dizem as pretas da fazenda.
- E tenho mesmo! Olhe! aqui está! exclamou a menina a rir-se, mostrando um bentinho que tirou do seio, onde o trazia com uma cruz, preso a um cordão de ouro.
- Então é encanto; não há dúvida, replicou Miguel sorrindo.
- E eu digo que não.
- Ora, todos sabem!
- Ninguém sabe, nem eu mesma, só Deus; mas eu cuido uma coisa.
- O que?
- É porque não tenho medo dele.
- Qual!...
- Nenhum; nenhum!
- Mas você ficou mais branca do que uma cera, que eu bem vi.
- De raiva só! respondeu a menina com expressão.
Tinham os dois companheiros chegado ao lugar, onde a vereda que seguiam atravessava um carreador. Perto dali ficava a tronqueira de bater, a qual dava entrada às terras de uma fazenda, cercadas pelo fosso largo e profundo, que serve para resguardar a cultura contra o gado daninho.
Inhá, que de uma corrida alcançara a tronqueira, subiu de salto pelas travessas, como faria se fossem os degraus de uma escada, e sentou-se na última bem concha de si. Levantando então a aldraba de ferro e empurrando com o pé a cancela, começou a balançar-se com um prazer infantil.
Parado em meio do caminho ficara Miguel contemplando-a com uma expressão de contrariedade. Parecia afligir-se de ver sua graciosa companheira fazer-se criança, e trocar pelas afoitezas de um traquinas as cintilantes vivacidades da mocinha faceira.
Sentia ele dentro em si uma ânsia incompreensível, qual tem-na o artista olhando o toro de mármore de que seu cinzel vai criar uma estátua. Mas essa, que lhe vive e palpita n’alma, ainda o mármore não a recebeu, e quem sabe se poderá ele nunca moldá-la como a desenhou a imaginação.
Tal era Miguel ante aquele esboço da mulher que sonhava e, já alguma vez, entrevira em realidade, mas como uma luz efêmera, quase instantânea, bruxuleando entre as cismas de seus passeios solitários pelos campos. Os mesmo ímpetos do artista, cortados pelo desânimo, tinha-os ele nos momentos em que via, como agora, transformar-se de repente a fada gentil de seus sonhos em uma capetinha de mil pecados.
Sua alma refrangia-se, ferida pela decepção; e por isso, desviando a vista da menina, atravessou o carreador e trilhou a vereda que embrenhava-se pela mata fechada, a pequena distância daí.
- Psiu!... Onde vai? perguntou Inhá surpresa.
Miguel parou.
- Já se esqueceu do caminho? continuou ela a rir. É por aqui!
- O meu não! respondeu o rapaz.
E partiu.
Nesse momento soou a distância um agudo assobio, e Inhá viu resvalar entre a folhagem, à orla da mata, um vulto que lhe pareceu Jão Fera.
III
ELA
A embalançar-se na tronqueira, Inhá seguia com os olhos o rapaz que afastava-se.
Miguel tinha razão. Tão ardilosa era a expressão do rostinho da menina e tão brejeiro seu olhar, que a transfiguravam completamente. Quem assim a visse, julgaria ter diante de si, a chasqueá-lo, o trejeito garoto de um caipirinha.
Para essa ilusão muito concorriam o tipo e o traje da moça.
Era ela de pequena estatura e tão delgada e flexível no talhe, que dobrava-se como o junco da várzea. As formas da graciosa pubescência, que um corpinho justo debuxaria em doce e palpitante relevo, as dissimulava o frouxo corte de uma jaqueta de flanela escarlate com mangas compridas, e desabotoada sobre um camisote liso, cujos largos colarinhos se rebatiam sobre os ombros, à feição dos que usavam então os meninos de escola.
Servia-lhe de toucado um chapéu de palha de coco trançada, sob o qual escondia os lindos cabelos negros cacheados, que às vezes, com os saltos, escapavam da prisão e vinham folgar sobre as espáduas. Calçava grossos coturnos de couro de veado, mas tão altos que mais pareciam botas; e comparando com as de Miguel, se diriam irmãs na forma, a não ser o tamanho, onde aliás afogava-se o pezinho buliçoso.
Ainda assim não estava Inhá contente, pois metiam-lhe inveja o pala e as calças de brim do companheiro; mas sobretudo a clavina de caça que ele trazia ao ombro.
Para tê-la, e carregá-la assim, daria ela naquele momento sem hesitar as soberbas tranças de seus longos cabelos, que lhe estavam metendo figas e zombando das duas pretensões a rapaz.
Se a estreita saia de chita dava a esse vestuário um traço feminino, acusando um contorno harmonioso, por isso mesmo ela em seus momentos de luta com a natureza parecia caprichar em destruir aquele vestígio de seu sexo. Os pulos que soltava, a firmeza de seu passo gentil que ela de propósito fazia rijo, imprimiam com efeito certa aspereza e nervura a seus movimentos sempre encantadores, apesar de tudo.
Os grandes olhos, negros, claros e serenos, como um lago cristalino imerso na sombra, não podiam negar que fossem de mulher: tinham a diáfana profundidade do céu, cheia de enlevos e mistérios.
A boca mimosa e breve, conhecia-se que fora vazada no molde do beijo e do sorriso. Mas quando o brinco iluminava essa fisionomia, e o capricho quebrava-lhe a harmonia das linhas do suave perfil, era cobrir-se com a máscara do rapazinho estouvado, que ela teria sido sem dúvida, se a natureza não lhe trocasse o destino.
Nesse prisma da lindeza de Inhá reflete-se a sua índole. Aquela alma tem facetas como o diamante; iria-se e acende uma cor ou outra, conforme o raio de luz que a fere.
Contradição viva, seu gênio é o ser e o não ser. Busquem nela a graça da moça e encontrarão o estouvamento do menino; porém mal se apercebam da ilusão, que já a imagem da mulher despontará em toda sua esplêndida fascinação. A antítese banal do anjo-demônio torna-se realidade nela, em quem se cambiam no sorriso ou no olhar a serenidade celeste com os fulvos lampejos da paixão, à semelhança do firmamento onde ao radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da procela.
Cheia de carícias e gentilezas no princípio do passeio, fechara de repente a flor de sua graça e envolvera-se naqueles ares zombeteiros, que pungiam como espinhos o coração de Miguel. Poucos momentos antes, estremecera de susto vendo armar-se uma espingarda para atirar a um passarinho; e logo após arrostara sem hesitar a sanha de um assassino feroz, cujo senho incutia pavor aos mais intrépidos.
E assim é tudo nela; de contraste em contraste, mudando a cada instante, sua existência tem a constância da volubilidade. Na vaga flutuação dessa alma, como no seio da onda, se desenha o mundo que a cerca; a sombra apaga a luz; uma forma devanece a outra; ela é a imagem de tudo, menos de si própria.
Teria o rapaz dado vinte passos quando a menina o chamou, mas com ar de remoque:
- Escute!... Nhô Miguel, ora escute!
Como não a atendesse o companheiro, que se fingia ou estava deveras zangado, Inhá saltou da tronqueira, e alcançando o rebelde de uma corrida, tomou-lhe o caminho.
- Onde vai?
- Caçar.
- Depois; agora vamos à fazenda.
- Eu não! disse Miguel prontamente.
- Que pirraça é esta?
- Não tenho que fazer lá.
- Mas tenho eu.
- Todos os dias? perguntou Miguel fitando nela um olhar perscrutador.
- Se eu gosto!
Essa ingênua confissão, fê-la a menina com um gesto encantador, rasgando os grandes olhos puros e brandos, como se abrisse os seios d’alma ao pensamento suspeitoso do companheiro. Foi o olhar deste que abaixou-se encadeado e cego com a reverberação; e o rubor queimou-lhe as faces, enquanto a menina banhava-se em um sorriso de canduras.
- Pois vá só! replicou o rapaz virando.
- Para Linda agastar-se comigo?
- Não tenha susto.
- Você é um ingrato, nhô Miguel: não paga o bem que lhe querem.
- Deixe-se desses brinquedos, Inhá. É por isso mesmo que eu não vou mais à fazenda e também para... não ver certas coisas.
- O que?... Mecê, diga; por favor! acudiu a menina para bulir com o rapaz.
- Cuida que eu não reparo como Afonso brinca tanto com mecê?
- Mecê, hein?...
- Que me importa! Hei de dizer mecê.
- Está disfarçando! Não quer que se fale dos segredinhos com o Afonso?
- E faz mal isso? perguntou a menina com sincera surpresa.
Aumentou-se o vexame de Miguel, que mordia os beiços com o desejo de soltar uma palavra, e se continha pelo receio do desagrado da menina.
- Mas não vê que Afonso gosta de você.
- Estimo bem! disse Inhá dando uma pirueta.
- Então?...
- Acabe!
- Então Inhá também gosta dele?
- Também!
- Ah!
- Tanto como de você, nhô Miguel!
- Muito obrigado! retorquiu Miguel com um modo seco.
- Por isso agora ficou aí todo amuado?
- Até logo; já me vou.
- Não vai, que eu não quero! Exclamou a menina com despeito, e impedindo-lhe o passo.
- Então voltemos para a casa.
Inhá aproximou-se do companheiro e o envolveu de um olhar carinhoso.
- Olhe! se você não vier, Linda fica triste, coitadinha, tão bonita, com aqueles olhos tão ternos, que ela tem, de pomba-rola; e aquele rostinho de redoma, que é mesmo uma santa quando se ri no céu. Venha, eu lhe peço, meu bom Miguel.
Fascinado estava o Miguel, mas não pela imagem que lhe descrevia Inhá, senão pelo original que tinha diante de si, e o embebia na meiguice de seu olhar e na ternura de seu carinho.
- Mas eu não gosto dela, balbuciou o moço.
Pois não fale mais comigo, disse a menina arrufada.
- Escute, Inhá!
- Vem?
O rapaz hesitava.
- Você promete?...
- Não prometo nada.
- Se Afonso quiser brincar com você...
- Eu hei de brincar com ele, muito, muito, muito!
Cada um destes advérbios, a menina o acentuou batendo com o tacão no chão.
- Então não vou!
- Não venha! Quem lhe pede?
Caminhou ela direito à tronqueira; e entrou na fazenda.
IV
MONJOLO
Cerca de uma légua abaixo da confluência do Atibaia com o Piracicaba, e à margem deste último rio, estava situada a fazenda das Palmas.
Ficava no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa, das que então contava a província de São Paulo, e foram convertidas a ferro e fogo em campos de cultura. Daquela que borda as margens do Piracicaba, e vai morrer nos campos de Itu, ainda restam grandes matas, cortadas de roças e cafezais. Mas dificilmente se encontram já aqueles gigantes da selva brasileira, cujos troncos enormes deram as grandes canoas, que serviram à exploração de Mato Grosso. Daí partiam pelo caminho d’água as expedições que os arrojados paulistas levavam às regiões desconhecidas do Cuiabá, descortinando o deserto, e rasgando as entranhas da terra virgem, para arrancar-lhe as fezes, que o mundo chama ouro e comunga como a verdadeira hóstia.
No ano de 1846 era de recente fundação a fazenda das Palmas, que Luís Galvão, seu proprietário, recebera de herança paterna, ainda nas condições de simples situação, com um velho casebre de caipira, dois cafezais e alguma pouca roça.
Tinha Luís Galvão o gênio empreendedor e gosto para a lavoura; casando com a filha de um capitalista de Campinas, que lhe trouxe de dote algumas dezenas de contos de réis, além do crédito, pode ele, dando alas à sua atividade, fundar uma importante fazenda, que a muitos respeitos servia de norma e escola ao agricultor brasileiro.
Ao passo que ia se adiantando a lavra das terras, erguia-se na chapada fronteira ao rio uma bela casa de morada em dois lances abarracados, com um pequeno mirante no centro, sobreposto à larga portada; esta abria para o patamar, ladrilhado, de uma pequena escada de seis degraus, que descia ao terreiro.
Formava o edifício uma face da vasta quadra, onde se fora levantado sucessivamente casas para o administrador e feitores, senzalas para os escravos, o engenho de cana, a fábrica do café, tulhas de feijão e milho, além de outros acessórios do grande estabelecimento rural, que veio a tornar-se depois a fazenda das Palmas.
Do terreiro da casa partia o caminho principal da fazenda, que se estendia pelo espigão da colina, e bifurcava-se de espaço a espaço para serventia das várias jeiras de lavoura. O ramo principal, fugindo os alagados e descrevendo uma grande curva, ia entroncar-se, a meia légua de Santa Bárbara, na estrada geral da Constituição a Campinas.
No ponto em que esse carreador transpunha o valado principal da fazenda, aí fechando também por uma tronqueira, um cavaleiro embuçado, oculto no carrasco, levou ambas as mão à boca e imitou o canto do curiau, soltando um apito longo e cheio; o mesmo que ouvira Inhá.
Imediatamente o próximo canavial ondulou, e surdiu na ourela um negro moço, com o corpo nu até a cintura e a camisa atada aos quadris à guisa de tanga. Os lanhos das faces indicavam a casta monjola do africano, em cujo rosto se desenhava a astúcia do gambá e alguma coisa do focinho deste animal.
- Quem és tu? perguntou o cavaleiro vendo o negro dirigir-se a ele.
- Monjolo, meu branco. Faustino mandou dizer a senhor que tudo se arranjou como ele prometeu.
- Mas por que não veio ele mesmo?
- Pois o branco não vê que ele está lá em casa ocupado!
- Pedaço dum tratante!
- Gente desconfia; então essa cambada de pajens e crioulos, que é mesmo da pele do cão.
- O patife quer trapacear!
- Branco está de orelha em pé; pois olha, Monjolo é negro de bem; quando ele dá sua palavra e aperta dedo mindinho, está acabado, é como rabo de macaco: quebra, mas não solta galho, por nada desta vida, nem que arrebente.
- Anda lá, bruto, desembucha duma vez o recado, que não estou para aturar-te.
- Ixe!... disse o preto fazendo um momo de pouco caso.
- Falas ou não!
- Que é que o senhor quer saber?
- O diabo sempre vai hoje à vila?
- Vai, meu branco; o diabo vai, mas não é capaz de cair no inferno, não!
- Alguém o há de empurrar. A que horas sai ele da fazenda? É mesmo de manhã?
- Não tarda. Cavalo já está selado; capanga só vai um, mofino como o quê! Os outros, Faustino arranjou, como branco sabe.
- Então só leva duas pessoas?
- Duas só, sim senhor. Paje e capanga.
- Está bom; toma lá, para o pito, disse o cavaleiro atirando-lhe um pataco de prata. Agora vê se vais dar com a língua nos dentes.
- Eh!... Monjolo mesmo!... Branco não conhece este negrinho da carepa, não!
Já não o ouviu o embuçado que, dando rédeas ao animal, afastou-se na direção da estrada geral.
Era acidentado o terreno, que atravessava esse caminho, cortado no maciço de uma mata virgem, tão exuberante, que todos os anos fechava com os renovos da vegetação a picada aberta no inverno. O solo aí, como em toda a cercania, cobre-se de uma crosta da argila roxa, afamada na província por sua espantosa fertilidade. Em verdade, quando se deixa Campinas, e a pata dos animais começa a triturar essa terra ferruginosa, tão fácil de converter-se em pó sutilíssimo como em profundo tremedal, a natureza muda de aspecto; arrea-se de galas, e aos campos tão monótonos, embora célebres, de Piratininga, sucedem os bosques frondosos de Piracicaba.
Não obstante ser o caminho em toda a sua extensão, desde a extrema da fazenda, coberto e sombrio, havia contudo um lugar, cujo torvo aspecto correspondia ao terror supersticioso que inspirava e à sinistra reputação que adquirira.
Pouco além da interseção de outra picada, coleava o caminho algum tempo entre marachões cobertos de arvoredo, e por fim metendo-se pela garganta de um rochedo escabroso, descia em ziguezagues para remontar a oposta rampa de profunda grota. Como se não bastasse essa conformação cavernosa do terreno, a vegetação nutrida pelo humo vigoroso que as enxurradas depositavam nesses barrocais, exuberava sua maior pujança, e frondeava as árvores seculares, embastindo as sebes de verdura que vestiam os grossos troncos e lastravam pelos penhascos.
Da gente da vizinhança era conhecido aquele lugar por Ave-Maria, talvez de não passar alguém ali, sem romper-lhe dos lábios trêmulos aquela imprecação de susto. Nem sempre fora com eficácia invocada a divina padroeira, pois a tradição conservava o nome das vítimas, que aí haviam sucumbido.
Nenhum sítio em verdade se encontrara tão azado para uma emboscada. Ali oculto, um sicário conseguiria a salvo dar conta de uma comitiva, sem que os companheiros se pudessem mutuamente defender, nem mesmo aperceber-se da sorte que os aguardava, tal era a estreiteza do sinuoso desfiladeiro.
Dizia a gente do lugar que ouvia-se na azinhaga funesta um incessante gemido de agonia; e não faltava quem o atribuísse às almas penadas dos infelizes que aí se finavam insepultos e devorados pelos urubus.
V
A TOCAIA
Ao sumir-se na espessura, Jão Fera voltou o rosto e por entre a basta ramagem esteve a contemplar o vulto esbelto da menina.
Ao passo que se engolfava nessa fascinação, ia-se operando a transfiguração completa de sua fisionomia.
O perfil adunco e chanfrado, que revestia a beleza feroz e sinistra do abutre, embotou a rispidez, saturando-se de uma bruteza alvar. Intumesceram-se as faces, pouco antes crispadas pela cerração habitual das maxilas, e tomou a tez um tom fouveiro, indício da ebulição do sangue a ferver-lhe em bolhas no coração.
As fulvas papilas que se encovavam pelas têmporas, como tigres nas furnas, saltaram das órbitas, dilatadas por um fluido espesso que tinha a fosforescência felina. De ordinário avincava-lhe a fronte uma ruga saliente, que depois de fender-lhe o sobrolho, partia-se em duas plicas profundas como gilvazes, a lhe cortarem o rosto. A temulência da paixão injetando os músculos e insuflando as narinas, apagou todos aqueles sulcos rasgados pela sanha; e até os lábios sempre cosidos à feição de uma cicatriz, agora túrgidos arregaçavam, mostrando pela estreita comissura os dentes agudos.
Assim o aspecto do homem ralado por uma sede intensa ou calcinado pela chama violenta que ardia interiormente, afinal tomara a fisionomia da sensualidade brutal, onde como na brama do tigre, ressumbrava a ferocidade do amor.
Oculto no mato, foi o capanga, qual ao arrasto de uma cadeia, seguindo maquinalmente Inhá, através do campo. Muitas vezes, na absorção que ia, mostrou-se a descoberto, não o tendo percebido os dois companheiros, por estarem com a atenção presa na conversa.
Quando, porém, a menina sentou-se na tronqueira, voltada para o lado donde viera, aconteceu de vê-lo na ocasião de atravessar a nesga de campina, que separava os dois bosques. Turbado com aquele acidente, irritado por se ter mostrado naquele instante, Jão Fera rompeu o encanto da fascinação que o atava e embrenhou-se na floresta.
Era justamente a ponto, que ao longe estrugira o assobio do curiau, repercutindo pelos recessos da mata e algares das barrancas.
Estugando o passo, chegou o capanga à Ave-Maria. Ali encostado ao tronco de uma árvore, com os braços cruzados e a cabeça fincada ao peito, submergiu-se nas profundezas daquela alma, que devia ter cavernas tremendas e insondáveis abismos.
- Amanhã quando souber, pensará que fui eu!...
Murmurando estas palavras, uma expressão de angústia derramou-se pelo semblante do facínora, que se confrangeu, como se uma tenaz lhe estivesse a triturar o coração. Que medonha era a dor nessa natureza sanguinária, que se apascentava de cruezas e homicídios!... O eu humano é como sua besta: manso, quando frugal; rábido, se o fazem carnívoro; por isso em casa sentimento há o trasunto da história de nossa alma.
Naquele momento Jão Fera sofria a suma de todos os sofrimentos que derramara em seu caminho; de todas as ânsias, que sua mão levantara. Tudo nesse homem, a dor como a alegria, a raiva como o amor, a gula como a embriaguez, revestia a natureza da fera; tinha fauce para devorar, e garras que lhe dilaceravam o chão da alma, como a pata da suçuarana escarva a terra no arremessar do pulo.
Durou rápido trato essa agonia moral; e não podia prolongar-se que o rijo coração, vaso frágil para contê-la, embora acrisolado ao fogo das paixões tempestuosas, ia estalar.
Abalou-se o corpo vigoroso com um forte calafrio, que sacudiu-lhe a terrível obsessão; e o facínora surgiu outra vez audaz e ameaçador. Rebatendo o chapéu com um revés de mão, descobriu a fronte rija e alta, que se escalvava entre uma floresta de cabelos negros. Outra vez se descarnou a sua fisionomia com a expressão dura, ríspida e incisiva, que lhe dava a aparência de um perfil talhado em gume de aço.
- É sina! proferiu no tom implacável do fanatismo.
Com pouco reboou das barrocas da azinhaga o tropel de um cavalo. Jão Fera acostumado a distinguir nos rumores da mata as várias notas que formavam a surdina da floresta, inclinou o ouvido à escuta. Não se enganara; o animal vinha naquela direção e aproximava-se rapidamente.
Galgando então pelos socalcos do imbê, que descia dos galhos de um prócero jequitibá, alcançou o tope no rochedo, donde se descortinava entre o rendado das folhas uma volta do caminho.
Não tardou que apontasse ali, para sumir-se logo na curva da estrada, um cavaleiro.
Era o mesmo embuçado que falava pouco antes com Monjolo. Orçava pelos cinqüenta anos; barroso da cara que lhe cobria uma barba ruiva e áspera como as cerdas da capivara; de mediana estatura e excessivamente magro; vinha trajado ao uso da terra: chapéu mineiro de feltro pardo, sob o qual via-se o lenço de Alcobaça que lhe servia de rebuço; poncho de pano azul forrado de baetilha, com a gola de belbute levantada; botas de bezerro armadas de chilenas de prata.
Os lábios do capanga, onde flutuava um sorriso de desprezo, contraíram-se logo, e arrojou-se o corpo à frente para não desprender a vista assanhada do cavaleiro, que sumira-se na curva do caminho. Desceu rápido ao rés da azinhaga, por onde breve meteu-se o desconhecido.
Mal que assomou este no alto da rampa, a pupila injetada do capanga cravou-se-lhe no semblante e o atraía como a garra do abutre; a par, os dedos da mão direita afagavam com certa volúpia feroce o longo cabo da faca, passada à cinta, e já a meio fora da bainha.
Não parecia o embuçado muito senhor de si e tranqüilo de ânimo; pois lançava a um e outro lado olhos inquietos e investigadores, à feição de quem temia e perscrutava algum perigo oculto naquelas brenhas que o cercavam. Alguma vez hesitou, como incerto da resolução que devia tomar; olhou para trás, ou enfrestou pela vereda que serpejava diante dele vistas impacientes. Dir-se-ia que vacilava, entre continuar e retroceder; ou quiçá julgava-se transviado, e procurava afirmar-se no caminho para ele desconhecido.
De chofre empinou-se o cavalo, arremessando o homem sobre a escarpa da barranca, donde rolou ao trilho, como um corpo inerte.
VI
O EMPENHO
O capanga abatera um olhar de nojo para o cavaleiro que lhe veio rolar aos pés.
A faca brandida com força vibrava ainda no tronco do jequitibá, onde cravara a cabeça de um urutu, que estorcia-se de fúria e dor.
Fora a negra serpente que espantara o animal, quando enristou-se como uma lança, fincando a cauda e chofrando o bote. Advertido pelo faro, antes de ver altear-se o negro colo, o cavalo rodara sobre os pés; e a cobra ameaçada pelos cascos elou-se ao tronco, onde a alcançara a mão certeira de Jão Fera, que já tinha apunhado a faca.
Recobrando-se do atordoamento da queda, ergueu-se o desconhecido, a apalpar o corpo um tanto pisado e a sacudir a roupa.
- Apre! resmungou ele. Escapei de boa.
O capanga lançou-lhe um sorriso esguardo:
- Desta vez escapou, disse ele com surda entonação.
Dirigiu-se ao tronco e arrancou a faca, depois de esmagar a cabeça da urutu.
- Que diabo é isso? perguntou o embuçado.
- Não vê? retorquiu Jão limpando nas ramas a folha da faca.
- Agora penetro porque o diabo do ruço pinchou-me!
Cuidando então do cavalo que podia fugir-lhe, o desconhecido pôs-lhe cerco, e com algum trabalho conseguiu colher as rédeas; feito o que tornou ao lugar, onde havia deixado o capanga.
Este o esperava impassível, mas um tanto absorto.
- Como se chama o senhor? perguntou bruscamente ao cavaleiro.
- Oh, homem, lembrou-se disso agora! tornou o outro um tanto ressabiado.
- Quando o senhor me procurou há tempos para seu negócio, não me disse como se chamava.
- Porque não era preciso.
- Nem ontem quando me avisou para estar aqui; prosseguiu o capanga sem interromper-se. Mas agora há de dizer: quero saber com quem trato.
- Para que? Desde que a gente paga... Ou desconfia o senhor de mim?
- Ninguém me logra, disse Jão com um sorriso mostrando a faca. Tenho este fiador. O ponto é outro; só avanço com quem conheço.
- Pois não seja essa a dúvida. Com os diabos; chamo-me Barroso!
- Nunca morou aqui em Santa Bárbara?
Com essa interrogação ferrou o capanga olhar perscrutador no semblante do cavalheiro.
- Eu?... Que esperança!... De Sorocaba todo inteiro! É a primeira vez que botei-me cá para estas bandas.
Isto, disse-o Barroso com segurança e desplante.
- E por que tem gana ao homem?
- Ora essa! Fez-me uma; e jurei que havia de pagar com usura.
- História de mulher? perguntou o capanga vibrando-lhe um olhar ardente.
- Quem se embaça agora com saias? Não sou nenhum balão! Quer saber o que me fez o diabo? Teve o atrevimento de dizer em certa parte que, se lhe passasse a tronqueira da fazenda, mandava-me amarrar ao mourão por seus negros e surrar-me com um calabrote!
- Ah! Ele disse isto?
- Com certeza; mas daqui há pouco vamos saldar as contas. Ele vem aí; não tarda.
- Mas que escândalo teve o homem do senhor, para dizer isso!
- Essa maldita política! Se eu guerreei a chapa dele; eu cá sou do governo!... Mas escute. Arranjou-me tudo; o patife só traz um capanga e o pajem; por conseguinte desta vez não tem desculpa.
O capanga levantou os ombros com ar de indiferença.
- Já sei; vá andando.
- Posso ficar aqui mesmo.
- Fique, mas já lhe aviso. Quando eu vejo vermelho, não conheço quem está perto de mim.
- Safa!... Neste caso vou por aí afora, até a venda do Chico Tinguá. Lá o espero, homem; e com o resto da chelpa. Duas onças, das suçuaranas, bem amarelinhas, ou três canários, à vontade do amigo, contanto que desta feita acabe-se o negócio. Já o diabo podia Ter comido muita terra, se cá o camarada fosse mais decidido.
Às últimas palavras de Barroso o capanga abaixou o olhar, e um repentino enleio atou aquela organização robusta e audaz, que difundia em torno de si a plenitude da sua pujança. Alguma fibra vital fora dolorosamente pungida, que o confrangia, amortecendo o natural orgulho e arrojo do caráter.
- Só tenho uma palavra, sr. Barroso! disse afinal com a voz firme e grave.
- Mas está custando a cumpri-la; confesse-se!...
Franziu ainda mais o sobrolho a Jão Fera, que mordeu os beiços a tirar sangue. Acabava de estrangular a jura, que a destra já se preparava para cravar no corpo de quem ousava duvidar de sua palavra.
- Se da primeira vez em que o senhor me falou na venda do Chico, tivesse logo dito quem era o homem; eu certo que não aceitava o ajuste, nem recebia os seus vinte patacões para tomar o empenho que tomei.
- Por que então?
- Basta que eu saiba. Só depois é que me disse, quando eu já tinha gasto seu dinheiro. Esperava ganhar para lhe restituir; e por isso ia deixando a coisa para mais tarde, pois o senhor há de lembrar-se, que minha promessa foi dar conta do homem até São João que vem cair lá para a outra semana. Sou senhor de minha vontade, fazer hoje ou amanhã, quando me parecer, desde que naquele dia minha palavra estiver cumprida. Aí está a razão...
- Quem duvida que o camarada é um homem honrado? Então eu não sei com quem lido?
- Deixe-me acabar. Aí está a razão de não ter eu dado conta ainda da sua obra. Queria ver se me vinha alguma prata para livrar-me deste empenho. O senhor não vê diferença em mim?
- Alguma, para falar a verdade.
- Pareço um tocador de tropa. Vendi o que tinha, e pouco era; mas não ajuntei senão estes magros cobres, que trago aqui na burjaca, veja. Quer recebê-los, e soltar a minha palavra, empenhando eu a minha vida para pagamento do resto?
- Isso nunca! O trato está em pé!
- Fechou-se o capanga, assumindo outra vez a calma e possança de si mesmo:
- Estou ciente. O senhor cobra a sua dívida; eu pago-lhe na moeda que tenho, nesta, disse batendo na bainha da faca. Vá descansado; hoje ficamos quites.
- Esse falar agora me agrada mais; e até, olhe lá, por cima do prometido, sempre a gente há de escorregar uma molhadura, se a obra for bem feita.
- Dispenso, retorquiu-lhe com uma desdenhosa concisão.
- Ande lá. Então na venda do Chico? perguntou Barroso com o pé no estribo.
- Já disse.
- E logo que despachar o diabo?
- Sim!
- Boa mão, camarada.
Ganhando a sela, seguiu Barroso o trilho escarvado da azinhaga, e alcançada a planície, afastou-se a galope do sítio mal-assombrado.
Entretanto, o capanga ouvindo o tropel do animal a perder-se na distância, murmurava consigo:
- Aquela cisma que eu tive há pouco!... Se não fosse o urutu!... No cabo não era ele, sem falar que estou lhe devendo...
E acrescentou:
- É preciso acabar com isto! Há de ser o que Deus quiser.
Suspendendo o corpo do urutu à ponta de um galho, ia tirar-lhe a pele, para gastar o tempo da espera, quando alguma coisa suspeita fê-lo erguer de pronto a cabeça e aplicar as ouças.
Ressoava ainda muito longe o oco estrupido de animais passando uma ponte de madeira.
VII
O MARMANJO
No terreiro da fazenda das Palmas, junto à escada da casa de morada, os animais de montaria mordiam os freios de prata, raspando o chão com a ponta do casco.
Tinha-os pelas rédeas um mulato de libré cor de pinhão, avivada de preto e escarlate, com botas envernizadas de canhão amarelo, e chapéu de oleado a meia copa. Recostado ao socalco do patamar com ares de capadócio, o pajem fazia sinais para uma janela, onde aparecia amiúde a trunfa riçada de uma crioula.
Vinha chegando-se com a proverbial pachorra paulistana um camarada, que mastigava o último bocado do almoço, e preparava o cigarro de palha. Aceso o pito e tomada a primeira fumaça, passou revista primeiro nos arreios do baio e da rosilha, depois nos cascos; e não achando coisa de maior, foi contudo, para mostrar a sua valia, aqui apertando um loro, ali afrouxando uma cilha e repuxando uma correia da cabeça.
- Esta corja de pajens, dizia a rir para o mulato em forma de cumprimento, só serve de emporcalhar a casa. Ficam velhos e não aprendem.
- Corja é súcia, sô Mandu. Olhe lá! rebateu o pajem.
Nisto apontou a mucama à janela.
- Falta muito ainda, Rosa? perguntou o mulato.
- Já está acabando. Não tem tempo de ir mais à roça, ver Florência, não, rapaz.
- Ai, que dor de canela!
- Ixe! Quem conta com pajem!
- Assim, menina! exclamou o camarada. Tem aqui uma barra para seu pimpão.
- Sai daí! chasqueou o mulato. Jabuticabinha de sinhá é lá para o beiço de caipira? Vá comer sua broa de milho, homem, e deixe de partes.
A mucama soltou uma risada e desapareceu de repente a um puxão que de dentro lhe deu o pajem Faustino.
- Assim é que serve a mesa?
- Salta, moleque! Menos confiança comigo.
- Hô xente! Moleque como nós. Tenho muita xibança nisso. Não é como esse mestiço do inferno, cor de burro; mas você não tem vergonha mesmo de vir engraçar com ele na janela.
- Sinhá está ouvindo! disse a rapariga em tom de ameaça.
- Melhor pra mim! Eu cá não me embaraço.
Este curto diálogo travou-se na saleta da entrada, onde o Faustino veio pilhar a mucama, que escapulira do serviço da mesa para se faceirar com o mulato. Apanhada em flagrante, a Rosa, muito senhora de si tornou à sala de jantar, onde ninguém dera pela sua falta.
Ali, estava posta para o almoço a larga mesa de jacarandá, coberta com alva toalha de linho adamascado; e rodeada naquele momento, como de ordinário, por cinco pessoas.
A cabeceira, contra os costumes da terra, ocupava-a a dona da casa, senhora de 38 anos, e não formosa; porém tão prendada de inata elegância, que seus traços e toda sua pessoa tomava um particular realce. Se não tinha bonitos olhos, ninguém sabia olhar como ela; a boca sem primores de forma, enflorava-se com o sorriso inteligente e a palavra brilhante.
Filha de um capitalista de Campinas, D. Ermelinda recebera em um colégio inglês da corte educação esmerada, que desenvolveu a natural distinção de seu espírito. Recolhida à sua província, teria sem dúvida perdido ao atrito dos costumes do interior aquele tom fidalgo, se fosse ele um artifício do hábito, em vez de um dom, que era da natureza, o qual o exemplo não fizera senão polir.
À expansão dessa natureza delicada, ao perfume de bom gosto que derramava em trono de si, deve-se atribuir a ausência de cor local que se notava senão em toda casa, ao menos na família. Aquela esfera que recebia a influência imediata da dona da casa, não era paulista, mas fluminense; e não fluminense pura, senão retocada já pelo apuro escocês e pela graça francesa.
Aos verdadeiros paulistas da têmpera antiga, de antes quebrar que torcer, aos grandes turrões, nutridos de lombinho de porco e couve crua, não deixava de escandalizar esse enxerto carioca no meio das suas matas, e por isso, já desconfiados de natureza, mostravam-se espantadiços, quando entravam na casa das Palmas.
À direita de D. Ermelinda estava o dono da casa, Luís Galvão, cujo aspecto franco e jovial granjeava a simpatia ao primeiro acesso. Era um bonito homem, de fisionomia inteligente e regular estatura, que revelava em sua compostura digna a consciência do próprio mérito.
Do comedimento do modo prazenteiro, bem como do alinho do traje, transpirava o influxo da suprema distinção do espírito de sua mulher. Naturezas há que têm a força de imprimirem o seu cunho naqueles que o cercam; outras se apoderam da índole alheia insinuando-se nela pelo afeto, impregnando-a de sua essência.
A de D. Ermelinda era destas últimas. Fora por uma lenta filtração moral, que ela conseguira transmitir ao marido um toque do seu garbo nativo, embotando as asperezas de uma educação grosseira e extirpando hábitos da infância descurada.
À esquerda da mãe ficava o filho, como à direita do pai a filha, ambos na flor da juventude. Chamava-se o primeiro Afonso, como o avô. À Segunda tratavam todos pelo apelido, senão diminutivo, de Linda, formado das últimas sílabas de seu nome, que era o mesmo da mãe.
Finalmente, no segundo lugar da esquerda defronte da moça via-se um menino de 15 anos de idade, cuja figura destoava de todo o ponto, no quadro daquela família, que respirava a graça e a inteligência.
Era feio, e não só isso, porém mal amanhado e descomposto em seus gestos. Tinha um ar pasmo que embotava-lhe a fisionomia; e da pupila baça coava-se um olhar morno, a divagar pelo espaço com expressão indiferente e parva.
Curvado como um arco sobre a mesa, com as vestes em desalinho e os cabelos revoltos, abraçava uma xícara de almoço, que lhe ficava abaixo do queixo; e escancarando a boca enorme para sorver de um bocado a grande broa de milho, ensopada no café, mastigava a tenra massa a fortes dentadas e sofregamente como se estivesse rilhando um couro.
Percebia-se logo que a influência de D. Ermelinda não penetrara nesse membro enfezado da família, refratária a todo o preceito de ordem e arranjo. Por isso a dona da casa, quando presidia a mesa de seu lugar de honra, observando o serviço e ocupando-se de todos, não transpunha aquele ângulo, onde sentava-se o pequeno. Se acontecia a seu olhar, circulando a sala, passar por aí, cegava-se e fugia com desgosto.
Naquele momento acabava o menino de fazer uma das costumadas estrepolias, virando com o queixo a xícara, que entornou-lhe todo o café no peito da camisa.
- Hô, hô, hô!... fez ele com um riso gutural e apatetado.
Acudiu a Rosa, para enxugar-lhe com o guardanapo a cara, pois ele não se mexia.
- Que vergonha! murmurou a crioula em meia voz. Marmanjo deste tamanho não sabe comer na mesa.
Um raio maligno lampejou na pupila baça do pequeno.
- Nhô Brás! gritou a rapariga tomada de dor.
O menino por baixo da mesa fisgara-lhe o garfo na coxa.
VIII
PRESSENTIMENTO
Passou despercebido para as pessoas da família o acidente do café entornado.
D. Ermelinda parecia preocupada; sem tomar parte no almoço, acompanhava os movimentos do marido com uma inquietação nervosa, que procurava reprimir, porém ressumbrava-lhe da fisionomia assustadiça. Não se difundiu, portanto, em sua expressão o tédio, que ordinariamente lhe inspiravam, quando assistia à mesa, àqueles desasos de Brás.
O marido estava a partir para Campinas, onde ia demorar-se três dias afim de concluir alguns negócios, que talvez o levassem a São Paulo. Apesar do hábito dessas e até de maiores ausências, a senhora não podia eximir-se à repugnância que lhe causava semelhante viagem, e empregava todos os esforços para desmanchá-la.
Mas Luís Galvão não era paulista debalde; ele se deixara imbuir da influência da mulher naquela parte da existência do homem que pertence exclusivamente à esposa, e onde, portanto, aceitava como legítima supremacia feminina, tinha contudo sua ponta de birra, e quando, em matéria de lavoura e negócio, ou coisa que não entendia o regime doméstico, se decidia por um alvitre, não havia demovê-lo.
Por causa da viagem se tinha posto o almoço tão cedo, quando o costume era às 9 horas, para dar tempo aos longos passeios que D. Ermelinda recomendava aos filhos, e de que ela muitas vezes dava exemplo com o marido. Ainda nisso havia uma inovação aos usos da terra, onde moça rica, filha de fazendeiro, não anda a pé, a não ser na vila.
Luís Galvão comia com boa disposição e, de vez em quando, replicava ao olhar inquieto da mulher com um sorriso e um gesto de carinhoso motejo, o que chamava aos lábios da elegante senhora uma fugaz enfloração, logo apagada. Quanto a Linda e Afonso, apesar da hora, só para fazer companhia ao pai debicavam com o apetite, pronto sempre, da juventude.
Nenhum destes fez reparo no desastre acontecido com Brás, naturalmente porque semelhantes desaguisados eram tão freqüentes, que já se contava com eles. E então buscavam todos modos de disfarçar, não só para não contrariar ainda mais D. Ermelinda, como para evitar as represálias de que servia-se o pequeno contra qualquer ralho ou motejo.
Dessa vez ficou na garfada à perna da Rosa, que lá se foi coxeando para a camarinha, examinar o arranhão. Entanto o Brás, rachando a meio um pão e metendo em cada bolso uma banda, levantava-se da mesa para ganhar o quintal pela porta da cozinha.
Repetindo Luís Galvão o seu amoroso remoque à inquietação da mulher, esta não se conteve, que não lhe replicasse.
- Tem razão de zombar, Luís! Devo parecer-lhe uma criança; e eu mesma não cesso de acusar-me por esta tolice; mas nem por isso consigo livrar-me dos receios que me assaltam.
- Disposição em que você está, Ermelinda. Que perigo pode haver em um passeio que estou a fazer constantemente, e até mais longe e com maior demora?
- Tudo isto me tenho eu dito cem vezes desde ontem, e não sossego. Nunca fui sujeita a cismas e caprichos, você bem o sabe; entretanto sinto hoje um desassossego, um aperto de coração.
- É nervoso.
- Se não houvesse uma causa real para isso, podia ser; mas há. Essas esperas, que andam deitando por aí, das quais ainda ontem falou o administrador...
- E por que hão de ser elas para mim? Não tenho inimigos, e a ninguém faço mal para que se dêem ao trabalho de livrarem-se de mim.
- Papai é tão estimado! disse Linda; e a voz doce como um favo de mel arpejou a nota moviosa da ternura filial.
- Quem se atreveria?...
O altivo desafio, esboçado nestas palavras, partiu dos lábios de Afonso que alçou a fronte já naturalmente erguida, com um assomo bizarro.
- São os bons, meus filhos, que estão mais sujeitos ao ódio dos maus, os quais se conhecem e ajudam entre si.
- Lembre-se, Ermelinda, que depois das esperas tenho andado por esses caminhos. No dia em que o administrador veio contar-lhe a tal novidade e assustá-la à toa, eu fui a Piracicaba, e duas vezes passei na Ave-Maria. Disse o Pereira depois, que vira dois vultos no mato; entretanto nada me aconteceu. Se havia espera, não era decerto para mim.
Pareceu D. Ermelinda ceder à força desse argumento e ao tom persuasivo do marido; mas o pressentimento a pungia, e o coração perscrutava objeções para resistir à razão.
- E esse homem, que foi ontem visto pelos pretos, atravessando a fazenda? Dizem que a desgraça o acompanha, pois ele deixa, por onde passa, um rasto de sangue. Por isso deram-lhe o nome de fera!
- Outra prova de que são imaginários os seus receios, Ermelinda. Jão Bugre ou Jão, como eu o chamava em menino, a exemplo de outros, foi criado em nossa casa; era afilhado de meu pai e até chegou a servir-me de camarada. Depois tornou-se um perverso; porém lembra-se dos benefícios que recebeu de nossa família, e, embora se mostrasse altaneiro comigo, acredito que me respeita.
- Essa gente não é capaz de gratidão, Luís; ao contrário, o benefício os humilha, e eles revoltam-se contra o que chama uma injustiça do mundo.
O Bugre é uma fera, na verdade; contam-se dele as maiores atrocidades; porém esse homem de más entranhas tem um resto do consciência e probiedade. Não há exemplo de haver atirado a alguém por trás do pau, ou de emboscada: ataca sempre de frente, expondo-se ao perigo. O bacamarte só lhe serve para defender-se, quando o perseguem. Também nunca ouvi falar de roubo ou furto que ele cometesse, e isso apesar de viver ele pelos matos, constantemente acossado.
- E ainda não foi preso um criminoso de tantas mortes?
- Não é por falta de diligência. Andam-lhe à pista desde muito tempo; e até, se não me engano, ouvi que tinham prometido um prêmio a quem desse cabo dele; mas até agora não se animaram, tal é o temor que inspira.
- Bem razão tenho eu, portanto, de assustar-me, quando um facinoroso desses aparece dentro da fazenda: talvez ande ele rondando a nossa casa.
- Não se lembra disso; mas, se tivesse a audácia, ele ou outro, acharia a casa bem guardada. Demais, aqui lhe deixo um homem para defendê-la. Não é verdade, Afonso?
- Sem dúvida, meu pai. Na sua ausência nada acontecerá!
- Não é por mim que receio, Luís; antes fosse; não estaria tão inquieta, disse a senhora com um leve reproche.
- Nesse caso eu não partiria! respondeu o marido galanteando.
- Então fique!
- Sim, papai, fique! Dê esse gosto a mamãe, disse Linda.
- Também a senhora não quer que eu vá? Olhe, não se arrependa! replicou o pai com um gesto de zombeteira ameaça. Levo uma certa encomenda de vestidos e enfeites, que só eu sei escolher.
A moça ficou enleada entre a esperança do presente e o desejo da mãe.
- Papai compraria outra vez.
- E a festa? Perguntou o pai sorrindo.
A pêndula soou oito horas.
IX
AS AMOSTRAS
Advertido pela pêndula, Luís Galvão consultou seu relógio de algibeira e ergueu-se:
- São horas!
Até aquele momento nutrira D. Ermelinda uma vaga esperança, que ela mesma não podia explicar. Lembrava-se que um pequeno acidente qualquer podia estorvar ou pelo menos adiar a viagem. Vendo chegar a despedida, empalideceu:
- Se você aflige-se dessa maneira, Ermelinda, não vou. Faz-me grande desarranjo, como sabe; mas não tenho ânimo de deixá-la tão sobressaltada.
- Confesso que esta emoção faz-me mal; já não me sinto boa.
- Então fico: está decidido.
Uma sombra de tristeza perpassou rapidamente pelo semblante de Linda; todavia não escapou ao olhar da mãe, que adivinhou a causa dessa mágoa da moça.
- Mas, Luís, esta viagem é necessária, e, no fim de contas, meus sustos não têm razão de ser. Você precisa concluir esse negócio; e Linda ficará queixosa se não tiver os presentes prometidos.
- Eu, mamãe? exclamou a menina com terna exprobração. O que eu desejo é vê-la sempre contente.
- E não é um contentamento fazer-te feliz? Já fui moça como tu; nessa idade a ventura é uma flor, uma fita. Só depois se compreende o que ela vale e o que ela custa, minha filha. Não te envergonhes dessa faceirice. Quem há de tê-la senão tu? Deus fez as estrelas para brilharem.
- Então o que decidem? perguntou Luís Galvão.
- Vá; eu lhe peço.
- Por minha causa, não! contestou Linda.
- Pela minha, disse D. Ermelinda.
Calçadas as luvas e feitos os últimos aprestos, despediu-se o viajante da família e montou a cavalo.
No momento de abraçar o marido, D. Ermelinda com disfarce apalpou-lhe o peito, e ficou mais tranqüila percebendo o revólver no bolso do casaco. Não obstante, custou-lhe muito essa despedida; seus vagos terrores se alvoroçaram de novo, e foi preciso grande esforço para dominar-se.
Entretanto Luís Galvão, esporeando a rosilha, depois que disse o último adeus com a palavra e o gesto, passou a cancela do terreiro. Acompanhava-o de perto, a meio-corpo da cavalgadura, o camarada Mandu; adiante ia o pajem para abrir as tronqueiras; e entre ele e o viajante trotava o baio, solto, mas de todo arreado e pronto para o revezo.
- Logo hoje é que seu pai leva um camarada só.
- Por que, mamãe? perguntou Linda.
- O Pereira adoeceu, o outro, ninguém sabe onde anda.
- Se mamãe quer, eu acompanho meu pai, disse Afonso fazendo menção de dirigir-se à cavalariça. Em um instante o alcançarei.
- Não, não Afonso! acudiu vivamente a senhora, já se não viam os viajantes, ocultos pelo arvoredo. D. Ermelinda, antes de entrar, voltou-se para os filhos:
- Vão passear!
- E mamãe fica só?
- Preciso descansar um pouco até a hora do almoço.
- Sente alguma coisa, minha mamãe?
- Nada, fadiga apenas. Até logo.
- Quer ir, Afonso?
- Se você quiser, Linda!
- Vão; a manhã está bonita, insistiu a mãe.
D. Ermelinda por este meio tratava de afastar os filhos, cuja solicitude dispensava nesse momento, pela razão de os não afligir comunicando-lhes a tristeza e inquietação que a assaltava com dobrada força.
Apenas eles a deixaram, subiu apressadamente ao mirante para acompanhar com os olhos ao marido, até a volta que fazia o caminho no canto da tigüera e onde se perdia de todo a vista da casa.
Os viajantes, que já estavam a poucas braças dali, pararam de repente, e depois de pequena demora retrocederam apressados. Surpresa com o incidente, D. Ermelinda deu graças a Deus daquela volta inesperada, que lhe restituía o marido, a quem por coisa alguma deixaria mais partir.
A angústia que sofrera naqueles poucos instantes, os pensamentos cruéis que lhe crivavam a alma nesse breve trato, não os sentira ela talvez em anos de sua vida. Suplicaria a seu marido que desistisse da viagem; e ele havia de atendê-la, ou então de arrastá-la abraçada a seus joelhos.
Aproximavam-se os viajantes; repassaram a cancela e afinal pararam em frente à casa onde Luís Galvão apeou rijo.
- Que foi? Perguntou D. Ermelinda que descera do sótão a encontrá-lo.
- Ora, respondeu o fazendeiro a rir, não sei onde pus as amostrar da Linda com a lista das encomendas.
Outra vez D. Ermelinda achou em si a força para reagir contra seus imaginários terrores. Esse coração de mãe sacrificava às inocentes alegrias da filha o seu sossego; é uma banalidade sublime, que se encontra por aí, a cada canto, e de que já ninguém se ocupa.
Correu Luís Galvão ao gabinete à busca dos objetos esquecidos; e enquanto a mulher ajudava-o de seu lado na pesquisa, abriu ele a medo o segredo da secretária e tirou um papel, que rápida e furtivamente escondeu no bolso.
Era este o motivo real da sua volta; o outro não passava de pretexto. Apenas teve Galvão seguro o papel em um bolso, que tirando à sorrelfa um pequeno embrulho do outro, exclamou:
- Aqui está!
- Aonde achou?
- Dentro desta caixa de charutos. Só eu era capaz de achá-lo. Foi quando enchi a carteira.
Abraçando a mulher e beijando-a na face, de novo pôs-se o fazendeiro a caminho; e desta vez ia pensativo, quase triste. Murchara a flor da jovialidade, que se expandia momentos antes tão fresca em seu nobre semblante, e a alma franca e generosa sempre a espelhar-se em seu olhar, dir-se-ia que se acanhava.
O pequeno incidente da volta viera a toldar aquele sentimento que mais ou menos é infalível em todo o coração por magnânimo que seja, como da ânfora onde por muito tempo se guardou o vinho puro e generoso, há sempre lia no fundo.
Luis Galvão tinha um segredo em sua vida, talvez uma falta; e o ocultava de todos, mas especialmente da mulher. Ver-se humilhado perante aqueles a quem se ama, e cuja estima se alcançou, não pode haver maior suplício para o homem de brios.
O esquecimento do papel, que sem dúvida continha revelação ou referência do segredo, e a necessidade de recorrer a uma simulação para ocultar o verdadeiro motivo de sua volta; esses pequenos embustes sem conseqüências, e que talvez a outros nem mais lhe roçassem na memória, o estavam remordendo interiormente.
Chegaram afinal os viajantes ao canto da tigüera. Havia junto a um copado guarantã, que lhe dava sombra, uma ponte de madeira, lançada sobre as altas ribanceiras de um córrego, que regava parte das terras lavradas.
Aí estava a última tronqueira da fazenda.
Voltou-se Luís Galvão para enviar um adeus à mulher, que lhe acenava com o lenço, e desapareceu.
X
OS GÊMEOS
Deixando a mãe, separaram-se os dois irmãos para se encontrarem no pátio interior, donde também havia passagem para as jeiras da fazenda.
Linda fora tomar a capelina de fustão branco, e Afonso o boné e o bastão de passeio. Assim preparados, puseram-se a caminho par a par, garrulando como um casal de coleiros que deixam a asa materna para folgarem pela grama ensaiando os primeiros vôos.
- Que fingido é você, mano! dizia Linda. Quando eu lhe perguntei se vinha passear, respondeu-me "se quiser" e estava morrendo!
- Com pena de uma certa pessoa, que não fazia senão olhar lá para a figueira.
- Que história! disse Linda corando.
- Eu respondi "se quiser" mesmo de propósito; para ver sua tenção. Você não disse ontem que sou eu quem vai todos os dias para aquele lado?
- E é, sim.
- Deveras! Sustente outra vez, e verá se não volto.
- Não, meu maninho do coração, não se zangue. Eu prometi a Berta que hoje havia de ir sem falta. Ela está nos esperando. Vamos; sim?
- Primeiro há de por as mãos e dizer comigo: - "Meu Afonsinho..."
- "Do meu coração..."
- "Eu lhe peço e rogo... que me leve... onde está..."
- Onde está Berta! disse rapidamente a menina que ia repetindo a palavra do irmão.
- "Onde está" insistiu o rapaz uma e duas vezes.
Afinal Linda cedeu:
- Onde está...
- "Meu benzinho!" concluiu o rapaz.
Banhou-se a menina em ondas de púrpura.
- Ah! Mano! disse Linda com um melodioso queixume.
- Assim é que se ensina uma sonsinha! replicou o moço a rir.
- Você me paga! tornou a irmã com um pequeno assomo de revolta. Tenho um certo segredo a para contar a Berta...
- Segredo de mulher! galhofou o irmão.
- Vou dizer-lhe que não se importe com gente ingrata; e como só eu é que me lembro dela, não tome o trabalho de vir cá para ver-me, porque eu não tenho mais com quem passear.
- Você é capaz?
- Sou.
- Uma aposta?
- Não quero; você logra-me sempre.
- Também tenho uma coisa para dizer.
- A quem?
- Não sabe? Faça-se desentendida. A Miguel.
- O que é?
- Que uma certa pessoinha, a qual eu não descobrirei... que essa pessoinha me pediu para... para dar um... a ele já se sabe... um...
- Mano! Não gosto destas graças!
- Um beliscão, menina!
- Você ia dizer outra coisa.
- Ou é você que queria ouvir outra coisa?
- Está bom; me deixe.
Desta vez agastada, Linda afastou-se, voltando as costas ao irmão.
Acompanhou-lhe Afonso o movimento com um ar galhofeiro; e aproximando-se devagarinho, nas pontas dos pés, enlaçou de repente em um abraço o corpo gentil da moça.
- Ai da pombinha! Como está tão jururu! Quem foi que arripiou sua pena, minha rola? Prrru!... Coitadinha! Deixe ver o biquinho!
Estas palavras eram o mote das carícias que fazia o Afonso à irmã, alisando-lhe os cabelos castanhos que a brisa espalhara, amaciando-lhe a mimosa cútis da face, e por fim puxando-lhe o botão de rosa dos lábios, que faziam um delicioso biquinho vermelho, apinhados como estavam com o gracioso amuo.
Não se podia, com efeito, achar mais justa imagem da formosa menina, do que essa que espontaneamente acudira ao espírito poético do rapaz. Naquele momento com a fronte reclinada, as espáduas ligeiramente curvas, pelo recato, as mão recolhidas ao seio, parecia-se com a juruti quando arrufa a doce e macia penugem.
À medida porém que a envolvia a carícia do irmão, ia ela outra vez acetinando-se; o talhe delicado esbeltava-se ao natural; as longas pálpebras franjadas erguiam-se desvendando os grandes olhos pardos cheios de uma ternura ebriante; e finalmente o botão de rosa da boca gentil enflorava-se com sorriso encantador, que derramava sobre o formoso semblante da menina uma luz de leite.
Só não sabe o que isto é, quem não admirou a espécie de cútis mais delicada, tez suave de bonina bebendo os orvalhos da manhã.
Tinha a beleza de Linda um doce alumbre de melancolia, que não era tristeza, pois coavam-se através dos inefáveis contentamentos de sua alma; era sim matiz, que lhe aveludava a graça e influía-lhe um mavioso enlevo. Irmã das flores que vivem nos recessos da floresta, onde se coalham em sombra luminosa os raios filtrados pelo crivo das folhas, respira essa beleza o perfume casto da violeta e da baunilha.
Não se admira a mulher que a possui, porque não exerce a fascinação esplêndida das formosuras que cintilam; mas adora-se de joelhos, porque ela tem a santidade do amor.
Afonso era o retrato da irmã. Pareciam-se como gêmeos e gêmeos tinham nascido. Mas nele a gentileza era um fogo de artifício; a índole jovial, que herdara do pai, lhe estava constantemente a brincar no gesto prazenteiro e nas cascatas do riso cordial e folgazão.
Era tal a parecença dos dois irmãos, que um dia, havia tempos, Afonso lembrou-se de fazer uma travessura. Vestiu-se com roupas da irmã, e tomando uns ares hipócritas, saiu ao encontro de Berta que vinha visitar Linda, como de costume. A moça, cuidando ver a amiga, correu abraçá-la, e cobriu-a de uma chuva de beijos, que lhe foram pontualmente retribuídos.
Foi depois de ter a seu gosto recebido as carícias da moça, e comido-lhe a beijos o saboroso encarnado das faces, que o brejeiro tirando a capelina da irmã, apresentou a sua cabeça de rapaz, desordenada da basta madeixa, que ondulava pelas espáduas de Linda, quando ela a trazia solta no passeio da manhã.
Descobrindo o engano, Berta não se agastou e riu-se gostosamente com o rapaz, da peça que lhe pregara ele; mas desde aí, não beijou mais a Linda sem primeiro olhar-lhe no rosto e os cabelos, para certificar-se que era ela mesma, e não o brejeiro Afonso.
Depois tornou-se impossível a confusão, porque não só o talhe do moço hasteou-se com a têmpera viril, como o fino buço começou a assombrear-lhe o lábio superior e as faces.
XI
NO TANQUINHO
Depois da pequena pausa que tinham feito, apressaram os dois irmãos o passo, a fim de ressarcir a perda do tempo, que pouco tinham para o passeio até a hora habitual do almoço.
Assim atravessaram os canaviais, divididos em alqueires por largas alamedas e carreadores mais estreitos.
Nessa ocasião, não repararam como de costume no verde-gaio e risonho daquelas ondas de folhas que flutuavam graciosamente ao sopro da brisa; nem ouviram os brandos cicios, tão doces ao ouvido, como é ao paladar a polpa deliciosa dos gomos.
Entraram em seguida na roça, onde o feijão estava em flor e o milho espigava, agitando os seus louros pendões. Logo adiante ficavam os vastos cafezais, recentemente carpados e já frondosos para mais tarde se cobrirem de bagas escarlates, como fios de corais, entrelaçados pela folhagem de brilhante esmeralda.
Aí à sombra dos renques de cafezeiros, descansavam os pretos recebendo a ração do almoço, que as rancheiras de cada turma dividiam pelas gamelas e palanganas que lhes apresentavam.
Passaram os dois irmãos apressadamente e sem dar-lhes mostra de atenção, para não perturbar-lhes o descanso e a refeição.
Além, na assomada de uma colina frondava um vistoso ramalhete de palmeiras de diversas espécies, entre as quais avultava o jeribá com seus lindos penachos. Chamavam a este lugar o Palmar e dele proviera o nome à fazenda.
Pela encosta da colina estendia-se o pasto; e na base estava uma capuava onde já se começara o trabalho da derrubada, e se afolhavam as terras destinadas à lavoura de mantimentos, dividindo-a em quartéis, como os partidos de canas.
Fronteiro ao Palmar, ficava um grande feital que prolongava-se até a orla da mata. Essa terra descansada desde muitos anos já estava convertida em capoeira, que invadindo os carreadores deixava a descoberto apenas o trilho batido pela constante passagem.
Por essa vereda meteram-se os dois irmãos, Afonso adiante, malhando com o bastão os tufos de capim e relva para espantar as cobras; Linda no encalço, rocegando a fímbria da saia de musselina para guardá-la dos orvalhos. Foram sair em pequeno gramado, de um pitoresco encantador.
Parecia esmero de arte o sítio aprazível; não que possa o gênio do homem jamais atingir os primores da criação; ordenara, porém, muitas vezes e resume em breve quadro cenas que a natureza só desdobra em larga tela; e colige em uma só paisagem cópia de belezas que andam esparsas por vários sítios.
Desenhava-se o pequeno e mimoso prado em oval alcatifado e com a alfombra de relva e cingido quase em volta pela floresta emaranhada, que a fechava como panos de muralha, cobertos de verdes tapeçarias e vistosas colgaduras, apanhadas em sanefas e bambolins de flores. À face oposta assomava a soberba colunata do Palmar que estendia-se até ali, formando arcarias góticas, fustes elegantes em estilo dórico e arabescos rendados de maravilhoso efeito.
À margem do Tanquinho, bonito lago formado pela represa de um ribeirão, que saía gorgolando do mais embrenhado da floresta e traçava meandros entre as palmeiras para perder-se no pasto, uma figueira brava esfraldava os ramos, em esparavel, ensombrando a pelúcia de relva.
Aí próximo contornava-se um outeirinho coroado de uma grinalda de juncos floridos, donde borbulhava também um fio d’água que alimentava o lago. De seu tope descortinava-se a casa das Palmas e toda a várzea até a margem do Piracicaba.
Ao entrar no descampado, ca[iram os olhos de Afonso direto sobre o tronco da figueira e voltaram-se logo desconsolados para Linda. Os dois irmãos trocaram um sorriso displicente.
- Não vieram, disse Afonso.
- Já foram.
- Não há tal.
Levou o moço as mãos à boca e apitou. Não teve resposta.
- Então?
- É que já estão longe!
- Não tinham tempo.
- A culpa é sua.
- Quem primeiro buliu com o outro?
- Eu hei de contar à Berta.
Depois de uma pequena volta pelo prado, os dois irmãos cuidaram de voltar do insípido passeio que tão malogrado fora.
Entretanto não estavam longe aqueles que se supunham encontrar, conforme o costume, à sombra da figueira; e eram, como já se adivinhou, Miguel e Inhá a quem Linda tratava pelo nome.
Afastando-se de Miguel para passar a tronqueira, dera a menina ao talhe uma inflexão sedutora. Daquela travessa rapariga, com ares de diabrete, surgira de repente a mulher em toda a brilhante fascinação, na plenitude da graça irresistível que rapta a alma, e a arrasta após si cativa como um despojo, de rojo pelo chão e feliz de rojar-se-lhe aos pés.
Miguel levou as mãos aos olhos julgando-se ludíbrio de uma visão, e deslumbrado foi seguindo a menina sem consciência do que fazia.
Não voltou Inhá a cabeça, mas tinha ela a certeza de que o moço a acompanhava enlevado pelo garbo de seu passo, como pelo flexuoso requebro de seu talhe donoso.
Dirigiu-se a menina a uma aberta, que havia entre o palmar e a mata e dava caminho para o prado. Também ela ia pressurosa ao encontro da amiga e camarada de infância, cuidando já encontrá-la no lugar emprazado, à sombra da figueira.
Ouvindo o apito de Afonso, deitou a correr; e Miguel despeitado com a sofreguidão que ela mostrara, deixou de responder ao camarada como costumava.
Chegou Berta à precinta do prado, justamente quando os dois irmãos iam desaparecer na vereda por onde tinham vindo.
- Linda!
- Ah! Berta! Eu não disse que ela vinha!
- Chegou agora, acudiu Afonso. Que dorminhoca!
- Hoje não quero graças com o senhor! replicou Berta comum sério petulante.
- Deveras! Pois estamos mal.
- Veio sozinha?
- Miguel aí vem; está se fazendo de rogado. Olhe!
Com efeito, Miguel apareceu da outra banda da esplanada.
- Quer campar de sério; mas aquilo é um maganão! Sonso como ele só; parece com certa pessoazinha que cá sei.
- Está bom, mano, eu lhe peço! balbuciou Linda acesa em rubores.
- Então Miguel, chegas ou não chegas? Queres um cavalo para a viagem. Aqui tens.
E o faceto rapaz apanhando um ramo seco, fez dele um cavalo de pau, e lá se foi galopando oferecer a montaria ao camarada.
- Sai! Não estou para brincadeiras, disse Miguel.
- Que têm você hoje? Chegam aqui ambos de nariz torcido... Acaso viram borboleta preta no caminho?
- Assim, Afonso, brigue com ele! exclamou Berta batendo com a mão direita fechada na palma da mão esquerda. Eu cá já estou contente; vi um passarinho verde!
- Mas vamos a saber, Miguel! Se é comigo que você está zangado, diga a razão. Que lhe fiz eu?
Tão franca era a fisionomia de Afonso ao proferir estas palavras, e tão cordial afeto ressumbrava de sua voz, que Miguel correu-se de seu injusto ressentimento contra o amigo, e de todo lhe desvaneceram no coração os ressaibos de ciúme, que o pungiam.
- Engano seu, Afonso. Não estou zangado com você. Vinha pensando em uma coisa desagradável, mas já se foi, respondeu Miguel com um sorriso de efusão, apertando comovido a mão do camarada.
- Ai! Ai! Cuido que houve sua briga entre os dois! Não lhe parece, Linda?
- Não sei; por que haviam de brigar?
- Pois eu lhe digo o que foi, acudiu Inhá. Miguel quis deixar-me no caminho e ir caçar!
- Ah! exclamou Linda, com um trêmulo na voz maviosa. Não queria vir!
- Mas era só para me fazer pirraça! tornou Inhá. E senão veja, Linda; como eu lhe disse que não me importava com isso e vinha mesmo, logo ele não falou mais em caça, e veio pescar seu peixãozinho!...
- Berta!... murmurou Linda puxando a manga do corpinho da amiga.
- Uma piabinha do rio, não é, Inhá? dissera Afonso de envolta com uma gargalhada gostosa, que Inhá acompanhava com os trilos argentinos de seu riso fresco e puro.
- Não sei de que estão a rir com tanto gosto, observou Miguel enleado, sem ânimo de erguer os olhos para Linda.
- Acham graça em uma coisa à toa.
Súbito no mato soou um grito bravio, e logo após a voz estranha, ao mesmo tempo saturada de dor e impregnada de sarcasmo, lançou em uma gama estridente este clamor incompreensível:
- Til!... Til!... Til!... Oh! Til!...
XII
IDÍLIOS
Eram freqüentes os encontros dos dois lindos pares de passeadores no Tanquinho.
Vinham semanas em que se repetiam todas as manhãs, a menos que as chuvas não permitissem, ou que Berta e Miguel fossem à casa das Palmas, o que sucedia regularmente aos domingos e dias de festa.
O amor, tão bonina dos prados, quanto rosa dos salões, quando o orvalham risos da mocidade; o amor puro e suave, como a cecém daquele prado, tinha já florido os corações que lhe respiravam pela manhã os agrestes perfumes.
Nem isto é mais segredo; e, pois, não se comete uma indiscrição em contar o que só não sabiam D. Ermelinda e seu marido.
Afonso, este namorava Berta às escâncaras, com o recacho e brinco próprios de seu gênio. Essa mesma sinceridade e desplante de seu afeto eram véu para ocultá-lo a olhos suspicazes. Quem o via sempre a gracejar com a menina, acreditava que isso não passava de travessura de moço folgazão sem tinta de malícia.
Linda, quando os olhos de Miguel pousavam-lhe na face, corava e sentia o tímido coração bater apressado. Não raro, o instinto de delicadeza que recebera de sua mãe, advertia-lhe da distância que separava dela o moço pobre e de mesquinha condição.
O amor, porém, é contagioso, com especialidade na solidão, onde a alma tem necessidade de uma companheira, e quando de todo não a encontra, divide-se ela própria para ser duas: uma, esperança; outra, saudade.
As confidências do irmão; as longas e constantes conversas a propósito do mesmo tema, sempre novo; os episódios singelos do idílio, arrufos ou encantadores segredos; essas asas fagueiras do amor roçavam a todo o instante o coração da moça e deixavam-no impregnado de ternura afetuosa. Entretanto Miguel não se apercebia disso. Acreditava sim, que Linda o tinha em estima por causa de Berta, e dispensava com ele o trato ameno e gentil, inspirado pela bondade d’alma e fina educação.
Assim, voltava ele à menina um respeitoso afeto, ungido pela gratidão que nele acendia as maneiras singelas e benévolas da moça; e também repassado da serena admiração de artista que sentia ao contemplar-lhe a peregrina beleza. Mas não lhe pulsava o coração com os ímpetos da paixão; nem a imagem graciosa de Linda flutuava nas cismas de sua fantasia.
A presença da moça produzia-lhe na alma certo refrangimento, embora de grata deferência; era como a palma do jeribá que fecha com os relentos da noite, e somente se engrinalda e brilha aos raios do sol.
Para Miguel os momentos de expansão e doce contentamento não eram tanto esses passados aí no Tanquinho, como os outros mais festivos e mais lembrados em que sós, Inhá e ele, atravessavam a várzea na ida e na volta.
De Berta, que direi? Com todos brincava; a todos queria bem, e sabia repartir-se de modo que dava a cada um seu quinhão de agrado. Em roda ferviam os ciúmes de muitos que a ansiavam só para si, e penavam-se de vê-la desejada e querida de tantos. Mas como um sorriso ela trocava tais zelos em extremos de dedicação, e o pleito já não era de quem mais recebesse carinho, e sim de quem mais daria em sacrifício.
O gracioso e ingênuo sorriso de seus lábios, era o mesmo, desfolhando beijocas na face de Linda, como zombando de Afonso ou ralhando com Miguel. Não fora o recato da educação, que ela seria muito capaz de fechar os olhos e à sorte lançar o beijo, como um pombinho, para qual dos três mais ligeiros o apanhasse.
Se D. Ermelinda soubesse das freqüentes entrevistas no Tanquinho e suspeitasse dos tácitos emprazamentos que se davam os camaradas, por certo já teriam eles cessado; pois não escaparia à inteligente senhora o perigo de expor o tenro coração de sua filha a uma paixão, bem possível senão provável de gerar-se dessa íntima convivência, que não perturbavam outras diversões próprias para ocupar o espírito de uma menina.
Na casa das Palmas, porém, ignorava-se o habitual encontro; não que o negassem Linda ou Afonso, ambos incapazes de uma mentira. Calavam-se; eis todo seu pecado. De volta do passeio, em família, falavam várias coisas que tinham feito ou observado; mas não tocavam em Berta e Miguel, ou faziam-no de longe.
Em Linda era pudor: quando o nome de Miguel lhe pruria o lábio, ainda não o tinha pronunciado, que sentia arderem-lhe as faces; e por isso o murmurava baixinho dentro do coração. Daí provinha que vendo Afonso o vexame da irmã, por sua parte sofreava nesse particular o seu gênio zombeteiro, e não tugia sobre as entrevistas no Tanquinho.
Quando D. Ermelinda e Galvão tomavam parte no passeio dos filhos, estes por um natural acanhamento não dirigiam a excursão para o sítio favorito; no que os ajudava o fazendeiro, mais solícito em mostrar à mulher a medra viçosa de sua lavoura, que lhe estava prometendo abundantes messes.
Caso alguma vez tomassem para aquele lado, Berta e Miguel pressentindo que os donos da fazenda haviam de reparar se os encontrassem ali, e avisados de longe pelas vozes, que repercutiam com sonoridade que lhe davam as abóbadas de verdura e os acidentes do terreno, retiravam-se antes que chegassem.
Eis como ignorava D. Ermelinda os idílios, que estavam compondo seus filhos, naquele sítio pitoresco, onde bebia-se o amor como um doce efúlvio da natureza. Tudo ali penetrava o coração de emoções deliciosas. Pelo aveludado daquela relva cintilante espreguiçava-se a imaginação, a sonhar o dossel de um divã. Os sussurros da brisa nos palmares segredavam os ruge-ruges das sedas; e o borborinho do arroio imitava o trilo de um riso fresco e argentino.
Quem estivesse nesse lugar a sós cuidaria que aproximava-se uma virgem mimosa, de fronte serena, olhar inspirado e fagueiro sorriso, perfumado de suave fragrância. Quem ali fosse com uma gentil companheira, acreditaria por certo que ela se transfundira nesse sítio nemoroso, como em um grêmio do amor; e nas auras embalsamadas sentira-lhe o mago sorriso a bafejar-lhe as faces; no lago dormente seus olhos límpidos a refletirem-lhe o céu de sua alma; nas hastes das palmeiras, seu talhe mil vezes esboçado com a mesma inata elegância; nas laçarias e festões de trepadeiras floridas, os folhos do amplo vestido; e na pelúcia da grama cambiante às depressões do terreno, a voluptuosa flexão das formas debuxadas pelo corpinho de verde cetim. Como era possível não amara naquela mansão, onde tudo cantava, sorria, palpitava e respirava amor?
A quem era dado abjurar nesse templo nupcial, onde celebrava-se o consórcio entre o vigor e a graça, o perfume e a harmonia, o majestoso e o esplêndido?
Himeneu eterno do vento com a floresta, do rio com a campina, do orvalho com a flor, do sol com a sombra, do céu com a terra.
XIII
SUSTO
Na primeira surpresa do grito inesperado, tiveram os companheiros de passeio um ligeiro sobressalto; mas rápido se desvaneceu.
Tornaram, pois, à conversa, indiferentes ao que passava daí distante; apenas Berta, separando-se do grupo, subiu a correr a assomada da colina, curiosa que estava de saber donde partira o clamor.
- Gosta muito de caçar? perguntou Linda com certo enleio a Miguel como se não o conhecesse de muito tempo a seus hábitos.
Mas quem não sabe que ternos segredos e confidências recônditas se insinuam muitas vezes em uma pergunta banal, feita por lábios amantes? Não estava porventura transpirando das palavras da moça um queixume pela preferência dada a uma distração que ela não partilhava?
- É um meio de passar o tempo, respondeu Miguel.
- Não lhe diverte mais ler? Mamãe deu-me um livro mui lindo, que eu acabei ontem. É a Cabana Indiana. Eu lhe... Mano podia emprestar-lhe.
- Já li; disse simplesmente Miguel.
- Não é tão bonito?
- Muito.
- Eu queria ter uma cabana assim, continuou Linda.
Miguel sorriu-se da inocente fantasia da moça, e ela, rasteando-se em seu espírito o fio daquele pensamento, sem aperceber-se de que podiam perscrutar-lhe o resto, voltou-se de novo para o moço.
- O senhor não deseja formar-se?
- Era o meu sonho! replicou Miguel vivamente; e logo retraindo-se ao habitual sossego:
- Mas para que pensar nisto?
- Mano vai no fim deste ano. Podiam ir juntos; seriam dois camaradas para se ajudarem.
- Para viver lá em São Paulo e lá estudar, é preciso ter dinheiro; e esse me falta, disse Miguel em tom de gracejo.
- Papai lhe empresta.
- Não duvido; mas o difícil é pedir-lhe eu.
- Por que razão?
De boa vontade, riu-se Miguel da insistência da menina:
- Quem nada tem de seu, não pede emprestado; salvo quando não pretende pagar.
- É verdade!
Miguel recobrara o bom humor que perdera um instante com os motejos de Berta; e divertia-se com os projetos que Linda formava a seu respeito. Não era ele desses que lançavam à conta dos ricos e fartos a culpa de sua pobreza, e se despeitam contra o mundo da ingratidão da fortuna. Aceitava sua condição como um fato natural e com certa filosofia prática, rara em mancebos.
- Pensando bem, é melhor assim, disse ele a Linda; se eu me formasse, teria ambições que não são para mim, e viria talvez a sofrer grandes dissabores; enquanto que ficando no meu canto, viverei tranqüilo junto daqueles a quem amo. Para que há de a gente afligir-se por coisas que não valem senão dissabores, como vejo tantos fazerem por aí?
Afonso tinha-se apartado, e dando volta ao outeiro preparava-se para pregar em Berta uma das peças costumadas. Já ele se esgueirava sorrateiramente entre a folhagem para tomar de surpresa a menina, quando esta que estivera a olhar na esplanada alguma coisa que lhe chamava a atenção, desceu a correr para a figueira e veio interromper o colóquio.
- Onde vai o sr. Galvão?
- Papai foi a Campinas, onde pretende se demorar alguns dias, respondeu Linda.
- Você não me disse nada.
- Só ontem ele resolveu e contra a vontade de mamãe que ficou tão assustada.
- Por que? perguntou Migue.
- Tem-se falado de esperas que andam fazendo aqui perto, e ontem apareceu junto da fazenda um homem muito mau.
- O bugre!
- Jão Fera? exclamou Miguel trocando um olhar com Inhá.
- Isso mesmo.
Berta cobriu-se de uma lividez mortal, e sua mão trêmula constringiu o seio como para reter o coração que lhe fugia.
- Eu também, prosseguiu Linda sem notar a perturbação da amiga, estou bem assustada. Não quis mostrar para não agoniar mamãe ainda mais do que ela estava; porém quando me lembro que papai tem de passar por esse lugar da Ave-Maria fico fria e toda trêmula.
- Ora menina, deixe-se de faniquitos, replicou Afonso a rir. Senão já chamo o tal Jão Fera para tirar-lhe o susto. É como se faz com as crianças, para não terem medo do calhambola.
- Esteja sossegada, que nada há de acontecer; eu lhe prometo! disse Miguel.
- Obrigada! Mas papai demorou-se muito. Para a hora que saiu já devia estar bem longe.
Fazendo este reparo dirigiu-se a Linda ai outeiro para observar o caminho. Miguel foi a seguindo, esforçando por manter-se de ânimo sereno a fim de não redobrar o susto da moça. Entretanto não deixava ele de estar inquieto e impressionado, recordando-se do encontro que tivera há pouco tempo com o feroz capanga, e sobre o qual julgara prudente calar-se.
- Agora é que passou a ponte! acudiu Linda com a satisfação de ver o pai, e a preocupação do motivo daquela demora.
Ela não sabia do incidente da volta por causa das amostras; mas era ele tão natural que ocorreu a Miguel.
- Talvez tivesse esquecido alguma coisa.
- Há de ser isso. Vamos, mano, que são horas.
- Onde está Berta? perguntou Afonso que a procurava desde alguns instantes.
- Escondeu-se conforme o costume para fazer tutu! respondeu Miguel.
- Berta! chamou Linda.
- Aqui não está. Já corri tudo.
- Dê lembranças a ela, Miguel; não posso esperar; já é tarde.
- Aí adiante a encontra de emboscada no caminho, Linda.
- Se eu a pilho! disse o Afonso apertando a mão de Miguel.
Os dois irmãos atravessaram a capoeira, espreitando por entre as folhas, mas não viram sombra de Berta.
Nesse momento soou de novo o mesmo estranho clamor que antes se ouvira; mas desta vez gania a voz com tal ímpeto e frenesi que estrangulava-se.
- Til! Til! Til...
Na roça estavam os pretos no eito, estendidos em duas filas, e no manejo da enxada batiam a cadência de um canto monótono, com que amenizavam o trabalho:
Do pique daquele morro
Vem descendo um cavaleiro
Oh! Gentes, pois não verão
Este sapo num sendeiro?
Adubavam o mote com uma descomposta risada e logo após soltavam um riso gutural:
- Pxu! Pxu!
Tem os pretos o costume de entressacharem nas toadas habituais, seus improvisos, que muitas vezes encerram epigramas e alusões. Bem desconfiavam, pois, o feitor de que a tal cantiga bulia com ele, e o sapo não era outro senão um certo sujeito bojudo e roliço, de seu íntimo conhecimento; mas fingia-se despercebido da coisa.
Quando passaram os dois irmãos, a um sinal da cabeça de eito, os pretos fizeram um floreio de enxadas, suspendendo-as ao ar com a mão esquerda, e com a direita pediram a benção.
XIV
A VESPA
Onde sumira-se Berta, que não a descobria Miguel já cansado e aborrecido de a procurar por quanta moita e sebe ali havia?
Ouvindo Linda falar dos sustos de D. Ermelinda a propósito da viagem de Luís Galvão, sofrera a menina um choque violento, que redobrou quando foi proferido o nome de Jão Fera, o terrível capanga, a quem poucos momentos antes encontrara, e do qual se contavam coisas inauditas.
No olhar que relanceou-lhe Miguel, avivaram-se as palavras que recentemente haviam escapado ao moço, quando falava das desgraças que sempre acompanhavam o aparecimento daquele homem sinistro em qualquer lugar.
É verdade que muitas vezes, como confessara a Miguel dissuadindo-o de tais idéias, costumava ela encontrá-lo naquelas mesmas paragens, durante as longas excursões que fazia pelos campos. Mas, recordando-se do aspecto e modo com que nessas ocasiões lhe aparecia Jão, reconheceu que nessa manhã trazia o capanga no vulto e no semblante o que quer que fosse de soturno e ameaçador.
- Nos outros dias, parecia-me tão bom e humilde. Custava-me a crer todo o mal que dizem dele; e até as vezes dava-me na vontade perguntar-lhe se era verdade. Mas tinha pena dele. Havia de afligi-lo muito. São coisas ruins as que por aí contam. Meu Deus! É possível que se mate gente assim com tamanha barbaridade?... Aquela cara amarrada que ele tinha hoje; e os olhos fundos, e os modos arrebatados... Bem se via que levava uma maldade no pensamento. E para que nos veio seguindo por dentro do mato até junto da tronqueira, e depois sumiu-se para a banda da Ave-Maria, de que Linda falou há pouco, e por onde o sr. Galvão não tarda a passar?... Ah! o coração me diz: Ele está na tocaia, e é para o sr. Galvão mesmo!
Estas reflexões tumultuavam no espírito de Berta, que rompia o mato, fustigando o rosto pelos ramos das árvores e magoadas as mãos em partir as enrediças.
Ao recobrar-se do soçobro que tivera, escutando as palavras de Linda, ela afastara-se a pretexto de subir de novo o outeiro, e certificar-se da altura em que iam os viajantes. Descendo porém rapidamente a outra encosta, penetrou na floresta e desapareceu, antes que pudesse o Afonso já à cata, seguir-lhe a pista.
Valia a Berta conhecer perfeitamente o sítio, que muitas vezes antes percorrera com Miguel. A Ave-Maria ficava muito perto dali, para quem atalhava o caminho, levando rumo direto por entre a brenha e ao longo do costão que alombava o penhasco até a azinhaga. Uma vereda havia que serpejava pelo dorso do espigão e saía no tope da garganta.
A estrada principal da fazenda, por onde seguira Galvão, descrevia uma larga curva contornando as terras a que servia de extrema, e vinha passar em pequena distância à direita do Tanquinho, cerca de uma milha da casa das Palmas, situada no recosto da esplanada.
Calculou Berta portanto que tinha sobre o viajante um grande avanço e podia alcançar antes dele a azinhaga, para certificar-se de que a passara incólume, ou para salvá-lo de qualquer modo, que a menina não podia imaginar.
Para isso, porém, era indispensável que o mato não lhe tolhesse o passo nem embaraçasse a carreira; e pois buscava ela descobrir o trilho no alto do espigão.
Não pode achá-lo. A perturbação em que a deixara em choque, aumentada com a convicção de estar Jão na tocaia, lhe roubara a calma necessária para orientar-se no meio daquele dédalo inextricável, tecido pelas guitas dos cipós e vergônteas das árvores.
De súbito estremeceu ela, ouvindo estalar os ramos com violência despedaçados, farfalhar a folhagem rudemente agitada e reboar nas abóbadas da floresta o estrupido de um passo duro e pesado.
Gente ou bruto, o que era, rompia pela mata abrindo passagem a rápida carreira, que não encontrava obstáculo para detê-lo.
Dir-se-ia a disparada de uma anta, se não fosse uma certa ondulação do rumor que indicava não levar a corrido alvo certo, mas desviar-se para um e outro lado, fazendo voltas, como se a dirigisse uma vontade, perplexa no rumo, embora impetuosa na investida.
Parando para concentrar um momento a atenção convenceu-se a menina que a seguiam; e sua fronte decidida vibrou um gesto de soberba contrariedade. Chamando a si toda a energia de seu caráter e todas as forças de sua fina têmpera, Berta de novo arremessou-se, e rompeu o mato com o desespero de escapar à perseguição.
Infelizmente, quando ela supunha ter ganho vantagem, caiu em uma sebe emaranhada; e aí ficou enleada pelas meadas de enrediças que fazia entre os galhos das árvores um tecido de folhagem. Debalde tentou a menina desvencilhar-se; cada vez mais se prendia.
Entretanto se aproximava dela rapidamente o som da outra corrida, e não tardaria muito que chegasse ali.
Ocorreu então a Berta uma idéia, encolhendo-se dentro do esconderijo, que lhe deparara tão propício acaso, quedou-se à espera, sem rumor, cortando sutil com os dentes as cordas dos cipós que a enleavam.
Chegou enfim a corrida e passou como um turbilhão cerca de duas braças do lugar onde ela estava sem que se pudesse distinguir mais do que um vulto pardo, que bruxuleou entre o maciço da folhagem. Algum tempo aquele tropel serpejou cerca, até que perdeu-se na distância.
Surdiu Berta do esconderijo, onde aproveitara o tempo, não só a destrinçar a teia que a envolvia, como a coligir as vagas lembranças daqueles sítios. Lá não muito longe, vira ela sob as crastas de verdura descarnar-se o rochedo; a vereda passava por cima.
Caindo em fim no treito, precipitou a corrida, e de um fôlego chegou à brenha da azinhaga. Aí hesitou um instante. Em que ponto do despenhadeiro estaria de emboscada o capanga? Onde e como descobri-lo? Chegaria a tempo? Não seria frustrada a louca esperança que a trouxera?
A cada momento parecia-lhe que estourava o bacamarte, ali talvez bem perto dela; e que todo seu impetuoso afã não lhe servira senão para ser testemunha de uma atrocidade infame: o assistir aos últimos arrancos do fazendeiro, a quem viera salvar.
Nisto soou rumor do lado das Palmas. Já o estrupido reboava nas lôbregas socavas, sinal de que os animais pisavam a chapada que servia de respaldo à entrada do despenhadeiro. Era Luís Galvão, não podia ser outro.
Cega, desvairada, a menina quis arrojar-se naquela direção para fazer parar o viajante e impedir-lhe que passasse. Mas diante dela abria-se um barranco profundo. Lançando olhos ansiados em torno, lobrigou entre a folhagem um vulto negro; e ficou hirta. Reconhecera a camisa de baetão preto que trazia naquela manhã Jão Fera; e a um movimento de cabeça vira o colo musculoso distender-se como serpente.
Era, com efeito, o capanga, que, advertido pelo tropel dos animais, espreitava, com a faca apunhada, o momento de arrojar-se à frente.
Como dissera Luís Galvão ao almoço, o bugre não feria de emboscada; lutava de rosto, e corpo a corpo, barateando a vida. O bacamarte descansava encostado ao tronco; e o chapéu caído ao chão, deixava em pleno ar a cabeça revolta, que fervia-lhe com o jorro de sangue arremessado pela sanha a subverter-lhe o coração.
Aproximava-se Luís Galvão; e Berta presa de um espasmo de horror, que lhe sufocara a voz e crispara o corpo, não podia soltar um grito, nem dar um passo para preveni-lo.
Chegara o fatal momento.
Colhendo o lombo como o tigre para distender o salto, Jão Fera arrancou. A nuca, porém, lhe vergara contra os ombros, ao impulso de mão invisível que lhe travara os cabelos. Ao mesmo tempo soava-lhe ao ouvido uma palavra soturna, mas carregada de cólera e desprezo:
- Malvado!...
O capanga voltou-se rápido e feroz como o tigre picado pela vespa. Estava em face de Berta.
XV
O RELICÁRIO
Era medonha a catadura de Jão Fera quando voltou-se.
A fauce hiante do tigre, sedento de sangue, ou a língua bífida da cascavel, a silvar, não respirava a sanha e ferocidade que desprendia-se daquela fisionomia intumescida pela fúria.
Berta, ao primeiro relance, sentiu-se transida de horror; e o impulso foi precipitar-se, fugir, escapar a essa visão que a espavoria. Reagiu, porém, a altivez de sua alma e a fé que a inspirava.
Travando as mãos ambas um galho que encontraram acaso atrás da cintura, e crispados os braços como duas molas de aço brandidas, conseguiu manter-se com o talhe ereto e a fronte sobranceira, arrostando em face aquela rábia formidável, que terrificaria ao mais bravo.
Jão Fera, reconhecendo a menina através da nuvem de sangue que lhe inflamava o olhar, e vendo-a afrontar-lhe os ímpetos, não abateu logo de todo o fero senho, mas foi-se aplacando a pouco e pouco. A ira que se arrojava do seu aspecto, retraiu-se e de novo afundou pelas rugas do semblante, como a pantera que recolhe à jaula, rangendo os dentes.
Sua alma se impregnava do fluido luminoso dos olhos de Berta, e ele sentia-se trespassado pelo desprezo que vertia no sorriso acerbo esse coração nobre e puro, sublevado pela indignação. De repente começaram a tremer-lhe os músculos da face, como os ramos do pinheiro percutidos pela borrasca; e as pálpebras caíram-lhe, vendando-lhe a pupila ardente e rúbida.
- Estavas aqui para matar alguém? perguntou a menina com um timbre de voz, semelhante ao ringir do vidro.
Respondeu o capanga com uma palavra, que em vez de sair-lhe dos lábios, aprofundou-se pelo vasto peito a rugir como se penetrasse em um antro.
- Estava.
- Que mal te fez essa pessoa?
- Nenhum.
- E ias assassiná-la?
- Pagaram-me.
- Então, matas por dinheiro? perguntou Berta com a veêmencia do horror, que lhe causava essa torpe exploração do crime.
- É meu ofício! disse Jão Fera com uma voz calma, ainda que grave e triste.
- E não te envergonhas?
Com um assomo de soberba indignação foram proferidas estas palavras pela menina cujo olhar vibrante flagelava as faces do sicário. Este erguera a fronte num ímpeto de revolta, pungidos os brios pela humilhação:
- Envergonhar-me de que? Não feri, nunca feri homem algum de emboscada, às ocultas, a meu salvo. Ataco de frente, a peito descoberto. Se mato é porque sou mais valente e mais forte; mas arrisco minha vida, e umas quantas vezes, bem mais do que esses a quem despacho, pois sou um só contra muitos.
- Que importa isso? A miséria está em venderes a vida de teu semelhante, se acaso és tu homem e não fera como te chamam.
Um riso de ironia feroz arregaçou o lábio do capanga.
- E a vida é coisa que não se venda? Aí estão comprando-a todos os dias e até roubando. A minha, não a queriam, quando me recrutaram? Foi preciso barganhar por outra, senão lá ia acabar em alguma enxovia.
- Assim não te causa a menor repugnância derramar o sangue de teus semelhantes em troca de alguns vinténs?
- Sangue de gente, ou sangue de onça, todo é um; tem a mesma cor, e a mesma maldade. Já estou acostumado com ele. Sente-se a fumaça do churrasco. Eu gosto! Disse o sicário dilatando as narinas, como se esquisito aroma lhe prurisse o olfato.
- Tu és um monstro! disse Berta afinal com uma explosão de horror. Quando te pintavam como um assassino, autor dos maiores crimes e capaz de cometer toda a espécie de atrocidade, eu não queria crer; porque duvidava que um homem pudesse transformar-se em um tigre carniceiro; e também porque tantas vezes te vi tão sossegado e cuidados comigo, e eu não podia imaginar que se pudesse ter esse rosto bom e tranqüilo, tendo-se dentro do coração uma caninana.
A estas últimas palavras, em que a voz da menina sombreara-se com uma entonação afetuosa, o corpo robusto do capanga oscilou com íntima e rija vibração, como o prócero ibiratã quando a seiva exuberante irrompe lascando-lhe o tronco. Na expansão violenta de sua alma, arrojava-se ele aos pés de Berta e ia cair-lhe de joelhos, quando um olhar embaciado e glacial o reteve ofegante e esmagado:
- Agora creio em tudo no que me disseram, e no que se pode imaginar de mais horrível. Que assassines por paga a quem não te fez mal, que por vingança pratiques crueldades que espantam, eu concebo; és como a suçuarana, que às vezes mata para estancar a sede, e outras por desfastio entra na mangueira e estraçalha tudo. Mas que te vendas para assassinar o filho de teu benfeitor, daquele em cuja casa foste criado, o homem de quem recebeste o sustento; eis o que não se compreende; porque até as feras lembram-se do benefício que se lhes fez, e tem um faro para conhecerem o amigo que as salvou.
- Também eu tenho, pois aprendi com elas; respondeu o bugre; e sei me sacrificar por aqueles que me querem. Não me torno, porém, escravo de um homem, que nasceu rico, por causa das sobras que me atirava, como atiraria a qualquer outro, ou a seu negro. Não foi por mim que ele fez isso; mas para mostrar ou por vergonha de enxotar de sua casa a um pobre diabo. A terra nos dá de comer a todos e ninguém se morre por ela.
- Para ti, portanto, não há gratidão?
- Não sei o que é; demais, Galvão já pôs-me quites dessa dívida da farinha que lhe comi. Estamos de contas justas! Acrescentou Jão Fera com um suspiro profundo. Assim não era por ele que eu o queria poupar; mas por outra pessoa.
O capanga quis fitar na menina a pupila ardente; mas não teve forças de erguer o olhar, que pesava-lhe como uma trave e abatia-se no chão:
- Foi por mecê, disse a voz submissa.
- Por mim? Por mim; e entretanto estavas aqui; e ias matá-lo?
- Quando ajustei, não sabia e gastei o dinheiro. Agora não tenho para restituir...
- Pois eu não quero, ouves, não quero que lhe toques!
Jão Fera estremeceu:
- Empenhei minha palavra! disse o capanga inflexível como a fatalidade.
- Desempenha!
- Se pudesse! exclamou Jão com o acento do desespero, e concluiu sucumbido:
- Não tenho quarenta mil réis!
Um riso estridente de cólera escarninha agitou o lábio de Berta.
- Dinheiro? Por que não o roubas? Tens vexame? Um assassino que farta-se de sangue, com o escrúpulo de meter a mão na bolsa alheia. Ah! Ah! Ah!...
A tortura que sofria Jão Fera não se descreve. Foi com a voz estrangulada por dores cruentas que ele balbuciou:
- Jão Bugre é um homem de honra!
- Ah! és um homem de honra! Pois então vai, corre! Aquele que escapaste de assassinar te dará de esmola o preço por que ajustaste sua morte, como te deu outrora o pão com que matavas a fome!
Ante este último e pungente sarcasmo o capanga sucumbiu, desfigurando-se horrivelmente. Nas crispações do rosto, como nos espasmos das pupilas, sentiam-se as vascas da convulsão que laborava aquela alma.
- Jura que o respeitarás!
- Não posso! murmurou o capanga com um arranco.
- Jura!
- Minha palavra!...
Era tal a angústia dessa voz soluçante, arquejada por uma ânsia do coração, e tamanha desolação cobria aquela organização possante e indômita, agora esmagada sob a mão frágil de uma criança, que Berta comoveu-se profundamente.
- Toma, vende e desempenha a tua palavra!
E estendeu-lhe a mão com o cordão de outro que tirara do pescoço e ao qual estava preso o amuleto e a cruz.
- O que! disse Jão abaixando a cabeça para distinguir o objeto, tão cedo estava da agonia daquele transe.
- O relicário de minha mãe!
Estalou com um grito horrível e bravio o peito de Jão Fera, que arremessando-se longe, desapareceu nas brenhas.
Foi o tempo em que pela rampa do barranco despenhava-se um corpo humano, que veio cair estrebuchando aos pés da menina, com a gorja a estertorar e os dentes a ranger.
Berta o reconheceu.
Era Brás, o idiota.
XVI
A SURA
Na entrada do vale, onde assenta a freguesia de Santa Bárbara, via-se outrora à margem do Piracicaba, encontra o rio, um velho casebre.
Era uma antiga construção de taipa; e mostrava com pouca diferença o aspecto comum às habitações medianas que, naquela parte da província de São Paulo, se encontram de espaço em espaço pela beira do caminho e à distância dos arraiais e povoados.
A porta de entrada ficava no meio entre duas janelas estreitas em vez de vidro. Tanto as portadas, como as folhas, estavam cobertas de uma pintura cor de ferrugem, que destacava na parede da frente, branquejada com tabatinga.
A um lado da casa cresciam umas encarquilhadas laranjeiras da China e um pessegueiro; no outro havia canteiros, onde espigavam no meio da ervagem couves gigantes, já com pretensões a arbustos, de tão velhas que eram.
Mais longe, no gramado se erguia um frondoso pau-ferro, a cuja sombra costumavam se abrigar da calma, durante a sesta, um cavalo magro, uma vaca e alguns bacorinhos, que levavam o resto do dia a roer o capim já tosado até a raiz.
Mediavam três dias depois que Berta salvara a vida a Luís Galvão, retendo o ímpeto de Jão Fera.
Amanhecera de pouco. Estava um dia de inverno frio e brumoso. Forte cerração cobria o vale, condensando-se ao longo do rio. A trechos, grossos borbotões de neblina mais espessa desdobravam-se do viso dos montes ao sopro da viração, e rolavam como vagas por esse mar de névoas.
Vistas através do véu, as árvores tomavam um aspecto pavoroso e fantástico, e às vezes figuravam os espectros, de que a abusão povoa os ermos, a fugirem espancados com os primeiros albores do dia.
Abriu-se a porta que dava para a varanda, corrida nos fundos da casa, e assomou o vulto gentil e esbelto de uma moçoila que trazia ao braço um saco de chita. Apesar da cerração, era fácil de conhecer Berta, pela garridice petulante dos gestos e meneios.
Aos saltinhos, ganhou a menina o quintal onde havia um pequeno jardim, se tal nome cabe a moitas de roseiras, manjericão e malmequeres plantados de mistura e sem arte dentro de um cercado de varas, entre as quais estavam suspensos alguns cacos de barro com pés de craveiros.
Apenas afastou Berta a faxina que servia de porta ao cercado, saiu debaixo de sua palhoça uma galinha sura e muito arrepiada. Não tinha pés a pobre, que lhos havia roído à noite os ratos; andavam aos trancos, sobre os cotos que mal a ajudavam a saltar, e incapazes de sustê-la, a deixavam cair a cada passo, cobrindo-a de terra, o que a fazia mais feia ainda.
Tanto que a avistou, correu a menina a seu encontro e tomando-a ao colo, deu-lhe a comer um punhado de milho que tirou do saco. Farta a galinha da sua pitança, levou-a Berta à bica, para matar-lhe a sede e lavar-lhe as penas sujas de poeira e cisco.
Depois que assim desvelou-se em pensar a pobre ave, dando-lhe nutrição e asseio, a menina deitou numa palhoça, que a seu rogo fizera Miguel num canto do cercado, para abrigo de sua protegida.
Nos gestos de Berta, durante esses cuidados, já não se notava a travessa alacridade que cintilava de ordinário em seus movimentos; e era, pode-se bem dizer, a radiação de seu gênio. Sua graça então era séria; havia em seu lindo semblante uma serena efusão da ternura que fluía-lhe dos olhos meio vendados e dos lábios descerrados por um riso gentil.
Bem se conhecia, ao vê-la embebida naquela ocupação, que não havia aí para ela unicamente o atrativo de uma afeição de criança, como todos na meninice sentimos, uns pelas bonecas, outros pelos cães ou passarinhos. Impulso mais forte era o que movia o coração de Berta para aquele mísero ente, como para todo o infortúnio que encontrava em seu caminho.
Ninguém na casa se importava com essa galinha, a não ser para fazer-lhe mal. Antes de perder os pés, por ser feia e arisca perseguiam-na a pedradas, quando aparecia no quintal. Depois que a roeu a ratazana, esteve ameaçada da panela, donde a salvou Berta, que desde esse dia a tomou a seu cuidado.
Daí em diante, não houve mais quem bolisse com a sura; porque sabiam que não o sofreria sua linda protetora. E como todos queriam a Berta de coração, o ponto era mostrar ela predileção por alguma pessoa, ou mesmo objeto, que porfiavam por lhe adivinharem os pensamentos.
Tendo acomodado a galinha na sua capoeira coberta de palhas e mudado a água do caco, a menina que derramara pelo chão um punhado de milho e couve, entreteve-se alguns instantes a ver suas flores, umas já de véspera abertas, outras botão como ela, esperando o primeiro raio de sol para desabrocham.
Entre eles, colheu um de rosa que entrelaçou nos cabelos; e deixando o quintal, sem demorar-se com as outras galinhas que a cercavam cacarejando, e às quais atirou de passagem o resto do milho, ganhou o campo.
Estendia-se este com pequenas ondulações até a margem do rio, que ficava a umas cem braças da casa. Entre as pitas e crautás, que formavam touças aqui e ali, em torno de algum arvoredo, serpejavam trilhos, cruzando-se em várias direções.
Seguiu Berta por aquele que estendia-se na direção do rio. Não tinha, porém, dado vinte passos, que voltou-se rapidamente, ouvindo rumor da porta da varanda que outra vez se abria.
Por entre a folhagem e através da neblina viu ela o vulto de Miguel, que parara no quintal, volvendo o rosto de um a outro lado, como indeciso no rumo que devia tomar. Adivinhou logo a menina que o rapaz lhe percebera a saída e vinha disposto a acompanhá-la.
Ocultou-se então em uma das touceiras, que embastiam as cortinas de erva-de-passarinho, pendentes das ramas de uma velha laranjeira do mato. Daí observou Miguel, o qual depois de vagar um instante perplexo pelo campo, meteu-se pela vereda paralela ao rio, e pouco depois desapareceu por detrás de uma ponta de capoeira.
Continuou então Berta o seu caminho; mas receosa de que o rapaz a estivesse espreitando ou voltasse de repente, ora avançava trêmula de susto, hesitando a cada passo e de chofre escondendo-se atrás das árvores, ora disparava a correr para encobrir-se no mato que bordava o sopé da colina.
XVII
ZANA
Ao passar pela garganta de dois outeiros pedregosos, que formavam abraçando-se uma estreita e úmida charneca, Berta bateu com força as palmas das mãos breves e delicadas.
Ouvia-se de perto um ornejo soturno, que mais parecia gemido; e logo depois surdiu dentre o maciço da folhagem a enorme orelha de um burro, que a muito custo movia o passo trôpego. De magreza extrema, ressaltavam os ossos a modo que pareciam prestes a furar-lhe o couro. Era propriamente uma carcaça, coberta com espessa crosta de lama, onde o animal estivera deitado e lhe secara no pelo.
A outra orelha, que aparecia, a perdera ele na mesma ocasião em que de uma foiçada lhe vazaram o olho esquerdo, levando-lhe boa parte da cabeça. Parece que o arteiro do burro conseguira furar a cerca da roça de um caipira, e regalava-se de milho verde e tenra fava. Mas saiu-lhe cara a gulodice.
No mísero estado em que o pusera o caipira, pode, arrastando-se, chegar àquela charneca, onde se deitou, quase moribundo, em um brejal. Com pouco os urubus vieram pousar nas ramas da imbaúba.
Acaso passou Berta pelo caminho e ouvindo gemidos, foi guiada pelos abutres, dar com o animal agonizante no meio de uma touça de junça. Movida de compaixão, venceu a natural repugnância que lhe devia causar o aspecto da ferida para lavá-la e cobrir com folhas de fumo atadas por embira.
Do fumo sempre ouvira falar como remédio para todos os achaques. Se não servisse para ferimentos, em todo o caso guardava o talho contra as moscas e tavões.
Repetiram-se estes cuidados, até que afinal começou a ferida a cicatrizar; mas deixara o burro em tal lazeira, que ainda era duvidoso se escaparia. Não desanimou Berta, em cuja alma se produziam na maior efervescência os transportes dessas abnegações veementes, que são para certas naturezas uma necessidade irresistível de expansão.
- Coitado do cotó! Ainda está muito magricela?... disse a menina com um carinho compassivo.
E tirou do saco meia dúzia de espigas de milho, que o animal devorou com uma gana de convalescência.
Debulhado o último sabugo, farejou o burro o saco, donde se escapavam umas exalações que lhe pruiam agradavelmente o olfato.
Rindo, outra vez meteu Berta a mão no seu inesgotável saco e trouxe um punhado de farinha que o burro lambeu-lhe das palmas. Dando então um ligeiro tapa na belfa do animal, deitou a correr pelo campo fora seguindo a mesma vereda.
Atrás de um fraguedo, cuja fralda atravessava o leito do rio, abrolhando-lhe a corrente, existia naquele tempo uma casa em ruína. Já tinha desabado metade da parede do sótão e o telhado abatia aos poucos, rompendo os caibros podres.
Da cozinha, que ainda se conservava em bom estado, com exceção da porta já tombada ao chão pela ferrugem das dobradiças, saía um som roufenho e soturno, como o grunhido de um porco. Acocorada a um canto, com o queixo sobre os cotovelos fincados ao peito cerrando a cara, descobria-se uma criatura humana, dobrada sobre si a modo de trouxa.
Era uma preta velha, coberta apenas de uma tanga de andrajos, e que resmoneava, batendo a cabeça com um movimento oscilatório semelhante ao do calangro. De tempo em tempo desdobrava um dos braços descarnados, insinuava ligeiramente a mão pela espádua, e fazia menção de matar uma pulga que imaginava ter presa entre o polegar e o indicador.
Havia algum tempo já que Berta parara à porta da cozinha, sem que a estranha criatura desse o menor sinal de a ter percebido.
- Zana! disse afinal a menina.
Estremeceu a negra, e pôs-se a escuta daquela voz, como se viesse de longe, de bem longe, e só mui de leve lhe ferisse as ouças. Não se repetindo o chamado, voltou à primeira posição e continuou a resmonear, abanar a cabeça coberta de uma carapinha grisalha da cor de lã churra do carneiro.
Entretanto Berta aproximou-se de uma prateleira que havia na parede, junto ao fogão, para esvaziar ali o resto do saco. No velho alguidar esborcinado, deitou a farinha de milho; e sobre a tábua algum feijão e torresmos de carne de porco, embrulhados em folhas de couves.
Recostando-se então à aba da prateleira, a menina com os olhos fitos na preta começou em um tom brando e suavíssimo a repetir este acalanto:
Cala a boca, anda, nhazinha,
Ai-huê, lê-lê!
Senão olha, canhambola,
Ai-huê, lê-lê!
Vem cá mesmo, Pai Zumbi,
Toma, papanha Bebê!
À proporção que a menina cantava, à preta desrugava-se o rosto contraído por um espasmo, que lhe deixara impressa no semblante alguma profunda angústia. Uma vaga expressão de sorriso chegou a iluminar aquela fisionomia bruta e repulsiva. Os olhos pouco antes baços e quase extintos desferiram um lampejo, e vagando um instante pelo aposento, se fixaram enfim no vulto de Berta.
- Bebê!... regougaram os grossos beiços da negra com uma voz que não parecia humana, embora repassada de extrema doçura.
Depois arrancou do peito cavernoso a mesma toada do acalanto, cujas palavras truncava por forma que somente se percebia delas a sonância confusa e estranha. Dir-se-ia que ela cantava em algum dialeto africano, tão bárbara era a pronúncia com que se exprimia.
Entretanto fora dela mesma que Berta aprendera a cantilena por tê-la ouvido repetir muitas vezes. Imagine-se que esforço de paciência e atenção não fora necessário à menina para decifrar entre os sons ignotos e quase inarticulados, as palavras da cantiga, que ela dantes nunca ouvira.
Mas a pobre louca era uma das misérias sobre que se derramava como bálsamo a alma de Berta. Desde criança se habituara a passar aí algumas horas, de quando em vez; tornando-se moça vinha regularmente duas vezes por semana visitar a sua protegida e trazer-lhe o sustento.
Esperou Berta com a maior paciência que Zana acabasse de cantar; e então mostrando-lhe as provisões conseguiu que ela comesse alguns bocados dados por sua mão. Para que a doida abrisse a boca, porém, era necessário que a menina estivesse a repetir de momento a momento duas palavras que pronunciadas por sua voz carinhosa produziam sobre esse espírito enfermo um efeito mágico.
- Zana, bebê!...
XVIII
A VISÃO
Sentara-se Berta na soleira da porta da cozinha, e com a vergôntea que partira do galho seco de um marmeleiro, traçava letras no chão do quintal.
Eram iniciais de nomes, que ela tinha no coração ou na memória; e naquele momento de cisma lhe acudiam de envolta com as recordações de sua modesta existência, à qual estavam entrelaçadas.
De instante a instante, voltava o rosto para observar Zana, que já completamente alheia e despercebida de sua presença, continuava a menear a cabeça com a mesma incompreensível surdina; ou arrancava da taipa um torrão de barro, que mastigava com avidez.
Nessas ocasiões fitava Berta os olhos em uma réstia de sol, que, penetrando pela fresta praticada no alto da parede exterior, cortava obliquamente o aposento com uma faixa de luz. O raio esbatido na taipa do fundo se inclinava gradualmente com a elevação do sol no horizonte, e descia vertical sobre o canto onde se acocorava habitualmente a louca.
A folhada crepitou com um estalido cadente, que indicava passo de homem ou animal a caminhar por entre o matagal que cercava as ruínas e ameaçava afogá-las sob a basta ramada.
Olhava a menina assustada para o lado de onde viera o rumor, quando na balsa fronteira lobrigou um vulto pardo que resvalava por detrás do tapigo, e cujo ofego sussurrava entre as folhas.
Ligeira escondeu-se Berta na cozinha, e por uma fenda que havia no aposento próximo, outrora dispensa, espreitou o circuito. Mas um incidente a distraiu desse propósito, chamando sua atenção para o interior.
A réstia de sol, descendo, batera na cabeça de Zana, que se ergueu esfregando os olhos, e aproximou-se do fogão. Agachada em frente ao bueiro, começou a soprar, como se houvesse ali nas grelhas algum brasido coberto pelo borralho; entretanto o tijolo gretado, que servia de lareira, já não conservava nem restos de cinzas.
Depois de algum tempo empregado na quimérica operação de acender um fogo ausente, a louca foi à prateleira buscar uns cacos de telha, que se lhe afiguravam panelas ou frigideiras; e fez menção de lavar o trem de cozinha, para preparar a comida.
Em meio dessa ocupação, de chofre voltou ela a cabeça, aplicando o ouvido, à guisa de quem escuta um chamado, e para acudir arrancou do peito um grito áspero e gutural:
- Inhá!...
Imediatamente deixou o fogão, depois de por os testos às panelas, e dirigiu-se pelo corredor à sala da frente, donde passou à alcova próxima. Não havia aí ninguém; as paredes esboroavam-se; o teto de fasquias de taquara caía aos pedaços, e as tábuas do soalho rangiam sobre os barrotes carcomidos.
Zana tinha parado junto à porta, em atitude de escutar outra pessoa, que por ventura ali estivesse a falar-lhe. Os gestos rudes, mas expressivos; os esgares vivos e rápidos, que lhe cambiavam a móbil fisionomia, indício eram das impressões encontradas que abalavam esse espírito embotado.
Seguira Berta com ansiosa atenção os passos da louca, decorando seus menores movimentos e observando-lhe amiúde a expressão do rosto. Cosida a ela como a sombra ao corpo, roçando-a muitas vezes a seu pesar, ou bafejando-lhe o rosto com o hálito, quando acaso se inclinava para espiar-lhe o semblante, nem assim Zana dava fé de sua presença.
Desde algum tempo, em uma de suas visitas, reparou Berta na singular mímica da doida, e de princípio não viu nisso mais do que um efeito natural da loucura. Mais tarde, porém, notando a insistência com que a negra repetia os mesmos movimentos, e ordem em que eles se sucediam, suspeitou a menina um mistério.
Não seria essa pantomima a representação muda de uma cena que ali, naquela casa em ruínas, passara outrora, e abalara a alma da negra a ponto de a subverter e alucinar?
Assim como dizem que a pupila conserva a imagem da última visão, não sucederá o mesmo com o espírito, e não ficará nele gravado, como em estereótipo, o quadro que iluminaram os últimos clarões da razão extinta?
Foi este pensamento de Berta, que, atraída pelo encanto desse mistério, empenhou-se em perscrutar esse ermo onde jazia no seio de uma casa e de uma consciência, ambas em ruínas, o arcano impenetrável.
De tantas vezes que assistira àquele esboço rude e taciturno de uma tragédia ignota, já conhecia Berta de todos os seus episódios e incidentes, que mais tarde ela reproduzia de memória com o afã de penetrar-lhes o sentido oculto.
Até o momento em que Zana entrava na alcova, era fácil de compreender o fato que a reminiscência da doida retraçava tão ao vivo.
A preta, que era naturalmente a cozinheira da casa, despertada pelo sol, do costumado cochilo, acendera o fogo e preparava o almoço, quando ouviu chamarem-na do interior. Deixou a ocupação, e acudiu alguém, que estava na alcova.
Aí ouviu assustada e com espanto o que lhe dizia essa pessoa, e, achegando-se à janela na ponta dos pés, enfiou os olhos na direção que lhe fora indicada. Assim permaneceu algum tempo, até que recuou espavorida, com a máscara do terror no semblante e os ossos dos joelhos a estalarem, batendo um contra o outro.
O que vira ela?
Não pudera a menina atinar ainda, nem com a explicação desse terror, nem com o resto da história, que de mais se complicava.
No meio do súbito pavor, cobrava Zana a vontade, estendia os braços crispados, parecia tomar um objeto que apertava ao seio convulso, como se quisesse esconder ou sufocar; e atirava-se fora do aposento com um ímpeto de horror que a levava até um cubículo da cozinha, onde fazia sua dormida.
Dir-se-ia que deitava o fardo no chão e corria ao fogão para tirar dali alguma coisa, que depois de moída espalhava nas palmas das mãos para ir esfregar o objeto escondido no cubículo.
Saía então ao terreiro, e passeava de um a outro lado com os modos de uma ama, ninando criancinha de colo. Era nessa ocasião que, balançando o corpo, com os braços arredondados ao peito, ela entoava a monótona cantiga, que Berta conseguira decifrar.
De repente transmudava-se completamente a doida, passando daquela extrema volubilidade a uma apatia balorda. Parecia fazer-se um vácuo em suas reminiscências, que fugiam-lhe deixando a alma sepultada se intrumescia com a expressão do idiotismo.
Nesse estado de estupor, vagava a passos trôpegos pela casa, até que parava automaticamente na porta da alcova e estendia o pescoço para dentro. Devia de ser de ser horrível o espetáculo que ali surgira a seus olhos, porque depois de tantos anos, a só imagem a fulminava.
Erguia-se-lhe o corpo hirto; um grito de terror estalava no peito e vinha estrangular-se nas fauces. Volvia sobre si; e tombava ao chão, como uma pedra.
XIX
O DESCONHECIDO
Tal era o esboço grosseiro do misterioso drama, que ali se representara e do qual Berta debalde se empenhava em devassar o segredo.
Mais estimulava a sua curiosidade o cuidado com que em criança a tinham arredado da casa em ruínas, já inspirando-lhe um terror supersticioso da louca, já recomendando-lhe que nunca se dirigisse para aquela banda.
Também quando a menina queria saber a história de Zana e a razão por que a negra doida ali vivia abandonada numa casa em ruínas, que devia ter pertencido a pessoa abastada, ninguém lhe respondia; mas procuravam uma evasiva para não falar sobre tal assunto.
Tudo isto, longe de arredar a menina daquele sítio, bem ao contrário desenvolvia nela uma dessas tentações de criança que não conhecem obstáculos. A pouco e pouco, de susto em susto, animou-se ao cabo de muitas semanas a aproximar-se das ruínas e observar Zana em distância, até que afinal se convenceu que era uma criatura inofensiva a mísera doida.
Já tinha então Berta seus quinze anos, e com a afoiteza da idade também ganhara mais largueza e desenvoltura da ação para sair de casa e demorar-se fora sem inspirar cuidados.
Berta passava por enjeitada e ela o sabia, pois nunca lho ocultavam. Fora a mãe de Miguel, nhá Tudinha, quem a recolhera e criara com o maior desvelo. Na casa, porém, onde se achava emprestada e por comiseração, era ela a verdadeira senhora, pois que os donos se faziam cativos seus e porfiavam em adivinhar-lhe as vontades para satisfazê-las.
Sem dúvida que nhá Tudinha queria mais bem ao filho de suas entranhas; mas não tinha para ele os extremos, as debilidades e carinhos, que fazia por essa filha de criação, a enjeitadinha. De seu lado, Miguel, embora se estremecesse pela mãe, decerto que pensava mais em Berta, sua colaça.
Sentindo a sedução que exercia em torno de si, não abusava todavia a menina, transformando-se em uma pequena tirania doméstica, à imitação de certas crianças dengosas. A não ser para conservar a liberdade, a que a habituara uma educação campestre, no mais esquivava-se quanto podia ao império que lhe deferiam os súditos de sua graça e gentileza.
Assim explica-se como podia Berta passar horas e horas nas ruínas, observando Zana e esforçando por desvendar o mistério dessa louca solitária, que ali vivia ao desamparo, completamente esquecida e nutrindo-se de terra de raízes cruas, antes que a menina se incumbisse da tarefa de prover a sua subsistência.
No dia em que estamos não acabou Zana a pantomima de sua visão diária.
Quando se aproximava pé ante pé da janela da alcova, em atitude de quem espreita, os olhos da negra esbarraram com os de um homem. Era o Barroso que assomara de dentro do mato, pouco antes, e dirigiu-se passo a passo para as ruínas.
Estremeceu a doida, e tão violenta foi a propulsão, que a fez saltar sobre si. Com os olhos esbugalhados, a boca escancarada e os beiços arregaçados, ficou banza um instante; mas logo, espancada pelo terror, precipitou-se para fora tão desastradamente que errou a porta e bateu em cheio na taipa.
De novo arremeteu, e rechaçada pelo choque, andou aos embates contra a parede, até que acertando com o vão da porta fugiu estremunhada de pavor.
Advertida pelo primeiro sintoma de estupefação da louca, Berta seguindo-lhe a direção do olhar, avistara também o Barroso, que nesse momento parado em face da janela, a alguns passos apenas, a encarava com uma expressão de profundo rancor.
Teve medo a menina, e recuou instintivamente. Estava acostumada a correr só os campos vizinhos, onde freqüentemente encontrava caipiras e toda a casta de gente malfazeja, de quem aliás nunca se receara. Esse homem, porém, inspirava-lhe uma indefinível repugnância e terror.
Esteve Barroso a considerá-la alguns instantes, com ar de quem se resolve. Por fim, mascando um riso mau, que revia-lhe dos lábios, afastou-se murmurando:
- Eu hei de saber! Ah! se fosse!...
Com a partida do desconhecido, recuperou Berta a calma de espírito e volvia os olhos pela sala procurando Zana, que vira fugir, quando lhe feriram o ouvido gritos esganidos e sufocados, que vinham do terreiro.
Precipitando-se da alcova, a preta viera até o terreiro da cozinha, onde, faltando-lhe as forças, abateu-se como um fardo a que retiram o apoio.
Imediatamente de dentro do balseiro saltou com o arremesso de um gato do mato uma estranha criatura cuja roupa de grosso brim escorria para a ilusão. Acocorando-se em cima do corpo inerte da louca, apertava-lhe ao pescoço as mãos crispadas, procurando esganá-la, enquanto com os pés e os joelhos malhava-lhe o ventre.
Foi esta cena cruel que Berta viu de relance ao chegar à porta da cozinha, chamada pelos gritos. Arrojando-se do mesmo ímpeto ao terreiro, seus lábios lançaram com um tom de severa exprobração o nome do perverso, que espancava tão barbaramente uma criatura inofensiva.
- Brás!
Não se animou o rapaz a erguer a cabeça, tão acabrunhado ficara, e tão corrido de sua barbaridade. Naquele instante não havia forças para obrigá-lo a fitar o semblante de Berta, e afrontar a cólera de seu olhar.
Agachado, como se quisera sumir-se pela terra a dentro, fugira ele antes que a menina chegasse para tirar-lhe a preta das garras; e foi esconder-se por detrás de um marachão da taipa, que esboroara da parede do outão.
Cuidou Berta de levantar a cabeça da doida, na esperança de reanimá-la, o que só conseguiu depois de muito tempo. Quando a preta se pode erguer, ajudou-a ela a ganhar o cubículo, onde à noite se agasalhava a infeliz. Havia tempo que trouxera a menina uma esteira, sobre a qual a acomodou, prometendo a si mesma voltar logo mais com aguardente e pano para deitar sobre a contusão que tinham deixado as mãos de Brás.
Este continuava agachado por trás do medão de taipa; espiando à sorrelfa os movimentos de Berta, quedava-se com a humildade do rafeiro quando espera que a mão do senhor o fustigue pela falta cometida. Ao rumor dos passos da menina, que vinha de seu lado, encolheu-se ainda mais; parecia concentrar-se todo para o transe difícil.
Trazia Berta no olhar uma profunda repulsão, e o lábio frisado por um assomo de cólera. A perversidade do rapaz contra a mísera doida a revoltara dolorosamente a ponto de esquecer que também esse ato cruel era de um espírito enfermo, e quem sabe se mais digno de lástima.
Parou ela em face do culpado, perplexa, hesitando por ventura no castigo que devia infligir-lhe. Por fim deixou cair dos lábios um sorriso de desprezo e afastou-se rapidamente.
Esperava o rapaz uma severa repreensão. Este desprezo e repentino abandono, o trespassaram de dor. Quis levantar-se para correr após a menina, e as pernas lhe fugiram. Voltando-se ao rugido que ele soltara, o viu Berta de joelhos, estorcendo as mãos súplices e esforçando arrancar das fauces uma palavra que o sufocava.
- Não! disse a menina.
Esta palavra fulminou Brás, que estrebuchou no chão, estorcendo-se em uma convulsão medonha, que dobrou-lhe o corpo hirto, como se fosse uma verga de chumbo. Espumava-lhe a boca, e os dentes rangiam com horríveis contrações, que deformavam-lhe o semblante.
Vencida pela compaixão dessa agonia, Berta correu a ele; e sentada sobre a relva, o tomou ao colo para amimá-lo como o faria a uma criança, acalentando-a com meiguices e carinhos.
XX
A POUSADA
Quem transitava pela estrada de Campinas via, meia légua antes de Santa Bárbara, dois casebres unidos por uma espécie de rancho ou telheiro.
Um dos edifícios era bem velho, o outro novo, porém ambos de grosseira fábrica, sem reboco nas paredes mal emboçadas, que mostravam entre os torrões de barro as varas atadas com cipó aos frechais. O chão despido de ladrilho, ou qualquer espécie de soalho, estava cheio de buracos e poças; de pintura não havia traços, nem mesmo de uma simples caiação.
Na extremidade da casa velha, as duas portas abriam para uma espécie de taberna, a julgar pelo balcão de pau que dividia o aposento a meio, e por duas ou três ordens de prateleiras, onde se viam alguns rolos de fumo em corda, rapaduras envolvidas com palha de milho, e uma dúzia de garrafas arrumadas em fila.
Da venda passava-se por uma porta lateral para o aposento próximo que, em sendo preciso, servia de pousada.
Era uma quadra de tamanho regular, Ao centro da parede interna encostava-se uma tosca mesa, ladeada em todo o comprimento por um só banco estreito. Em cada canto havia uma cama, cuja barra era feita de tiras de couro cru entretecidas a modo de esteira.
Era já sol fora.
Abrira-se de pouco a taberna, que parecia deserta, como todo o resto da habitação. Ao menos quem passava na estrada, acertando de enfiar os olhos pela porta, não via no meio da silenciosa imobilidade do interior outro sinal de vida a não ser o vôo das moscas pousando sobre o balcão para sugarem o mel de umas farpas de rapadura, que ali tinham deixado os viajantes da véspera.
Não era, porém, tão absoluta como parecia, nela a solidão.
Na venda, por trás de uma quartola, arrumado em cima do balcão e de bruços neste, cochilava um sujeito com a cabeça posta sobre os dois braços cruzados em cima da tábua. Quando algum tropel soava na estrada, levantava ele a meio a testa, e enfrestava pela aberta que havia entre a parede e o bojo da quartola uma vista encadeada pela claridade. Passado que fosse o viajante, voltava à contínua modorra.
Ainda moço e robusto, derramava-se não obstante no físico desse homem certo ar de indolência, que nesse momento mais se carregava com a sonolenta expressão do rosto seco, pálido, baço, e levemente sombreado por alguns raros fios de barba. O cunho especial dessas feições, e particularmente o viés dos olhos com os cantos alçados para as têmporas, revelavam o cruzamento do sangue americano com a casta boêmia.
Do lado oposto da habitação, em um compartimento, que tinha jeito de varanda, cozinha e pátio de criação, tudo ao mesmo tempo, fervia a panela posta em uma trempe de pedra no meio do chão. O fogo, apenas alimentado por gravetos, mal cozia o feijão e couves, destinados ao sustento daquele dia.
Fronteira à janela, sentada ao chão, com os joelhos levantados e os braços caídos sobre eles, estava uma rapariga de seus vinte e cinco anos, que parecia muito e muito ocupada em observar a fervura da panela; pois não tirava dela os olhos, nem fazia outra coisa. Perto dela jaziam, espalhados pelo chão, ou dentro de uma gamela, vários pratos brancos de beira azul, uma tigela igual e algumas colheres de estanho.
Diferentes vezes já, a rapariga lançara um olhar de enfado para a louça ainda suja do serviço da véspera, e alongava depois a vista pela porta afora até lá embaixo no brejal, onde passava o rego da água, e media a distância a percorrer. Abria então a boca em um interminável bocejo, espreguiçava o lombo estirando os braços; e, quando parecia levantar-se para cuidar na lavagem dos pratos, achatava-se ainda mais no chão, murmurando:
Tem tempo!
Ouvindo o estrumpido de animal na estrada, ergueu o sujeito a cabeça para olhar pela fresta; e seu rosto debuxou, através da sorna habitual, um gesto de aborrimento e agastadura, produzido pela vista do viajante que se aproximava.
Era este homem de trinta anos, de tão alto e esguio talhe que se curvava ao peso de uma cabeça enorme e guedelhuda, ou talvez pelo hábito de cavalgar derreado à banda, como usam os caipiras. Sua fisionomia grosseira nada tinha de notável, a não ser a malha que lhe marchetava de nódoas brancas a tez acobreada, bem como as costas das mãos.
Vestia um pala em bom uso, sobre fina camisa de morim e calça de brim de listra. O chapéu era novo e de meio castor; as botas de couro de veado com chilenas de prata. Trazia no arção da sela uma espingarda de dois canos, e na cinta uma garrucha.
Parando a mula à entra da venda, o cavaleiro bateu com o cabo de rebenque na porta, gritando:
- Oh! de casa!... Ainda se dorme por aqui, nhô Chico?... Querem ver que o diabo do Tinguá está mesmo ferrado na soneira?... Foi volta de samba esta noite, e samba grosso que deu de si até a madrugada. Não tem dúvida! Oh! lá de dentro! basta de dormir! Já deve estar bem cozida a camueca!
Desenganado de que não se ia o importuno, resolveu-se afinal o sujeito da venda a fingir que despertava da sonata; e, estorcendo-se em um ruidoso bocejo, estirou a cabeça por fora do bojo da quartola.
- Quem é?... Ah! nhô Gonçalo!
- Ora, bem aparecido!... Parece que por cá anoiteceu de madrugada!...
- Não sei o que é; mas ando com uma canseira agora. Tenho cismado que seja dureza. Levo só a dormir!...
No rosto do Chico nem vestígios restavam mais da expressão aborrida que provocara a presença do Gonçalo. Ao contrário, com o riso postiço e a oficiosidade própria dos estalajadeiros, que sabem seu ofício, se erguera para falar ao freguês; e, apenas o viu apear, preparou-se para acudir pressuroso a seu serviço.
Neste ponto fazia o dono da taberna uma exceção à habitual indiferença com que de ordinário via chegarem à sua casa, e nela posarem, viajantes de posição muito superior à do Gonçalo. Haveria por ventura a respeito deste alguma razão particular.
- Bebe-se café por aqui, ou não se usa?
- Sempre há de se arranjar!
- Pois então vamos a isto; enquanto descanso um tantinho. Aqui onde vê este degas, já desanquei uma capangada! Quiseram se meter de gorra!...
- Nhanica!... bradou o Chico para dentro. Coa um bocado de café!
Ergueu-se então a rapariga e sem espreguiçar-se; tirou da trempe a panela de feijão para deitar o boião d’água; e arranjando o saco, onde ainda estava o polme da véspera, que servia para dois dias, correu a buscar água para lavar a louça.
Entretanto o Gonçalo, derreado sobre o balcão, chalrava com o Chico sobre o que vinha a pelo:
- E o Bugre, como vai? perguntou de repente o Gonçalo.
- Eu lá sei, homem! Anda pelos matos, enquanto não dão cabo dele, que não tarda muito!...
- Então acha que o filma mesmo? Acudiu o Gonçalo com um alvoroto de prazer, que mal disfarçou.
- É o mais certo! Dizem que estão lhe pondo o cerco.
- Ora, isso há muito tempo!
- Mas um dia chega a caipora.
- Como? Se ninguém sabe onde ele vive?...
- Lá isso é verdade! ninguém!
- Pois eu cá não me escondo! Quem quiser que venha!
De costas para o interior da venda, o Gonçalo, embora olhasse para fora, espreitava de soslaio o Tinguá, que nesse momento, debruçado sobre o tampo do balcão, onde fincava os cotovelos, parecia inteiramente absorvido em examinar as ferraduras da mula.
- Um dos cravos da mão está bambo! disse ele apontando para o casco do animal.
- É mesmo! tornou Gonçalo, que levantara a pata da mula. Pincha-me cá o martelo.
Nesse instante, no topo do caminho que descia à esquerda pela rampa de uma colina, apareceu uma troça de caipiras. Vinham a pé, com as espingardas ao ombro; e diante deles trotavam a cruzar o caminho e farejar as moitas, dois cães de caça.
XXI
O BACORINHO
No inverno costumam passar por aquelas paragens ranchos de caçadores que demandam o sertão para a montearia das antas e veados que ainda abundam nos campos de Araraquara e Botucatu.
Parecia uma dessas partidas de caça, o magote de caipiras que parou fronteiro à venda, e para lá encaminhou-se depois de combinarem entre si os companheiros.
Um deles, que parecia ter sobre os camaradas tal ou qual preeminência, adiantou-se enquanto os outros atravessavam muito vagarosamente a testada da casa.
- Viva, patrício! Queremos arranchar aqui para almoçar!
- Pois sim! respondeu o Tinguá com a sua voz sorneira sem mexer-se do balcão onde continuava debruçado.
Habituados certamente a esse modo de acolhimento, os caipiras foram por si tomando conta da casa e aboletando-se na pousada. Uns se estiravam nas camas, e outros já sentados no banco junto à mesa esperavam o almoço com uma fome de caçador.
- Sô Filipe, venha alguma coisa que se masque, para despregar a barriga do espinhaço! exclamou um dos companheiros.
- E também que se chupite, para untar os gorgomilhos, e consolar o peito! acudiu outro.
- Aí vem, camaradas, não se assustem! retorquiu Filipe.
Dirigindo-se ao balcão, pesquisou ele com os olhos nas prateleiras e por todo o âmbito da taberna, o que havia para matar a fome: e sempre arranjou-se com um velho queijo de Minas, algumas rapaduras e farinha de milho.
- Pode nos das café? perguntou ao Chico.
- Há de se poder! tornou o vendeiro.
Rodearam os caipiras a mesa e devoraram as provisões, depois de terem molhado a garganta com um copázio de boa cachaça de Piracicaba, a fim de escorregar-lhes bem o bocado, e não os engasgar.
Na extremidade oposta, tomava o Gonçalo seu café, observando os caçadores com a curiosidade natural à vida monótona do interior, mas também com um recacho de arrogante fatuidade. Sem dúvida tinha-se ele por um grande personagem, incógnito àqueles pobres diabos.
- Isso há de ser tarde já! disse olhando céu.
Era um pretexto para travar a conversa; mas os outros com a boca cheia não estavam dispostos à palestra. Apenas o Filipe correspondeu com um meneio de cabeça.
Virou o Gonçalo a palangana de café e acendeu o pito.
- É servido? perguntou oferecendo fogo ao caipira.
- Nada, obrigado.
- Ainda que mal pergunte, o patrício vem de longe?
- De Campinas!
- E anda caçando? Por estas bandas há muito veado e paca: mas como os caititus este ano, nunca se viu: é mesmo uma praga!
- Nós cá andamos no rasto, mas é de outra caça! atalhou um dos caipiras a rir.
- Viemos desencovar uma onça! acudiu outro.
- E é suçuarana!
- Qual! Tigre verdadeiro!
Fizeram coro os caipiras na gargalhada que despertara o dito do companheiro. Não compreendendo a pilhéria, o Gonçalo estava a olhá-los meio desconfiado e com um riso insosso.
- O patrício não lobriga?
- Por vida, que não! tornou o Gonçalo. Ainda que Suçuarana é o sobrenome cá do degas; por causa de ser malhado como a bicha. Não vê?...
E mostrou as manchas da cara.
- Sem falar da munheca!... Talvez o amigo não acredite; mas onde a vê, já pegou queda de braço com uma; e mais era um bichão da altura daquela porta, sem exageração! Agora quanto às risadas dos patrícios, a falar verdade não avento!
- Já vê que é caça gorda.
- É cá uma história!
- Por força que há de conhecer um tal Jão Bugre?
- Conheço bem!
- Pois aí está a bicha fera que viemos desencovar. Parece que a furna dele fica por aqui perto. Não podia nos dar notícia?
- Mas então os camaradas andam-lhe na pista?
Entrava o Chico Tinguá, com a pichorra de café e as palanganas que deitou sobre a mesa, recostando-se depois ao portal da entrada, com a perna trançada e a mão no quadril.
- Não ouviu falar no Aguiar, do Limoeiro, não?... Um fazendeiro, que o tal Bugre arrumou com duas facadas, há de andar por uns dois meses?
- Tenho uma idéia, replicou o Gonçalo.
- O negócio deu brado, porque o homem era rico e andava sempre com uma ruma de capangas. Mas Bugre fez-lhe as contas.
- É um temível!
- Marcado como ele só!
- Nem por isso! observou o Pinta. Mas então é por causa dessa morte que os camaradas vêm prendê-lo?
- O filho do Aguiar dá dois contos a quem filiar o meco.
- Não digo que não!
- Se quer entrar na festa?
Relanceando um olhar ao Tinguá, que parecia cochilar encostado à ombreira da porta, respondeu o Gonçalo com frouxidão:
- Nada; tenho obra mais fina.
- Quem sabe se o senhor conhece o Bugre?
-Pois que dúvida!
- Será mesmo o durão que dizem?
- É conforme. Eu cá não conto com ele.
- Hum!...
- O senhor bem podia nos dar alguma inculca do bicho?
- Cá o amigo Chico é quem há de saber por onde anda o cujo. Oh! psiu!...
- Nhô Pinta... Ah! Nhô Gonçalo! Acudiu o Tinguá querendo engolir as primeiras palavras escapadas.
- Não sabe que rumo levou o Jão?
- Tanto como mecê.
- Ora, ande lá.
- Ele aparece aqui, e arrancha tal e qual como os outros; não conta onde pousa; nem a gente indaga da vida alheia.
- Pois tocava uma boa maquia a quem nos pusesse no rasto da onça. Cem bicos!
Nesse momento um bacorinho de pelo ruivo, embestegava com um trote miúdo, mas ligeiro, pela cozinha, e atravessou toda a casa até a pousada, onde conversava a capangada. Aí começou a fossar nas pernas do Chico Tinguá, que, arrancando-se à balorda posição, desfechou no importuno animal um pontapé.
- Arre, patife.
Deu-se por advertido o bacorinho, que imediatamente enfiou outra vez pela venda e foi sair no quintal, onde pôs-se a grunhir com o focinho ao vento e os olhos na porta da cozinha.
- Pelos modos lá o homem de Campinas está com gana mesmo no Bugre? observou o Gonçalo que não tirava os olhos do Chico.
Pudera não! Da maneira por que arranjou-lhe o pai!
- Xô!... Eh! Baia!... xô!... Diabo de mula canhambola!
Partiam vozes do vendilhão, que fazia um grande escarcéu com braços e pernas, a fim de espantar uma besta muar que sua imaginação figurava estar furando a cerca do pasto, ao lado direito da casa. Entretanto o inocente animal assim caluniado pelo dono restolhava pacatamente a grama tosada, em companhia de uma porca e um bacorinho preto, de tamanho igual ao do outro.
Afinal atirou-se o Chico para a cerca, sempre a enxotar o burro, e quebrando o canto desapareceu.
O Gonçalo, a quem não escapara esse manejo, ergueu-se pronto da mesa, e, correndo ao ângulo da casa, observou o campo oculto pela quina da parede.
O bacorinho trotava pela vereda que ia dar ao mato, e seguindo-lhe as pegadas, o Chico Tinguá estugava o passo.
Riu-se o Gonçalo, e do terreiro disse ao Filipe:
O patrício faz favor?
XXII
O TRATO
O tal Gonçalo era um valentão; e tinha-se na conta do mais façanhudo espoleta de toda aquela redondeza.
Não acreditava, porém, a gente do lugar nas proezas de arromba que blasonava o pábulo, nem tomava ao sério as roncas e bravatas com que andava sempre a azoinar aos mais.
Para dar à sua peça um tom ameaçador e ao mesmo tempo disfarçar o senão do rosto, engendrara o Gonçalo sagazmente o apelido de Suçuarana, que a todo instante atirava à barba dos outros, mostrando as pampas da cara.
Mas à exceção dele, ou de algum súcio que lhe filava a pinga, ninguém o chamava pelo tal apelido senão pela alcunha de Pinta, que lhe tinham posto para o distinguir de outro Gonçalo carafuz, também morador no lugar.
Não aturava, porém, o valentão esse desaforo; e disparatava com quem o tratasse pela alcunha. Para não se meter em rixas, evitava a gente de o chamar daquele modo na presença, ainda que muitas vezes pelo costume lá escapava a palavra; mas o Gonçalo fingia não ouvir. Também, segundo contavam, já por vezes lhe tinham chimpado com o Pinta de propósito e mesmo na bochecha, sem que ele respingasse.
Todavia o que mais amofinava o Gonçalo era a fama de Jão Fera, de quem invejava não só a força e valentia, como o apelido, que lhe granjeara sua malvadeza, o terror que inspirava aquele nome, e até as mortes de que acusavam o outro, eram para ele façanhas de estrondo.
Chegava o zelo do valentão a ponto de consumir-se quando ouvia mencionar o Bugre como o maior criminoso de toda a província de São Paulo. Muitas vezes em seu despeito encavacou seriamente; e andava pelas vendas e ranchos com a canseira de provar que ele, Gonçalo Suçuarana, merecia cem vezes mais a forca do que Jão; pois as perversidades cometidas por este eram travessuras de criança comparadas com os seus espalhafatos.
O subdelegado sabia disso e fazia como o juiz de paz, a quem a lei o substituíra. Deixava bem descansado de seu o Gonçalo Pinta, que assim podia a salvo gabar-se de ser um fama sem segundo na arte de matar gente.
Todavia enquanto vivesse Jão Fera, sabia o valentão que o nome deste havia sempre de ser o mais falado e temido de toda aquela redondeza, e por isso o tinha em grande ojeriza, apesar do serviço, que lhe prestara o Bugre, havia anos, livrando-o de um recruta que o levava preso.
Já ele teria dado cabo do rival, se pudesse, mas como não se atrevesse a atacá-lo de frente, espreitava ocasião de atirar-lhe o bote certeiro, e desde muito rondava disfarçadamente pela venda do Chico Tinguá, que suspeitavam de ser o inculca e espia do capanga foragido.
Tais eram as disposições do Gonçalo quando chamou o Filipe para dizer-lhe em particular:
- O patrício quer mesmo pilhar o Jão Fera? perguntou ele.
- Mas decerto, homem!
- E não sabe onde ele se encafua?
- Que esperança! Pois ainda estava aqui?
- E se eu lhe ensinasse a toca do bicho?
- Abra o preço, amigo.
- Duzentos bicos?
- Topado.
- Mas há de ser com um ajuste...
- Diga lá.
- Isto fica entre nós dois só. Negócio de muitos não serve.
- É assim mesmo.
- Pois então moita. Toca pra dentro, antes que os camaradas aventem. Olhe que o Tinguá é ressabiado, hein! Vá andando por aí afora. Passando este morro, atrás do outro, há um rancho. Eu já me boto pra lá. É só enquanto avio aqui outro negocinho.
Este curto diálogo travara-se no canto da casa, junto da cerca, onde havia um grosso toco de árvore, denegrido pelo fogo da coivara que ali passara outrora. Ainda quando menos os preocupasse o assunto, dificilmente distinguiria qualquer dos interlocutores, ali a dois passos dele, o vulto decrépito de um negro, arrimado a uma brecha da cepa carcomida com a qual se confundia, como o escorço de uma sapopema.
Seguiu Filipe o aviso de Gonçalo, e, pagando a despesa à Nhanica, mulher do Tinguá, que fazia no balcão as vezes do marido na ausência dele, pôs-se a caminho com os companheiros.
Partiam eles por um lado, que do oposto avistava-se um cavaleiro a galope. Era o Barroso que descambando o outeiro, na rápida guinilha do castanho, veio parar à porta da venda.
- Já está por cá? perguntou o Gonçalo que o esperava no terreiro.
- Ora! O milho que a mula comeu quando cheguei, já teve tempo de grelar! tornou o Gonçalo rindo-se da sua pilhéria.
- Pois bom proveito lhe faça a roça!
Retorquindo assim ao Pinta, dirigiu-se o Barroso à vendeira:
- Quedê este homem?
- Ele não está, nhor, não!
- Onde foi?
- Na vila, nhor, sim.
- Quando volta?
- Volta logo.
- O diabo o leve e mais quem o ature.
Saiu o Barroso da venda fumando e a respingar contra o Chico Tinguá que lhe havia pregado um famoso logro; qual fosse, não o dizia ele; mas despicava-se em ferrar o dente no pobre do vendeiro.
- Que lhe fez cá o homem? inquiriu Gonçalo.
- É um refinado tratante, ele e mais o tranca do Jão Bugre.
- O patrão também tem negócio com esse danado? disse Gonçalo.
- Pois o negócio era com ele; mas o patife não ata nem desata; e já a coisa me cheira a caçoada.
- Que quer? O senhor foi se meter com ele: não tinha que ver!
- Então não é o que dizem?
- Qual! Gabolice tudo! Não deixava de ser valente. Lá isso é verdade. Mas onde vê, já o encostei, e só com este braço. Não é debalde que me chamam de suçuarana!
- Com tanto que me avie o diabo depressa.
- Não custa. É só falar; o mais fica por minha conta. Eu cá não sou lerdo como o Bugre. Ainda bem o ajuste não está feito, que eu já ando com a obra em meio.
- Pois vamos acabar com isto de uma vez.
Cavalgaram os dois de novo e seguiram pela estrada na mesma direção que havia tomado pouco antes o Filipe e sua troça.
Neste momento o casco da cabeça do negro, lisa como um quengo, surdia por cima da velha cepa queimada, e dois olhos que pareciam carbúnculos, se alongaram pelo caminho além.
- Eh! Branco mesmo!... resmungou uma voz trôpega.
XXIII
NHÁ TUDINHA
Era pela volta das oito horas.
Nhá Tudinha entrava e saía, andando de um lado para outro, na labutação do costume. Não por necessidade, que só por gênio vivia ela nessa contínua lida caseira desde que amanhecia até o escurecer.
Tinha essa mulherzinha baixa e rolha tal prurido da pele que não podia estar um momento sossegada. Por força que se havia de ocupar alguma coisa; e para que lhe rendesse a tarefa, muitas vezes desfazia o que já estava pronto, a fim de Ter o gosto de arranjar de novo.
Nunca sentia-se tão feliz e contente como nos dias em que a apoquentavam de trabalho. Correr daqui para ali, revolver os cantos da casa, abrir e fechar portas, acudir da varanda à cozinha, e dar vazão a tudo; nisso consistia o seu maior prazer nesse mundo.
Quem a visse naquela dobadoura da manhã à noite, ficaria admirado de seu ar lépido e agudo; pois decerto não se podia esperar semelhante volubilidade naquele corpo rechonchudo, com suas perninhas curtas e socadas.
Achava-se então nhã Tudinha em uma de suas boas vezes. O São João estava à porta; e ela, que tinha, e com muita razão, o seu garbo de doceira afamada, por costume antigo se pusera na obrigação de mandar em dias de festa os mimos feitos por suas mãos, no que estava o chiste, às pessoas de amizade, cujo rol começava necessariamente pelo compadre Luís Galvão, padrinho de Miguel.
Por isso já de véspera andava ela às voltas com o alguidar e o forno.
Sentada na varanda sobre uma esteira e rodeada de todos os petrechos, estava mui atarefada e, anaçar ovos e amassar fubá mimoso para fazer as broas saborosas e os bolos de milho que ninguém preparava como ela.
Ajudava-a neste mister a Fausta, preta de meia-idade. Eram, essa escrava e a casinha, os restos da abastança de que outrora gozara em vida de seu finado marido, Eugênio de Figueiredo, companheiro e amigo de Luís Galvão. Más colheitas e juros enormes, tinham consumido os modestos haveres.
Quando estava nhá Tudinha mais embebida em fazer um passarinho de biscoito, de repente lho arrebataram sutilmente da mão, e uma voz brejeira que arremedava tanto quanto podia abocanhar de um cãozinho, gritou:
Nhau!...
Voltou-se a rechonchuda mulherzinha debulhando-se em uma risada gostosa, porque adivinhava o autor da travessura, que não era outra senão a ardilosa da Berta, em quem ela achava uma graça imensa, Não fazia a menina um trejeito, nem dizia uma facécia, que a viúva não se desfizesse em gargalhadas. Era a efusão de sua ternura pela pequena. O coração de nhá Tudinha só tinha para exprimir o amor dois vocábulos, o riso, ou então o choro nos dias de tristeza e luto.
- Ai, menina!... Quiá!... quiá!... quiá!... Já se viu, que ladroninha?
- Uh! pumbu!... dizia entretanto a Berta, beijando o biquinho da rola de biscoito; e acrescentou voltando-se para a viúva. Quer ver como voa?
Começou então a traquinas a fazer voar o biscoito, no meio das cachinadas de nhá Tudinha, que de tanto se estorcer, afinal arrebentou o cós da saia.
Cansada Berta, ou antes aborrecida daquele brinco infantil, e curado o frouxo riso da viúva, levantou-se esta para o almoço, que já estava posto à mesa, e frio de esperar.
- Que mãezinha má! tornou Berta com faceirice. Fez tantos biscoitos e não me guardou um só!
- Pois então! Não me deixaram sozinha? Cuidei que não voltavam mais hoje. E o almoço esfriando!
- Bem bom! Não queima a gente!
- E o outro?... perguntou a rir a viúva. Por onde anda?
- Quem sabe se perdeu-se?... Coitadinho do Miguel!...
- Ai, que já não posso! Quiá, quiá, quiá!... Mas você, aposto que foi ver a Zana!
- Que tem?
- Eu fico mesmo tão assustada quando Inhá vai para aquelas bandas! Não é graça, não!
- Por que?... Tem medo que o tutu me pape? Ele que se meta em bulir comigo e verá! Olhe, mãezinha, eu agarro-o pelas orelhas, assim; e meto-lhe um cipozinho, zás, zás, zás, que ele vai por aí gritando, ui, ui, ui!...
Nova gargalhada de nhá Tudinha, que já sentada no banco junto à mesa foi obrigada a erguer-se para apertar as ilhargas temendo estalassem com as embigadas que lhe fazia dar o frouxo riso.
A esse tempo chegara Berta à porta e chamou o Brás, que se deixara ficar no meio do quintal, a alguns passos da casa, com os olhos fitos no lugar onde sumira a menina a quem ele acompanhava.
Depois que Berta com seu desvelo e afago dissipou os violentos paroxismos da convulsão em que se estorcia o rapaz, e foi-se a crise acalmando, procurou ela adormecê-lo, cerrando-lhe docemente as pálpebras.
Da posição em que estava junto à tapera da Zana, descobria-se uma volta da senda tortuosa que enredava-se pelas faldas ensombradas de um serrote. Desde algum tempo seus olhos voltavam-se a espaços naquela direção, e agora, amiúde, com certa impaciência.
Vendo o rapaz quase adormecido, repousou-lhe a cabeça em uma leiva de grama, e adiantou-se pelo trilho além, parando às vezes, para depois continuar.
Havia andado já grande extensão, quando reparou que fazia-se tarde; e malograda sua esperança retrocedeu ao lugar onde tinha deixado o Brás. Este porém já ali não estava; apenas se afastara a menina, que ele abrira os olhos, e agachado, lhe seguira sorrateiramente e de longe os passos.
Quando viu o rumo que ela tomava, um movimento de ira escapou ao monstrengo, que atirou ao vento os murros das punhadas convulsas, arquejando de raiva. Rastejou então como um réptil, por meio da relvagem, e sumiu-se nas entranhas da terra.
Metera-se ele em uma espécie de fojo que tinha recentemente praticado em um barranco atufado de junças, e a cuja borda passava o trilho. Aí cavava o chão, com as unhas aduncas, e como tomado de um frenesi; até que percebeu, por uma repercussão da cova, o passo de Berta que voltava.
Vendo-o com as mãos cheias de terra, e a roupa suja de arrastar-se pelo chão, a menina o ralhou brandamente e conduziu-o à casa onde acabava de chegar.
- Venha almoçar! disse Berta da porta.
- Não quero!
Esta resposta do menino, deu-a ele com sua fala particular, que era uma rouca explosão da voz, despedida em ásperas e bruscas articulações, como o rugido de um animal, ou a blateração de um surdo-mudo.
A quem não estivesse muito habituado com essa pronúncia desabrida e selvagem, seria impossível discernir de pronto os vocábulos, pela velocidade com que eram arremessadas as sílabas incisas e truncadas.
Aproximara-se nhá Tudinha com a curiosidade de ver a quem Berta falava, e como reconhecesse o menino, escapou-lhe um gesto de visível repugnância. Mas um olhar da menina bastou para apagar essa repulsa, e convertê-la em agasalho.
- Ande, Brás! disse a viúva com afabilidade. Tome uma coisa que lhe guardei.
Desta vez nem se deu o rapaz ao trabalho de responder com a voz. Fez uma careta má a nhá Tudinha e voltou-lhe as costas.
- Brás!...
Nesse monossílabo proferido por Berta, com sua voz sempre doce e melodiosa, percebia-se uma vibração íntima que destoava no meio daquela harmonia. Era como o brandimento da corda que estalava, ou como o áspero triscar do diamante no vidro.
Voltou-se Brás e veio dócil e humilde, acompanhando a indicação do gesto de Berta, colocar-se em frente dela, que, depois de lavar-lhe as mãos e cortar-lhe as unhas, o sentou a seu lado no banco da mesa. Aí tomou um prato, que lhe serviu ela, e comeu com uns modos comedidos, embora um tanto hirtos, que ia copiando da moça. Ninguém diria que fosse este o mesmo lambaz, que na mesa de Galvão metia o queixo na xícara, deixava na toalha uma roda de sobejos, e lambuzava a cara de sopa e manteiga.
Foi rápido o almoço.
Nhá Tudinha não tirava o sentido do forno onde assava um bolo de mandioca puba; além de que de prova em prova já petiscara seus biscoitos bons. Berta, essa comia como um passarinho, aos beliscos. Antes de sair de casa pela alvorada, tomara café, e de caminho trincara as roscas de goma que levava para Zana.
O Brás também não tinha fome. O constrangimento, em que o punha a presença da menina e a sua fascinação, deviam de embotar-lhe o apetite insaciável, com que de ordinário devorava quanto lhe deixassem.
XXIV
A LIÇÃO
Àquela hora da manhã, projetava a casa larga sombra para o oitão voltado ao poente.
Nessa fresca penumbra, que recatava da estrada uma cerca de estacas de cambuís já enramadas, acomodou-se Berta para passar a sesta, que se aproximava. Daí avistava-se por uma ogiva rendada que abria a folhagem em arabescos, o caudal Piracicaba, adormecido no regaço da campina.
Sentara-se a menina em um pedaço de alto pranchão, que aí tinham colocado para servir de banco; e suas mãos sutis e ligeiras tomavam o ponto às meias, ou serziam e remendavam a outra roupa lavada, que precisava de conserto e enchia o balaio posto a seu lado na ponta do tabuão.
Adiantando a sua tarefa diária, que pelo hábito já os dedos ágeis faziam às cegas e com uma presteza admirável, escutava com atenção ao Brás, ajoelhado ao outro lado do balaio, na esteira de tábua, que servia de tapete, ou antes de tabuleiro para a roupa já consertada, a fim de não misturar-se com a outra da cesta.
Com as mãos postas, e um modo sério, repetia o rapaz de cor a Salve-Rainha, sem titubear. Dir-se-ia que estava lendo no formoso semblante de Berta por mágica influição aquelas palavras ignotas, tal era a fixidez da pupila e a absorção de sua alma no hausto desse olhar.
Era sem dúvida a primeira vez que o Brás dizia certa a oração, pois no gesto da menina, onde vislumbrara uma vaga inquietação, derramou-se grande contentamento pelo triunfo obtido sobre a fatalidade que encadeava aquele espírito bronco.
- Assim, Brás! disse a gentil mestra desfolhando-se, como uma bonina, em ledos sorrisos.
- Til contente? perguntou timidamente o rapaz, com certa brandura de voz, que desvanecia o tom brusco e explosivo.
- Muito!...
E a menina cingiu com o braço esquerdo a cabeça do rapaz e a estreitou ao seio com efusão. O sentimento de bem- aventurança que difundiu-se pela fisionomia do idiota; o êxtase de felicidade, no qual se embeberam suas feições, sempre transtornadas pela imbecilidade, e agora consertadas por um plácido sopitamento; essa elação ao toque da meiga carícia, não há traços para esboçar.
A transição súbita de um informe toro em estátua acabada, somente pode dar uma idéia da transfiguração, que um supremo gozo havia operado nessa infeliz criatura, cujo vulto descomposto e mal-amanhado negava muitas vezes a forma humana.
Esteve Berta a espiar-lhe por entre os revoltos cabelos essa expressão inefável de rosto que ela conservava unido ao seio; e de seus olhos um tanto amortecidos e brandos naquele instante, manava uma ternura santa e imensa, na qual ressumbravam extremos da maternidade.
- Agora a Ave-Maria! disse Berta afastando a cabeça do rapaz, e tornando à anterior posição.
Arrancando ao enlevo, como um galho decepado que rola ao chão, ou como a lasca do penedo que se alteava no píncaro do alcantil e vai sumir-se no abismo, sentiu o idiota romper-se-lhe o coração e estalar com dores cruas e dilacerantes. Era a alma arremessada do céu ao báratro.
Foi muda porém essa angústia, que afundou-se pelo íntimo, nos recessos insondáveis dessa consciência vedada ao mundo; e não reçumou um ai dos lábios nem lentejou uma lágrima as pálpebras. Os bolhões, que por ventura levantou lá nos mais escusos refolhos, como a rocha tombando nos pegos e tremedais, só os denunciou a crispação pungente das feições.
Reparando naquele espasmo doloroso, quase arrependeu-se Berta de haver quebrado ao pobre idiota o encanto em que o tinha. Mas o seu carinho, ameigado, não embotava contudo as energias d’alma da mais fina têmpera, que semelhante a lâmina de aço, dobrava-se com a flexibilidade de uma fita de seda, mas também, quando brandida, cravaria o bronze, sendo preciso, como o buído fio de um estilete adamascado.
Naquele instante ela era sobretudo mestra; ou mais que mestra, pois não ensinava somente, senão que tirava do caos dessa animalidade confusa e revolta o balbuciar de uma razão sopita. Era quase uma criação a obra sublime, a que se dedicava, de plasmar do mostrengo um ser humano.
- Reze!... insistiu Berta com autoridade.
Engalfinhou o rapaz outra vez as mãos e começou a recitar com a mesma concentração de espírito a Ave-Maria, passando sucessivamente às orações do catecismo. Terminava a reza uma tenção particular, como se usa em muitas casas, e na qual se implora a proteção divina a favor das pessoas da família, dos entes mais queridos.
Chegado a este ponto estacou Brás.
- Virgem Puríssima... proferiu a voz insinuante de Berta.
Vendo pintar-se no semblante do idiota as vacilações da memória prestes a apagar-se, articulava a menina mudamente as palavras que se desenhavam em seus lábios mimosas e fagueiras, donde o Brás as recebia como imagens a se refletirem no espelho da alma.
- Virgem Puríssima, Rainha do Céu, Bem-aventurança nossa, Mãe de Jesus e dos aflitos, intercedei...
Aqui fez o menino uma reticência, e fechando um instante os olhos para não ver o rosto gentil da moça que servia de página àquela súplica singela, terminou abrupto por um modo teimoso e rebelde:
- Intercedei por Til, só, só, só, só!... Til muito feliz! Til muito bonita, muito tudo!...
Ressumbrou aos lábios de Berta um meigo sorriso, que ela escondeu sob um gesto severo:
- Diga direito!
- Ele ruim... ela ruim!... Morde nele... nos outros... Bem eu?... tu só!
- Há de querer bem a todos, Brás, que eu mando!
A expressão de rancor, derramada na feição do rapaz, sublevou-se em assomos de fúria selvagem. Parecia que desse bolônio informe e labrusco surgira por estranha mutação uma vípera terrível, que um instante subjugada pela fascinação, silvava de raiva e assanhava-se contra o encanto que a entorpecera.
Erguera, porém, Berta a mão direita, e com o indicador fez ao rebelde um gesto de ameaça, estendendo a unha rosada quase a cravá-la no meio do sobrolho espesso do idiota.
- Diga, senão...
O confrangimento de uma vasca estampou-se na figura do infeliz; mas apesar, os dentes rangiam-lhe de cólera.
- Não sou mais Til! disse a menina lentamente.
Caiu-lhe então aos pés, outra vez humilde e cativo, rojando como um verme, o mísero idiota, de cujo corpo rompia em arquejos e contorções o pranto, que não sabia exprimir como os homens em lágrimas e lamentos.
Acalentou-o Berta, amimando-lhe as faces, e depois que o viu calmo, trouxe-o de novo à reza e o fez recitar a prece interrompida.
"- Virgem Puríssima, Rainha do Céu, Bem-aventurança nossa, Mãe de Jesus e dos aflitos, intercedei por meu tio, minha tia e meus primos; por mim, por Berta e aqueles a quem ela quer bem, e fazei-nos a todos felizes."
- Vamos à lição! Disse Berta.
Repetiu então o Brás de cor o abecedário e uma parte da carta de sílabas e nomes.
XXV
O IDIOTA
Tirando do balaio uma varinha de peroba em forma de flecha, que lhe servia para esticar o pano, quando tomava o ponto às meias ou cerzia a mais roupa, Berta começou a traçar no chão as letras do alfabeto.
À proporção que Brás acertava com o nome de cada letra, a ia apagando a mestra gentil com a ponta do pé buliçoso e faceiro, para escrever outra e outra até o fim do abecedário, como se costuma nas escolas sobre a ardósia.
O grande esforço, que faz o idiota para decifrar as letras e sílabas, ressalta-lhe do rosto contraído. As feições de ordinário balordas e flácidas, como abandonadas à sua materialidade pela ausência do espírito, as confrange neste momento a tensão violenta do bestunto porfiando romper a rija crosta que o empederniu.
Assim pasmam-se, em uma fixidez espantosa, as pupilas vagas e amortecidas; a belfa caída sempre como a mandíbula de um animal, a arreganhar a boca, dava-lhe uma expressão lorpa; mas agora comprime fortemente o lábio superior, e a ponto que rangem-lhe os dentes e nas ventas sibila o sopro da respiração ofegante.
Às vezes parecia que, extenuado por esse afã, o bronco entendimento do rapaz ia desfalecer e sucumbir; pois perpassava-lhe no semblante uma ânsia repentina e seus olhos apagavam-se, como se a enorme cabeça vacilasse.
Nesses momentos de obliteração, porém, o doce olhar de Berta sustinha aquele espírito titubeante prestes a submergir-se nas trevas. Entrelaçando o rude labor da lição com sorrisos e meiguices, que orvalhavam a alma enferma do mísero idiota, a carinhosa mestra não só incutia-lhe o ânimo de perseverar no insano esforço, como iluminava com um vislumbre de sua alma a densa caligem daquele cérebro granítico.
- Esta letra, Brás!... Não se lembra?... Olhe para mim, olhe bem! O que estou fazendo?...
- Rindo!
- Então que letra é?
- Erre?... dizia o rapaz depois de lenta cogitação.
- Isso mesmo.
Outras vezes, para dirigir o entendimento de Brás e despertar-lhe a embotada reminiscência, contava Berta uma história, imitava o canto de um pássaro, ou inventava um brinquedo que suscitasse a noção esquecida.
Embora já tivesse Brás percorrido quase toda a carta de leitura, de súbito, e não obstante esse adiantamento, faziam-se em seu entendimento profundos eclipses. Dir-se-ia que apagava-se de todo o morno lampejo da inteligência bruta, e que esse crânio vazado em molde humano descia abaixo de uma caveira suína.
Por isso Berta o obrigava a repetir constantemente tudo quanto já havia aprendido, no intuito de, à força de hábito, por uma espécie de atrito contínuo, gravar-lhe profundamente no boçal engenho os rudimentos que tinha ensinado com admirável paciência. Só de tal sorte conseguira ela inserir nessa bruta animalidade algumas idéias, que ali permaneciam como inscrições lapidárias abertas em lousa.
Era Brás filho de uma irmã de Luís Galvão, a qual falecera três anos antes, ralada pelos desgostos que lhe dera o marido, e pelo suplício incessante de ver reduzido ao lastimoso estado de um sandeu o único fruto de suas entranhas.
Quando morreu, já era de muito viúva a infeliz senhora; e, pois, com a sua perda, ficou Brás sem outro arrimo, a não ser por Luís Galvão, seu tio e mais próximo parente, que o trouxe imediatamente para casa e desvelou-se como pode, pela sorte da mísera criança.
Compreende-se quanto devia custar a D. Ermelinda, ciosa em extremo da morigeração de seus filhos, o receber no íntimo seio da família um menino até certo ponto estranho, e não só baldo de toda a educação, como incapaz de recebê-la. Mas compenetrara-se a digna senhora que seu marido, recolhendo o sobrinho órfão e servindo-lhe de pai, cumpria um rigoroso dever; e tanto bastou para que não suscitasse a menor objeção. Resignada ao mal inevitável, socalcou sua repugnância.
Somente exigiu de Luís Galvão, e isso o fez com autoridade de mãe, que, recebido Brás e tratado como filho da casa, se evitasse contudo seu íntimo contato com Afonso e Linda, conservando-os, quanto possível, alheios à existência do primo, e impedindo o menor trato e convivência com ele.
Consentia D. Ermelinda em ser-lhe mãe e cercá-lo de toda a solicitude, apesar da natural repulsão que deviam causar à sua índole tão delicada os modos brutais e parvos do idiota. Não lhe sofria porém o coração que seus filhos vissem nesse menino mal-amanhado e grosseiro um camarada e um parente, quanto mais um irmão.
Apesar de convencido da inutilidade de seus esforços, não os poupava Luís Galvão para reparar a desgraça do sobrinho ou pelo menos atenuá-la. Havia em Santa Bárbara uma aula pública de primeiras letras, a qual ainda o vulgo pelo costume antigo tratava de escola régia. Servia de mestre um latagão de verbo alto e punho rijo, que fora outrora ferrador e a quem chamavam de Domingão.
Fiel às tradições da antiga profissão, entendia ele lá de si para si que um bom processo de ferrar bestas devia ser por força excelente método de ensinar a leitura e a tabuada: e fossem tirá-lo dessa idéia! Assim encaixava o abecê na cachola do menino com a mesma limpeza e prontidão com que metia um cravo na ferradura. Era negócio de dois gritos, um safanão e três marteladas.
Tal era o professor, a quem foi incumbida a tarefa de ensinar a ler ao Brás. Depois dos três primeiros dias de indulgência, pôs o ferrador em prática o seu método repentino, que desta vez, com pasmo seu, falhou completamente. "Nunca, em sua vida, dizia ele, tinha encontrado um jumento de casco tão rijo".
Debalde o Domingão brandiu a pesada palmatória de guarantã, e ferrou uma chuva de formidáveis carolos na cabeça do Brás; não conseguiu dele em um mês que repetisse o nome das três primeiras letras. Quando lhe puseram nas mãos a carta pregada em uma tábua, o menino percorreu todos aqueles hieróglifos com olhos pasmos e botos, e só deu sinal de atenção, em descobrindo o til.
Então expandiu-se-lhe o estúpido semblante com um riso alvar, que estertorou na gorja, e, tomado por súbita alacridade, ele, de ordinário soturno e pesado, começou a fazer trejeitos e gatimonhas ao pequeno sinal ortográfico, procurando imitá-lo a uma com os dedos, com a boca, e até com todo o corpo nos saltos extravagantes que dava pela casa.
Toda a escola disparou a rir; e o mestre no primeiro momento não se pode conter; mas logo refazendo a carranca magistral, pôs cobro ao escândalo.
Sem embargo, repetiu-se ele ao outro dia, e em todos que se lhe seguiram. Em apresentando-se a carta ao marmanjo, era a mesma indiferença para tudo, e a mesma festa grotesca ao til.
Com as mãos doídas das palmatoadas e a cabeça empolada dos coques de régua, fugia o pobre do Brás para o mato, onde ia descobri-lo o pajem, que diariamente o acompanhava pela manhã da fazenda à escola e vinha buscá-lo por volta de uma hora da tarde.
XXVI
O ABECÊ
Em uma das escapulas que fez o Brás da escola, sucedeu encontrá-lo Berta, acocorado, a soprar as palmas inchadas e rosnando contra o Domingão, a quem ameaçava de longe com murros ao vento.
Consolou-o ela e o levou consigo até a casa para deitar-lhe panos de aguardente nas mãos e distraí-lo da exasperação em que o via.
De todas as pessoas que Brás encontrara nas Palmas, fora Berta a única de quem não o afastara o seu natural bravio, nem a aversão instintiva que lhe inspirava toda criatura humana com quem se achasse em contato. A gratidão, que logo mostrara pelo modo compassivo e meigo da menina, redobrou com aquele incidente.
Quis Berta, para livrar o pobre rapaz dos bolos e repelões do mestre, ensinar-lhe todas as manhãs a lição; e nesse desígnio preparou-lhe uma carta. Continuaram as cenas da escola; e repetiram-se as visagens e gaifonas à vista do til; porém desta vez em maior escala, pela liberdade em que estava o parvalhão do rapaz. No seu afã de imitar o sinal, que tanto lhe dera no goto, virava cambalhotas e corcoveava pela grama.
Trabalhava a enjeitadinha com toda a meiguice para aplicar às letras o boto engenho daquele órfão, ainda mais que ela desamparado da fortuna. Vão esforço, em que, não obstante, porfiava com uma perseverança incrível naqueles tenros anos e em tão humilde condição.
De seu lado também não descoroçoava o Domingão de meter o abecê nos cascos do Brás, ainda que para isso fosse necessário abri-los de meio a meio:
- Burro! gritava ele com uma voz de trompa, esgrimindo a férula. Ou te racho o quengo com este bodoque, ou pões em achas o guarantã!...
Afinal teve Berta uma inspiração. Desenganada de obter que o menino pronunciasse ao menos o a, deixou-o lançar-se aos costumados esgares e gambitos. Observando então o pobre sandeu com um dó profundo, pensava ela que Deus, em sua infinita misericórdia, concedia a essa alma tão atribulada e sempre confrangida por terrível angústia, um breve instante de alegria.
Nisso o Brás pulando como um boneco de engonço, passava a ponta do dedo mui de leve pelas sobrancelhas negras de Berta, por seus lábios finos, pela conchinha mimosa da orelha; e, apontando alternadamente para o til na carta do abecê, repinicava as risadas e os corcovos.
Iluminou-se de súbito o coração de Berta. A impressão estranhas que no idiota produzira aquele insignificante objeto, e cuja causa escapava à sua compreensão, não era a trepidação de um raio, tênue embora, de inteligência, que filtrava daquele cérebro denso como o frouxo bruxuleio de uma estrela através do nevoeiro?
A camada profunda que soterrava o espírito do Brás, tinha um interstício por onde coava-se alguma chispa, que rareava as trevas carregadas dessa noite sem manhã. E por singular coincidência o primeiro balbucio da inteligência bôta se dirigia a ela, como o primeiro vagido da criancinha no berço chama pela mãe.
Ninguém sabe o que passou então no íntimo de Berta, que tinha suas venetas, e de quem se referiam casos que a gente velha do lugar, e especialmente as pretas da fazenda, atribuíam a uma influência misteriosa e sobrenatural.
Associando-se a lembrança original do idiota, disse-lhe a menina, ajudando a palavra com mímica expressiva e apontando para a carta.
- Eu sou til!
Esteve Brás um instante pasmo e boquiaberto, sem compreender, apesar da ânsia com que afinal bateu palmas de contente e deitou a pular, regougando a sua parva risada.
- Eh!... eh!... eh!... Berta, umh!... Berta, umh!...
Daí em diante aquele sinal, que para o idiota era símbolo de graça, da gentileza e do prazer, tornou-se a imagem de Berta, e não se cansava Brás de o repetir, não por palavras, mas por acenos com os meneios mais extravagantes.
Dias depois, chamando-a ele pelo nome, a menina respondeu-lhe:
- Não me chamo mais Berta; meu nome agora é Til.
- Hanh!... fez o idiota com essa interjeição ou bocejo, que na sua bruta linguagem exprimia uma interrogação embasbacada.
- Til!... tornou Berta com a pronúncia clara e vibrante.
Forcejou o infeliz para articular o monossílabo; mas só a custo, e ajudado por Berta, o conseguiu. Causou-lhe isso tão intenso prazer, que a todo o instante proferia o nome, e amiudando-o trinava com ele, a modo dos pássaros quando em seu crebro gorjeio repicam a mesma nota.
Assim identificava com a carta pela estranha afinidade que inventara a estultice do menino, Berta recobrou a esperança que já a ia abandonando.
Um dia, Brás com violento esforço e após funda concentração, arrancou dos beiços grossos e flácidos estas palavras truncadas:
- Brás... bem Til... muito... muito!...
Sorriu-se Berta, e agradeceu-lhe com um carinho.
- E Til?... interrogou o idiota com ar ansiado.
- Til quer bem...
Com um repente, mostrou-lhe Berta a carta, pondo o dedo sobre o a .
- A este!...
- Pela primeira vez reparou o rapaz na forma da letra, que se lhe gravou na memória.
- Hanh?... tartamudeou ele ofegante.
- Afonso!
Arreganhou-se a estólida cara do idiota na terrível catadura de um sabujo de furor. Arrebatando o abecedário da mão de Berta, despedaçou-o para arrancar o a, que trincou nos dentes com sanha.
À princípio atemorizou-se a menina; mas logo, revoltando semelhante fraqueza as energias de sua alma, tranqüilamente e com ar de indiferença observou aquela cólera brutal, que atingiu a maior exasperação.
Como se esperasse justamente esse momento culminante do acesso, chamou Berta o idiota para junto de si com um aceno; e bastou-lhe pousar a mãozinha afilada sobre o ombro para aplacar-lhe a exacerbação.
- Til gosta deste!
Estas palavras, disse-as a menina mostrando com a unha rosada o b e repassando-as de uma voz tão doce, que derramou na alma ulcerada do mísero um ignoto consolo. Voltou ele para Berta os olhos baços, que iluminaram-se com um reflexo vítreo.
Compreendeu Berta a muda interrogação, e a satisfez.
- É Brás!
- Til?... balbuciou a voz trôpega, enquanto o dedo convulso apontava a letra.
- Sim! disse Berta.
Caiu Brás em um novo acesso, porém este de alegria, que chegava ao delírio. Atirando-se ao chão, estrebuchou de prazer, soltando gritos descompassados e risos sibilantes, que mais pareciam guinchos de um animal bravio.
Assim em torno dela, que era o til, Berta foi engenhosamente agrupando todas as letras do alfabeto, com os nomes das pessoas e objetos que a cercavam. Pondo em jogo as broncas paixões do idiota, e colhendo os rudes germes de idéia que se formavam em seu bestunto, obteve ela afinal transformar a carta do abecê em uma família, em um mundo, para a existência enfezada dessa mísera criatura.
Ao cabo de um mês, conhecia Brás todo o abecedário. Que inauditos esforços de paciência, que sublimes intuições não foram necessárias para vencer esse impossível!
Só Berta o poderia conseguir. A fascinação que exercia sobre o idiota era uma sorte de encanto e magia. Sua vontade movia aquele corpo, como se fosse o espírito que o animava. Brás sentia e pensava unicamente pela alma dela, que lhe transmitia as impressões no olhar carinhoso, na voz suave, no sorriso fagueiro.
Dir-se-ia que se tinha operado a misteriosa transfusão d’alma do anjo na grosseira bestialidade do mostrengo. Quando nos acessos epilépticos, estrebuchando o infeliz em medonhas contorções, não bastavam as forças de três homens possantes para sopear os ímpetos formidáveis, nem as mais enérgicas aplicações para superar a crise violenta, o simples toque dos dedos de Berta ou sua fala maviosa, subjugava aquele furor e aplacava logo a horrível convulsão.
XXVII
A COTIA
Percebendo que a fadiga abatia as forças de Brás, suspendeu Berta a lição.
Descanse agora!
Ajoelhado como estava, deixou-se Brás cair sentado sobre os calcanhares; de corpo bambo, os braços pendurados, e o queixo caído, quedou-se o estafermo em pasmatório, com os olhos dormidos no gentil semblante de Berta.
Ocupada com sua tarefa, já não lhe dava atenção a menina, cujo pensamento andava agora enleado em outras cismas.
Nisso apareceu Miguel, que voltava afinal, e, procurando Inhá pela casa, veio a sair na porta do oitão.
- Sempre chegou?... disse Berta a rir.
- Não faço falta, respondeu Miguel com um motejo tristonho.
- Mecê está hoje tão macambúzio, nhô Miguel! replicou a menina galhofando com a intenção de desanuviar o semblante do moço.
- Nem sempre faz bom tempo! Às vezes amanhece a gente com uma cara, que mete medo aos outros, e os obriga a se esconderem! Não é assim?
Com a alusão de Miguel atalhou-se Inhá, enrubescendo de leve, pois logo acudiu-lhe a sua graciosa petulância:
- Ora que caçador!... exclamou a rir. Não deu com a pista!...
- Não quis, e para não agoniá-la.
- A mim?
- Cuida então que eu não percebi desde muito tempo? Quando você vai ver a Zana, não gosta que ninguém a acompanhe!
- Ah! descobriu isso? Está muito adiantado! Berta com um modo agastado e concentrando-se em sua tarefa.
- Zangou-se?
- Eu não ando espiando o que os outros fazem!
- Não faça caso do que eu disse, Inhá! Desculpe!... tornou Miguel enleado e aflito.
Berta, de todo absorta no conserto da roupa, parecia ter esquecido a presença do colaço, o qual a contemplava com um enlevo apaixonado, que rompia dentre a expressão abatida de sua figura. Pesaroso por ter ofendido a menina e acanhado com a presença dela, queria falar, e não achava a palavra para desvanecer o enfado, que havia causado.
Brás, que desde a chegada de Miguel se agachara sobre as patas como um cão de fila, rosnava surdamente, saltando com o olhar do semblante de Berta ao vulto de Miguel, como se esperasse um gesto da senhora para filar a presa e abocanhá-la.
Os agastamentos de Berta eram cóleras do colibri, que tão depressa belisca e arrufa-se, como cintila aos raios do sol, feito um rubi celeste.
A cabeça inclinada sobre a costura ocultava-lhe o rosto que Miguel supunha fechado ainda pela zanga, quando já dos cantinhos da boca lhe estava borbulhando um sorriso zombeteiro que lhe salpicava as faces de petulante malícia.
Relanceando uma olhadelha de soslaio, percebeu o pesar de Miguel e arrependeu-se de se haver agastado com ele; mas conteve-se para fazer-lhe pirraça e gozar por algum tempo ainda do enleio do moço.
Desde alguns instantes ouviam-se uns guinchozinhos, como de preá, mas abafados; e apesar da curiosidade de saber donde partiam, a menina não levantava a cabeça.
- Aqui está o que lhe trouxe, Inhá, animou-se a dizer Miguel tristemente.
Metendo a mão por baixo do pala, tirou uma linda cotia, que tinha as patas amarradas para não fugir.
Berta apenas erguera um canto da pálpebra; mas foi o bastante. De relance pulou junto de Miguel, arrebatou-lhe a cotia, e conchegando-a ao seio, começou a alisar-lhe a pelúcia dourada, animando-a com os dengosos requebros e a garrulice carinhosa em que se expande a inexaurível sensibilidade da mulher por tudo que é frágil, mimoso e delicado como ela.
Passado o primeiro afago, a travessa repartiu com Miguel as meiguices, não só por gratidão do mimo que lhe dera, como para mostrar que já mão conservava a menor queixa dele.
- Coitadinha! exclamou ao ver que o animal estava com as patas ligadas por uma fita de crautá.
- Olhe que foge! disse Miguel impedindo a menina de desdar o laço.
- Então você há de fazer uma casinha para ela! Tão bonitinha! Que pelo macio; parece um veludo. E os olhos? Tão lindos! Eu conheço uns olhos ternos assim! Não se lembra?
- Se me lembro! atalhou Miguel com um tremor na voz. Pois não os estou vendo?
Com sua volubilidade natural, já estava Berta longe da pergunta que fizera, e, toda embebida de novo com a cotia, sentara-se para agasalhá-la ao colo.
- Onde apanhou?
Teve Miguel de referir então a longa história de como fora o animal apanhando, os incidentes que tinham acompanhado a caçada, e muitas particularidades que Inhá desejava saber; se a linda cotia ainda tinha mãe; se já era casada, e deixara no mato algum filhinho; pois nesse caso queria soltá-la.
Tranqüilizou-a Miguel, asseverando que a cotia era solteirinha e vivia só, por terem as raposas acabado toda a família, não tardando que lhe fizessem o mesmo a ela, pelo que era até um benefício retê-la cativa.
- Ai, coitadinha! exclamou Berta condoída, e conchegando outra vez o animalzinho ao seio. Veja lá, Miguel, você há de fazer a casinha para ela, com porta e janela, e também um coche com seu bebedouro. E depressa que é para eu dar a Linda!...
Ao mesmo tempo voltava Miguel o rosto para esconder a expressão de pesar que o tinha subitamente invadido, um grito de espanto partia dos lábios de Berta.
Rápida como uma seta, a cotia fuzilou no ar e sumiu-se pelo mato. O Brás de quem os dois se haviam esquecido, se aproximava rojando pelo chão como um réptil, e sem que o percebessem, acocorado junto à parede, gorgotava um riso sarcástico e manhoso.
Precipitou-se Miguel para castigar o idiota, que ele adivinhava ser o autor da pirraça, mas Berta, que lhe viu o ímpeto, se interpôs a tempo.
- Deixe, Miguel! exclamou ela; e voltando-se para o alarve, atirou-lhe apenas esta palavra:
- Lesma!
Como um novilho ferido pelo aguilhão, o idiota arremeteu pelo campo e desapareceu.
- Se você não fizesse tão pouco caso do que eu lhe dei, aquele brutinho não se havia de atrever.
- Oh! Miguel, pois queria mais?
- Dando aos outros em vez de guardar para si?
- Mas era para Linda! atalhou Berta com ingenuidade. Ela havia de ficar tão contente, sabendo que vinha de você!
Concentrou-se Miguel em um violento esforço, que lhe desmaiou o brilho dos grandes olhos e a cor das faces.
É tempo de acabar com este gracejo, Inhá. Além de minha mãe, eu lhe juro, que só a você quero bem; mas você não se importa comigo; portanto já sei o que devo fazer. Não hei de aborrecê-la mais.
XXVIII
A BOLSA
Naquela manhã Jão Fera saíra das brenhas, onde se acoitava, à mesma hora em que Berta chegava à tapera para ver Zana.
Vinha o capanga sombrio e torvo mais que de ordinário, porém sobretudo absorto em funda cogitação, e tão alheio de si, que não se apercebia do lugar por onde passava, nem dos objetos que o cercavam.
Devia ser poderosa a preocupação que assim o demovia da habitual desconfiança, bem como das precauções, indispensáveis na sua condição de foragido e reclamadas pela perseguição de que era alvo.
Assim não ouviu ele um ruído subterrâneo que ressoou-lhe embaixo dos pés; ou, se ouviu, não fez reparo, atribuindo a algum animal, que estivesse a abrir a toca.
Era o Brás, o qual antes de aproximar-se da tapera, onde encontrara Berta, ali andava cavando com a pá, achada no esqueleto de um burro, a terra que tirava com as mãos e o chapéu.
Havia nesse lugar uma pequena estiva, feita sobre um socavão pelos antigos moradores do sítio, para serventia da roça. Com a ruína da casa, desapareceram as plantações, e do caminho só restava aquele carreiro e o aterro que aí tinham posto.
Aproveitando-se da configuração do terreno, gizara Brás com instinto perverso aluir as ribanceiras do grotão, para que faltando apoio às extremidades da estiva, um dia abatesse ela com o peso de Jão Fera, que rolaria pelo barranco abaixo.
Entretanto prosseguia lentamente Jão Fera seu caminho; senão que ao passar perto da tapera, e como subitamente arrancado aos pensamentos que o tomavam, manifestou seu gesto, à vista da casa em ruínas, uma espécie de terror e espanto, que o fez acelerar o passo e afastar-se quase em fuga.
Sabia o capanga que àquela hora costumava Berta aparecer na tapera onde tantas vezes a tinha encontrado, e era dela que fugia, dela a quem não se animara a rever desde a cena da azinhaga no dia da tocaia.
Quando três dias antes partira espavorido daquele sítio ao ver o relicário de que Berta lhe oferecera o cordão de ouro, correra por algum tempo sem inconsciência de si, mas acossado por uma lembrança que o pungia, como o aguilhão da mutuca no lombo do tapir.
Recobrada a calma, achou-se à borda da estrada, que em sua carreira por dentro do mato ele perlongara sem o sentir. Soava perto um tropel de animais, e Luís Galvão apareceu na volta do caminho. Seguido pela batida na orla da estrada, o animal ia passar rente com o capanga, oculto pela cepa de uma gameleira.
Foi um momento de colisão para Jão Fera. Aí estava ao alcance do braço, à sua mercê de um movimento seu o cumprimento de sua palavra, que ele não podia doutro modo libertar. Mas o olhar cintilante de Berta e o gesto de seu desprezo se debuxavam ainda ao pensamento do facínora como um anátema.
Luís Galvão passou incólume; e Jão Fera encaminhou-se à venda do Tinguá.
Esperava-o aí o Barroso, que mal avistou-o no terreiro do rancho, logo saiu-lhe ao encontro, impaciente de receber a nova.
- Arrependi-me! disse-lhe o capanga secamente e com um olhar de chumbo.
- Hein!... exclamou o outro azoado com a palavra.
- Não se faz nada.
- Por que?
Podia o capanga arranjar uma desculpa; mas repugnava-lhe a mentira.
- Não quis! respondeu lacônico.
- Está galante a embroma! rascou o Barroso com rinchavelho de cólera. E vem dizer-me isto com toda a frescura! Mas a culpa tenho eu em fiar-me num tratante da sua laia.
A última palavra não a acabou de proferir, que dum revés da mão o capanga o lançou chão, calcando-lhe a alpercata ao peito. Viu ele descer ameaçadora a coronha do bacamarte e fechou os olhos. O bugre ia esmigalhar-lhe a cabeça, como se faz com um réptil.
- O que te vale é estar eu em dívida contigo. Mas São João não tarda; e até esse dia duma ou doutra forma hei de desempenhar minha palavra. Então ajustaremos minha palavra. Então ajustaremos esta conta.
Afastando de si o corpo do miserável com a ponta do pé, entrou na venda para beber um martelinho de cachaça. Debalde o Chico Tinguá quis tirar conversa; o taciturno capanga, na introversão d’alma, nem se apercebia da presença do amigo.
Onde e como obter a soma necessária para resgatar sua palavra, ele que só conhecia um meio de ganhar dinheiro, e nunca tivera outra profissão a não ser a de matador?
Sem aquela quantia, como livrar-se do empenho que tomara, senão dando conta da tarefa, e incorrendo portanto no desprezo e aversão de Berta, que jamais lhe perdoaria?
Eis a ânsia em que se debatia a alma de Jão Fera.
Após longa obsessão, ergueu-se impelido por uma idéia, que de repente acudira, e sem despedir-se partiu. Saído ao terreiro, no lugar onde há pouco se encontrara com Barroso, seus olhos baixos deram com um objeto, que lhe causou reparo. Era uma bolsa de couro, e parecia recheada de moedas.
- Oh! Chico!
Acudindo o vendeiro, Jão empurrou com a coronha do bacamarte a bolsa:
- Guarda isto para entregar àquele safado!
Não tinha andado cem braças o capanga, quando ouviu os psius do Tinguá a chamá-lo. Era o caso que sentindo o Barroso falta da bolsa, voltara por ela, justamente quando o vendeiro entrava para guardá-la; e, sabendo que a achara o capanga, deixou-lhe uma moeda de alvíssaras, talvez com a esperança de aplacá-lo. Para entregar essa gorjeta correra o Chico ao alcance de Jão.
- Toma para ti. Eu não aceito dinheiro de semelhante peste.
E sem mais foi-se.
Pouco além, ganhando um atalho para desviar-se da estrada, lobrigou ao longe um vulto entre a folhagem.
Era um mascate, dos muitos que percorrem a pé os circuitos das cidades do interior, onde se demoram semanas a vender pelas fazendas e arraiais.
Descansavam, à sombra de uma árvore, da excursão que já tinha feito naquela manhã, e da qual lhe surtira bom lucro, pois estava ele entretido em contar os miúdos, que tirava da algibeira da borjaca. Colocando-os, uns sobre outros, formava os maços de dez, aos quais ia acomodando em uma grande carteira de marroquim azul, aberta diante dele sobre a grama e já bem fornida de notas.
Ao lado, estava a maleta de jóias e miudezas, que ele costumava trazer às costas, presa por uma correia, e um grosso bordão ferrado, que servia ao seu braço musculoso não só de arrimo à fadiga, mas de arma formidável para a defesa.
Muito embebido estava o italiano em seus cálculos, pois não percebera a aproximação de Jão Fera, que em pé atrás do tronco, e a dois passos dele, o tinha em seu poder.
XXIX
DESENCARGO
Na posição em que se achava Jão Fera bastava-lhe carregar a mão sobre a nuca do mascate para subjugá-lo, sem que este pudesse fazer ou sequer tentar a mínima resistência.
Entretanto pela mente do capanga, desse homem feroz que se fizera instrumento de ódios e vinganças alheias, nem de longe perpassou a idéia de que tinha ali à mercê da vontade e ao alcance do braço, uma quantia superior àquela de que necessitava para desempenhar sua palavra, e pela qual dera de bom grado alguns dias de vida.
Bem diverso foi o pensamento que lhe sugeriu o inesperado encontro.
- Este tem de sobra, bem que podia me emprestar! murmurou consigo.
Já promovia o passo a fim de aparecer ao mascate, quando foi tolhido por um receio, que o estacou. Sua presença imprevista, naqueles ermos e em semelhante ocasião, devia necessariamente sobressaltar o italiano, que sem dúvida se julgaria ameaçado, e o tomaria, a ele Jão Fera, por um ladrão de estrada.
Tanto bastou para que o capanga sem mais demora se retirasse com todas as precauções de modo a não pressenti-lo o mascate; e, chegado que foi a alguma distância, afastou-se rapidamente daquele lugar.
Nos três dias que decorreram desde então, debalde engendrou Jão Fera meios de obter a soma precisa. Frustraram-se todas as esperanças, uma após a outra.
Jogou e perdeu os magros cobres que tinha. Alguns ajustes entabulados falharam: porque o genro que desejava aliviar-se do sogro, e o cafelista a quem azoinava um vizinho resinguento, tinham resolvido esperar pela mudança da política, para com mais segurança aviarem esse negócio.
Um tigre que descera do sertão destruía o gado de uma fazenda próxima, cujo dono prometera boa recompensa a quem o matasse. Botou-se para lá o capanga; mas já a onça acossada por outros caçadores se havia retirado.
Afora estes, não imaginava Jão Fera outros meios de ganhar dinheiro sem humilhação. O trabalho, ele o tinha como vergonha, pois o poria ao nível de escravo. Prejuízo este, que desde tempos remotos dominava a caipiragem de São Paulo, e se apurava nesse homem, cujo espírito de sobranceira independência havia robustecido a luta que travara contra a sociedade.
Era a enxada para ele um instrumento vil; o machado e a foice ainda concebia que os pudesse empunhar a mão do homem livre; mas em seu próprio serviço, para abater o esteio da choça ou abrir caminho através da floresta.
Tornando da malograda espera do tigre, alcançou o capanga um casal de velhinhos, que seguiam diante dele o mesmo caminho e conversavam acerca de seus negócios particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu Jão Fera que destinavam eles uns cinqüenta mil réis, tudo quanto possuíam, à compra de mantimentos, a fim de fazer um moquirão, com que pretendiam abrir uma boa roça.
- Mas chegará, homem? perguntou a velha.
- Há de se espichar bem, mulher!
Uma voz os interrompeu:
- Por este preço dou eu conta da roça!
- Ah! É nhô Jão!
Conheciam os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de fazer o que prometia. Aceitaram sem mais hesitação; e foram mostrar o lugar que estava destinado para o roçado.
Acompanhou-os Jão Fera; porém, mal seus olhos descobriram entre os utensílios a enxada, a qual ele esquecera um momento no afã de ganhar a soma precisa, que sem mais deu costas ao par de velhinhos e foi-se deixando-os embasbacados.
Na manhã em que estamos, saíra o capanga de seu esconderijo resolvido a lançar mão do meio que reservara para a última extremidade. Afastando-se das ruínas para evitar um encontro com Berta, chegara a um sombrio raleiro do mato, onde retouçava o bacorinho ruivo.
Enxotado por Jão, o animalzinho desapareceu, e antes de meia hora estava de volta precedendo o trote miúdo o Chico Tinguá.
Pensou lá consigo o vendeiro, apesar do chamado, que o mais urgente era avisar o capanga do que tramavam contra ele; e pois foi logo contando o quanto ouvira pouco antes.
Riu-se o Bugre.
- Deixa-os!
- Mas o arengueiro do Pinta meteu-se de súcia com eles, redargüiu Chico; e não é de bom que o demônio me anda a cheirar cá pelo rancho a uns tempos. Agora mesmo quando vim, lá me ficou espiando!
Jão Fera encolheu os ombros com um ar desdenhoso.
- Escuta, Chico, isto é negócio sério. Hás de ir agora mesmo à fazenda do tal Aguiar. Diz-lhe que ele perde seu tempo em estar oferecendo contos de réis a quem me agarrar. Se quiser, que te entregue cinqüenta mil réis, e sou capaz de ir lá à fazenda uma tarde que ele marcar depois de São João. Dou minha palavra.
Olhou-o Chico espantado e quis objetar.
- Vai ou não? Atalhou Jão com o tom decisivo.
O vendeiro abaixou a cabeça e partiu. Vendo-o desaparecer, dirigiu-se o capanga para a casa de nhá Tudinha, e já a pedaço oculto entre a ramada, estava de longe observando Berta, quando Miguel se retirou despeitado, deixando só a colaça. Nessa ocasião animou-se ele a transpor a orla da mata; a menina o viu e adivinhando que lhe queria falar, foi a seu encontro.
O olhar de Berta era uma interrogação instante e cheia de inquietação. Não se encontrara com o capanga, desde que este fugira de volta da Ave-Maria, sem fazer-lhe a promessa que ela exigia.
- Agora posso desempenhar minha palavra, e não me importarei mais com o Galvão; disse o capanga cabisbaixo e humilde.
Estremeceu Berta, pensando no perigo que até aquele instante correra o pai de Linda.
- Obrigada, Jão! Disse Berta com efusão sincera.
Nem lhe ocorreu, fosse o que ela agradecia, dádiva de um assassino, que lhe cedia uma existência como um artigo de seu bárbaro tráfico.
- Mecê está contente? Perguntou animando-se o capanga.
- Muito, muito, Jão!
- Então... me deixe...
A voz do capanga balbuciou, e por fim gelou-se nos lábios trêmulos e lívidos.
- O que é? insistiu Berta. Fale, não tenha susto. Quer que eu faça alguma coisa por você?
- Sim!
- Pois diga.
Com um violento esforço arrancou o capanga estas palavras trôpegas:
- Beijar o bentinho.
Sorriu-se Berta, e com um gesto gracioso tirou do seio o relicário pendente com a cruz do cordão de ouro, e, erguendo-se na pontinha dos pés, o deu a beijar, preso como estava ao pescoço.
Jão Fera roçou os lábios pela relíquia, e, sem força para erguer a cabeça bamba, com o corpo balordo e o passo trôpego, cambaleando como um ébrio, afastou-se da menina, sem ânimo de por os olhos no semblante dela.
- Está embriagado! pensou Berta com indignação que se pintou em sua fisionomia.
Mas já a caridade vibrava as cordas mais suaves de sua alma, e o primeiro assomo de severidade se afogava nos eflúvios de uma compaixão inexaurível.
- Coitado! murmurou.
A blateração do Brás a surpreendeu nesse instante. Voltava com a roupa em frangalhos, a cara arranhada de espinhos, as mão escoriadas, os cabelos emaranhados de gravetos, e todo ele coberto de pó ou lama. Trouxera presa uma cotia, que fora caçar para Berta, em troca da outra.
Quando a ia entregar à menina, vendo a repulsão que se desenhava no lindo semblante, e adivinhando a causa, o idiota soltou a sua bestial interjeição, apontando para o vulto de Jão Fera.
- Hanh! hanh!...
Tinha o idiota a atitude e o gesto do mastim que interroga o olhar do senhor, e com um latido surdo pede-lhe que o estume contar o inimigo.
XXX
TRAMA
Era véspera de São João.
Na fazenda das Palmas, desde muito cedo que se faziam os aprestos para a festa daquela noite de folguedos. Já o pátio estava enramado de coqueiros; e no centro erguia-se uma pilha de lenha para a fogueira fatídica.
Nhá Tudinha se instalara na cozinha. Cercada de uma multidão de caçarolas, frigideiras, gamelas, alguidares e latas, a repolhuda comadre repimpava-se no cepo do pilão, para distribuir suas ordens pelas raparigas; mas não se podia ter que não saltasse logo do seu pedestal e acudisse aqui e ali, em toda a parte, com uma azáfama crescente, o que fazia dizer a crioula Rosa, em aparte ao Faustino:
- Gentes! Esta mulherzinha tem bicho-carpinteiro.
D. Ermelinda abdicara naquele dia em nhá Tudinha o governo da cozinha e despensa para ocupar-se exclusivamente com a recepção dos hóspedes que eram esperados à tarde.
Depois do almoço, Linda e Berta com os braços entrelaçados pelas cinturas, desceram ao terreiro por uma das escadas laterais e depois de percorrerem as ruas de coqueiros e o pavilhão de folhagem que tinham arranjado ao redor da fogueira, foram abrigar-se do sol na horta à sombra de uma latada, onde podiam conversar à vontade.
Linda parecia triste. A próxima festa, longe de enflorar, lhe desfolhava o brando e mavioso sorriso. Como o dourado inseto que se esconde entre as pétalas da rosa, havia um segredo a suspirar nesses lábios mimosos.
- Esta noite as moças ficam sempre tão contentes! disse a menina em tom suave de queixume.
- E você? tornou Berta com um sorriso.
- Eu não!
- Por que, Linda?
- Todas tem uma pessoa que pense nela.
- Então você não tem? perguntou Berta com um doce remoque.
Linda abanou a cabeça melancolicamente.
- E Miguel?
- Ele não gosta de mim! suspirou a menina com o lábio balbuciante e uma lágrima a tremer na pálpebra.
Respondeu-lhe Berta com uma fresca risada, que debulhou mesmo nas faces da amiga, como os bagos nacarados e saborosos de uma romã.
- Olhem que sonsinha!...
- Nunca mais lhe direi nada, Berta! acudiu Linda, ressentida do modo por que recebera a amiga sua confidência.
- Pois, menina, você tem lembranças, que a gente não pode mesmo deixar de rir-se. Então Miguel não gosta da senhora? Era preciso que ele não tivesse olhos para ver essa carinha de feitiço.
- Há outra que ele acha mais bonita!
- Outra?... Qual?... perguntou Berta de todo confusa.
- Esta, que ele vê a todo momento! replicou Linda, afagando o semblante da amiga com um gesto de triste resignação.
De novo disparou Berta a rir com a lembrança da amiga.
- Ai, que ciumenta, Jesus!
Retiniu perto o grito áspero do curiau. No meio do silêncio que reinava naquele sítio, como era natural, excitou esse brusco rumor a atenção das duas amigas, e arrancou-as à anterior preocupação. Berta sobressaltou-se com a lembrança de que ouvira o mesmo apito no dia da tocaia.
Conteve-se receando assustar Linda; mas, apesar da promessa que lhe fizera o Bugre, estremecia com a idéia de que Luís Galvão devia chegar de Campinas naquela manhã, e talvez ao passar na volta da Ave-Maria fosse vítima do assassinato que ela uma vez impedira. Em falta de Jão Fera, a oculta vingança que ameaçava a existência do fazendeiro, teria procurado outro instrumento.
- Vamos ao mirante, Linda? O sr. Galvão não pode tardar.
- Papai só chega ao meio dia; respondeu a moça erguendo-se para acompanhar a amiga.
Na ocasião em que as duas atravessavam a horta, um vulto se esgueirando por detrás dos pessegueiros, passava a cerca e sumia-se no canavial. Berta que o viu nessa ocasião, e apenas de relance, inquiriu de Linda para certificar-se.
- Não é o Faustino aquele?
A filha do Galvão, distraída, de nada se apercebera.
Não se enganara Berta. Era de feito o pajem Faustino, que saíra de casa sorrateiramente para acudir ao grito do curiau, sinal combinado com o Barroso. Atravessando três ou quatro talões do canavial, foi ele surdir justamente no lugar onde anteriormente, no dia da partida de Luís Galvão, estava de espreita o Monjolo.
Era um sítio escuso e sáfaro; ficava embaixo de uma barranca, escondido pelo maciço do canavial e pelo matagal embastido que já invadira o valado.
Aí estavam Barroso e Monjolo, ambos com o ouvido à escuta de qualquer rumor que lhes anunciasse a chegada do pajem. O branco descansava encostado à barranca; o negro estava acocorado como gambá, junto a uma casa de cupim.
- Então o diabo chega, ou não chega? disse o Barroso ao Faustino, mal lhe pôs os olhos.
Não tarda; antes do meio dia está aí, sim senhor, respondeu o pajem.
- Eh! Eh!... fez o Monjolo.
- Vem mesmo?
- Se vem!...
- Pois então, esta noite é o batuque. Estão ouvindo?
- Monjolo já está sacudindo, sim senhor! disse o africano fazendo jeito de saracotear.
- Tomara eu ver a dança! acudiu o pajem.
- Olhem lá! Cuidado em trancar a negralhada no quadrado, senão está tudo perdido.
- Isto é com Monjolo!
- Monjolo arranja tudo, deixa estar.
- Quando estiverem bem seguros é só dar o sinal, que o fogo rebenta cá no canavial. O diabo corre para acudir; e aí você, rapaz, tranca também a gente da casa, a mulher e os filhos, e espera, que eu não tardo, para arranjar a história. Ouviram vem?...
- Não tem dúvida! disse o Faustino.
- Você que é mais ladino, explica bem àquele pai.
Riu-se o Monjolo, com uma expressão bestial que parecia confirmar o dito.
- Mas... replicou o Faustino. Eu cá é com a condição que o senhor sabe. Eu fôrro; a Rosa, para mim; e o mulato surrado como canhambola.
- Pois está entendido! disse o Barroso. Foi o ajuste.
Fuzilou uma chispa na rúbida pupila do africano.
- E tu, paizinho?
- Monjolo não quer nada, senão gimbo muito para comprar fumo e cachaça.
- Fica descansado.
Separaram-se os cúmplices. O pajem voltou à casa, Monjolo à roça, e Barroso foi juntar-se a pouca distância ao Gonçalo Pinta, que o esperava com dois animais à destra.
Apenas se desvaneceu o rumor dos passos, que um galho murcho atirado a um canto da barranca se agitara, descobrindo a boca de um covão, talvez de tatu canastra, de onde saiu de rojo meio corpo do Brás.
Daquele esconderijo, a que se acolhera para o não surpreenderem, ouvira o idiota a maquinação do Barroso, e, fato incrível, a compreendera, ou antes a sentira, porque não fora pela razão, mas por uma sorte de faro moral, que recebera essa percepção.
Adivinhara a intenção dos cúmplices, como o animal carniceiro conhece o desígnio do caçador e o acompanha para aproveitar dos despojos das vítimas.
Um riso, que ressumbrava brutal crueldade, arregaçou-lhe os beiços estúpidos.
XXXI
PAI QUICÉ
Sentado o Brás num torrão de argila, que esbroara da barranca, entregou-se a uma singela ocupação.
Tirou do seio um embrulho de folhas de inhame, onde prendera uma boa porção de gafanhotos, que poucos momentos antes apanhara a devorarem um arbusto. Espetando cada qual em um espinho de juçara, fincou-os no chão, diante de si, até o número de seis.
Terminada esta operação, começou o sandeu a ranger os dentes, espumando de raiva e ameaçando os insetos com os punhos crispados. Enquanto se desarticulava nessa furiosa gesticulação, escapavam-lhe dos lábios sons estranhos e guturais como o grunhido de um porco, ou o ganir de um cão.
As pupilas vítreas esbugalhavam-se com as contorções da fúria brutal que lhe contraía os músculos faciais. Eram as fosforescências de um ódio violento, que iluminavam de reflexos lívidos esse olhar, de ordinário morno e fusco.
Afinal tomado de um acesso de ira, saltou o idiota sobre uma pedra, e com ela esmagou freneticamente, um a um, todos os seis gafanhotos. Não contente com este suplícios, ainda por cima trincou nos dentes a cabeça daqueles que tinham sido poupados por seu açodamento.
Ofegante, exausto pela violência das emoções, prostrou-se por terra e aí ficou por algum tempo arquejando.
Era o desgraçado menino um estranho aborto da natureza. De todo bronca e estúpida, tinha contudo essa monstruosa organização bem vivo e patente o instinto do mal. Parecia que o aleijão, privando-a da alma racional, não reduzira só o homem à condição de bruto, mas o tinha logo demudado em fera.
Até conhecer Berta, o único vestígio humano que havia nessa bestialidade, era o ódio. Aborrecia a toda criatura racional, talvez por uma confusa percepção de sua deformidade e estupidez.
Depois que o desvelo da menina lhe inspirara a fúria amorosa, transformara-se em profundo rancor a profunda repugnância que ele sentia por todos; e tal fora o choque produzido por estas paixões, que acendeu uma centelha nas trevas daquele espírito embrutecido.
Desde então houve nessa animalidade um impulso que não era idiota; e foi o ódio. Estúpido em tudo, parvo até nos ímpetos da cega dedicação que votava a Berta, mostrava para o mal uma astúcia e perspicácia admirável. Incapaz de conceber uma idéia, maquinava pacientemente uma vingança terrível. À sutileza do réptil venenoso, reunia a sagacidade do guará.
Os insetos figuravam as pessoas que mais odiava, e a quem ruminava exterminar, espreitando a ocasião de levar a cabo a feroz maquinação. Enquanto não chegava o momento, divertia-se com aquele sinistro folguedo.
Surpreendido quando chegava ao sítio habitual, e obrigado a esconder-se, ouvira a trama do Barroso, que o alegrou a princípio, porém agora o contrariava pelo receio de perder a sua maldade.
Sacando do socavão um pedaço de arco de barril que afiara a ponto de torna-lo um punhal, ocultou-o no bolso do jaleco; depois do que desapareceu um instante ao lado do brejal, e voltou com um sapo que atirou junto ao buraco da casa de cupim, debruçando-se em cima dela, à espreita.
Imediatamente ao grasnido do anfíbio, apareceu no buraco a enorme cabeça de uma cascavel, que fitou no sapo a pupila cintilante.
Desde muito tempo cercava aquela serpente, que entrava no seu plano. Com uma forquilha, da posição em que estava, facilmente conseguiu prender a cabeça da vípera e agarrando-a pelo colo sem importar-lhe a sanha com que ela silvava, estorcendo a cauda e açoitando-lhe o rosto, deitou a correr por dentro do canavial.
Chegando que foi junto à casa, trepou a uma jabuticabeira para alcançar o peitoril da janela, cuja vidraça estava erguida, mostrando entre as cortinas de cassa uma linda cama de mogno coberta por colcha de damasco azul, um toucador, guarda-vestidos e outros móveis da recâmara de uma senhora.
Era a alcova de Linda. A mão perversa do idiota arremessou a cobra, que foi cair justamente sobre a cama e depois de aplacada a fúria, encolheu-se entre as rendas dos travesseiros, com a pupila em sangue e o bote armado.
Acabava o idiota de preparar assim o primeiro ato da obra de extermínio, que ele ruminava em sua feroz estultícia, quando o fez estremecer a voz de Berta que se encaminhava para a alcova.
Luís Galvão havia chegado. Ao avista-lo as meninas tinham descido do mirante a correr para chamar D. Ermelinda e irem ao encontro do fazendeiro. Também acudiram para tomar a benção ao senhor os escravos empregados no serviço doméstico, e alguns dos que não trabalhavam na roça, mas andavam por perto nas tulhas e fábricas.
Entre estes distinguia-se um inválido curvado como um arco de pipa, com a cabeça lisa como um quengo, e o queixo fino como uma faca desdentada; pelo que chamavam de pai Quicé. Era ele um dos favoritos de Berta, que todos os domingos lhe dava um vintém para fumo.
Depois de salvar ao senhor, pai Quicé que ainda não tinha visto Berta naquele dia, fez-lhe muitas festas como sempre, e começou a costumada e interminável lengalenga com que a menina muito se divertia.
Berta era curiosa, e pois gostava de saber de tudo quanto se fazia ou falava por aqueles arredores. O negro velho que não tinha outra coisa para dar à sua gentil protetora, trazia-lhe quanto mexerico e história ouvia pelas vendas, onde graças à liberdade de traste inútil, passava a maior parte do tempo.
- Nhá moça, sabe? Aquele homem muito mau, que mata gente, o Bugre que foi aqui da fazenda?...
- Que tem? perguntou Berta, cuja atenção foi excitada.
- Vão prender ele.
- Quem te disse?
Contou o negro velho o que ouvira ao Gonçalo junto à venda do Chico Tinguá, e o mais que dos ditos de outros e de sua própria astúcia colhera posteriormente. Era naquela tarde que o Pinta ficara de guiar Filipe ao esconderijo do Bugre.
- E você sabe onde ele está? perguntou a menina com vivacidade.
- Sabe, sabe; Quicé sabe.
- Onde é?
- Quicé mostra o caminho.
- Pois vai indo que eu já te apanho.
Este rápido diálogo travou-se no meio do terreiro. Entrando em casa, viu Berta a amiga na sala e perguntou-lhe:
- Onde deitou meu chapéu, Linda?
Foram estas palavras que estremeceram Brás, e ainda mais quando ouviu a resposta de Linda.
- Em cima de minha cama.
Apoderou-se a vertigem do idiota, que tombou da árvore ao chão.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME

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